Não faltava nem um centavo


Ezequiel era um rapazinho de 10 anos. Vez por outra, ele roubava. A professora descobriu tudo, mas não o repreendeu e nem disse aos demais alunos da turma que ele era perigoso e dava mau exemplo. Em vez disso, entregou para ele a carteira dela e lhe pediu o favor de ir ao mercado para fazer umas compras porque ela estava muito ocupada.

Ezequiel foi à feira e voltou com duas sacolas cheias de mercadorias. Devolveu a carteira à professora. A conta do dinheiro estava certa, não faltava nem um centavo. A professora tinha demostrado confiança ao jovem e ele tinha correspondido honestamente.

Existem muitas maneiras de corrigir e, sobretudo, perdoar. Talvez continuar a confiar, apesar dos deslizes, seja uma dessas.

No evangelho de Mateus deste domingo encontramos a famosa pergunta de Pedro: “Quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” Como sempre, Jesus responde, mas, ao mesmo tempo, abre novas perspectivas, mudando o foco da questão. Não basta perdoar um número grande de vezes ou de qualquer jeito. O que vale é entender por que devemos fazê-lo sempre e, sobretudo, com o coração muito agradecido. Por isso, Jesus conta a parábola dos dois devedores. Não o faz para fixar um limite ao perdão, como se, depois de algumas vezes, pudéssemos deixar de perdoar, mas para transformar o nosso gesto de perdão em louvor a Deus, Pai bondoso e sempre misericordioso. É com este Pai que devemos aprender como e porque perdoar. Conforme a parábola, ambos os devedores suplicaram os respectivos credores com as mesmas atitudes e palavras: prostrados, inv ocaram m ais um prazo prometendo pagar a dívida. No entanto, a quantia devida era absurdamente diferente: o primeiro devia “uma enorme fortuna”, o outro cem moedas. A “enorme fortuna” é a tradução para a versão litúrgica do Evangelho dos “dez mil talentos” correspondentes a 50 ou 60 milhões de “denários” que era a paga diária de um trabalhador. Enfim: uma quantia absolutamente impagável. Exagero por parte de Jesus? Sem dúvida, mas, justamente, para que entendamos a diferença entre as duas dívidas. O segundo devedor somente devia cem moedas, cem “denários”, ou seja, cem dias de trabalho: uma dívida razoável, mas pagável e insignificante a respeito da “enorme fortuna” devida pelo outro. O “rei”, generoso demais, perdoou a dívida gigantesca do primeiro servo, mas o agraciado n&ati lde;o qu is perdoar a pequena dívida do seu colega. Os demais companheiros ficaram “muito tristes” e foram contar tudo ao rei-patrão. Foi fofoca? Pode ser, mas, talvez, foi, simplesmente, uma justa indignação com quem tinha sido tão favorecido e não soube partilhar a bênção recebida.

O ensinamento de Jesus é claro: somos todos pecadores e, portanto, todos devemos muito para os nossos irmãos que ofendemos ou deixamos de amar, que é o famoso pecado, raramente confessado, da omissão. É mais fácil lembrar e cobrar satisfação pelas ofensas dos outros a nosso respeito que reconhecer as nossas próprias faltas. E com Deus? Quem pode cobrar dele? Quem está devendo a quem? Bastaria parar um pouco para refletir e chegar à simples conclusão de que tudo o que somos e temos foi quase que um “empréstimo” do qual teremos que prestar conta. Em lugar de fazer comparações e questionar a generosidade do Pai celeste, deveríamos aprender com ele a sermos mais compassivos e misericordiosos entre nós. Para a nossa vantagem exigimos ser julgados com largueza, mas medimos os nossos irmãos com insensibilidade e mesquinhez (Mt 7,1-2). Mais aind a, devem os fazer isso porque somos discípulos daquele Jesus que, sem pecado, do alto da cruz, pediu ao Pai que perdoasse aos que o estavam matando. Por ocasião do Ano Santo da Misericórdia, Papa Francisco escreveu: “Chegou de novo para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão…O perdão é uma força que ressuscita para uma nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança”.

Junto com a correção fraterna, o perdão é o risco que corremos para voltar a confiar uns nos outros. Como fez a professora com Ezequiel. ■


Lição de música


O famoso músico Franz Liszt era uma pessoa gentil por natureza, mas, em algumas ocasiões, sabia ser extremamente severo. Certa vez, um jovem músico lhe trouxe uma composição para ter a aprovação do maestro. Liszt apontou algumas notas erradas e lhe disse:

– Isto não se pode fazer numa composição musical! Mas o jovem compositor, para vangloriar-se, respondeu:

– Mas eu fiz! Liszt foi à escrivaninha, pegou uma caneta molhada na tinta e jogou o líquido na veste do jovem dizendo:

– Também isto se pode fazer, mas não deve ser feito. Depois que saíram, Liszt comprou uma roupa nova para aquele jovem.

Não sei se essa foi mesmo uma correção fraterna ou um puxão de orelha. De qualquer maneira, o jovem ganhou uma roupa nova e tomara que tenha aprendido a lição. Com isso, quero dizer que a correção de quem está errado deve ser feita, é uma obrigação amorosa. Silenciar seria deixar o irmão sozinho, trilhando caminhos perigosos. Os frutos da correção, porém, dependem somente da pessoa que está sendo corrigida. Sem a colaboraç ã o de quem está errado e a disposição dele para mudar o seu comportamento, nada de melhor acontece.

Com o evangelho deste 23º Domingo do Tempo Comum, entramos de cheio na leitura do “Sermão da Comunidade”. Quando Mateus escreveu o seu evangelho tinha à sua frente uma comunidade bem precisa, feita de homens e mulheres reais com todas as qualidades e defeitos semelhantes àqueles que todos nós carregamos. Sem dúvida alguma, o batismo que recebemos, a fé em Jesus Cristo e o esforço para segui-lo deveriam nos unir mais de outros projetos de conquista, de sucesso e de lucro que tê ;m os se us inúmeros adeptos e seguidores. No entanto, caminhamos neste mundo carregando as consequências do pecado, também se acreditamos na misericórdia de Deus e na vitória final do amor e da vida sobre o mal e a morte. A “santidade” – ou a perfeição, se isso ajuda a entender melhor – é uma meta a ser alcançada, um dom que deve ser pedido e almejado durante toda a nossa existência. Ninguém se torna “santo” de um dia para o outro, milagrosamente. Para todos é “estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida” (Mt 7,14). Talvez seja essa “a cruz” que somos chamados a carregar cada dia: a carga pesada das nossas limitações e dos nossos defeitos, do mal que fazemos, tantas vezes sabendo, muito bem, que estamos errados. Evidentemente, esta é uma angústia que experimentam os que buscam a “santidade&r dquo;, p ouco ou nada importa de tudo isso aos medíocres e aos indiferentes. Muitos de nós se conformam com o próprio jeito, exigem que sejam os outros a mudar para aceitá-los como eles são, mas dificilmente eles mesmos se esforçam para serem melhores e mais humanos.

Jesus ensina a correção fraterna para a comunidade dos seus amigos porque ele nos deseja unidos, “um só coração e uma só alma” (At 4,32), vivendo uma comunhão exemplar, cheia de misericórdia e compaixão. Isso significa a superação de todo ódio, inveja e divisão. A esperança da “santidade” pessoal se torna assim a esperança da comunidade reunida, de maneira especial quando ela escuta a Palavra do Senhor, celebra a sua memória na Eucaristia e pratica a caridade. A correção fraterna não interessa a quem orgulhosamente se acha sempre certo e somente enxerga os defeitos dos demais. Ao contrário, ela é muito preciosa para quem busca crescer na vida cristã. Sei que é muito difícil sermos agradecidos a quem aponta algum erro nosso. Logo pensamos na maldade dessa pessoa. No entanto, Jesus diz que quem faz a correção e quem a acolhe dele se tornam irmãos de verdade, amigos, unidos pela cumplicidade do bem. Precisa, porém, ser discretos, manter o segredo, nunca expor o irmão, ou a irmã, a um público que, talvez, nada sabe da situação e que vai julgar somente por conversas superficiais. A correção fraterna e comunitária são provas de amor e de cuidado para que ninguém se perca (Mt 18,14). Bem diferente de um certo uso das redes sociais…s. ■


Todas as respostas


Se Jesus fizesse a cada cristão, ou melhor, a cada batizado, a mesma pergunta que fez aos apóstolos naquele tempo: – E tu, quem dizes que eu sou? – qual seria a nossa resposta? Com certeza a grande maioria de nós responderia imediatamente como Pedro: – Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo! Mas, depois disso, poderia ser que Jesus nos dissesse algo diferente daquilo que disse a Pedro naquele dia. Talvez, diria: – Resposta acertada; mas, meu filho, falta alguma coisa. Tudo o que sabes aprendeste com os homens. Ainda não te foi revelado pelo meu Pai Celeste. E, talvez, nós teríamos que reconhecer: – É verdade, Senhor. Alguém me deu todas as respostas antes que o teu Pai Celeste pudesse falar ao meu coração. Fico admirado contigo, Senhor, porque soubeste aguardar em silêncio na frente de Simão para que fosse teu Pai a falar por primeiro!

No 21º Domingo do Tempo Comum, continuamos a leitura do evangelho de Mateus e encontramos um trecho muito famoso, conhecido como “a confissão de Pedro”. As perguntas de Jesus não foram uma simples pesquisa de opinião ou uma curiosidade sobre as ideias dos seus seguidores. Esta página marca algo novo no evangelho de Mateus: depois disso, Jesus começa a falar abertamente da sua paixão e morte de cruz. Aparentemente é para preparar os discípulos ao escândalo da cruz – como veremos no próximo domingo – na realidade o recado é para nós que já sabemos o desfecho da sua vida terrena. Ainda hoje, continua a ser paradoxal acreditar que o Filho de Deus tenha sofrido tudo aquilo. Se acabamos aceitando a cruz é porque sabemos que depois virá o final feliz da ressurreição. Precisava mesmo que o “Filho de Deus”, ele também Deus, se tornasse um de nós e passasse por tudo aquilo que passou? O que significa e o que representa tudo isso para nós, que afirmamos “acreditar” nele como “nosso” Salvador?
As palavras de Jesus que declarou Simão Pedro “feliz” porque foi o Divino Pai a lhe revelar o “mistério” daquele homem que estava à sua frente questionando-os, lembram-nos que a fé em Deus é muito mais que uma declaração expressa com palavras. Não basta saber as respostas exatas e ter decorado uma profissão de fé para sermos “cristãos”. Aquela que muitos chamam de “religião cristã” não passa de tradições, orações decoradas e devoções. Tudo isso servia quando a sociedade, mais ou menos, se conclamava cristã. Era o suficiente, porque a maioria acompanhava tudo isso.

 

Hoje, estamos numa sociedade na qual sobrou muito pouco de cristão; usa-se o nome de Deus, mas a “religião” mesmo é aquela do poder, do lucro, dos privilégios e da prosperidade. N&a tilde;o esqueçamos que foram as autoridades religiosas daquele tempo a condenar Jesus. Foi trocado por Barrabás e entregue aos romanos que o crucificaram como um perigoso malfeitor. É este Jesus aí que Pedro declara ser o Messias e o Filho do Deus vivo! Pais, avós, catequistas, comunidades, tantas pessoas de boa vontade nos ensinam todas as respostas sobre os questionamentos da fé, mas isso não basta mais. Temos um monte de informações, mas não sabemos o que fazer com tudo aquilo que aprendemos! Talvez tenhamos muitos conhecimentos, mas isso ainda não é ter fé. Quando nos parece fácil demais acreditar, talvez estejamos enganando a nós mesmos, satisfeitos com uma ideia de Deus que nos faz sentir bem, em paz, porque este “deus” pensa exatamente como nós. Condena quem nós condenamos e premia quem nos agrada. Seria melhor desconfiar de uma fé fácil, que não custa nada e que fica satisfeita com bênçãos e devoções, contanto que tudo funcione dentro do nosso esquema e que não precisamos mudar nada do que pensamos.

 

A fé “verdadeira” nunca é uma resposta decorada. Ela é um questionamento em constante disputa com os ídolos deste mundo, com os nossos ajustes de conduta que nós mesmos ajeitamos. É demais urgente que deixemos que seja Deus Pai a nos ensinar a verdade e o Espírito Santo a nos dar a coragem de acreditar. A fé “verdadeira” é sempre a descoberta de um novo horizonte, de uma nova meta, que nos desinstala do nosso comodismo, acorda-nos do nosso torpor. Não pode ser uma anestesia a mais, deve abrir nossos olhos e nosso coração, deve nos acordar. ■


Bem-aventurada aquela que acreditou


Certo dia, um ancião foi se encontrar com outro ancião. Este disse a seu discípulo:

– Prepara um pouco de lentilhas! Ele preparou.
– Ensopa-as com pão. Ele ensopou.

Permaneceram até o dia seguinte, à hora sexta, falando de coisas espirituais. Então, o ancião disse a seu discípulo:

– Prepara-nos um pouco de lentilhas, meu filho! E ele:
– Estão prontas desde ontem. Então comeram.

Nem vamos perguntar como estava a comida preparada no dia anterior. O que interessa é que os dois, falando de coisas espirituais, esqueceram-se da sopa de lentilhas. Será que o assunto era tão interessante assim? Com certeza devia sê-lo bastante para eles, ao ponto de nem mais sentirem  fome. Sem dúvida, eles buscavam um alimento diferente.

No domingo da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, somo convidados a olhar mais para o alto; não para ver o sol, a lua ou as estrelas, mas para elevar o nosso pensamento e o nosso coração a assuntos e reflexões mais espirituais e menos materiais. Fique claro que apontar “ao céu” é uma maneira de falar, Deus não pode estar num lugar só, porque se ali estivesse, não estaria em outro e assim teria algum limite. É melhor pensar que Deus não esteja em nenhum dos lugares que conseguimos imaginar, porque ele é e dá o sentido a tudo o que existe. Ele é “grande” não porque abarca tudo, mas porque toda a criação lembra a sua beleza e majestade. Ele não tem começo e nem fim, não porque as nossas medidas sejam curtas, mas porque o seu amor vai além de tudo e de todos. Deus é o Outro, o diferente , aquele que nunca desiste de nos surpreender. Ele é o Tudo que não se pode prender, mas que, amorosamente, se deixa encontrar. É o Amor que liberta e salva, a Vida que dá vida.

Onde está Deus, então? Ele está mais perto do que pensamos. Está onde nós, pela fé e a oração, o deixamos entrar. Ele prometeu que ia permanecer, habitar, no coração dos que o acolherem e amarem (Jo 14,23) e ensinou que os verdadeiros adoradores o adorariam em “espírito e verdade”. Quer estar no segredo do coração de cada um, não mais “fechado” num templo aqui ou acolá (Jo 4,23).
Demorei para dizer tudo isso e não disse quase nada. As nossas palavras nunca poderão explicar o inexplicável. Contudo, perante Deus, não é vergonhoso balbuciar como crianças que não sabem se expressar. Melhor ainda se ficarmos em silêncio, só para escutar bem o que ele tem para nos dizer.  O povo cristão demorou séculos para aprimorar a sua fé e chegar a acreditar na participação extraordinária de Maria na glória do céu junto ao próprio Filho Jesus ressuscitado e glorioso. Foi a forma mais simples e imediata que o povo encontrou para lembrar e manter vivo o desejo de Deus, para não esquecer nunca a meta de toda existência, de todo sofrimento e de toda bondade.

Acreditar no que virá – o encontro com Deus – não é alienação. Ao contrário, é ter coragem de ir além das circunstâncias, “esperando contra toda esperança” (Rm 5,18) como fez Abraão que acreditou nas promessas de Deus. É a nossa visão que está ficando curta; só enxergamos o imediato, o vantajoso, o que se pode medir e contar. Estamos ficando presos nas obras de nossas mãos e da nossa inteligência. Pobres de nós! Contemplamos extasiados a nós mesmos. Estamos sempre insatisfeitos. Por que não admitimos que a vida e o seu sentido não podem ser somente isso: nós e basta? Deve ter algo maior; a vida deve ir além do breve momento que passamos. Isabel disse a Maria: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,45). Não diz que Maria vi u, mediu , avaliou, planejou, se encheu-se de soberba. Não! Disse que ela era feliz porque tinha confiado em Deus, muito além do seu simples e humano projeto de vida. Assim, todas as gerações  chamarão de “bem-aventurada” a humilde serva do Senhor. Foi Jesus glorioso que tornou grande a pequenez de Maria. É a nossa pequena confiança em Deus que faz grandes os pequenos gestos de amor, que nos liberta da mesquinhez do nosso inútil orgulho. Vale a pena olhar mais para o céu, também se a sopa de lentilhas pode esfriar.


Tem milagres e milagres


Um homem atravessou terras e mares para conferir pessoalmente a fama do mestre.
– Quais milagres opera o vosso mestre? Perguntou a um discípulo.

– Bom – respondeu o discípulo – Têm milagres e milagres. No seu país é considerado um milagre quando Deus realiza a vontade de alguém. No nosso país, é considerado milagre quando alguém cumpre a vontade de Deus!

A página do evangelho de Mateus deste domingo é, sem dúvida alguma, toda especial. Pode parecer, simplesmente, algo extraordinário que Jesus realizou e que os discípulos espalharam mais tarde. Assim ficou no evangelho: uma bela – e até fácil – profissão de fé, consequência de um acontecimento inédito e surpreendente. Ou, indo além do aparente relato, esse trecho do evangelho pode ser a apresentação de uma “experiência” que foi vivida naquele tempo e que, também se de formas evidentemente diferentes, se repete ainda hoje. Continuamos a duvidar muito e, assim, sempre e de novo, precisamos segurar na mão de Jesus, cada um pessoalmente, mas, sobretudo, como Igreja-comunidade. De outra maneira, nos perdemos nos labirintos da vida. O evangelista, através de uma linguagem simbólica, apresenta-nos uma situação que estava vivendo na Comunidade onde o evangelho dele foi amadurecido. O mar e a noite, em geral, representam, na Bíblia, todas as situações difíceis. Tempestades e escuridão sempre dão medo, mais ainda quando não sabemos como reagir, quando perdemos o controle da situação. A “barca”, onde estão recolhidos os discípulos, é a própria Igreja, agitada pelas ondas das dúvidas, das perseguições, de possíveis conflitos e divisões.

Surge, então, a pergunta, nesta hora: onde está Jesus? Abandonou a sua Comunidade? Não. Jesus chega desafiando as leis da natureza: caminha sobre as águas, porque é o Senhor que – o evangelista já sabe – ressuscitou, venceu o pecado e a morte. Ele alcança a barca. Mas, é um fantasma ou será ele mesmo? É a mesma dúvida dos discípulos a respeito de Jesus, após a ressurreição, que encontramos no evangelho de Lucas (Lc 24,37). Ele, porém, os conforta com as conhecidas palavras: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27). Nesse momento, Pedro, que, afinal, representa todo cristão, expressa a sua dúvida e pede uma prova: quer também caminhar sobre as águas. Dessa vez, Jesus concorda e aceita o desafio. No entanto, como era de se esperar, a confiança do apóstolo é fraca, dura pouco. O evangelho di z que ele: “sentiu o vento”. Pedro, percebe a loucura do que está fazendo e a absoluta novidade do que está acontecendo. Não era possível que o “impossível” estivesse acontecendo e começa a afundar. Invoca Jesus como “Senhor”, ou seja, faz um ato de fé, e pede para ser salvo. Jesus não está longe, está bem aí, pronto a segurar a mão de Pedro até subirem, seguros, na barca. Óbvia é a reprovação de Jesus. Sobrou dúvida, faltou fé. A proclamação seguinte é igual à profissão de fé do centurião após a morte de Jesus na cruz (Mt 27,54). Só resta prostrar-se e adorar o “Filho de Deus”. O medo e a escuridão da noite desapareceram. É tempo de bonança.

A mensagem é clara: o evangelista nos convida a confiar sempre em Jesus, não importam as tempestades e os momentos de escuridão em nossa vida e na vida da barca-Igreja. Quantas vezes, talvez, pensamos que tudo esteja desmoronando, que tantos esforços e iniciativas tenham sido em vão. Essa é a nossa fraqueza: queremos ver resultados e que as coisas aconteçam segundo os nossos planos pessoais e, muitas vezes, também comunitários. Gostamos de aparecer, estamos doentes de fama e sucesso. Ainda não entendemos que o Reino de Deus é, antes, obra dele e cresce no silêncio e no escondimento, como a semente de mostarda ou o fermento na massa. Contudo, o pior acontece quando seguramos na mão de Jesus, mas para sermos nós a conduzi-lo onde nós queremos e não o contrário. Devemos segurar sim, sempre, na mão dele, mas para nos deixar conduzir por ele. Onde for, sem medo de a rriscar. Esse, talvez, seja mesmo o único milagre do qual precisamos para não afundar: sermos nós a cumprir a vontade dele.


Crise alimentar, crise humanitária


“Nenhuma região do planeta está isenta de uma possível crise alimentar bem próxima causada pela pandemia covid-19. A Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura (FAO) em conjunto com o Programa Alimentar Mundial (PAM) prepararam uma lista de ao menos 27 países que correm o risco da fome e, em alguns casos, já estão vendo o desgaste da insegurança alimentar experimentando um aumento considerável do número de pessoas levadas à fome extrema”. Isso revela o relatório das duas Agências da ONU apresentado à imprensa alguns dias atrás.

Nos próximos meses, as previsões, para alguns países da Ásia, da América e da África, são das piores. Também porque alguns desses países já viviam uma crise alimentar grave antes da pandemia. As causas diversas: recessão econômica, instabilidade e insegurança, eventos climáticos extremos como seca ou inundações, pragas na agricultura. Como será o futuro? Quantos milhões de seres humanos morrerão pela fome? Quantas crianças não desenvolverão as suas capacidades por causa da desnutrição? O que acontecerá no Brasil?

No domingo do evangelho da “multiplicação” dos pães e dos peixes começo a minha reflexão com essas notícias. Não é uma historinha imaginária. É a duríssima realidade de milhões de seres humanos como nós, com as mesmas necessidades de alimento e de água. Com a mesma vontade de viver! Mas o que podemos fazer? Todos nós nos sentimos impotentes frente às dimensões da crise, no entanto a nossa consciência de cristãos e de pessoas “humanas” não pode nos deixar indiferentes. Se acreditamos, as palavras de Jesus podem nos ajudar a entender e, espero, também a agir.

A primeira palavra é “compaixão” (Mt 14,14). Ao sair do barco, Jesus vê o povo e se enche de compaixão. É o sentimento de quem abre o seu coração para deixar entrar o sofrimento dos outros. A dor alheia se torna também a nossa. Mexe conosco. O contrário, evidentemente, é fechar os olhos, virar as costas e esquecer ou a desculpa de sempre: eu não sabia! São tantas as formas para calar a nossa sensibilidade. Curioso: choramos e torcemos para que o bem triunfe assistindo a filmes e telenovelas, mas estamos prontos a julgar um pobre como preguiçoso e vagabundo. Quando desistimos de ser “humanos”, deixamos também de sermos imagem e semelhança de um Deus que se revelou amoroso e compassivo.

A segunda palavra de Jesus é um verdadeiro desafio para os discípulos: – Dai-lhes vós mesmo de comer! (Mt 14,16). Eles só têm “cinco pães e dois peixes”. Pouco demais para a fome da multidão. Contudo, dá para começar. Talvez o segredo esteja nisto: ousar algo novo, algo que parece impossível. Arriscar a partilha, arriscar uma nova economia mundial. Ilusão? Papa Francisco sempre nos fala para sermos criativos, de abrir caminhos novos, de não esperarmos pelos outros. Não é possível que uma humanidade tão fecunda de tecnologia nas comunicações, nas armas letais, nos gastos enormes para shows espetaculares, não saiba o que fazer para resolver a fome no mundo. Estamos chegando em Marte, mas estamos “perdidos” ainda por aqui, no planeta Terra, porque estamos “perdendo” milhões de vidas humanas.

A terceira palavra de Jesus é: – Trazei-os aqui (Mt 14,18). Ele pede que confiem nele, que acreditem que o impossível pode acontecer com a compaixão e a partilha. Mas não só naquele momento, por causa daquela fome, mas sempre. Jesus nos pede para aprendermos com ele a vencer o medo de sermos mais fraternos e solidários. É por isso que o evangelista Mateus nos deixa perceber, antecipadamente, os gestos da Eucaristia, o que Jesus fará na despedida da Última Ceia.

Esse é o “milagre” que não pode parar de acontecer: uma turma de discípulos que continua a manter viva a memória-presença de Jesus, reparte o Corpo e o Sangue dele, para construir uma humanidade “nova” de irmãos, sem ódio, sem ganância, sem fome.
A Eucaristia não é só a “comunhão” com Jesus Cristo sacramentado, é também comunhão com aqu ele Jesus que está com fome e que um dia vai nos dizer “foi a mim que o fizestes”.


O buraco na cerca


Uma ovelha descobriu um buraco na cerca e saiu do redil. Estava muito feliz por ter fugido. Foi bem longe e se perdeu. Descobriu, então, que estava sendo perseguida por um lobo. Ficou apavorada, correu, correu, mas o lobo estava sempre atrás dela. Até que enfim chegou o pastor. Salvou a ovelha e a reconduziu ao redil. Todos disseram para ele  consertar a cerca, mas o pastor não o fez. Deixou o buraco.

Com tantas parábolas de Jesus, por que mais uma historinha, tão pouco diferente daquela da ovelha perdida? É um convite a reconhecer o fio condutor das parábolas que já encontramos e das últimas que, neste domingo, concluem o discurso de Jesus. Se o pastor da nossa historinha não quis consertar  o buraco na cerca foi por uma razão muito simples: foi para que a ovelha conseguisse “administrar” a sua liberdade. Ela mesma devia aprender a decidir e a assumir as consequências das suas ações. Óbvio que estamos falando de nós humanos e não de ovelhas. Se não o quisermos, não somos obrigados a ser bons. Menos ainda se o fazemos por medo ou covardia. Deve ser uma decisão bonita, grande, que revela o que realmente vale mais do que tudo para nós na vida. Todas as nossas decisões, também as pequenas e ordinárias, manifestam o que de f ato estamos buscando.

Acredito que seja este o sentido das primeiras duas parábolas que encontramos no evangelho de Mateus deste domingo. Com certeza, parece-nos bastante exagerada a atitude do homem que encontra o tesouro, como também do comprador de pérolas, que vendem tudo o que têm para comprar aquele campo e aquela pérola preciosa. Para nós foram, no mínimo, imprudentes. E se estivessem enganados? Teriam perdido tudo! Mas é justamente isso que Jesus quer nos dizer. Quem errar o sentido da vida, perde tudo mesmo. Gastou à toa os seus dias, os dons que recebeu e que devia aprender a administrar.

Ao contrário, quem faz do “reino dos céus”, da sua busca e do seu crescimento, o sentido de sua vida, ficará “cheio de alegria”. Onde está a liberdade? No valor que damos ao “reino”! Se, para nós vale pouco, ficará às margens da nossa vida, só alguns minutos por semana ou uma missa ao ano. Ou talvez, todo domingo, fiéis no compromisso, mas tão distantes com a mente e o coração, que mal lembramos da Palavra de Deus ouvida e, menos ainda, da eucaristia – “comunhão” que não pode estar junto com brigas, egoísmos e divisões. O que Jesus nos pede é a coragem de tomar uma decisão sem equívocos, sem incertezas, sem arrependimentos, com muita liberdade e alegria interior. Por isso, Deus, na sua bondade nos deixa livres, porque somente uma escolha amorosa e sem constrangimentos tem valor. Confiamos tan to no Se nhor que, por causa dele, estamos dispostos a arriscar o sentido da nossa vida inteira. Ou seja: do nosso trabalho, da nossa família, da nossa posição social, da nossa participação na política, no sindicato, nas lutas pela dignidade e os direitos humanos, na própria Igreja. O “evangelho do reino” ou é uma luz que ilumina todos os recantos da nossa vida ou acaba na penumbra das indecisões ou no depósito  escuro dos projetos nunca realizados.

A última parábola dos peixes “bons” e dos “que não prestam” lembra aquela do joio e do trigo. Como bem sabemos, na variedade da vida tem de tudo e, facilmente, julgamos conforme as ideias e as circunstâncias do momento. Somos sujeitos a cometer muitos erros. O que parecia bom, talvez não o fosse tanto assim e o que parecia mau, na realidade, fazia parte de um projeto justo e valioso. Quantos condenados, ao longo da história, mais tarde foram chamados de herói e quantos pagaram por erros não cometidos. Primeiro entre todos o próprio Jesus, o inocente crucificado. No fim dos tempos, saberemos a verdade para o nosso arrependimento ou a nossa alegria. Jesus pergunta também a nós: “Compreendestes tudo isso?”. No entusiasmo, os discípulos responderam que sim. Mais tarde, porém, na hora decisiva, o abandonaram e fugiram (Mc 14,30). O buraco para desistir cont inua abe rto. Cabe a nós fechá-lo de vez se acharmos que vale muito mais fazer parte do “reino”.


O atalho


Um pai acompanhou seu filho à Universidade. Quando viu o plano dos estudos, meneou a cabeça em sinal de desaprovação. Conseguiu um encontro com o Reitor da Universidade e lhe perguntou:

– Meu filho deve seguir este programa? Não seria possível encurtar? Ele quer acabar logo.

O Reitor respondeu:

– Com certeza seu filho pode seguir um Curso mais breve. Tudo depende daquilo que ele quer ser. Quando Deus quer fazer crescer um carvalho, demora vinte anos. Mas gasta só dois meses para fazer crescer uma abóbora.

Uma historinha “da roça” para introduzir a parábola de abertura do capítulo 13 do evangelho de Mateus, a bem conhecida parábola do semeador que encontramos neste 15º domingo do Tempo Comum. Essa parábola é toda especial. É a primeira do “discurso em parábolas” e suscita, imediatamente, a curiosidade dos discípulo que querem saber por que Jesus ensina dessa forma e não com discursos eloquentes e claros.

Mais do que a explicação da parábola em si, que também encontramos no evangelho deste domingo, é, justamente, a resposta de Jesus à pergunta dos discípulos que deve chamar a nossa atenção. Segundo ele, as parábolas têm uma mensagem, digamos, escondida; são “os mistérios do Reino dos Céus”. No entanto, a alguns é dado entendê-las ( Felizes sois vós… Mt 13,16) e a outros não. Seria essa compreensão, então, um privilégio, uma discriminação ou outra coisa? Não. A explicação de Jesus é clara: não basta ter ouvidos para escutar e nem olhos para ver. A condição necessária para a compreensão das parábolas é ter, antes de tudo, um coração sensível e aberto. As parábolas não são en igmas in compreensíveis. O que falta é a vontade de se deixar questionar por elas e, portanto, a indisponibilidade a se converter e ser curado.

O que Jesus disse vale para sempre e para todos, porque serve para toda a Palavra de Deus! Não basta “ler” as parábolas – ou a Bíblia toda – para que elas consigam alcançar o mais profundo da nossa vida. Precisa algo mais. As parábolas, como os gestos, os ensinamentos e, sobretudo, a própria pessoa de Jesus, “revelam” a novidade surpreendente do Reino. Nele já está presente o Reino. Os “pequeninos” conseguem ver isso, mas não os “sábios e entendidos”, como dizia o evangelho de domingo passado. A maior verdade que Deus quis nos fazer conhecer, que afinal é o seu amor sem limites, é simples e pequena, como uma semente e, de muitas formas, é oferecida a todos. A semente que o semeador espalha, a Palavra, o anúncio do Reino, se não vem logo roubada, é fecunda, brota sempre, também em condições adversas. No entanto só pode produzir fruto quando os terrenos, que, afinal, somos nós – a humanidade – a defendemos, a cuidamos, dispomo-nos a deixá-la crescer. Pela parábola, aprendemos que o semeador não olha para os terrenos antes de jogar a semente. Ele a espalha assim mesmo, com abundância e até desperdício se temos uma visão gananciosa. Mas ao Pai e ao Filho, que ele enviou, não interessa poupar a semente, interessa alcançar os terrenos, as diferentes circunstâncias da vida, a diversidade das pessoas e dos seus corações. Somos sempre nós que reagimos, de tantas formas diferentes, à fartura da Palavra que nos é oferecida.

Provavelmente todos nós já temos experimentado o entusiasmo que dura pouco, o medo das críticas e das zombarias, o sufoco das preocupações deste mundo. Nem precisa incomodar o Maligno para admitir o quanto pouco fica das missas, pregações e rezas das quais participamos. Continuamos o nosso caminho, indiferentes, como se tivéssemos ouvido e visto nada. Simplesmente distraídos ou superficiais. Graças a Deus, o “semeador” nunca desiste. Manda uma mensagem atrás da outra, na esperança que um dia possamos produzir algum fruto. Pode ser o simples “frango de rama”, como o nosso povo chama a abóbora , mas, que bom, quando a semente cresce até ser uma árvore frondosa. Mas esta já é outra parábola (Mt 13,31-32).


A escada da oração


Um famoso produtor cinematográfico suscitava a curiosidade de todos, porque tinha o costume de usar as escadarias de serviço do edifício onde trabalhava todo dia e nunca aproveitar do elevador.

Um dia, o pessoal quis saber o porquê dessa escolha. Ele simplesmente respondeu:

– Seria mais fácil usar o elevador, mas eu prefiro a minha “escada de oração”. Pela manhã, subo a escadaria devagar e, assim, tenho alguns minutos de oração. Peço a Deus que me dê luz para tomar as decisões certas ao longo do dia. Lembro-me dos milhares de pessoas que trabalham nas minhas empresas e os milhões que irão assistir aos nossos filmes. Ao entardecer, desço também a escada para ter tempo de agradecer ao Senhor pela sua ajuda.

Muitos devem ter pensado que era um esforço inútil e uma burrice. Podia rezar em outro lugar e em outro momento. Verdade. No entanto, para aquele senhor, muitas coisas se passavam por sua cabeça subindo e descendo as escadarias. Orar a Deus e preocupar-se com a situação dos demais tornava leve a sua fadiga. Quem age por amor, não sente, digamos, tanto assim, o peso do seu esforço. A certeza de ajudar alguém alegra o coração e multiplica as forças. Ao contrário, quando fazemos as coisas por obrigação, por interesse ou sem nenhuma motivação significativa, tudo fica mais cansativo e buscamos encontrar todas as formas possíveis para aliviar, ou mesmo burlar, os nossos compromissos. Este é, em poucas palavras, o ensinamento do evangelho deste domingo. Jesus fala do “jugo” e do “fardo” dele que, para quem os carrega com o mesmo espírito amoroso, tornam-se “suave” e leve”. Será que acreditamos nisso? Antes, porém, vamos lembrar outras palavras do trecho evangélico deste domingo, no qual Jesus louva ao Pai porque esconde certas “coisas” aos sábios e entendidos e as revela aos pequeninos. Que “coisas” serão essas?

Continuamos com a leitura do evangelho de Mateus. Jesus lamenta a incredulidade das cidades por onde passou. O anúncio do Reino foi acompanhado por sinais. Justamente aqueles que os profetas tinham apontado como distintivos do “messias”. Foi também lembrando esses mesmos sinais que Jesus respondeu à pergunta de João Batista se era ele, Jesus, o esperado ou se deviam aguardar outro. Com todas essas manifestações, os moradores daquelas cidades não deviam ter reconhecido e acolhido Jesus como o “ Cristo”? Não foi bem assim e nós conhecemos o desfecho da missão de Jesus. Com esta recusa já aparece, no horizonte, a sombra da cruz. Mas será que ninguém mesmo compreendeu a novidade que a própria pessoa de Jesus representava e realizava?

Eis a resposta do evangelho de Mateus: “os pequeninos”! Eles acolheram o profeta da Galileia! Com o título de “pequeninos”, algumas vezes, é indicado o pequeno grupo dos seguidores de Jesus, mas, neste trecho, quem está do lado oposto são os “sábios e entendidos”, ou seja, todos aqueles que se achavam autorizados a julgar o falar e o agir de Jesus. São os adversários de sempre: fariseus e doutores da Lei. Então, Jesus nos diz, hoje, algo maravilhoso: entender e acolher o Filho – e todas as “coisas” que ele nos trouxe – é dom do Pai que, gratuitamente, as revela a quem ele quer, preferencialmente, aos “pequeninos”, aos simples e aos pobres.

Por sua vez, o Filho, com o seu falar e agir revela o Pai. Mais uma vez, somos convidados a nos esvaziar dos nossos esquemas e preconceitos para pedir ao Pai que torne os nossos corações capazes de acolher Jesus.

Nesta altura, podemos entender que têm visões da vida e da sociedade que são pesadas, porque geram disputas, preocupações exageradas, brigas, confusões, “estresse”.

Os “pequeninos” começam a entender que um olhar e um agir mais amorosos e fraternos, consequência do seguimento de Jesus, conseguem tornar a vida mais leve, porque mais rica de sentido e valores. Nas subidas e descidas da vida, o cansaço de “lutar” por amor a Deus e ao próximo sempre será mais leve e gratificante do que gastar a vida atrás dos próprios interesses egoístas e gananciosos.


Amar a Igreja


A Solenidade de São Pedro e São Paulo é festa de toda a Igreja. Esta Igreja feita de santos e pecadores, cujo rosto muitas vezes nos parece inexoravelmente manchado e outras resplandecente de luz.

Encontrei umas palavras do Papa Paulo VI, agora santo, numa homilia de Pentecostes, quando ainda era arcebispo de Milão, em 1955. Elas chamaram a minha atenção porque ele foi um homem apaixonado pela Igreja e, muitas vezes, ensinou que devemos amá-la como amamos nossa mãe. Mas, naquela homilia, ele resumiu o amor maternal que ela, a Igreja, tem para conosco debruçando-se sobre qualquer situação humana e o fez com estas palavras: “crianças, nos acolhe; jovens nos exalta; adultos nos bendiz; idosos nos assiste; morrentes nos conforta; defuntos nos lembra; pobres nos prefere; doentes nos cura; pecadores nos alerta; arrependidos nos perdoa; desesperados nos recria”. Se a Igreja está sempre pronta a nos oferecer tudo isso, porque ofendê-la, criticá-la, desprezá-la? Deveríamos agradecer. A nossa “santa” Igreja tem defeitos e sempre precisa de convers&atild e;o e reforma. Por ser também humana, nunca será perfeita aqui neste mundo. Mas erramos quando pretendemos melhorá-la de longe, de fora. Não tenho dúvida, a Igreja toda será melhor se eu, se cada um de nós, for melhor, mais santo. Por isso, escolhi refletir sobre este assunto na festa de São Pedro e São Paulo, pedras fortes e colunas desta nossa, espero, amada Igreja.

Como qualquer cristão, nenhum dos dois nasceu santo, ambos erraram muito antes de acertar seguir Jesus mais de perto e até o martírio. Pedro deixou tudo para acompanhar o mestre, tinha jeito de líder, dava conselhos a Jesus para que entrasse no esquema de messias que ele, Pedro, sonhava. Possuía uma espada, guardada em caso de necessidade, mas, na hora do medo, bastaram as palavras de uma empregada para fazer-lhe negar o Senhor três vezes. Depois que Jesus olhou para ele, porém, envergonhou-se muito do que havia feito e chorou amargamente a sua traição. Foi um banho regenerador. Daquelas lágrimas nasceu um Pedro renovado, mais humilde, mais amoroso. O dom do Espírito Santo lhe deu a coragem de anunciar a ressurreição do Senhor a todos e de defendê-lo perante o Sinédrio. Seguiu firme até dar a sua vida, mártir, em Roma.

O caminho de Paulo foi diferente, quase o contrário. Começou com muita raiva dos cristãos, queria acabar com eles porque achava que, fazendo isso cumpria a vontade de Deus. Ele nunca escondeu a sua história. Sabia que ainda, muitos anos depois, desconfiavam dele e que os antigos amigos, os judeus, o odiavam, o perseguiam e queriam vê-lo morto. No entanto toda as suas certezas e seguranças ficaram lá, no chão, na estrada de Damasco. Reconheceu a sua cegueira e, quando reabriu os olhos, entendeu que tudo era bem diferente. Aquele Jesus, o crucificado – agora ressuscitado – o chamava para uma missão absolutamente nova: anunciar o Evangelho aos pagãos, justamente àqueles que ele, antes, considerava irremediavelmente perdidos e recusados por Deus. Foi o apóstolo certo porque conhecia a língua deles, as suas cidades e os seus costumes. Em Roma, também, derramou seu sangue.

É bonito, no dia de São Pedro e São Paulo, rezar pelo Santo Padre, Papa Francisco, pelos pastores, pelos animadores, pelos cristãos e cristãs que ainda hoje não podem manifestar livremente a sua fé e correm risco de vida. Precisamos ter um olhar grande, quando avaliamos a nossa Igreja. É bem antiga, vem lá do começo, dos apóstolos. Quantas ações maravilhosas já realizou! Quantas vezes teve que mudar, pedir perdão, curar feridas, buscar novos rumos!

Papa Francisco convocará um Sínodo sobre a “sinodalidade”. Quase para nos lembrar que devemos sempre mais aprender a caminhar juntos, a decidir juntos, a nos sentir parte viva da mesma família. Somos pecadores? – e quem não é? – a Igreja nos acolhe e perdoa.
Achamos-nos tão bons para julgar os irmãos? Partilhamos com eles as nossas virtudes e dons, mas, nunca, nunca, ficamos fora da mãe Igreja. Acabaríamos órfãos por escolha nossa, não por culpa dela.