Última hora Polícia Política Cidades Esporte

Dom Pedro Conti

É o que está dentro dele que o faz subir

Uma criança bem pretinha observava o homem dos balões num parque de diversões. O homem era um bom vendedor, pois soltou um balão vermelho e assim atraiu a atenção de uma multidão de crianças, possíveis compradores dos balões dele. Depois soltou um balão azul. Em seguida, um balão amarelo e, finalmente, um branco. Todos foram subindo ao céu até desaparecer. A criança pretinha ficou bastante tempo olhando o balão preto, aí perguntou ao homem:

 

– Moço, se o senhor soltasse o balão preto, ele subiria tanto quanto os outros? O vendedor de balões deu um sorriso compreensivo. Partiu o cordão que prendia o balão preto e, enquanto ele se elevava nos ares, disse:
– Não é a cor, filho. É o que está dentro dele que o faz subir.

 

O trecho do evangelho de Lucas deste 8º Domingo do Tempo Comum é um conjunto de palavras de Jesus que poderíamos chamar de “conselhos” para crescer no discipulado. Por que esses ensinamentos para corrigir os defeitos e não outros? A comunidade onde o evangelista elaborou a escrita do seu evangelho não era uma comunidade imaginária ou fictícia. Era feita de pessoas que buscavam melhorar no caminho da fé e do seguimento de Jesus, mas, evidentemente, carregavam juntas as suas limitações e os seus pecados. Cabe a nós acolher “hoje” essas palavras e reconhecer que também temos ainda muito a aprender.

 

Acredito que podemos chamar a primeira dificuldade de “empolgação”. Às vezes o discípulo – que afinal somos todos nós – se acha já na condição de ensinar até ao Mestre. Não precisa mais dele, porque se considera “maior” do que o próprio Mestre. O orgulho de alguns progressos na vida espiritual conduz a duas consequências desastrosas: pensar não precisar mais aprender e querer corrigir os defeitos dos irmãos, esquecendo os próprios pecados. Jesus chama esses “discípulos” de “hipócritas”, porque enxergam os pequenos deslizes dos outros e não querem reconhecer os próprios enormes defeitos. Está claro: pelo simples fato de sempre criticar os outros, esses cristãos se colocam como modelos dos demais e, assim, deixam de olhar para si mesmos. Veem só o que querem, os defeitos dos outros, mas são cegos para os próprios erros. Julgam os demais e não aceitam correções. Se nos reconhecemos, um pouco ou muito, nesses discípulos cheios de soberba, ainda podemos nos converter.

 

Os outros conselhos de Jesus nos ajudam a entender que o esforço para sermos cristãos melhores não têm como finalidade a nossa perfeição pessoal, justamente para não correr o perigo de nos tornarmos juízes dos demais, mas devemos crescer nas virtudes cristãs e no amor fraterno para “produzir frutos bons”. Desta vez, está em jogo nada menos que o anúncio da Boa Notícia de Jesus. Evidentemente, de uma árvore boa se espera frutos agradáveis e gostosos. Uma comunidade enviada em missão no mundo para anunciar o amor a Deus e ao próximo não pode ser dividida, briguenta e cheia de conflitos. “Espinhos” não atraem ninguém. É uma questão pessoal e comunitária, ao mesmo tempo, porque o nosso testemunho de vida cristã sempre tem consequências na família e na cidade onde vivemos. Podemos ser sinais de esperança e de alegria, podemos semear confiança e amizade ou espalhar o contrário: rixas, sofrimentos, indiferença e tristeza.

Prepara um caldo

Alguns irmãos foram ter com o ancião Antônio e lhe pediram uma palavra para poderem ser salvos. O ancião disse: – Escutaram as Escrituras? Lá tem o que lhes serve. Mas eles insistiram:

– Pai, também queremos ouvir do senhor uma palavra. Antônio respondeu:
– Diz o evangelho: “Se alguém lhe der uma bofetada numa face, ofereça também a outra”. Disseram:
– Isso não sabemos fazer. Continuou o ancião:
– Se não conseguem oferecer a outra face, suportem ao menos ser esbofeteados numa. Responderam:
– Nem isso somos capazes de fazer. Antônio disse:
– Se não conseguem fazer nem isso, ao menos, não devolvam o mal que receberam. Os irmãos replicaram:
– Isso também não damos conta de fazer. Então o ancião disse ao seu discípulo:
– Prepara um caldo, porque os nossos irmãos estão doentes. E a eles falou:
– Se para isso não têm capacidade, se aquilo outro não querem, o que posso dizer para vocês? O que precisam mesmo é rezar muito.

No 7º Domingo do Tempo Comum, encontramos mais uma página do evangelho de Lucas que desafia o nosso “bom senso”. Jesus faz uma comparação entre os seguidores dele e os pecadores. Nos apresenta atitudes que nos parecem impossíveis ou, pelo menos, nada espontâneas. Amar aqueles que nos amam é mais lógico e comum. Com certeza, mais fácil. Mas amar os inimigos, fazer o bem e até emprestar sem esperar nada em troca, quando se viu? A sociedade daquele tempo e também a nossa, hoje, não pensam assim. Os inimigos devem ser aniquilados, isolados ou desarmados. Se alguém nos deve? Vamos à Justiça, até as últimas instâncias. E assim por diante. O que aconteceria se ninguém mais pagasse as dívidas? Quem ganharia e quem perderia com isso? Evidentemente as palavras de Jesus continuam a nos surpreender, provavelmente como devem ter “chocado” os ouvintes daquele tempo. Certo, podemos dar um pouco de desconto, lembrando outros exemplos da linguagem “exagerada” de Jesus, que encontramos nos evangelhos. No entanto, os seguidores do Mestre de Nazaré devem praticar algo diferente dos demais.

Jesus não veio para revelar uma imagem de Deus que confirmasse a ordem constituída. O “Pai” dele é amor e gratuidade total, ao ponto que “é bondoso também com os ingratos e os maus” (Lc 6,35). Os verdadeiro “filhos” dele, não podem agir de outra forma. Foi Deus que criou os seus filhos à imagem e semelhança dele (Gn 1,27) e os filhos não podem mudar as feições do Pai. As Escrituras nos mostram claramente que o povo eleito, ao longo do tempo, corrigiu a “imagem” de Deus que ele tinha. O Deus da conquista da terra, do tempo dos reis e das suas guerras é diferente do Deus dos profetas que quer “a misericórdia e não os sacrifícios” (Os 6,6). Também Jesus, na sinagoga de Nazaré, quando leu o trecho de Isaías, parou no “ano de graça do Senhor” e não leu “o dia da vingança para o nosso Deus” (Is 61,1-3). O “hoje” que ele anunciava era o da “gratuidade, não da vingança! A exortação de Jesus é sempre aquela que repetimos inúmeras vezes no Ano Santo da Misericórdia: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

Quando teremos uma convivência humana sem inimizades, sem dívidas, sem condenações? Não sabemos, mas, como cristãos, não podemos deixar de desejar e trabalhar para que a nossa sociedade se torne, cada vez mais, humana e fraterna. Ainda estamos no tempo das contraposições, das feras que brigam com outras feras, da corrida às armas, das dívidas de países inteiros espoliados de suas riquezas naturais, da corrupção que distorce a verdade, o direito e a justiça. Por isso, achamos tão difíceis as palavras de Jesus. Façamos a experiência do perdão, mesmo que os outros pensem qualquer coisa de nós. Aprendamos a desejar o bem e a paz para todos, incluindo os desafetos. Talvez, consigamos entender melhor a bondade do Deus no qual dizemos acreditar. Para sarar dos sentimentos de ódio e vingança só o “caldo” da misericórdia e da oração. Um santo remédio! .

Só com os pedaços descartados

DDurante a construção de uma catedral, o mestre de obra e os melhores artesãos trabalhavam em oficinas instaladas no interno do canteiro. Certo dia, apresentou-se ao mestre um jovem desconhecido que também se dizia artesão. Pediu para trabalhar, mas o chefe lhe disse que não precisava, porque já havia pessoal suficiente e todo especializado. O jovem insistiu:

 

– Não quero trabalhar as pedras, somente gostaria de fazer um vitral, usando as peças descartadas pelos outros. Basta-me um cantinho, não lhe darei nenhuma despesa. O mestre lhe permitiu que usasse uma barraca velha e abandonada, perto do local onde descarregavam todos os materiais inúteis. Os meses passaram e o pessoal quase se esqueceu do jovem que trabalhava tranquilo em silêncio. Chegou, porém, o dia em que ele colocou para fora a sua obra secreta. Era um vitral de incrível esplendor. Ninguém antes tinha visto cores tão luminosas. Era o vitral mais encantador de todos os demais da nova catedral. Todos queriam saber onde ele tinha encontrado pedaços de vidro tão brilhantes. O jovem estrangeiro respondia:

– Encontrei os fragmentos espalhados por aí, onde trabalhavam os operários. Esse vitral é feito com os pedaços que foram descartados como inúteis.

Neste 4º Domingo do Tempo Comum, continuamos a leitura do capítulo 4 do evangelho de Lucas. Estamos ainda na sinagoga de Nazaré e Jesus acabou de ler o trecho do profeta Isaías. Quem fazia a leitura podia também fazer um breve comentário. As palavras de Jesus foram: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. (Lc 4,21). Muita coragem e ousadia por parte dele, sem dúvida. Grande surpresa dos presentes, fascinados com as palavras que estavam ouvindo. O encanto, porém, durou pouco. Logo vieram os questionamentos e as pretensões. Reconheceram naquele homem o mesmo Jesus que ali, em Nazaré, tinha se criado. Na vila, viviam familiares e colegas dele. “Quem você acha que ele é?”. Com certeza, essa foi a pergunta que se espalhou rapidamente. Jesus respondeu assumindo a missão de “profeta”, ou seja, de alguém que fala em nome de Deus e, portanto, como todos os profetas do passado, o anúncio que trazia ecoava em Israel, mas também além das suas fronteiras históricas e geográficas. Não importa se esta mensagem será acolhida ou não. A “missão” do profeta é “falar” com a palavra e a vida.

A fama de Jesus, que havia se estabelecido em Cafarnaum, já se espalhara e, com certeza, despertava o ciúme e a inveja dos habitantes de Nazaré. Com mais propriedade, podemos dizer que a atividade de Jesus e a sua pregação “aos pobres” não correspondiam à imagem de “ungido” que circulava naquele momento. Esperavam um messias poderoso e triunfador, mas Jesus se apresentava como pobre, amigo dos pequenos e sofredores. Além de tudo, ele era fraco, porque iniciava a sua missão das periferias, bem longe dos centros do verdadeiro poder. Em lugar de se questionar, de procurar entender mais e melhor o que estava acontecendo, os conterrâneos de Jesus, que afinal representam muitos outros que virão depois, decidiram expulsá-lo da cidade. Assim acontecerá ao longo de toda a vida de Jesus e, pelo jeito, acontecerá sempre. Como tinha dito Simeão na apresentação dele ao templo: “Este é destinado a ser… sinal de contradição” (Lc 2,34).

Não adianta esconder. Nos nossos dias, também, muitos consideram Jesus e a sua mensagem uma questão do passado, perdida há muito tempo. Talvez um discurso bonito, sentimental, ao qual recorrer numa hora difícil, mas que pouco ou nada traz de real e concreto. Fraternidade, compaixão, misericórdia, não enchem o bolso de ninguém. Todos nós, cristãos de ontem, de hoje e de amanhã, continuamos a ser desafiados a confiar ou não na Boa-Nova de Jesus. A tentação de jogar tudo fora é sempre muito grande. No entanto, os pobres e os pequenos, os descartados da sociedade, que, aqui e acolá, juntam as palavras de Jesus, constroem algo novo, brilhante, de cores nunca vistas. Agem no silêncio. Não divulgam, porque não disputam fama e sucesso com ninguém. Basta-lhes a luz do amor. A mesma luz de Jesus.

Surpresa nos sapatos

Um jovem caminhava com um dos seus amigos. Enquanto caminhavam, encontraram um par de sapatos velhos ao lado da trilha. Vendo um trabalhador próximo, entenderam que os sapatos pertenciam a ele. O homem estava acabando seu trabalho daquele dia. Voltando-se para o amigo, o jovem sugeriu:

– Vamos pregar uma peça no velho. Vamos esconder os sapatos dele, depois ficamos atrás destes arbustos e observar a reação dele.

– Você acha mesmo que devemos fazer isso?Perguntou o amigo. Por que não surpreendemos o idoso colocando algum dinheiro em cada sapato e depois observamos sua reação quando o encontrar? O outro jovem não ficou entusiasmado, mas acabou concordando com a ideia. Quando o pobre homem concluiu o seu trabalho e calçou os sapatos, sentiu alguma coisa diferente por dentro. Surpreso, viu o dinheiro e se ajoelhou para a gradecer a Deus por ter provido ajuda para sua família tão necessitada.

-Você não se sente mais feliz, por ter ajudado um velho trabalhador, em vez de ter-lhe pregado uma peça? Cochichou o amigo. O jovem concordou.
Neste Segundo Domingo do Tempo Comum, encontramos uma página tradicional de começo deste tempo litúrgico: as chamadas “bodas de Caná”. Nela aparece o primeiro dos “sinais” que servem, do jeito próprio do evangelista João, para fazer conhecer quem é Jesus. Uma página, aparentemente narrativa, mas tão cheia de símbolos e referências ao Antigo Testamento que, se não forem levadas em conta, podem esvaziar a beleza do texto e reduzi-lo ao “milagre” da água transformada em vinho.

O primeiro “símbolo”, ou figura, é o próprio casamento por ser uma “aliança” entre duas pessoas que se acolhem entre si, porque se amam. Essa é uma comparação antiga, cara aos profetas, do amor preferencial que Deus tem com o povo eleito. Agora, porém, algo “velho” acabou (“não tem mais vinho”) e algo “novo” está começando. Com a imagem do casamento, o evangelista João anuncia a “nova” aliança entre Deus e o seu povo, concluída entre o Filho que o Pai enviou e um povo novo, representado, neste caso, pelos diversos convidados. Entre ele, estão os primeiros discípulos que, por enquanto, assistem à passagem do velho (a água nas talhas de pedra) ao novo (o vinho melhor). Começa, para eles e para nós, se decidimos acompanhar Jesus, o difícil caminho da fé, até chegar a “hora” que será aquela da cruz. Esse será o supremo “sinal” do inaudito. Jesus entregará a própria vida. Até esse ponto, chegam a fidelidade, o compromisso e o amor de Deus com o seu povo. Será o “vinho-sangue” da nova aliança.

O segundo sinal que envolve Maria, a mulher-mãe, é a “festa” que o vinho melhor, servido depois, não deixa acabar. Esse sinal ilumina o sentido da transformação da água em vinho. A vida de Jesus não será algo fácil, enfrentará provações, infidelidades e a derrota final. Contudo quem crer nele experimentará alegria (Jo 16,22), paz (Jo 16,33) e vida em seu nome (Jo 20,31). A página das bodas de Caná é rica demais. Está posta no início do evangelho como um pedido. O mesmo que Maria falou “aos que estavam servindo”: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5). Fazemos – ou deixamos de fazer – tantas coisas por sugestão, convite, imposição dos outros. Às vezes para agradar, outras por obrigação, outras, simplesmente, porque achamos que “todos fazem assim”. Nem sempre pensamos se vale a pena, se é justo, se é bom o que decidimos, ou não, fazer. De maneira especial, me refiro-me ao consumismo, mas poderíamos falar da oração. Deixamos de rezar porque temos coisas mais importantes para fazer ou optamos por ler ou escutar no celular o que outros pensaram e refletiram. Repetimos rezas que outros fazem para nós. É mais fácil que ficar em silêncio, fazer o nosso exame de consciência pessoal e a nossa oração espontânea. O evangelho deste domingo, oferece-nos uma luz interessante: a alegria da festa. Os amigos da historinha, na dúvida entre pregar uma peça ao velho ou fazê-lo feliz, escolheram a segunda opção e ficaram alegres também. O “vinho” do amor e do bem é sempre novo e melhor.

Ele veio para nos salvar

Neste ano, o Natal cai no sábado e, logo em seguida, no domingo, celebraremos a Sagrada Família. Teremos uma boa oportunidade para contemplar, no Presépio, aquela família especial: Maria, José e o recém-nascido, o menino Jesus. Depois, em muitas das nossas casas, poderemos ver, admirar ou, simplesmente, observar as nossas famílias reunidas. Algumas alegres; outras, ao menos, juntas, deixando de lado os conflitos e as incompreensões; outras, enfim, com saudade daquele ou daquela que não está mais ali. Vale a pena nos perguntarmos: o que quer dizer Jesus veio para nos salvar? Nos salvar de quê? Salvar as nossas famílias? Quais famílias? “Salvar” supõe que alguém esteja em perigo.

Por isso, a resposta que nós damos como a mais certa é que Jesus veio para nos salvar do pecado. Mas, hoje, todos nós temos dificuldade para entender claramente o que é “pecado”. Com base em quê admitimos fazer algo errado? Se a nossa referência é o pensamento que entendemos “de todos”, corremos o perigo de achar que violência, corrupção e mentira, por exemplo, sejam toleráveis, corriqueiras e, talvez, impossíveis de se erradicar. Por isso, vou tentar dizer, em poucas palavras, de quê o Senhor Jesus veio nos salvar, ao menos se, ainda, temos um pouco de fé e achamos realmente extraordinário que aquele a quem nós temos a ousadia de chamar de “Deus” tenha se envolvido tanto assim com a nossa humanidade.

Em primeiro lugar, Jesus veio nos salvar da falta de esperança. Estamos desistindo de querer construir uma convivência humana mais fraterna e solidária. A corrida ao enriquecimento, a indiferença com o sofrimento dos pobres, a fuga num mundo virtual, acabam adormecendo as nossas consciências e nos levam a concluir não ter mais jeito, que é inútil lutar por um mundo mais justo e solidário. Jesus não resolveu todas as questões e nem implantou um sistema ideal. Apontou-nos, porém, uma meta e nos ensinou o caminho.

O “reino de Deus” que ele anunciou é um projeto. Não é algo que vem já pronto de fora, é algo com o qual nós podemos contribuir, mas só na condição de nos envolver totalmente, ou seja, de acreditar nele e sermos dispostos a gastar tempo e energia para isso. A paz e a justiça nunca vão acontecer se nós, um por um, não acreditarmos que sejam possíveis e que devemos ser nós a começar, justamente lá onde a vida nos colocou. O Filho de Deus Pai “veio” na carne humana, aceitou as nossas fraquezas e limitações, menos o pecado. Quis ser criança, aprender aos poucos, descobrir sua missão no silêncio e na oração, na intimidade com o Pai, mas também buscou respostas e sentidos junto aos discípulos, aos sofredores que clamavam, e até se confrontando com aos adversários que o desafiavam.

Outra questão fundamental: declarou que tinha vindo para “anunciar a boa notícia aos pobres”, ou seja, alertava que o Reino ia começar pelos pequenos, os humildes, os pastores do Natal, os doentes excluídos, os pecadores julgados e condenados. Não teve receio de sentar-se à mesa dos pecadores para deixar entender que a todos é possível recomeçar e reverter situações aparentemente esclerotizadas. Por fim, surpreendente maravilha, o nosso Deus, feito carne em Jesus, aceitou ser crucificado como um malfeitor qualquer, passando vergonha e escárnios. Tudo para não desistir do seu amor manifestado com as suas palavras e, sobretudo, nos encontros com aqueles e aquelas que eram considerados indignos de atenção e, portanto, da compaixão misericordiosa do Pai.

Para iniciar o “reino de Deus”, Jesus não escolheu meios poderosos ou pessoas importantes, não esperou que esses mudassem a maneira deles de pensar e agir. Acreditou que os pequenos, eles sim, podiam começar algo novo. Foi inútil ilusão ou verdadeira esperança?

Hoje cabe a nós dar esta resposta. Mais uma vez, a humildade do Presépio nos ensina a escolher a simplicidade. No entanto, algo grande e profundamente interior deve acontecer: a conversão do nosso coração à força da esperança. Natal é para não desistir de seguir o Senhor, sempre. Também quando se apagarem as luzes da festa. ■

O que será de mim?

Um jovem gastou todas as riquezas que tinha herdado de seus pais. Como em geral acontece nesses casos, quando ficou sem dinheiro, também ficou sem amigos. Depois de esgotar todos os seus recursos, procurou um mestre e lhe disse:
– O que será de mim? Não tenho mais nem dinheiro e nem amigos.
– Não se preocupe, meu filho – respondeu o mestre – Escute o que lhe digo: tudo ficará bem de novo. A esperança brilhou nos olhos do jovem que disse:
– Vou ser rico de novo?
– Não! – disse o mestre – você se acostumará a viver liso e sozinho.
Neste Terceiro Domingo de Advento, encontramos no evangelho de Lucas mais um pouco da pregação de João Batista. Ele conclamava as pessoas a “um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (Lc 3,3). Muitos acorriam e se perguntavam se não era ele o Messias esperado. Naquele momento, a espera de algum acontecimento novo ou de alguém diferente dos sacerdotes, dos escribas e doutores da Lei, que tomavam conta do Templo e das Escrituras, era muito grande. Todos, porém, entendiam que além daquele banho no Rio Jordão precisava fazer algo mais. Mas, fazer o quê? Essa é a grande pergunta – repetida três vezes – à qual João Batista responde de maneira diferente, conforme os grupos que formulavam a questão. Às multidões ele diz que deviam dar comida e roupa a quem não as tinha. Aos cobradores de impostos ensina que não devem exigir mais do que o estabelecido. Ou seja, nada de exploração. Aos soldados, enfim, pede que não usem violência ou falsidades para extorquir dinheiro das pessoas. Na prática, João Batista retoma a pregação dos antigos profetas. Ao longo de séculos, foram eles a voz de Deus que repetidamente os enviava para exortar o povo a voltar à primeira aliança, para que de novo iescolhesse a ele, Deus, como único Senhor. No entanto sempre apareciam falsos deuses para serem adorados. Muitas vezes estavam disfarçados de imperadores e reis, mas, no fundo, eram os ídolos de sempre: a riqueza, o poder e a força. João Batista retoma, com vigor, a linguagem dos profetas e, por isso, podemos dizer que é o último deles. Além disso, ele anuncia outro que está para chegar, mais forte do que ele e que “batizará no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). O evangelista Lucas chega a dizer que João Batista “de muitos outros modos anunciava ao povo a Boa-Nova” (Lc 3,18). Sem dúvida, a “voz daquele que grita no deserto” preparou o povo e alimentou as expectativas dele, mas não conseguiu antecipar a novidade de Jesus do qual dirão que “nunca alguém falou assim” (Jo 7,46).
Jesus não respondeu simplesmente à pergunta: “o que devemos fazer?”, ele nos ensinou e nos mostrou com o seu exemplo como devemos ser, inclusive, para experimentar a felicidade. Jesus não deixou uma “lei” entendida como um conjunto de normas, mas um modelo de vida pautado no único mandamento do amor. Portanto, um jeito de viver com todas as possibilidades, oferecidas a todos e de tantas maneiras, sem limites de criatividade para o amor, a compaixão e a misericórdia verdadeiros.
Quando Papa Francisco quis propor a santidade para os cristãos no mundo atual, simplesmente lembrou as Bem-aventuranças. Para vencer o ídolo da riqueza, Jesus ensinou a felicidade da pobreza, da vida simples e livre, sem todas as armadilhas e correntes que a cobiça do dinheiro traz. Para superar o ídolo da força e da violência, Jesus indicou a alegria de quem sofre para construir a paz e a mística . A pureza de coração e a mansidão também libertam do desejo de impor a si mesmo ou as próprias ideias. Por fim, para derrotar o ídolo do poder, sempre muito adorado em todos os tempos, Jesus ensinou a humildade, apontou a alegria de estar no último lugar ao serviço dos irmãos. Quando lavou os pés dos discípulos disse: “Sabendo isso, sereis felizes se o praticardes” (Jo 13,17). Para o pensamento do mundo, sempre será mais fácil se acostumar com a vida cômoda dos ricos e poderosos do que com a vida simples e austera de quem é pobre. Mas o pior é quando nem os pobres conseguem ser amigos entre eles.

A revelação

Um guru prometeu a um discípulo uma revelação de importância maior do que qualquer coisa contida nas escrituras. Quando o discípulo pressurosamente a pediu, o guru disse:

– Vá lá fora na chuva e erga os braços para o céu. Isso lhe trará a primeira revelação. No dia seguinte, o discípulo veio relatar:
– Segui o seu conselho e a água escorreu-me pelo pescoço. Senti-me um perfeito tolo.
– Bem – disse o guru – para o primeiro dia, essa é uma grande revelação, não acha?

Com este domingo, o Primeiro de Advento, iniciamos um novo Ano Litúrgico. É um tempo de preparação para aprender de novo a acolher o Senhor, sempre, e não somente no Natal que se aproxima. De fato, quando falamos em religião, logo pensamos no esforço humano de buscar a Deus, através da nossa inteligência, das orações e das práticas devotas. No entanto a primeira “novidade” da nossa fé é acreditar que a iniciativa da procura seja do próprio Deus. Isso desde o início com a primeira pergunta dele a Adão: – Onde estás? (Gn 3,9). Se confiamos, a Bíblia é a história, contada de tantos jeitos e formas, de um diálogo entre Deus e a humanidade, feito de encontros e desencontros, de acolhidas e recusas. O que dá para entender é que Deus sempre respeitou e respeita a nossa liberdade. Contudo, ele nunca desiste de nos procurar e de chamar, de mil maneiras, a nossa atenção. Ele pede que abramos a ele o nosso coração, até formar aquela grande família que o reconheça como o único Pai que ama a todos e não quer perder nenhum dos seus filhos e filhas. É uma história longa e não sabemos a que ponto estamos nessa empreitada. O que cabe a nós, nos anos que passamos neste planeta viajante no universo, é nos deixarmos encontrar por ele para respondermos, agradecidos, àquela voz que repete a cada um, chamando-nos pelo nosso nome: “Onde estás?”. Se quizermos entrar nesse caminho de busca, podemos descobrir, com alegria que, a cada ano, talvez, ficamos um pouco mais próximos dele. É possível, porém, ficar mais longe. Não é tão difícil.

A página do evangelho de Lucas, deste domingo, é um exemplo de alerta. Se não tomarmos os devidos cuidados, os nossos corações podem ficar “insensíveis”, ou seja, indiferentes e desinteressados de Deus e de muitas outras coisas. Se preferirmos uma linguagem mais bíblica, seria como ficar com o coração velho e de pedra, em lugar daquele novo e de carne que Deus prometeu nos dar (Ez 36,26). As causas da “insensibilidade” são exemplificadas em três: a gula, a embriaguez e as preocupações da vida. Se as tomarmos ao pé da letra, a explicação é fácil. Os gulosos querem satisfazer somente os seus gostos e se empanturrar do bom e do melhor. Os beberrões correm o perigo de sentir falta somente das suas bebidas. Por fim, os que se deixam conduzir pelas preocupações da vida, evidentemente, nunca têm tempo para pensar algo além dos seus negócios. Basta mudar um pouco as palavras para reconhecer a atualidade do alerta do evangelho. A gula representa qualquer insaciabilidade, ou seja, a incapacidade de dizer: basta. Vale para o dinheiro, o poder e tudo o mais que ansiamos possuir sem limites. A embriaguez pode representar qualquer tipo de “droga”, que distorce a realidade e nos faz andar sem rumo, cambaleando pelos caminhos da vida. Enfim, as preocupações da vida, acredito que possam ser entendidas, também para brincar um pouco, com o excesso de curiosidade com que hoje muitos navegam pelas redes sociais, dando palpites e julgando a vida de tantos que nem conhecem, sem se interessar se o que espiam e fofocam da vida alheia é verdade ou não. Querer saber tudo de todos é pesado demais, ninguém aguenta tamanha tarefa. O resultado é sempre a incapacidade de enxergar além dos próprios interesses, vantagens e prazeres. Fica cada vez mais difícil sentir um pouco daquela compaixão que o samaritano sentiu ao ver o homem caído no chão. Precisamos muito ficar atentos e orar a Deus, mas sem fechar os olhos, para ver as coisas e as pessoas com o mesmo olhar misericordioso do Pai. Talvez uma “chuva” de silêncio e reflexão nos ajude a nos sentirmos um pouco “tolos” e a nos tornar mais humanos e fraternos.

A profissão de perdoar

Conta uma anedota que Perugino, famoso pintor italiano da Idade Média, estava para morrer e pensava se ia ou não confessar os seus pecados a um padre. Não queria fazer isso simplesmente por medo, para ter uma certa garantia contra algum possível castigo divino, como se a absolvição do padre valesse mais do que a misericórdia do Altíssimo. Decidiu, então, que se fosse por medo da punição não ia confessar. Sua esposa, que não sabia nada da disposição interior dele, perguntou-lhe se não temia morrer sem se confessar. Perugino respondeu: “Veja, minha querida: minha profissão foi pintar e me sobressaí como pintor. A profissão de Deus é perdoar e, se ele for tão bom em sua profissão quanto eu fui na minha, não vejo razão alguma para ter medo”.

Estamos chegando ao final do ano litúrgico e o trecho do evangelho de Marcos, que iremos proclamar, fala-nos da “grande tribulação”. O anúncio da volta do Filho do Homem parece algo muito assustador, ao menos nas expressões da linguagem. Na realidade, é a revelação de uma esperança: ele reunirá os eleitos de Deus de uma extremidade à outra da terra (Mc 13,27). A boa notícia, portanto, é a de uma grande reunião com ele. Tal evento será tão novo, que até o sol, a lua e as estrelas serão transformados. O “sinal” da figueira também é um sinal de vida: quando os ramos ficam verdes e as folhas começam a brotar, logo chegarão os doces frutos. Se tiver algo a temer, não será tanto a vinda do Filho do Homem, da qual não sabemos nem o dia e nem a hora, mas é porque esse será o momento da verdade, quando o que estiver escondido será revelado (Mt 10,26 ). O versículo 31 de Mc 13 são palavras de Jesus bem conhecidas, muito repetidas e até cantadas: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”. Nesta altura, cabe a nós entendermos se essas palavras se referem simplesmente à destruição do templo de Jerusalém, que aconteceu alguns anos depois e antes do evangelho de Marcos ser escrito, ou se podemos entendê-la num sentido maior. Afinal, as palavras de Jesus nunca deixarão de ser palavras de vida para quem souber acolhê-las.

Na prática, nós cristãos, somos convidados a avaliar e orientar a nossa vida levando em conta dois fatores importantes: os chamados “sinais dos tempos” – exemplificados aqui com a figueira que brota – e a Palavra de Deus que “não passa”. Com efeito, nós acreditamos que Deus, na sua bondade, nunca deixa de nos enviar mensagens amorosas de alerta, de incentivo e de esperança, através dos acontecimentos da vida pessoal e da história do mundo e por meio de pessoas que, animadas pelo Espírito, lembram-nos as suas palavras e, assim, ajudam-nos a atualizá-las para os dias de hoje. Na pessoa de Jesus, a Palavra se fez carne e nele encontramos a plena revelação de Deus. No entanto, a partir de Jesus, do seu exemplo e das suas palavras, nós somos chamados a viver fielmente o seu seguimento na história que muda no tempo. Temos a Palavra escrita, mas essa Palavra é viva, não só porque deve ser praticada em nossas vidas, mas também porque abre continuamente novos horizontes nos fatos da história que muda. É um trabalho fadigoso, desafiador, mas, ao mesmo tempo, empolgante.

Batizados e batizadas somos todos chamados a ser “sal da terra e luz do mundo”, ou seja, a testemunhar o Reino de Deus que é um dom dele, mas pode crescer também com o nosso envolvimento e compromisso. Não basta que os cristãos leiam ou espalhem a Bíblia, precisa que a Palavra viva ilumine as decisões políticas e sociais da humanidade toda. Os acontecimentos da história, muitas vezes trágicos e contraditórios, desumanos e solidários ao mesmo tempo, levam-nos ao desânimo ou ao individualismo de quem quer salvar a própria pele sozinho. A Palavra de Deus viva, porém, chama-nos a ver os sinais de esperança, o pequeno que transforma o grande, o fermento que faz levedar toda a massa. Deus nos envia continuamente mensagens e mensageiros, mas não para nos amedrontar. Ele quer que nunca deixemos de confiar e esperar na sua infinita misericórdia. Por isso, repetimos: “agora e na hora da nossa morte”. Sempre.

O Pêndulo

O relojoeiro ia consertar o pêndulo de um relógio quando, para sua surpresa, ouviu o pêndulo falar.

– Por favor, senhor, deixe-me em paz – implorou o pêndulo – Será um ato de bondade de sua parte. Pense no número de vezes que terei que tiquetaquear dia e noite. Tantas vezes por minuto, sessenta minutos por hora, vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Ano após ano… Milhões de vezes de tique-taques. Eu não aguentaria. Mas o relojoeiro respondeu sabiamente:

– Não pense no futuro. Faça apenas um tique-taque por vez e desfrutará cada um deles, o resto da vida.

E foi exatamente isso que o pêndulo decidiu fazer. E continua a tiquetaquear com alegria.

No primeiro domingo de novembro, todo ano, celebramos a solenidade de Todos os Santos e Santas. Escutamos novamente o evangelho das Bem-aventuranças e somos convidados a reconhecer nelas o caminho de toda santidade. Por isso, a Igreja nos apresenta sempre muitos exemplos de santidade, os mais variados, de todas as épocas, de todas as idades e de todas as classes sociais.

Todo batizado é chamado à santidade, ou seja, a viver conforme o Evangelho de Jesus Cristo. Cada um e cada uma de nós na nossa condição, no nosso tempo, no nosso lugar, com as nossas virtudes e defeitos. Acredito que muitos que se dizem cristãos tenham medo ou receio da “santidade”, como se fosse uma obrigação incômoda, um fardo pesado a ser carregado. Estamos muito longe de almejar a santidade como algo que deveria ser comum a cada batizado e batizada. “Comum” não quer dizer banal, mas que é possível a todos, não, evidentemente, pelos nossos próprios merecimentos, mas pela misericórdia de Deus, oferecida “de graça” àqueles e àquelas que se dispõem a serem “amigos” dele.

Em geral, por causa das suas vidas contadas com detalhes surpreendentes, das apresentações artísticas e da nossa imaginação, pensamos nos santos e nas santas como pessoas extremamente devotas, em constante oração e contemplação, com os olhos sempre virados para o céu. Espantam-nos os relatos do rigor de certas renúncias, das longas penitências, dos jejuns absolutos, da solidão do deserto. Outras vezes, é a coragem do martírio deles e delas que nos empolga, mas, ao mesmo tempo, nos distancia deles por nos sentirmos fracos e incapazes de tantas proezas. O ideal da pureza de certos santos e santas nos parece tão elevado que acabamos considerando-os seres mais celestiais que humanos. A boa intenção de fazer conhecer as qualidades cristãs de tantos santos e santas famosos, que viveram em outros tempos e circunstâncias, faz-nos chegar à conclusão, infelizmente, que uma santidade assim seja possível somente para poucos e, com certeza, não o será nunca para nós. Desistimos antes de começar. Com essas considerações não quero dizer que devemos deixar de falar bem dos santos. Quero dizer, simplesmente, que o verdadeiro heroísmo e a verdadeira alegria da fé podem acontecer em algum momento especial, único talvez, de nossa existência, mas, em geral, são o resultado de uma caminho fadigoso e lento, feito de coisas simples, com o sabor do cotidiano, do pequeno, do escondido. Nenhum santo ou santa foi tal porque buscava ser importante. Foi muito tempo depois que as suas virtudes foram reconhecidas ou foi o próprio povo cristão a revelar as maravilhas que tinham acontecido naquelas vidas tão humildes e silenciosas.

Resumindo: a santidade é para todos porque nasce, em primeiro lugar, da confiança que devemos ter no próprio Senhor, mais do que nas nossas forças. Depois vem do desejo de servir a ele nos pobres, nos pequenos e necessitados. Se alimenta com a certeza que podemos aprender algo mais todo dia com a sua Palavra e que podemos perseverar a vida inteira nos nossos compromissos, apesar da rotina, das dificuldade e do cansaço. A santidade de todos os dias pede humildade e paciência; jamais desconfia da misericórdia e do surpreendente amor de Deus. Vamos pedir-lhe que nos deixe em paz em nosso comodismo e mediocridade? Pedimos-lhe a alegria da santidade “comum”.

O cavalo do califa

O califa de Bagdá, chamado Al-Mamun, possuía um lindo cavalo árabe. Um homem, chamado Omar, queria comprar o cavalo e ofereceu muitos camelos em troca, mas o califa não aceitou. Omar ficou desgostoso e cogitou enganá-lo para obter o cavalo. Ele sabia por onde o califa passava quando ia cavalgar. Deitou-se à beira da estrada e fingiu que estava muito doente. Al-Mamun era um homem de bom coração e quando viu o doente, parou e desceu do cavalo para socorrê-lo. Como o enfermo dava a entender que não conseguia caminhar, o califa, com todo o cuidado, colocou-o na garupa do cavalo para ele montar em seguida. Mas quando Omar se sentou no cavalo, partiu a galope deixando Al-Mamun a pé, gritando atrás dele. Quando chegou a certa distância, Omar virou-se e ouviu o califa dizer:

– Você roubou o meu cavalo. Tenho um pedido a lhe fazer.
– Que pedido? Gritou Omar.
– Que não conte a ninguém como você se apoderou do cavalo.
– Por que não?
– Porque, algum dia, um homem realmente doente, talvez esteja deitado à beira da estrada e, se esse seu truque for conhecido, as pessoas passarão por ele sem ajudá-lo.

No evangelho de Marcos deste 31º Domingo do Tempo Comum, encontramos um mestre da Lei que quer ouvir de Jesus qual, entre tantos mandamentos, ele considerava o primeiro de todos. A questão é comum a Mateus e Lucas. Provavelmente era uma daquelas disputas que geravam muita discussão, talvez nem tanto sobre a ordem de importância dos mandamentos em si, mas sobre como praticá-los sem faltar com o respeito à primazia de Deus e, ao mesmo tempo, sem deixar de lado o próximo. A novidade da resposta de Jesus é, sem dúvida, o fato de ter unido os dois mandamentos para evitar que “o segundo” – amar ao próximo como a si mesmo – deixasse de ser praticado com a desculpa de amar a Deus.

Na primeira carta de João, encontramos a compreensão clara da questão: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. (1Jo 4,20). No entanto o evangelista Marcos tem algo dito, por sinal, pelo próprio mestre da Lei que estava interrogando Jesus. Este não somente consegue juntar os dois mandamentos, mas diz claramente que tudo isso “é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios” (Mc 12,33). No tempo de Jesus, ainda eram realizados sacrifícios de animais no Templo de Jerusalém. Quando, porém, os evangelhos foram escritos, tudo isso já não existia mais porque o Templo tinha sido destruído pelos romanos. A impossibilidade dos sacrifícios contribuiu para perceber e praticar mais aquilo que os profetas já tinham denunciado muitas vezes. Lemos em Isaías 1,11-18: “Estou farto de holocaustos de carneiro e da gordura de animais cevados, não quero sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de cabritos… Lavai-vos, purificai-vos… Parai de praticar o mal, aprendei a fazer o bem: buscai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a viúva. Depois, vinde, e discutamos em juízo – diz o Senhor -. E no famoso Oseias 6,6 encontramos: “Pois é o amor que eu desejo e não sacrifício ritual, conhecimento de Deus mais que holocaustos”. Por isso, Jesus pode dizer ao mestre da Lei que tinha respondido com inteligência: “Tu não estás longe do Reino de Deus” (Mc 12,34).

Entendemos muito bem o que Jesus nos ensina. Se queremos fazer alguma coisa para Deus e servi-lo com sinceridade, podemos conseguir isso somente se amarmos e servimos os nossos irmãos praticando o bem e a justiça. O amor de Deus alcança a todos, a começar pelos pobres e injustiçados, através do nosso amor, do nosso interesse, da nossa solidariedade. Sem esse compromisso, a imagem de Deus é falsificada. Ele se parece com alguém que privilegia alguns e esquece os demais. Rezas sem fim, promessas com maços de velas, puxamentos de cordas ou coroas de flores não substituem o que agrada a Deus: o amor ao próximo. São “truques” que só enganam a nós mesmos.