Dom Pedro Conti

O camelo e o beduíno

Um beduíno, muito obeso, pediu a um eremita, pele e ossos, um conselho para emagrecer. O eremita respondeu:

– Experimente fazer longas corridas junto ao seu camelo. Após mais ou menos um mês, o beduíno voltou para visitar o eremita. Este lhe perguntou se havia conseguido algum benefício, seguindo o seu conselho.
– Ó certamente! – respondeu o beduíno – O camelo perdeu vinte quilos num mês.

No evangelho do Segundo Domingo de Advento, encontramos a pessoa de João Batista e a sua pregação. João vivia no deserto da Judeia de maneira muito austera, jejuando e vestindo roupa grosseira. O que logo chama a nossa atenção são as palavras que ele usa para convidar à conversão: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2). Mais tarde, depois que João foi preso, Jesus iniciou a pregação dele exatamente com palavras iguais (Mt 4,17). Muitos ficaram confundidos, até Herodes achou que Jesus era o João Batista ressuscitado (Mt 14,2).

Precisamos aprofundar essa questão. Sem dúvida, João Batista preparou o caminho para Jesus e antecipou algumas das suas palavras. De fato, eram tempos de grande espera, falava-se muito do “messias” que devia chegar. Fazia muito tempo que os profetas o tinham anunciado, mas ninguém sabia quando, como e onde iria aparecer. Daí o convite a ficar atentos, a mudar de vida, a fazer penitência, para estar prontos na hora da grande chegada. No entanto se prestarmos melhor atenção à pregação do Batista e a confrontarmos com as palavras de Jesus, logo percebemos as diferenças. João usa palavras fortes, fala do “dia da ira”, ira de Deus evidentemente, e ninguém poderá escapar disso. Ele fala do machado que está colocado à raiz das árvores para cortá-las se não produzirem

frutos. Aquele que virá, o “esperado”, limpará a sua eira, guardará o trigo no celeiro, mas queimará a palha “no fogo que não se acaba”. Também Jesus usará algumas frases “de efeito” como estas do Batista, chamando alguns de hipócritas e “raça de víboras”, mas, na prática, ele teve uma atitude de compaixão e misericórdia com os pecadores que frequentava sentando à mesa com eles e elas. Por isso, Jesus foi chamado de “comilão e beberrão” (Mt 11,19).

Podemos entender que, às vezes, amedrontar alguém ou ameaçar com um castigo pode surtir o efeito de fazer a pessoa desistir de tomar certas atitudes naquele momento. No entanto o medo é passageiro e não convence ninguém. Quando quem falou se afasta ou vira as costas, o temor desaparece. O perdão também não é sucesso garantido. Contudo, o objetivo da misericórdia não é garantir que o erro nunca mais se repita, mas ajudar quem agiu mal a tomar consciência das consequências da sua ação e, ele mesmo, decidir não mais fazer sofrer alguém. Quando isso acontece, a experiência é de alegria e de alívio de ambos os lados: de quem fez o mal e de quem o recebeu. Sem rancores e vinganças, surge a chance de uma vida nova e diferente para todos. É isso que chamamos de “conversão”.

Quem agiu errado resolve se corrigir, e quem teve compaixão percebe que o seu coração está em paz. Por isso, o convite à conversão e ao exercício da misericórdia são sempre para todos. É questão de educação e treinamento. Poucos se tornam bons de uma hora para outra. Igualmente o perdão exige algo nada fácil: reconhecer antes os nossos pecados e defeitos e assim parar de julgar os outros e de condená-los.

Sessenta anos atrás, o santo Papa João XXIII, no discurso de abertura do Concílio Vaticano II, disse claramente que havia chegado a hora em que a Igreja, depois de ter, por séculos, apontado os erros da humanidade, devia usar de misericórdia e mostrar a todos o caminho de reconciliação e de paz. Muitos fazem como o beduíno que devia emagrecer e que correu junto ao seu camelo. Pelo jeito, porém, o fez montado no animal e não o acompanhando no esforço. O exercício valeu para o camelo, mas não para ele.

À caça do Paraíso

O santo eremita Macedônio foi, um dia, surpreendido na sua solidão por um príncipe que, com um séquito numeroso, andava caçando na floresta vizinha.

– Que fazeis nesta solidão, neste deserto? Perguntou o príncipe ao eremita.

– Permita-me – replicou o eremita – que vos pergunte primeiro: Que fazeis aqui?

– Como vedes, eu vim caçar.

– E eu também, disse o eremita, eu também vim à caça. O que eu procuro, porém, é um bem eterno: ando à caça do Paraíso. O príncipe despediu-se e partiu, meditando seriamente naquelas estranhas palavras do santo eremita: “ando à caça do Paraíso”.

Neste domingo, celebramos a festa de Todos os Santos e Santas, os famosos e venerados e os conhecidos somente por Deus. Quando encontrei o diálogo acima, num livro escrito há mais de sessenta anos, pensei colocá-lo aqui. Pergunto: será que, hoje, ainda entendemos a vida cristã como uma “caça ao Paraíso” ou, dito com outras palavras, a busca da santidade – e também do “Paraíso” – interessam ainda aos cristãos de nossos dias? Espero que sim, obviamente, mas talvez precisamos refletir um pouco sobre o que entendemos com essas palavras fascinantes para alguns e desafiadoras para todos.

Provavelmente, aprendemos que a santidade é a condição para chegar ao Paraíso. Certo. Mas quem julga a santidade de uma pessoa e se ela merece ou não estar no Paraíso? Já aconteceu,  muitas vezes, que o povo cristão considerasse alguém santo ou santa ainda em vida. Para outros, porém, foi a Igreja a reconhecer oficialmente as “virtudes heroicas” deles e eventuais fatos extraordinários considerados como frutos da intercessão daquela pessoa junto de Deus. No entanto é bastante fácil entender que, afinal, somente Deus, na sua infinita misericórdia, pode julgar quem merece ou não estar no Paraíso. Essa meta nunca será um direito adquirido, fruto das nossas obras; sempre será mais do que um prêmio, será um verdadeiro dom, com certeza, muito acima do esperado.

Por isso, o Papa Francisco costuma convidar os jovens a serem, hoje, os santos de “calça jeans”, gastando a própria vida fazendo o bem com o seu jeito juvenil e a novidade que cada geração traz. Igualmente, ele fala sempre para prestarem atenção aos “santos da porta de lado”, ou seja, aqueles vizinhos ou vizinhas dos quais pouco ou nada sabemos, que nunca serão famosos, mas que, de fato, vivem uma autêntica santidade nas suas famílias, nos seus sofrimentos, nos seus serviços humildes e silenciosos. E o Paraíso? Também sobre isso podemos estar muito equivocados , sobretudo quando pensamos que seja algo que vai acontecer somente após a nossa morte, na outra vida, se ainda nela acreditamos, ou se for questão de ter do bom e do melhor, de “sombra e água fria”, ou seja, afinal, somente uma fartura de bens materiais e prazerosos.

A “vida plena”,  que novamente só Deus pode oferecer, será a plenitude daquilo que todos desejamos, mesmo sem ter plena consciência e até quando o buscamos por meios e caminhos errados. Falo da plenitude daqueles “frutos” do Espírito Santo que São Paulo apresenta na carta aos Gálatas e que já deveríamos produzir nesta vida; eis os primeiros três: amor, alegria e paz. Se gastamos a vida para multiplicar o desamor, a tristeza e as intrigas, estamos planejando o “inferno” para nós e para os que já tornamos infelizes neste mundo. Mas se praticamos o amor, espalhamos alegria e construímos a paz, já estamos antecipando um pouco daquilo que será a Vida Nova do Paraíso. Os bens materiais são dádiva de Deus, dos quais devemos ser sábios e fiéis administradores, ou seja, deveríamos usá-los e multiplicá-los para o bem nosso e dos nossos irmãos. Se for somente para nos enriquecer, quem sabe, até enganando e explorando os nossos semelhantes, talvez, possamos pensar  ter já alcançado o “paraíso” nesta vida, mas, bem sabemos, que nada levaremos das riquezas acumuladas na terra. As nossas mãos só poderão apresentar os tesouros de bondade doados aos pobres e desvalidos. Eles mesmos nos abrirão as portas do céu. Afinal, somos todos “caçadores” de felicidade. Onde? Já agora, por aqui, praticando o bem, mas incomparável e surpreendente será a felicidade do Paraíso. Ainda acreditamos e esperamos nisso?

 

Eu não uso sabão

Certo dia, nos anos sessenta do século passado, no auge do movimento hippie, o arcebispo Fulton Sheen cruzou com um deles. O rapaz estava deitado no chão, maltrapilho, barba e cabelos compridos. Quando viu passar o religioso, que era famoso pelos seus programas televisivos, o hippie lhe disse:

 

– Reverendo, o senhor ainda acredita em Deus? São dois mil anos que existe o cristianismo e veja em quais condições se encontra o mundo! O bispo, com a sua calma costumeira,  respondeu-lhe:

 

– Há três mil anos existe o sabão e veja em que situação você se encontra. O hippie deu uma risada e acrescentou:

 

– A questão é que eu não uso sabão. Dom Fulton respondeu:

 

– É o que acontece no mundo: não estamos usando o Evangelho!

 

No evangelho de Lucas, deste domingo, encontramos uma parábola que Jesus contou para “mostrar a necessidade de rezar sempre e nunca desistir” (Lc 18,1) e duas perguntas que nos devem preocupar. A primeira é sobre a capacidade de Deus de satisfazer os pedidos dos seus “escolhidos” e a segunda, muito séria : “Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” A parábola conta o caso de uma viúva que pedia justiça a um juiz. Nada mais comum. A quem pedir justiça se não aos juízes? No entanto esse juiz não praticava de jeito nenhum aquela, que nós pensamos, deveria ser a justiça. Era um juiz corrupto que “não temia a Deus e não respeitava homem algum” (Lc 18,2). No entanto a viúva nos é apresentada como uma pessoa tão insistente na sua cobrança que acaba vencendo a indiferença do juiz. A pobre mulher, sem força e poder algum, consegue do juiz aquilo que nenhuma lei o obrigava a cumprir.

 

O comentário do evangelho à parábola é simples: se até o juiz injusto, afinal, fez justiça para a viúva perseverante, quanto mais o próprio Deus “fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele?”(Lc 18,7). Entendemos também que a “justiça” em questão não é simplesmente uma controvérsia, que deve ser resolvida na base de leis humanas, mas o próprio amor de Deus que torna o ser humano, que acredita e confia nele “justo” e bom, capaz de fazer o bem e vencer as armadilhas do mal. Nesse sentido, a insistência na oração revela a plena confiança do crente naquele Deus ao qual apresenta o seu pedido. Igualmente, “nunca desistir” da oração que manifesta a certeza da bondade de Deus, também se a demora na resposta pode gerar dúvidas  e ser capaz de abalar qualquer relacionamento.

 

Acreditar não significa simplesmente acolher um conjunto de doutrinas para que as guardemos em nossa memória. Ter fé, mesmo, é experimentar um relacionamento com a pessoa de Deus, com Jesus, como alguém que nós admiramos, que nos atrai a ponto de nos sentirmos familiares, amigos, amados por ele. Assim podemos entender a pergunta final de Jesus, sempre desafiadora para nós. A questão não está em saber “quando o Filho do homem vier”. Ele já veio e sempre vem, todo dia e de muitas formas bate à porta da nossa vida e pede para deixá-lo entrar. Ele nos fala com a sua palavra, pede ajuda com a voz e o grito dos pobres. Questiona-nos no segredo da nossa consciência quando conseguimos cair em nós mesmos e temos a coragem de procurar respostas às grandes perguntas da vida. A fé verdadeira é para a nossa vida inteira, não se deixa enfraquecer e nem surpreender pela demora, supera a prova do tempo, das decepções nossas e dos outros.

 

Não podemos saber se o Filho do homem encontrará a fé sobre a terra quando vier, mas podemos saber de nós, se nos encontrará acordados ou adormecidos, atentos ou distraídos, ativos ou parados. O que podemos fazer, todos juntos, é nos ajudarmos a não desanimar, a nos levantarmos quando caírmos, a carregar quem não consegue mais andar sozinho. A fé verdadeira nunca é uma experiência individual. Alguém nos ajudou a encontrá-la, outros a mantê-la viva, outros ainda nos exortam a testemunhá-la. Três mil anos de sabão de nada serviram para limpar quem não queria. Em dois mil anos, a fé cristã transformou a vida de tantos. Agora é a nossa vez de provar que praticamos o Evangelho.

 

Um vinho novo e melhor

Finalmente, após dois anos por causa da pandemia, podemos realizar publicamente o Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Estamos alegres e animados. Iremos cantar e rezar atrás de uma imagem? Não. Nós católicos não “adoramos” as imagens; elas simplesmente nos ajudam a lembrar e a “imaginar” – isso sim – aqueles e aquelas que buscamos conhecer melhor para aprender a viver um pouco mais da santidade e das virtudes deles e delas. No Círio deste ano, iremos em procissão atrás de muitos anseios e de uma grande esperança, confiantes na intercessão maternal e amorosa de Nossa Senhora que chamamos, nestes dias, de Virgem de Nazaré.

 

O primeiro grande anseio que está em nossos corações é o mesmo grito dos dez leprosos do evangelho de Lucas deste domingo. À distância, eles pedem que Jesus, o mestre, tenha compaixão deles. Imploram a cura da doença, mas também a possibilidade de voltar a viver junto aos demais cidadãos, com os mesmos direitos e a mesma dignidade. A exclusão social dos pequenos, dos mais pobres e esquecidos, daqueles que podem ter errado na vida, é a lepra que ainda marca a existência de tantos irmãos e irmãs. A cura está ao nosso alcance todas as vezes que superamos as distâncias e nos tornamos próximos dos caídos nos caminhos da vida. Outro anseio que o Círio pode nos ajudar a expressar, mas que nem todos percebem, é o desejo de agradecer. Com efeito, dos dez leprosos curados, somente um voltou para fazer isso atirando-se aos pés de Jesus. No entanto manifestar a nossa gratidão é a maneira mais simples de reconhecer a total gratuidade do dom recebido. É urgente aprender a agradecer a Deus também quando nem tudo acontece como nós gostaríamos . O Deus Pai bondoso,  que Jesus veio nos fazer conhecer, não é alguém bom ou mau conforme a “nossa” vontade. Ele não é Deus para nos agradar e realizar os “nossos” planos. Ele quer nos conduzir pelos caminhos certos, para o nosso bem, assim que possamos aprender a sermos mais fraternos e misericordiosos também quando passamos por provações e dificuldades. Talvez os anos da pandemia nos tenham ensinado a transformar o medo em paciência, confiança e solidariedade. Todos precisamos ser curados da lepra do egoísmo e da indiferença. Faz bem nos sentirmos limitados, menos poderosos do que pensamos, todos iguais: peregrinos, de passagem neste mundo, mortais. Somente assim motivamos e alimentamos a grande esperança de podermos ser melhores, como pessoas humanas e cristãs.

 

Relendo a página das Bodas de Caná e aproveitando da sua mensagem simbólica, nós não nos sentimos humilhados em pedir ajuda, em invocar a intercessão de Maria. Ela sempre diz por nós a Jesus: “Não tem mais vinho”. Ela confia plenamente naquilo que o Filho irá fazer. Ele não deixará acabar a festa da aliança entre Deus e a humanidade, porque o Pai é fiel às suas promessas. Houve, porém, uma grande surpresa: o vinho “novo” de Jesus  não foi simplesmente o mesmo de antes, foi melhor em qualidade e quantidade. Como cristãos temos a missão de sermos homens e mulheres de esperança. Isso exige de nós muito mais do que continuarmos a fazer o que sempre fizemos, talvez vivendo uma fé tradicional só de alguns momentos da semana, de cada ano ou da vida inteira.

 

Neste domingo do Círio, resgatamos a memória dos nossos irmãos e irmãs que perdemos, mas também de tudo aquilo de que mais sentimos falta no tempo da pandemia: saúde, liberdade, amizade, coragem, aproximação, alegria. Quantas vezes, naqueles dias, nos perguntávamos sobre quando tudo aquilo ia acabar, mas também pensávamos: como será depois? O “depois da pandemia” chegou e temos a obrigação de transformar tudo o que refletimos e aprendemos em algo melhor. Cabe a nós preencher a vida nossa e dos nossos irmãos e irmãs com tudo aquilo do qual sentimos falta. O sinal milagroso do vinho melhor vai acontecer se praticarmos o que Maria disse e sempre nos repete: “Fazei o que ele vos disser”. Colocamos paz, crescerá a alegria; semeamos amor, florescerá a vida.

 

A última banana

Um jovem voluntário, num grande acampamento de refugiados na África, contou a sua experiência no momento da distribuição dos alimentos. A situação era confusa e perigosa. Quando ele percebeu que as reservas estavam para acabar, a fila ainda era comprida e alguns davam sinais de desespero. No final da fila, havia uma menina de mais ou menos nove anos. Quando chegou a vez dela, restava somente uma banana e a entregaram para ela. A menina tirou a casca da banana, deu metade para o irmãozinho, a outra metade para a irmãzinha e lambeu o interno da casca da banana. O jovem confessou que, naquele instante, nasceu nele a fé em Deus.

 

No evangelho de Lucas, deste 26º Domingo do Tempo Comum, encontramos mais uma parábola de Jesus. Os protagonistas são dois homens. Um deles era muito rico e gastava com roupas finas e banquetes. O outro, ao contrário, era muito pobre, não tinha nem o que comer e esperava, sentado no chão, que lhe dessem alguma sobra da fartura daquelas festas. Mas isso não acontecia. Todos dois morreram. O pobre, chamado Lázaro, foi acolhido junto a Abraão. O rico foi para a região dos mortos, no meio de tormentos, sofrendo a sede. Viu Lázaro e pediu que o pai Abrão o mandasse até ele, ao menos, com uma gota de água. Abraão respondeu que era impossível, porque um grande que, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos” (Lc 16,33).

No texto evangélico, a parábola está muito mais cheia de detalhes. O primeiro que chama a atenção é que Lucas faz questão de dizer que Jesus contou essa parábola “aos fariseus”. Sabemos que esse grupo religioso era formado por pessoas que seguiam, rigorosamente, as normas da Lei e, com isso, consideravam-se justos e com o direito às recompensas de Deus. Muitas vezes, acabavam desprezando aqueles que, por alguma razão, não podiam satisfazer a todos os preceitos. Com certeza, o pobre Lázaro, cheio de feridas e familiarizado com os cachorros, não cumpria tudo o que as normas pediam. No entanto esse pobre foi levado para o seio de Abraão. O rico ficou do outro lado do “abismo” que, é fácil entender, ele mesmo tinha preparado já neste mundo com a sua indiferença com Lázaro ou, também, pelo receio de se contaminar com as impurezas das feridas do pobre. Mais uma vez, Jesus surpreendeu os seus ouvintes descrevendo uma situação impensável para os fariseus legalistas.

 

Nós, cristãos de hoje, já não temos toda essa preocupação, contudo não é dito que saibamos dar mais atenção aos pobres que encontramos nos caminhos da vida. Quantos “abismos” continuam a nos separar! Alguns são muralhas verdadeiras de tijolos, ouriços de ferro e arames farpados. Outros são feitos de medos de se misturar, preconceitos desfavoráveis, orgulho de quem se sente superior, porque tem mais condição ou ocupa alguma posição de destaque na sociedade. Com essa parábola, Jesus quer nos lembrar que, se somos nós mesmos que cavamos os abismos, podemos também preenchê-los para que, enfim, possamos todos nos encontrarmos e nos abraçarmos já neste mundo. De maneira especial, gostaria de convidar os meus irmãos cristãos católicos a refletir sobre possíveis obstáculos que nós mesmos criamos em nossas comunidades. Já falamos e falaremos mais de “sinodalidade”. Para “caminhar juntos”, precisamos nos educar à fraternidade e ao respeito para todos e todas. As nossas diversidades não devem ser motivo de divisões ou afastamentos. Devem servir para nos enriquecermos uns aos outros com tantos dons e carismas que o Espírito Santo continua a distribuir com fartura. Mas nem todos, individualmente, como famílias ou como grupos, gostam de escutar e conhecer melhor os demais. Uma pena! Perdemos a possibilidade de dar um exemplo de comunhão a uma sociedade tão cheia de separações. Talvez precisemos aprender a partilhar “a última banana” para chegarmos a viver mais juntos a mesma fé, a mesma esperança e, sobretudo, a mesma caridade. Porque tudo começa pelo amor, a partilha e a solidariedade.

As flores

Certo dia, um carro luxuoso parou na frente do cemitério e o motorista desceu para procurar o vigia. Este chegou e viu, sentada no banco de trás, uma senhora idosa visivelmente doente e triste. Ela lhe disse:

– Eu sou aquela que toda semana envio dinheiro para as flores no túmulo de meu filho. Os médicos me disseram que tenho pouco tempo de vida e, por isso, vim para uma última visita e para agradecer ao senhor. O vigia ficou perturbado e respondeu:

– Me desculpe, senhora, mas nunca colocamos flores no túmulo do seu filho.

– Como é possível isso? – interveio a senhora.

– Veja – continuou o homem – as flores duram pouco e aqui não tem ninguém que lhe dê valor. Eu faço parte de um grupo que visita os doentes nos hospitais. Ali, sim, precisa de flores! Os doentes apreciam o perfume e ficam alegres.

A senhora fez sinal ao motorista para ir embora. Meses depois, aquele carro novamente chegou e era a própria senhora que o dirigia.

– Venho do hospital – disse sorrindo – Agora sou eu que levo as flores para os doentes. O senhor tinha razão. Eles se sentem felizes e me ajudam a melhorar. Os médicos não sabem explicar como é que eu fiquei boa. Mas eu o sei. Encontrei uma razão de vida. Levo as flores na lembrança do meu filho e isso me dá força.

No evangelho de Lucas deste 25º Domingo do Tempo Comum, escutamos Jesus falar, novamente, da administração de bens materiais. Dessa vez, é-nos apresentado o caso de um administrador denunciado como desonesto. Ele tem certeza de que será despedido do emprego e, para ganhar a amizade dos devedores do patrão, por conta própria, falsifica a contabilidade reduzindo, sensivelmente, a dívida de cada um. Era para se esperar uma insatisfação ou uma cobrança, ainda maior, por parte daquele rico senhor, que teve tanto prejuízo por culpa daquele administrador. No entanto, surpreendentemente, ele elogiou a expertise do administrador, porque afinal ele usou o dinheiro para conseguir os favores de outras pessoas. Terminada a parábola, Jesus conclui: “Eu vos digo: Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas” (Lc 16,9). O ensinamento dele, portanto, não está na imitação da esperteza dos filhos deste mundo, que usam dos bens materiais para a própria vantagem, mas na capacidade de usar desses bens para promover amizade, vida, justiça e paz. Aí está o grande desafio: é possível que a humanidade consiga, um dia, administrar as riquezas deste mundo sem gerar tantas desigualdades e exclusões, mordomias de um lado e exploração do outro? As palavras de Jesus seriam uma receita possível de ser aplicada à economia mundial?

Evidentemente, eu não tenho resposta e não sei se alguns dos mais ilustres economistas do mundo a teriam. A situação do planeta e do seu funcionamento com bilhões de seres humanos, que devem ao menos sobreviver e se alimentar todo dia, é bem difícil, complexa e, podemos dizer, complicada por causa dos múltiplos interesses em jogo. Contudo estou convencido que as palavras de Jesus apontam o rumo certo de uma economia planetária mais humana e fraterna. As riquezas deveriam tornar a vida de todos mais alegre e feliz. Não deveriam ser motivo de brigas, guerra, morte e destruição. A história ensina que todas as vezes que prevaleceram os interesses particulares, só de um continente, de um país ou de um povo, outras populações, inteiras, ficaram gravemente prejudicadas. Os cientistas de muitas disciplinas dizem que o planeta Terra não aguenta mais tanto consumo e desperdício de bens e energia por parte das populações dos países mais ricos, quando tantos outros seres humanos passam apertos vergonhosos. No evangelho, Jesus chama os seus discípulos de “filhos da luz”. Talvez precisemos acreditar mais em pequenas experiências alternativas de fraternidade e partilha, que poderão servir de modelo para outras e mais outras. O Reino novo sempre começa pequeno. Muitos anos se passaram desde quando os jovens cantavam que era preciso colocar flores nos canhões. Hoje, os mísseis são cada vez mais sofisticados e destrutivos. Então, desistimos de oferecer flores? Nunca é tarde. Como aquela senhora que reencontrou vida e saúde.

 

Os óculos da vovó

Uma criança foi obrigada a usar óculos. Um colega lhe disse:
– Não está zangado por ter que usar óculos?
– Não, se forem como aqueles que usa a minha vovó – respondeu o menino – Minha mãe diz que ela consegue sempre ver quando as pessoas estão cansadas ou tristes. Logo ela percebe se você precisa de ajuda. Mas a coisa melhor é que a vó consegue ver alguma coisa boa em cada um. O pequeno continuou: Certo dia, perguntei à minha vó como é que ela conseguia ver todas aquelas coisas e ela me respondeu que isso aconteceu quando tinha ficado velha. Por isso, tenho certeza de que a culpa deve ser dos óculos que ela usa!

Na forma mais comprida do evangelho de Lucas, deste domingo, encontramos todo o capítulo 15 com as três parábolas da misericórdia. A mais conhecida é a do pai e dos dois filhos, um dos quais saiu de casa e gastou toda a parte da herança dele. Quando o dinheiro acabou, passou fome e resolveu voltar nem que fosse para ficar como empregado na casa do pai. Estava bem consciente que não mereceria nada mais. Supreendentemente, porém, o pai correu ao encontro dele e mandou fazer festa porque o filho perdido, enfim, tinha sido encontrado. Diferente foi a atitude do outro irmão, aquele que nunca saiu de casa. Não entendeu o porquê de tamanha alegria do pai.

Em todas as três parábolas algo, ou alguém, se perde: uma ovelha, uma moeda e um filho. No final, tudo o que estava perdido é encontrado e tudo acaba em festa. No entanto, há uma diferença muito interessante. É o pastor quem procura a ovelha até encontrá-la. É a mulher que varre a casa até encontrar a moeda. Mas o pai não sai atrás do filho. Aguarda ansioso a volta dele e, assim, consegue enxergá-lo “quando ainda estava longe”. A motivação desta atitude do pai é a mesma que o fez dividir a herança: o respeito pela liberdade do filho! Este não foi obrigado a sair e não será obrigado a voltar. Precisou antes “cair em si”, refletir, sentir a falta da casa do pai. Absolutamente soberana é também a liberdade do pai da parábola que se deixa tocar pela compaixão. Não tem nenhuma lei que o obrigue a perdoar. Isso porque a misericórdia, como o amor, somente tem valor e sentido se for oferecida com o coração livre de todo julgamento e rancor. O filho mais velho da parábola não entende o perdão ao irmão, porque reconhece o pai como um patrão exigente que o faz trabalhar e não como alguém que já o considera dono de tudo o que tem. Esse filho vive o seu ficar em casa como uma obrigação, um peso, sem liberdade, com submissão e tristeza. Saberá, um dia, fazer como o pai e abraçar o seu irmão?
Talvez com essas considerações, eu esteja respondendo a uma antiga questão: por que Deus não nos obriga a fazer somente o bem e nos deixa errar, pagando muito caro as consequência do nosso mal? Com certeza, não é porque não nos ama ou não se interessa por nós. A vida, a paixão e a morte de Jesus nos revelam um Deus que está do lado dos sofredores, solidário com os enfermos e os leprosos da história. Inocente, ele aceita ser condenado como malfeitor para denunciar todas as falsas “justiças” praticadas com a força de leis injustas ou de uma religiosidade que funciona só com o rigor das normas.

Nós, cristãos, acreditamos num Deus que respeita tanto a nossa liberdade a ponto de passar ele mesmo por mau, indiferente e insensível. Se Deus fosse assim não mereceria ser amado. Por isso, muitos não o conhecem bem e o substituem com os seus próprios interesses, as suas ideologias, os ídolos que estão na moda. Talvez chamem isso de liberdade; de fato estão trocando um Deus Amor consigo mesmo, o seu orgulho, o seu poder. O Deus das parábolas da misericórdia nunca desiste da busca do ser humano, até encontrar a ovelha e a moeda perdidas. Contudo, o amor é sempre um encontro entre aqueles que se amam. Precisamos nos deixar encontrar por ele, desistir de nos esconder por medo ou atrás de desculpas mesquinhas como a nossa tranquilidade e o nosso bem-estar. O Deus, Pai de Jesus, nos ama como filhos, também se andamos longe e escondidos. Ele sempre vê o bem que está em nós. E não precisa dos óculos da vovó.

 

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Os bons propósitos

A mãe estava passando roupa e o filho adolescente sentado à mesa escrevia, no seu caderno, os bons propósitos da sua vida. “Se visse alguém que estivesse para afogar – escrevia o jovem – logo me jogaria na água para socorrê-lo. Se pegasse fogo a casa salvaria as crianças. Se acontecesse um terremoto, não teria medo de entrar nos prédios mais perigosos para salvar alguém. Gastarei a minha vida para ajudar todos os pobres do mundo…”. De repente, a mãe lhe diz:
– Por favor, meu filho, vai à padaria, aqui embaixo, e compra alguns pães. Responde o jovem:

– Ó mãe, a senhora não vê que está chovendo?

No Evangelho de Lucas deste 23º Domingo do Tempo Comum, Jesus nos apresenta mais algumas condições para nos tornarmos seus discípulos. Ele já nos alertou sobre a ganância, o apego às coisas materiais, às amizades interesseiras que nos impedem de ser felizes experimentando um pouco do amor gratuito de Deus. Agora, parece pedir mais ainda. Nada de vida fácil para os seus discípulos. Será necessário se desapegar da família, carregar a própria cruz e renunciar a tudo o que temos. Jesus não exagerou demais na sua maneira de falar? E se alguém não conseguir tudo isso, nunca será discípulo do Mestre?

Vamos começar a entender um pouco melhor o que pode significar “carregar” a própria cruz. Logo pensamos em fardos pesados, situações adversas que vão exigir grandes esforços e sacrifícios. Na realidade, a nossa cruz somos nós mesmos, levando em conta os defeitos e as limitações que experimentamos, sem esquecer as circunstâncias – tempo e lugar – onde nascemos, crescemos e vivemos. Por isso, Jesus fala de uma “obra”, semelhante à construção de uma torre que deve ser bem calculada, para não parar no meio por falta de recursos e, assim, passar vergonha. Vale, também, a comparação com uma “guerra” que não pode ser ganha se o número dos próprios homens for pequeno demais para enfrentar o inimigo. Qualquer coisa que queiramos fazer ou alcançar na vida, somente será possível construir, incluindo a nossa personalidade ou maturidade que seja, a partir da nossa realidade que nunca é perfeita. São Paulo diz: “…quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta… (Rm 7,21-24). Nós vivemos mergulhados em bons exemplos e em bons sentimentos, mas também sempre com a tentação de desprezar e invejar os outros, transformando tudo em disputas, brigas e confusões. Encontramos amigos para amar, mas tropeçamos em inimigos que nos fazem sentir ódio e rancor.
Carregar a nossa cruz significa todo dia – talvez toda hora – suar um pouco ou muito para corrigir o nosso egoísmo, reconhecer que erramos, perdoar quem nos ofendeu, aprender sempre de novo a amar como Jesus nos deu o exemplo, servindo no último lugar aos pobres e pequenos. Por isso, ele nos pede de escolhê-lo como único “Senhor” da nossa vida, como “luz”, para podermos ter olhos capazes de ver o mal, as injustiças e as mentiras, também se podemos encontrar tudo isso entre os nossos familiares e, com certeza e sobretudo, nas coisas materiais que aprisionam o nosso coração e nos fazem construir uma sociedade desumana de excluídos e famintos. Acontece que é muito mais fácil apontar os erros dos outros que os próprios. Para os sócios, os amigos e os parentes valem critérios e desculpas bem diferentes daqueles que aplicamos aos demais. Com a melhor das intenções (amizade? afeto?) talvez compactuamos com os pecados pessoais e sociais que nada contribuem para o bem comum e a esperança de todos. Os panos sujos se lavam em casa, diz o ditado, mas é necessário fazermos alguma coisa para que eles fiquem limpos, quem sabe, de uma vez por todas. Jesus não nos coloca contra as nossas famílias e nem contra os bens deste mundo, somente nos pede para fazermos bem os cálculos para perseverarmos até o fim na construção da grande obra do seu Reino sem nos desviarmos, por outros objetivos, ao longo do caminho. Não precisa querer salvar todo o mundo ou esperar alguma fatalidade para sermos aclamados heróis. Começamos a ajudar alguém que precisa. Também se lá fora chove egoísmo e indiferença.

 

Muda de nome

Contam que certo dia Alexandre Magno, o grande general grego, viu um dos seus soldados fugir da batalha. Deu ordem que o procurassem e o trouxessem imediatamente. Quando o soldado chegou à sua frente, perguntou-lhe:

 

– Qual é o seu nome?

 

– Alexandre, senhor, respondeu o homem. O general olhou para ele e lhe disse:

 

– Ou você muda de nome ou muda de atitude! Para o comandante, não era possível ter um nome glorioso e agir de maneira tão mesquinha.

 

No evangelho de Lucas, deste 22º Domingo do Tempo Comum, encontramos Jesus participando de uma refeição na casa de um dos chefes dos fariseus. Estes ficam observando a Jesus, talvez para poder apanhá-lo em alguma infração à Lei ou simplesmente por curiosidade e desconfiança. Afinal, aquele “mestre” vinha da Galileia, região de pagãos e nunca havia estudado em Jerusalém. Jesus também ficava atento àquilo que acontecia: as pessoas escolhiam os lugares de destaque nas mesas, provavelmente mais perto que podiam daquele que os tinha convidado. Queriam aparecer. A parábola da festa de casamento e dos lugares a serem ocupados vai muito além de uma simples questão de ordem ou de organização. Jesus quer nos ensinar que todos somos convidados à festa do amor de Deus, ninguém ficará excluído. No entanto, não cabe a nós escolher o lugar. A decisão será do próprio Senhor que tem os seus critérios de prioridade, com certeza, bem diferentes dos nossos. O mais sensato seria ficar nos últimos lugares porque, se o merecermos, talvez o Senhor nos chame mais na frente. Vergonhoso seria ser convidado a deixar espaço para outro e assim acabar no fim da fila. Pela parábola, os orgulhosos serão rebaixados e os humildes elevados. É o Senhor que exalta os que merecem; ninguém deve se promover por sua própria conta. Pode estar muito, muito enganado.

 

Depois da parábola, Jesus fala diretamente a quem o tinha convidado, mas é evidente que está falando a todos nós. Aqui aparece a novidade do Evangelho. Com efeito, todos nós temos as nossas amizades, preferências de pessoas e interesses. Os laços podem ser familiares, de convivência com vizinhos ou colegas de trabalho, sócios de negócios reais ou na esperança de conseguir algum apoio ou favor. Se no nosso aniversário – ou casamento – comparecer alguém desconhecido, logo queremos saber quem é o cara e, sobretudo, quem o chamou. Convidar “os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos” (Lc 14, 13) não faz parte dos nossos planos. Mais claramente: isso nem passa pela nossa cabeça! Ainda, talvez, as sobras do banquete podem ser para os pobres, mas a festa não. Ou seja, estamos muito longe da proposta de Jesus. Provavelmente pensamos que seja mais um dos exemplos exagerados de Jesus, uma forma de se expressar para chamar atenção. Pode até ser, mas as palavras do Evangelho explicam a verdadeira motivação para convidar os pobres e os excluídos em geral: é porque eles não terão como devolver o convite. Isso significa colocar em nosso agir a gratuidade em lugar dos interesses ou da troca de favores.

 

Na prática,  não acreditamos que esta generosidade possa nos proporcionar alegria e felicidade, por serem elas, sem dúvida, muito diferentes daquela euforia que o sucesso, a fama e o dinheiro parecem nos oferecer. No entanto Jesus insiste: “Então tu serás feliz”. É palavra dele, e a recompensa que virá “na ressurreição dos justos” será simplesmente a plenitude daquela alegria que teremos experimentado fazendo o bem a quem nada podia nos pagar ou devolver. Seremos felizes, porque teremos descoberto um pouco mais de como é o nosso Deus, quão grande é a bondade e a misericórdia deste Pai que Jesus nos fez conhecer e que não deixa faltar o seu amor aos seus filhos, também aos ingratos, aos desobedientes e rebeldes. A “batalha” da gratuidade generosa contra uma visão “retributiva” e interesseira de um Deus que deveria premiar os bons e castigar os maus é difícil de se ganhar. Dá vontade de desistir, de agir somente se recebermos algo, logo e bem concreto, sem esperar o depois. “Cristão” é o nome de quem quer ser discípulo de Jesus. Felizes? Ou arriscamos a confiar na sua palavra ou mudamos de nome.

Os mil nomes de Maria

Duas vizinhas se encontraram na porta do elevador. Uma disse para a outra:

– Estou indo rezar para Nossa Senhora.  A outra, sorrindo, perguntou:

– Qual delas? Vocês inventaram tantas… Nem por isso a colega desanimou e respondeu:

– Minha amiga, você tem seu nome, mas, como é que sua filha chama você? Chama de mamãe. E a sua neta chama você de vovó. Seu marido chama você de meu bem ou, quem sabe, algum apelido carinhoso. Para mim, você é minha vizinha. Para o zelador do prédio, a moradora do 506. Sua mãe chamava você de filha querida…  Chegou o elevador. Elas desceram juntas, mas a conversa continuou:

– O médico chama você de paciente, o feirante de freguesa… Se você, vizinha, tem tantos títulos, imagine aquela que é a Mãe de Jesus, nosso Senhor -. A porta do elevador se abriu. Aquela senhora devolveu um sorriso alegre para a outra e cada uma continuou o seu caminho.

No próximo domingo, celebraremos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora. A Igreja nos convida a festejar a glória de Maria. Nesse caso, não é questão de dar mais um nome ou um título a Nossa Senhora, mas de sermos, todos nós, confirmados na nossa fé na ressurreição. Com efeito, é isto que a Igreja nos pede para acreditar: o corpo de Maria, agraciada pela maternidade divina, já está na glória do céu. Assim “ela é consolo e esperança” para nós, que ainda estamos a caminho. Vamos refletir um pouco.

Ainda hoje, muitas vezes, falamos de “salvação das almas”, no entanto quando o Filho de Deus veio no meio de nós, assumiu a carne humana (Jo 1,14), ou seja, um corpo real e material com todas as limitações de tempo e de espaço como nós experimentamos todos os dias. Igualmente passou pela morte e o seu corpo foi colocado num túmulo (Jo 19,40-41). Jesus participou em tudo da nossa vida, menos no pecado. Ele passou “fazendo o bem” e o fez com o seu corpo, com palavras e gestos, como toda pessoa verdadeiramente humana. Teve amigos, chorou, sentiu compaixão, exultou de alegria e louvou ao Pai. Encontramos todos esses momentos vividos por Jesus narrados nos Evangelhos, assim como foram contados e recontados e, por fim, escritos. Hoje, ninguém mais questiona a existência histórica daquele homem chamado Jesus. A vida dele não foi fruto da imaginação de alguém muito experto, capaz de inventar aqueles acontecimentos e, sobretudo, a morte e a ressurreição de uma pessoa tão diferente e extraordinária. Foi aquele corpo Crucificado que ressurgiu e foi pelas chagas da paixão que os apóstolos o reconheceram (Jo 20,27-28).

Nas “profissões de fé”, que rezamos nas missas, afirmamos que esperamos “a ressurreição dos mortos” e que acreditamos “na ressurreição da carne”. A “ressurreição” continua sendo algo além da nossa experiência humana. É uma questão de fé, ou seja, não está alicerçada em provas materiais, mas na nossa confiança no Deus da Vida, que, com Jesus, acreditamos, venceu, uma vez por todas, o mal e a morte. Por tudo isso, nós cristãos somos chamados a promover sempre a vida “de todo homem e do homem todo” (S. Paulo VI), desde a concepção até a morte natural, mas também de tantos outros seres vivos, sinais da mesma vida divina.

Cuidar dos “corpos” é cuidar das pessoas. O zelo com a saúde física, psíquica e espiritual de todos, significa curar a praga da fome, oferecer condições de vida digna a milhões de seres humanos, proporcionando-lhes casa, escola, segurança, lazer, acesso à informação. Por saúde “espiritual” podemos entender não somente a livre e respeitosa expressão da própria fé religiosa, mas também a pacífica convivência entre as pessoas, as famílias, o incentivo às artes, à música, a tudo aquilo que manifesta a alegria e o desejo de felicidade que o coração humano sente e almeja. Hoje, muitas pessoas gozam de saúde física e gastam fortunas para manter jovens os seus corpos. Estão carentes, porém, de saúde espiritual. Se esqueceram de Deus, dos irmãos, dos pobres e dos pequenos. Para manter essa saúde só tem um remédio, chama-se: amor!

Maria, deu tudo de si mesma, “corpo e alma”, e agora está na glória do céu.

 

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