Macapá pitoresco


A cidade de Macapá tem coisas curiosas que surgiram ao longo da sua história. O local onde foi instalado o povoado era conhecido como Maca-Paba em novembro de 1751, vocábulo de origem nheengatu, que tanto pode ser entendido como “Estância das Bacabas” ou “Onde Acabam as Bacabas”. O primeiro significado prepondera sobre o outro, e parece mais apropriado. A povoação surgiu em torno de um Forte de Faxina edificado no platô de terra firme onde mais tarde seria erguida a portentosa Fortaleza de Macapá. Tudo era muito simples, prevalecendo os tipos de construção denominados “taipa de pilão”, “taipa de mão” e tijupá.

O Forte de Faxina, decorrente de taipa de pilão, não tinha muralhas e correspondia a uma base com anteparos e reparos para os canhões. Entenda-se que reparo é o suporte de uma boca-de-fogo, com dispositivos que permitem dar-lhe os movimentos necessários à execução da pontaria, limitar o recuo e facilitar-lhe o transporte. Em outras palavras, reparo é o carrinho onde o canhão repousa. Em 1758, quando traçaram a planta da Vila de Macapá, o “risco” reservou espaços para dois “largos”, o de São Sebastião e o de São José. O primeiro acabou passando a história como Largo da Matriz, depois Praça Capitão Assis de Vasconcelos e Praça Veiga Cabral. Naquela época, Largo era largo mesmo. O Largo de São José mudou para Largo de São João e Praça Barão do Rio Branco.

O povo dizia que a primeira praça era a de baixo e a segunda, a de cima. O traçado da Vila compreendia ruas e travessas. As antigas ruas hoje são avenidas. As travessas viraram ruas. Macapá pouco cresceu entre 1758 e 1943. O burgo, sede do Município de Macapá, pertencente ao Estado do Pará, era um lugar decadente onde a malária campeava. A partir de 1944 o panorama começou a mudar. Em abril daquele ano, o governador Janary Nunes iniciou a desapropriação das casas construídas em volta do Largo de São João, Praça de cima ou Barão do Rio Branco. Indenizou todos os moradores e fez surgir um novo bairro, o Laguinho. Em seguida, veio o bairro do Hospital. Como as casas eram construídas no topo das elevações que circundavam um lago, o pessoal de fora lascou o nome de Favela. As obras realizadas na cidade atraíram pedreiros, carpinteiros, mestres-de-obras, artífices, marceneiros.

O governo construiu a Olaria Territorial, produzindo tijolos, telhas, manilhas para esgoto, ladrilhos para assoalhos etc. À concentração de residências em torno do empreendimento, o pessoal deu o nome de bairro da Olaria. A área próxima era alagada e os gestores territoriais e municipais, optaram por fixar os proletários em espaço contíguo ao bairro da Fortaleza.

O crescimento foi rápido. Descobriram que naquelas terras havia sido instalado o trem de lapidação das pedras da Fortaleza. Trem é o conjunto de ferramentas e instrumentos necessários à realização de um trabalho. Foi o bastante para o bairro perder o designativo anterior e ganhar a alcunha de Trem, o bairro proletário, visto que a prole (filhos) dos moradores era muito grande. Os que viviam ligados às atividades próprias de ribeirinhos se fixaram no Elesbão. Entre o bairro da Fortaleza e o Elesbão, havia uma passagem tortuosa, em declive, onde morava uma senhora desprovida de beleza física, cujo rosto lembrava um marsupial amazônico. Seu apelido deu nome à ruela: baixa da Maria Mucura. Gradativamente a área municipal expandiu-se, com a formação de outros bairros: Igarapé das Mulheres, Morro do Sapo, Vacaria, Pacoval, Muritizal e depois Buritizal, CEA, Equatorial, Muca, Beirol. Alguns acontecimentos a nível nos contribuíram para a denominação de outros aglomerados: Jacareacanga, Malvinas, Coréia do Norte e Coréia do Sul e Nicarágua. O nome mais curioso foi dado a uma extensão da cidade no atual bairro Santa Rita, próximo ao Aeroporto: Planície dos Corruptos.

A área fora desapropriada e, devidamente dividida, foi destinada aos amigos de um governador acusado de ações ilícitas. Atualmente, nossa distinta e maltratada Macapá possui cerca de 40 aglomerados populacionais entre conjuntos e bairros: Centro, Laguinho, Trem, Perpétuo Socorro, Santa Inês, Beirol, Santa Rita, Jesus de Nazaré, Pacoval, Nova Esperança, Buritizal, Congos, Alvorada, São Lázaro, Renascer, Muca, Jardim Marco Zero, Zerão, Universidade, Jardim Felicidade I e II, Novo Horizonte, Infraero I e II, Cidade Nova, Aturiá, Jardim Equatorial, Pedrinhas, Boné Azul, Açaí, Brasil Novo, Cabralzinho, Pantanal, Marabaixo I, II e III, Liberdade, Morada das Palmeiras, Horto Floretal. Um dia um sujeito perguntou-me por que os amapaenses gostavam tanto dos Cubanos, a ponto de nominar um bairro como Cuba. Esclareci que o nome correto é Cuba de Asfalto, nada a ver com o velho Fidel. De barbicha, fantasioso e falastrão já basta um “aquelezinho” que perambula por estas plagas.


Macapá pitoresco


A cidade de Macapá tem coisas curiosas que surgiram ao longo da sua história. O local onde foi instalado o povoado era conhecido como Maca-Paba em novembro de 1751, vocábulo de origem nheengatu, que tanto pode ser entendido como “Estância das Bacabas” ou “Onde Acabam as Bacabas”. O primeiro significado prepondera sobre o outro, e parece mais apropriado. A povoação surgiu em torno de um Forte de Faxina edificado no platô de terra firme onde mais tarde seria erguida a portentosa Fortaleza de Macapá. Tudo era muito simples, prevalecendo os tipos de construção denominados “taipa de pilão”, “taipa de mão” e tijupá.

O Forte de Faxina, decorrente de taipa de pilão, não tinha muralhas e correspondia a uma base com anteparos e reparos para os canhões. Entenda-se que reparo é o suporte de uma boca-de-fogo, com dispositivos que permitem dar-lhe os movimentos necessários à execução da pontaria, limitar o recuo e facilitar-lhe o transporte. Em outras palavras, reparo é o carrinho onde o canhão repousa. Em 1758, quando traçaram a planta da Vila de Macapá, o “risco” reservou espaços para dois “largos”, o de São Sebastião e o de São José. O primeiro acabou passando a história como Largo da Matriz, depois Praça Capitão Assis de Vasconcelos e Praça Veiga Cabral. Naquela época, Largo era largo mesmo. O Largo de São José mudou para Largo de São João e Praça Barão do Rio Branco.

O povo dizia que a primeira praça era a de baixo e a segunda, a de cima. O traçado da Vila compreendia ruas e travessas. As antigas ruas hoje são avenidas. As travessas viraram ruas. Macapá pouco cresceu entre 1758 e 1943. O burgo, sede do Município de Macapá, pertencente ao Estado do Pará, era um lugar decadente onde a malária campeava. A partir de 1944 o panorama começou a mudar. Em abril daquele ano, o governador Janary Nunes iniciou a desapropriação das casas construídas em volta do Largo de São João, Praça de cima ou Barão do Rio Branco. Indenizou todos os moradores e fez surgir um novo bairro, o Laguinho. Em seguida, veio o bairro do Hospital. Como as casas eram construídas no topo das elevações que circundavam um lago, o pessoal de fora lascou o nome de Favela. As obras realizadas na cidade atraíram pedreiros, carpinteiros, mestres-de-obras, artífices, marceneiros.

O governo construiu a Olaria Territorial, produzindo tijolos, telhas, manilhas para esgoto, ladrilhos para assoalhos etc. À concentração de residências em torno do empreendimento, o pessoal deu o nome de bairro da Olaria. A área próxima era alagada e os gestores territoriais e municipais, optaram por fixar os proletários em espaço contíguo ao bairro da Fortaleza.

O crescimento foi rápido. Descobriram que naquelas terras havia sido instalado o trem de lapidação das pedras da Fortaleza. Trem é o conjunto de ferramentas e instrumentos necessários à realização de um trabalho. Foi o bastante para o bairro perder o designativo anterior e ganhar a alcunha de Trem, o bairro proletário, visto que a prole (filhos) dos moradores era muito grande. Os que viviam ligados às atividades próprias de ribeirinhos se fixaram no Elesbão. Entre o bairro da Fortaleza e o Elesbão, havia uma passagem tortuosa, em declive, onde morava uma senhora desprovida de beleza física, cujo rosto lembrava um marsupial amazônico. Seu apelido deu nome à ruela: baixa da Maria Mucura. Gradativamente a área municipal expandiu-se, com a formação de outros bairros: Igarapé das Mulheres, Morro do Sapo, Vacaria, Pacoval, Muritizal e depois Buritizal, CEA, Equatorial, Muca, Beirol. Alguns acontecimentos a nível nos contribuíram para a denominação de outros aglomerados: Jacareacanga, Malvinas, Coréia do Norte e Coréia do Sul e Nicarágua. O nome mais curioso foi dado a uma extensão da cidade no atual bairro Santa Rita, próximo ao Aeroporto: Planície dos Corruptos.

A área fora desapropriada e, devidamente dividida, foi destinada aos amigos de um governador acusado de ações ilícitas. Atualmente, nossa distinta e maltratada Macapá possui cerca de 40 aglomerados populacionais entre conjuntos e bairros: Centro, Laguinho, Trem, Perpétuo Socorro, Santa Inês, Beirol, Santa Rita, Jesus de Nazaré, Pacoval, Nova Esperança, Buritizal, Congos, Alvorada, São Lázaro, Renascer, Muca, Jardim Marco Zero, Zerão, Universidade, Jardim Felicidade I e II, Novo Horizonte, Infraero I e II, Cidade Nova, Aturiá, Jardim Equatorial, Pedrinhas, Boné Azul, Açaí, Brasil Novo, Cabralzinho, Pantanal, Marabaixo I, II e III, Liberdade, Morada das Palmeiras, Horto Floretal. Um dia um sujeito perguntou-me por que os amapaenses gostavam tanto dos Cubanos, a ponto de nominar um bairro como Cuba. Esclareci que o nome correto é Cuba de Asfalto, nada a ver com o velho Fidel. De barbicha, fantasioso e falastrão já basta um “aquelezinho” que perambula por estas plagas.


São José, patrono universal da igreja


José, filho de Jacó e neto de Matam, nasceu em Belém da Judéia, no século I antes de Cristo. Pertencia à tribo de Judá e descendia do rei Davi de Israel. Era viúvo quando desposou Maria. Sua idade girava em torno de 54 anos, enquanto Maria ainda vivia sua adolescência. José gerou duas filhas e quatro filhos com sua primeira esposa e com essa prole foi viver com a jovem eleita para ser a mãe de Jesus Cristo. Os filhos homens de José eram: Tiago, José, Simão e Judá.

Eles conviveram intensamente com Jesus até constituírem suas famílias e o Divino Mestre iniciou suas pregações. Nenhum deles foi apóstolo. Maria passou sua infância no Templo de Jerusalém, sendo uma das jovens consagradas a Deus. Ela e as demais virgens foram preparadas para ser esposas dedicadas, tementes a Deus. Todas sabiam que uma delas poderia ser a escolhida para, por obra e graça do Espírito Santo gerar o Filho de Deus. Seguindo o costume hebraico, os casamentos eram previamente acertados entre os membros das tribos que compunham as tribos de Israel. José e Maria eram integrantes da tribo de Davi. Como José já estava viúvo quando Maria alcançou a idade de casar, o carpinteiro lhe foi dado como esposo. Conta-se que Maria não quis deixar o templo ao atingir a idade de casar. Os anciãos do Tempo oraram por instruções divinas e uma voz disse que o marido de Maria sairia dentre os homens solteiros que fossem ao Templo e ali deixassem seus cajados durante a noite. O eleito seria o dono do cajado que amanhecesse coberto de flores.

Muitos pretendentes assim procederam, mas nenhuma novidade ocorreu. Idêntica oportunidade foi concedida aos viúvos e José decidiu levar seu cajado ao Templo. Pela manhã o cajado de José estava coberto de lírios, o símbolo da pureza e da retidão. Contratado o casamento, José esperou o momento exato para conviver com Maria. Antes que isso acontecesse o Arcanjo Gabriel apareceu a Maria para comunicar-lhe que ela seria a mãe de Jesus. Entretanto, Gabriel só apareceu a José quando ele já havia descoberto que Maria estava grávida e eles nunca tinham coabitado. Como era um homem muito reservado e experiente, José afastou-se de Maria, mas não fez alarde de que não era o pai da criança que Maria estava gerando. José manteve em segredo sua desilusão. Se tivesse tornado público o ocorrido, certamente Maria teria sido lapidada, porque assim deviam ser punidas as adúlteras. Essa punição está contida no Deuteranômio, um dos livros sagrados que formam a Bíblia. A lapidação consistia em apedrejamento público da mulher que o homem rejeitasse por traição. As sagradas escrituras tratam da vinda do Messias e os judeus praticantes do judaísmo sabiam disso. José tinha ampla consciência de que seria um protetor para Maria e para o fruto que seria gerado em seu ventre. Como homem justo que exercia uma profissão capaz assegurar o sustento da família, José passou à História como o pai nutricio do Divino Mestre.

José sempre dedicou especial atenção a Jesus no decorrer da infância do Salvador. Lucas se encarregou de deixar isso bem evidente no evangelho que escreveu. Mateus fala dos pontos de vista de José. A última menção feita a José nas Sagradas escrituras é quando o carpinteiro procura por Jesus no Templo de Jerusalém e o encontra discutindo a doutrina do judaísmo com os anciãos. Acredita-se que José já tivesse morrido quando Jesus foi crucificado.

A veneração dos cristãos a São José começou a se espalhar a partir do século quinze. Antes disso o protetor terreno do Divino Mestre pouco era lembrado. Tinha maior acatamento outro José, filho de Jacó e Raquel que se encheu de glórias como um Zaphnath (descobridor das coisas ocultas), no Egito. Este personagem era conhecido como São José do Egito. A história deste José está contada no Gênese, um dos livros do Pentateuco. Sua vinda ao mundo é considerada uma graça de Deus porque Raquel era estéril. Mesmo sem ser o primogênito, José era o filho preferido de Jacó, fato que levou os irmãos a odiá-lo. Numa viagem ao Egito eles o venderam como escravo a mercadores ismaelitas por 20 moedas (shequel) de prata. Levado ao Egito, José foi comprado por Potifar, que era oficial e capitão da guarda do faraó. Por ser um belo rapaz, José era assediado pela mulher de Potifar a qual rejeitava por respeito a seus princípios religiosos. Sentindo-se humilhada, a mulher do oficial disse ao marido que José vivia tentando seduzi-la. José foi preso e entre os demais prisioneiros revelou-se excelente intérprete de sonhos.

Certa vez interpretou o sonho do Faraó livrando o império egípcio de sete anos de tormentos. Ganhou destaque na corte sem tornar-se arrogante. Era um homem bom e justo. O José carpinteiro sempre foi humilde e resignado. Somente a partir do ano de 1749 a Igreja Católica incluiu seu nome no Calendário Romano fixando a data da sua festa em 19 de março. São Francisco de Assis e Santa Teresa d’Ávila ajudaram a espalhar a devoção. Em 1870, o Papa Pio IX declarou São José Patrono Universal da Igreja Católica Apostólica Romana. O Papa Benedito XV o declarou patrono da Justiça Social. Em 1955, o Papa Pio XII estabeleceu uma segunda festa para São José, a festa de “São José Trabalhador” a ser celebrada no dia 1º de maio, dia do trabalho. Na arte litúrgica da Igreja, São José é mostrado como um homem velho com um ramo de lírio na mão direita e o menino Jesus sentado em seu braço esquerdo. Ele também é retratado realizando seu trabalho de carpinteiro e ensinando o oficio a Jesus. Quando é retratado só, São José carrega um cajado florido de lírios. Outra representação muito conhecida de São José evidencia sua dedicação a Maria Santíssima e a Jesus por ocasião da fuga que empreenderam para o Egito. São José caminha pelo deserto puxando um burro, sobre o lombo do qual viajam Maria e o Salvador. É uma das mais expressivas cenas da Sagrada Família. Tanto esta cena como a retratação de São José em sua oficina, nos podemos ver ao lado do altar mor da Igreja Matriz de Macapá. Os dois afrescos foram pintados pelo Padre Lino Simonelli por volta do ano de 1950. A retratação da oficina de São José foi a que mais me deixou impressionado porque eu conheci um marceneiro de Macapá que possuía uma serra igual a que o santo carpinteiro usava.

A escolha de São José como padroeiro de Macapá não é obra do acaso. Quando o povoado de Macapá foi instalado, em novembro de 1751, o Rei de Portugal era D. José I, devoto do santo. Nada mais prático para que fosse prestada dupla homenagem, ao santo e ao rei. São José é o padroeiro de Macapá há 259 anos. A fortaleza de Macapá também leva seu nome e nela existiam duas imagens de São José. Uma na capela. Outra no frontispício do portal de entrada. Na década de 1920, quando a Fortaleza foi declarada sem serventia e abandonada, a imagem postada no frontispício do portão foi retirada e guardada na Igreja Matriz de São José. Essa imagem mostra São José usando botas. Sobre esse assunto escreverei no próximo domingo.


Cuidado com o navio dos cabeludos


Durante toda a minha infância, passada em Macapá, ouvi os macapaenses de mais idade dizerem aos meninos que temiam ir ao barbeiro: “cuidado com o navio dos cabeludos”. Os que migraram para cá após a implantação do Território Federal do Amapá, que não eram interioranos do marajó e regiões adjacentes nos diziam: “o barbeiro tem família”. Eu e os outros garotos escutávamos estas coisas e indagávamos o porquê deveríamos ter cuidado com o tal navio. Um dia perguntei ao meu saudoso pai, Francisco Torquato de Araújo, qual a função da embarcação que a molecada temia e que nunca aparecia. Ele me contou que não houve propriamente um navio com o propósito de pegar os meninos que não gostavam de cortar o cabelo e sim a execução de campanhas de atendimento médico e social ás pessoas carentes que residiam na Ilha do Marajó, Macapá, Mazagão e baixo-amazonas. A campanha fazia parte do governo itinerante instituído pelo Interventor Federal no Pará, Magalhães Barata, que visitava frequentemente as vilas e cidades interioranos levando médicos, enfermeiras, odontólogos, barbeiros, servidores públicos dos serviços de expedição de carteiras de identidade, carteira de trabalho, certidões de nascimento, casamento, óbito e muitos medicamentos. Este tipo de campanha de saúde pública foi organizado nos moldes das campanhas militares, haja vista que o povo tinha o costume de não prestigiá-las. Assim, todos eram obrigados, pela força, a se submeterem as práticas sanitaristas.

 

Os portadores de doenças contagiosas eram afastados dos sadios e ficavam praticamente encarcerados, caso contrário fugiam. Esta maneira de agir da população interiorana não acontecia por acaso. Até 1923, a política de saúde pública não fazia parte da agenda do governo. No ano em referência surgiu o sistema previdenciário e foram criadas as Caixas de Aposentadoria e Pensões-CAPs. Porém, apenas os beneficiários das CAPs recebiam atendimento médico. Não havia política Nacional de Saúde. Até 1930, a assistência médica individual das classes dominantes era feita pelos profissionais legais da medicina, os chamados médicos de família. O restante da população era atendida por entidades filantrópicas, através de hospitais mantidos pela Igreja Católica e recorria à medicina caseira. Nas duas primeiras décadas do Século XX, as ações de saúde pública foram vinculadas ao Ministério da Justiça, cabendo aos estados controlar as endemias, epidemias, fiscalização de alimentos, portos e fronteiras. Em 1930, a Saúde Pública foi anexada ao Ministério da Educação tornando-se encargo do Departamento Nacional de Saúde Pública, com foco principal nas atividades sanitárias. Criados neste ano, os sanatórios para tratamento da tuberculose e hanseníase. Em decorrência de um acordo firmado com os Estados Unidos da América, em 1942, o governo do Brasil criou o Serviço Especial de Saúde Pública-SESP, dando apoio aos trabalhadores envolvidos na produção da borracha que não eram  assistidos pelos serviços tradicionais.

 

A campanha realizada pelo governo de Magalhães Barata foi rotulada em anos recentes como Operação Cívico-Social, ou simplesmente ACISO. Deu excelentes resultados, mas despertou a ira dos figurões da política adversária. Eles diziam que o Interventor Federal havia abandonado Belém. O jornal Folha do Norte desenvolveu intensa campanha antibaratista e acabou contagiando grande parte da população belenense. Enquanto isso acontecia, os interioranos recebiam atendimentos diversos. Até pequenas cirurgias foram feitas em pessoas que poderiam ter morrido por falta de assistência médica. Curativos, aplicação de vacinas e antibióticos, extração de dentes, cortes de cabelo, combate a piolhos, a bichos do pé e outros serviços foram prestados. A ordem era pegar na marra os resistentes e submetê-los a ação médico-social. Os moleques eram os campeões do medo. Tiveram que ser agarrados por policiais para que os barbeiros, dentistas e enfermeiros fizessem seus trabalhos.

 

No meio dos fartos cabelos que eles apresentavam viviam centenas de piolhos. Por isso, o corte tinha que ser feito com máquina zero, deixando apenas uma singela pastinha. O estrago que os piolhos faziam nos homens e mulheres deixava os médicos abismados. Feridas em profusão havia na cabeça e na nuca da maioria das pessoas. Curioso é que as mulheres passavam óleo de andiroba e de pracaxi nos cabelos para combater os piolhos. Outras faziam uso do vinagre. Após os cortes de cabelo das mulheres, os barbeiros jogavam “neocid” na cabeça das mais atacadas pelos piolhos e a enrolavam com pano branco. Sobre as feridas os enfermeiros colocavam sulfa ou pomada São Lucas. Não foram poucos os registros de óbito de interioranos em decorrência da “febre de trincheira”. Esta denominação surgiu durante a I e a II Guerras Mundiais devido à morte de soldados atacados por piolhos dentro das trincheiras.


Em fuga para a Espanha, Perón passa por Amapá


Numa 5ª feira, dia 4 de novembro de 1955, por volta das 16h30min, um avião DC. 3 da Força Aérea Paraguaia aterrissava na pista do aeroporto da Base Aérea de Amapá, no então Território Federal do Amapá. A bordo do aparelho viajavam o ex-presidente da Argentina Juan Domingos de Perón, o piloto e uma comissária de bordo. A jornada de fuga de Perón teve inicio na madrugada de 2 de novembro, dia de finados.Juan Perón estava em Assunção depois de ter deixado Buenos Aires para não ser preso pelos militares que o depuseram da presidência da República Argentina. Às 14 horas do dia consagrado aos mortos o avião fez escala no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro para abastecer. Passou cerca de 20 minutos no solo. Feito o abastecimento, sem que houvesse fiscalização por parte da Aeronáutica, o DC. 3 decolou com destino a Salvador, na Bahia, aí pernoitando. Por tratar-se de um aparelho adaptado para transporte de tropas, o avião não tinha as acomodações que Perón estava acostumado a dispor. Mesmo mal acomodados, os ocupantes da aeronave passaram a noite de modo tranquilo sem qualquer perturbação. Da maneira como a presença do avião militar paraguaio foi encarada pelo pessoal da Aeronáutica, pode-se supor que as autoridades brasileiras sabiam que Perón estava a bordo e lhe concederam livre trânsito pelos céus do país. Ao amanhecer do dia 3 de novembro a aeronave deixou o aeroporto de Salvador seguindo no rumo norte.

O piloto paraguaio sabia que realizar uma viagem sobrevoando a região centro-oeste do Brasil era muito arriscado, haja vista que o vazio demográfico e a inexistência de campos de pouso não recomendavam viajar no trecho, mormente no período noturno. O combustível existente no tanque do aparelho só permitiu que ele chegasse a São Luiz, no Estado do Maranhão, onde se deu o pernoite. Em momento algum os ocupantes do avião o deixaram para buscar acomodações confortáveis fora dele. A alimentação compreendia enlatados, principalmente sardinhas, bolachas e água. Na manhã do dia 4 de novembro novamente o DC.3 alçou vôo com o propósito de chegar à Caiena,mas as autoridades da Guiana Francesa não concordaram em recebê-lo. Como já estava anoitecendo e a quantidade de combustível era insuficiente para chegar a Paramaribo, o piloto comunicou a seu ilustre passageiro que mais uma vez ocorreria um pouso em solo brasileiro, mais precisamente na pista da Base Aérea de Amapá. À época, a Base Aérea de Amapá já estava sob controle da Aeronáutica e abrigava em área próxima a Escola de Iniciação Agrícola, cujo diretor era o cabo Alfredo Oliveira. Exausto, mas confiante de que seu plano de fuga estava prestes a se configurar, Juan Domingos de Perón recebeu com invulgar simpatia as pessoas que foram ao seu encontro, dizendo-lhes que gostaria de manter contato com a maior autoridade civil presente naquela localidade. Ciente de que um homem de “língua enrolada” queria falar consigo, Alfredo Oliveira foi recepcioná-lo e lhe ofereceu hospedagem. Assim que o avião paraguaio aterrissou, o pessoal da Base Aérea entrou em contato com o governo do Amapá, via rádio, comunicando a grande novidade.

O governador Janary Nunes determinou que nenhum obstáculo fosse interposto a Perón e autorizou que o avião monomotor Bonanza, da frota governamental, fosse a Amapá. Embarcaram imediatamente o piloto Hamilton Silva e o radialista Agostinho Nogueira de Souza, cabendo a este último fazer uma reportagem com Perón. A ida de Hamilton Silva foi sumamente positiva para livrar Perón de um grande aperreio: o combustível do DC. 3 era insuficiente para cobrir a distância entre a Base Aérea e Paramaribo. Hamilton Silva sabia que na Base Aérea não havia gasolina de aviação, por isso, disse ao piloto paraguaio que misturando gasolina comum com a disponível no tanque do DC. 3, em maior quantidade, não causaria problema algum Ele mesmo já havia recorrido a esse recurso em várias oportunidades. Assim foi feito e o avião de Perón seguiu viagem até a sede da então Guiana Holandesa. Posteriormente, seguindo a rota do Caribe, Perón chegou a Madri.


Comidas em conserva


Até o ano de 1795, os países envolvidos em lutas armadas enfrentavam muitas dificuldades para alimentar seus combatentes. As refeições eram colocadas em pontos estratégicos e cada soldado pegava seu quinhão. Eles comiam andando e os alimentos nem sempre eram saudáveis. Em 1793, quando a França enfrentava as tropas do Império Austríaco, Reino de Nápoles, Reino da Prússia, Espanha e Grã-Bretanha, Napoleão Bonaparte ofereceu uma recompensa de quinze mil francos a quem obtivesse sucesso na produção de comidas em conserva.

Um cozinheiro/confeiteiro chamado Nicolas Appert, que desde 1795, pesquisava uma fórmula para manter alimentos preservados por longo tempo, conseguiu manter carne bovina em perfeitas condições de consumo, acondicionando-a em um recipiente de vidro grosso fechado com uma rolha e submetido a altas temperaturas. O processo era parecido com o que prevalece nos dias atuais. Nicolas Appert recebeu seu valioso prêmio e montou uma fábrica de laticínios intitulada Massy, nos arredores de Paris, em 1802. A partir de 1809, a fabulosa invenção permitiu que os soldados de Napoleão não perdessem muito tempo para encher a barriga, enquanto os adversários ainda utilizavam esquemas antigos. Com o passar do tempo, os vasilhames de vidro grosso foram substituído por latas e o processo de conservação dos alimentos passou por seguidos aprimoramentos. Enquanto os conflitos armados entre as nações européias se mantiveram relativamente frequentes, a comida enlatada era produzida para aumentar soldados. Nesta época, o preço de uma lata de comida em conserva era caro, razão dos populares preferirem se alimentar de carne fresca, mesmo despendendo precioso tempo para prepará-la.

As latas de sardinhas em conserva apareceram em 1810. Os demais alimentos também mereceram atenção especial. Nos dias atuais, notadamente nos Estados Unidos da América do Norte, uma boa refeição pode ser rapidamente preparada com o uso de alimentos enlatados, como arroz, feijão, carne desfiada, carne fiambrada, almôndegas, sopa, salada, purê de batatas, molho de tomates. Em 1930, os enlatados já eram populares em todo o mundo. Hoje, cerca de 200 bilhões de latas de comida em conserva são produzidas anualmente.
O Brasil responde por 80% dos enlatados produzidos no globo terrestre. São utilizadas 200 mil toneladas de carne bovina. A firma JBS (João Batista Sobrinho), fundada em Goiás, em 1953, agora associada à Friboi é a proprietária do maior frigorífico existente na face da terra. Entre os norte-americanos, a carne enlatada recebeu o nome de “corned beef” (carne em conserva) e tem um elevado consumo. Nos anos iniciais da instalação da Indústria e Comércio de Minérios S.A.(ICOMI) e da construção da Hidrelétrica do Paredão (Coaracy Nunes), a alimentação dos operários era à base de carne em conserva. Em Macapá, bem mais do que em Mazagão, comer carne em conserva era um hábito freqüente, notadamente no período invernoso, ocasião em que a captura de peixes fica mais difícil. Apenas o jabá tinha maior predileção no jantar devido ao açaí ou a bacaba. Quando a situação ficava mais braba, o chibé substituía os dois vinhos. Vale dizer, que antes da criação do Território Federal do Amapá, a jurisdição do município de Macapá se estendia às regiões das Ilhas do Pará, na margem direita do canal norte do rio Amazonas. Portanto, os que moravam nas áreas que depois passaram a integrar Anajás e Afuá eram macapaenses.

O mesmo ocorria com o município de Mazagão, cuja população interiorana era expressiva, daí a fama de ser um grande consumidor de conserva. Soma-se a isso, o fato dos funcionários do governo irem realizar atividades na cidade de Mazagão e querer filar uma bóia de graça. Sem conseguir, eles compravam carne ou sardinha em lata e 250 gramas de farinha para matar a fome. Quem nunca comeu produtos enlatados ou conservados em outros recipientes, que atire a primeira pedra. Se gostar de carne em conserva dá status, neste aspecto estamos lado a lado com os americanos: I like corned beef! No Brasil, ainda são famosas as marcas Bordon, Swift, Anglo, Target, Oderich, Kitut e Taya. As marcas de sardinha mais famosas são: Coqueiro (1917), Rubi, Mariska, Ramirez (1853), Anita e Gomes da Costa.


Onde terminam as Macabas


Embora se diga que o vocábulo Maca-paba signifique “estância das bacabas”, a análise dos termos que lhe dão origem indica um outro sentido: “onde terminam as macabas”. Maca tem todos os indícios de ser um vocábulo de origem caribe e quer dizer sebo, gordura, exatamente o mesmo significado de cabá. Embora não sendo muito comum, alguns estudiosos do tupi, guarany e caribe preferem usar o vocábulo Mbaé-cabá, isto é, a “cousa gorda”. Cuidado para não escrever caba, designativo de marimbondo. A palavra paba em tupi quer dizer morrer, findar, acabar. Como exemplo podemos citar Ibiapaba, importante serra que divide os Estados do Piauí e Ceará. Ibi ou ybi é solo, terra, chão. Paba, como já explicamos, corresponde a morrer, findar, acabar. Logo, Ibiapaba significa onde o chão termina. Quem já viajou por terra, de Belém para Fortaleza, sabe que o desnível entre a serra e planície cearense é da ordem de 300 metros. O Vocabulário Tupi-guarani/português, elaborado pelo Professor Francisco de Oliveira Bueno evidencia o vocábulo ybá-cabá para designar a fruta oleosa, gorda das palmeiras Oenocarpus distchus e circumtextus, onde ybá é fruta e cabá está por gorda. De um modo geral, ybá significa fruto, sendo comum também identificar árvore. A regra é utilizar o vocábulo ybirá.

No Nordeste do Brasil a palmeira que produz a macaba é conhecida como macayba ou macauba O lugar aonde existem muitas macabas é chamado macatuba. Em português, os dois vocábulos correspondem, respectivamente, a bacabeira e bacabal. A bacabeira é uma palmeira solitária. As palmeiras de grande porte são chamadas de bacabuçu, de cujos frutos os índios faziam o iuquicé, ou seja, o vinho, também chamado bacabada. Os que apreciam o vinho da bacaba preferem o extraído da espécie bacabai ou bacabinha. Quando o vinho sai escuro, o caboclo o denomina de macabú ou macabaú, isto é escura. A bacabeira viceja em vários Estados do Brasil, até mesmo no Rio de Janeiro, onde há uma cidade denominada Macaé, derivativo de maca-ê, a macaba doce. No Nordeste prevalece a espécie que dá um vinho mais claro, entre o rosa e o amarelo, identificada como macajuba. A bacabeira Oenocarpus circumtextus tem folhas brancas tirante a ocre e drupas (frutos) roxas. As flores da espécie Oenocarpus multicaulis são branco-amareladas e as drupas avermelhado-escuro. Esta palmeira tem um palmito saboroso, e do lenho se fazem lanças e bengalas. É mais conhecida como bacabaí ou bacabinha. A palmeira ornamental Oenocarpus distichus tem drupas violáceas e sementes oleaginosas, e de cujos frutos se faz doce e vinho, além de se extrair óleo ou azeite. Há quem afirme que o vinho mais gostoso é extraído da palmeira Oenocarpus bacaba. O óleo extraído de suas sementes é semelhante ao da oliveira, e o espique é usado para esteios, lanças, ripas, etc.

A bacabeira viceja mais na terra firme e, diferentemente do açaizeiro, não forma touceira. São encontradas relativamente esparsas nas matas. É a árvore símbolo do Município de Macapá, embora sua presença já não seja tão marcante na cidade, mesmo nos bairros periféricos. Aliás, é muito difícil se encontrada no campo. Como o vinho é muito gorduroso, não tem a mesma aceitação do açaí. Para melhor compreensão dos leitores, vale o registro da diferença entre pa e paba. Pa significa lugar. Paba que dizer morrer, findar, acabar. O vocábulo Amapá é originário da língua tupi, sendo composto por ama (chuva) e pá (lugar). Macapá decorre de maca (bacaba) e paba (findar), ou seja, onde a macaba finda. ■


As jazidas de ferro do rio Vila Nova


Em 1946, sem medir as conseqüências de seu gesto, o Deputado Federal, João Café Filho, iniciou uma campanha no âmbito da Câmara Federal com o propósito obter o cancelamento do contrato entre o governo do Amapá e a empresa norte-americana Hanna Exploration Company pata exploração dos depósitos de ferro do rio Vila Nova (Anauerapucu). Café Filho julgava que o ferro existente no Amapá deveria permanecer intocável, como reserva nacional, para ser explorado por empresas brasileiras.

No momento em que Café Filho iniciou a campanha o Território Federal do Amapá ainda não tinha representatividade na Câmara Federal, que então funcionava na cidade do Rio de Janeiro. No dia 25.4, o governador Janary Gentil Nunes foi recebido em audiência pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra, apresentando-lhe um relatório dobre o aproveitamento das jazidas de ferro do Amapá, com as propostas firmadas pelas companhias norte-americanas The Hanna Exploration Company e Companhia Meridional de Mineração, com os pareceres de aprovação unânime do Conselho de Minas e Metalurgia, Departamento de Produção Mineral do Ministério da Agricultura e Conselho de Segurança Nacional.

O Presidente Eurico Dutra assinou o Decreto-lei nº 9.198, referendado pelo ministro Neto Campelo Júnior, autorizando o governo do Território Federal do Amapá a contratar o aproveitamento da jazida de minério de que for confessionário. Diante desse ato do chefe do país, espera-se, a todo o momento, que seja assinado o contrato com a Hanna Company, que apresentou condições que assegurarão uma situação excelente para o futuro da região. Alem da exploração, a contratada deveria construir uma estrada de ferro e um porto fluvial em Macapá. No dia 26/4, obedecendo aos termos do decreto do presidente da República, o governador Janary Nunes e o vice-presidente da Hanna Company, senhor Harry Leroy Pierce assinaram o contrato em rápida solenidade realizada na Representação do governo do Amapá, no Rio de Janeiro. Participaram do importante momento o senhor Carl Kimcaid, advogado da contratada, Glycon de Paiva, geólogo do Ministério da Agricultura, o coronel Simpson, do Exército norte-americano, o major Omar Emir Chaves, o ministro Gastão de Oliveira, diretor geral do Banco do Povo, o sr.André Cacinelli, diretor da A Equitativa, o jornalista Roberto Groba, o Vitor Leinz,geólogo,dr.Djalma Cavalcante, representante do governo do Guaporé(Rondônia), Coaracy Gentil Nunes, representante do governo do Amapá, Leal Ferreira, além de outras autoridades, jornalistas, etc.

O fato foi repercutido pelos jornais cariocas “Jornal do Brasil”, “Jornal do Comércio”, “O Radical”, “A Manhã” e a “Tribuna Popular”,que fez restrição apenas ao prazo do contrato, considerando-o larguíssimo.

O jornal “O Globo”, que não se fez presente na solenidade de assinatura do contrato, daí não conhecer suas clausulas, evidenciou que a ferrovia e o porto ficariam controlados pelos capitais estrangeiros. O sr. G.M. Humphrey, presidente da Hanna Company, afirmou a empresa faria prospecções mais apuradas.Se elas fossem satisfatórias, justificar-se-ia a instalação do vultoso equipamento de mineração,bem como a construção da estrada de ferro e do porto. Sem conhecer os termos do contrato e agindo embalado por sua aversão aos yankees, o Deputado Federal pelo Rio Grande do Norte, Café Filho, manifestou-se contra o contrato e concitou seus pares a agirem de igual modo. Não convenceu ninguém e ainda recebeu manifestações de apoio ao Amapá.

Em Macapá, no dia 13.6.1946, ocorreu uma ruidosa manifestação organizada pela Associação Comercial, Agrícola e Industrial, compreendendo uma caminhada pelas principais ruas da cidade, com saída da Praça da Matriz. À frente iam 4 bandeiras do Brasil, seguidas por uma banda de música e manifestando portando cartazes com diversos dizeres: “Concorrência só existe entre nações. Dentro de um país, o amparo deve ser dado ao que mais precisa e maiores vantagens oferece,” “Não vendemos aos estrangeiros a nossa borracha? Por que não podemos vender o nosso ferro?” “O Amapá não se vende! Vende o seu ferro para alicerçar a grandeza do Vale Amazônico.”.


Falta-nos um sistema de cultura


Embora o lema da Bandeira Nacional seja “Ordem e Progresso”, pinçado da frase concebida pelo Frances Augusto Comte: “O Amor por principio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, o Brasil continua sendo um país que tem suas leis, códigos e normas, mas  seus mandatários não gostam de cumpri-las. O absolutismo que prevaleceu na nação brasileira, desde a sua descoberta até o fim da Monarquia, continuou marcante no período republicano e parece não ter fim. Ainda não conseguimos implantar um Sistema Nacional de Cultura porque os governantes preferem posar de “Mecenas”, embora, no serviço público, com aplicação de dinheiro do Tesouro Nacional esse tipo de protetor cultural não existe. O mecenato é próprio dos que usam recursos advindos de suas atividades empresariais ou de quem reserva parte de seus ganhos para estimular os cultores das artes.

 

O Brasil andou perto de implantar um sistema cultural há cerca de quatro anos, mas não o fez, a conta do apadrinhamento que os políticos usam para manter produtores das artes sob suas asas. No Amapá, seguindo os estudos realizados pelo Governo Federal, também elaboramos nosso Sistema de Cultura. O Executivo Nacional reuniu, em Brasília, em 2010, gente de todas as vertentes culturais, dispensando total atenção para os que se mostraram coniventes com a condenável prática de submissão aos chefões do Partido dos Trabalhadores exercida no país. A bola bateu na trave, foi pela linha de fundo e ninguém quis ir buscá-la para dar reinicio ao jogo. Uma prova cabal dessa verdade está no fato dos governantes terem extinguido os Conselhos de Cultura, normativos e fiscalizadores por natureza.

 

Os governantes que não o extinguiram o transformaram em singelos Conselhos Deliberativos, principalmente para acomodar agentes culturais de sua preferência, muito mais militantes políticos do que cultores das artes. Recentemente, no decorrer da campanha política para a Presidência da República, o consagrado compositor/cantor Chico Buarque de Holanda declarou seu irrestrito apoio à candidata Dilma Rousseff. Imediatamente, surgiram nas redes sociais diversas postagens afirmando que a declaração de Chico Buarque decorria do apoio financeiro dado pelo Ministério da Cultura a uma irmã do cantor, algo em torno de oitocentos mil reais. No período em que Gilberto Gil foi Ministro da Cultura, o cantor Caetano Veloso disse que estava sendo discriminado pelo governo, que lhe negou recursos para a realização de um trabalho musical.

 

No Amapá, um parlamentar conseguiu arrancar do orçamento federal a importância de 600 mil reais para contemplar apadrinhados, entre eles um irmão que completava 50 anos de idade. Dentre os governantes amapaenses, o Waldez Góes foi o que mais se aproximou da implantação de um Sistema Cultural. Reinstalou o Conselho de Cultura, que havia sido jogado no abismo por João Capiberibe, instituiu a Lei de Incentivo à Cultura e deu ao Silogeu uma estrutura normativa e fiscalizadora invejável.

 

Os bajuladores e submissos não gostaram. Os que exerceram controle administrativo da Secretaria Estadual de Cultura declararam guerra ao Colegiado e se negaram a fornecer-lhe os documentos que a lei lhe assegurava o direito de exigir. Ao final do mandato dos conselheiros prevaleceu a vontade do parlamentar, que prometeu imorredouro apoio ao Waldez caso ele nomeasse apenas seus escolhidos. O tal parlamentar abandonou com a parceria, já no governo do Camilo, assim que nuvens negras pairaram sobre a cabeça do ex-governador. Agora, a partir do dia 1º de janeiro de 2015, Waldez Góes vai governar o Amapá pela terceira vez.

 

Os membros do setor cultural que almejam ver o Estado trilhando a rota do mérito e não do favorecimento, aguardam medidas saneadores em todos os sentidos. Se isso não acontecer, o Amapá estará ferrado e desamparado da esperança. Basta de tantas festas sem objetividade alguma. Vamos recuperar o Parque do Forte, tornar atrativa uma visita à Base Aérea de Amapá, apoiar as entidades culturais que podem engrandecer as ações de governo e mandar as favas os oportunistas. Agora, em 2018, configurada a vitória de Waldez Góes nas eleições, resta-nos esperar que o tal sonhado Sistema Cultural se torne realidade.


Sonoros de Macapá


O primeiro “sonoro” da cidade de Macapá foi instalado no dia 25 de fevereiro de 1945, por iniciativa do jornalista Paulo Eleutério Cavalcante de Albuquerque, coordenador do Serviço de Informações do Governo do Território Federal do Amapá. Os equipamentos para amplificação de som e voz foram assentados no subsolo da Intendência Municipal e o idealizador do sistema fazia a locução.

Em pontos estratégicos da cidade foram colocados quatro alto-falantes, tipo corneta, através dos quais as informações sobre as realizações do governo territorial e as notícias da segunda guerra mundial chegavam ao conhecimento do público. A cidade era tão pequena, que, querendo ou não, todos os seus moradores ouviam as transmissões.

Este sonoro foi o embrião da Rádio Difusora de Macapá. Após a inauguração da RDM, os equipamentos do serviço de alto-falantes foram incorporados ao acervo técnico da emissora. O segundo sonoro, instalado quando a Rádio Difusora já estava no ar, funcionou ao lado da Sorveteria Central, na esquina da Rua Cândido Mendes com a Avenida Siqueira Campos (Mário Cruz), com locução de Laurindo Banha.

Com um terraço aprazível, a sorveteria pertencente à firma Sarah Rofé Zagury atraía o pessoal apreciava sorvetes e picolés de leite, taperebá, açaí, nescau, maracujá e ameixa.e os que curtia músicas sentimentais.

Corinhos, sambas, baiões, sambas-canção, tangos, foxtrot, guarânias e outros ritmos que faziam grande sucesso no cenário nacional eram executados com muita frequência.

Os frequentadores que estavam desiludidos no amor, pediam composições como “Lama”, “Último Desejo”, “Dez Anos”, “Devolvi”, “Lencinho Branco” e “Madressilvas”. Estes e outros sucessos também tocavam no alto-falante da Farmácia e Drogaria Serrano, que revelou para o rádio amapaense o saudoso amigo Pedro Afonso da Silveira.

Posteriormente surgiram as aparelhagens de som rotuladas como “picarp”, detentoras de invejáveis discotecas. Elas se esmeravam na animação de festas dançantes, sendo a mais famosa a que pertenceu a Jefferson Pechouth, mais conhecido no seio da sociedade boêmia e festeira como Pecó. Cada sonoro festivo tinha suas peculiaridades e locutores.

O sonoro da “Casa Ribamar”, localizado no poste fronteiriço ao referido estabelecimento comercial, na esquina da Avenida Padre Júlio Maria Lombaerd com a Rua Cândido Mendes, entrava no ar as 16 hora e encerrava suas atividades as 18 hora, após a execução da música “Ave Maria”.
Uma sentida mensagem religiosa era lida pelo locutor, que se intitulava como “o amigo de Vocês”. Deste sonoro saiu mais um bom valor do rádio amapaense, Bonifácio Alves. Não havia um só dia que o sonoro da Casa Ribamar não tocava uma música catastrófica, cujo inicio era: Sangue, Sangue, Sangue. Na frente da Casa Ribamar, na Rua Cândido Mendes, estava edificada a Casa Dora, propriedade de Thanus Ziade. O som do alto-falante incidia agressivamente no quarto onde o Raja Ziade, filho do seu Thanus, costumava tirar uma sesta.

Um dia, cansado de ser perturbado, o Raja apanhou um rifle e detonou vários tiros contra o “garganta de ferro”. Foi o que bastou para que um novo aparelho fosse instalado,mas voltado para outro ponto. À proporção que a cidade crescia, algum dono de casa de comércio mandava instalar um sonoro, para fazer a propaganda de seus produtos. No Elesbão, área próxima ao flanco oeste da Fortaleza de Macapá, existiu um sonoro denominado “Alvorada”.

O locutor gostava de tomar uns aperitivos antes do inicio das transmissões. Além do mais, seu português era sofrível. Quando o sonoro entreva no ar, ele caprichava na identificação da aparelhagem, baixando e subindo o nível de som do prefixo. Certa vez, por ocasião de uma animada festa dançante, o locutor quis deixar patente que seu equipamento era melhor que os demais e sapecou esta preciosidade: “Estão ouvindo o Sonoro Arvorada, o único que não tem ruído, não tem zumbido e não tem porra nenhuma. São 250 kilovart de saída e respeite a porrada na caixa”.

Os fofoqueiros que se encarregaram de espalhar está suposta louvação juram que ela de fato aconteceu.