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Nilson Montoril

8 de maio de 1945, o dia da vitória

O grande conflito, que a História registra como II Guerra Mundial, começou no dia 1º de setembro de 1939, ocasião em que a Alemanha invadiu a Polônia para retomar a cidade de Dantzig, situada na foz do rio Vístula e que lhe pertenceu até o fim da I Guerra Mundial. Dantzig passou a ser uma cidade livre do chamado “corredor polonês”, estreita faixa de terra que dividiu a Alemanha em duas partes. Esse espaço ficou sob controle da Polônia e a proteção da Sociedade das Nações. No dia 3 de setembro, a Inglaterra e a França declaram guerra à Alemanha. A ação bélica do Reichswehr (Exército do Reich) rompeu o Pacto de Versalhes assinado pela Alemanha na condição de nação derrotada. Adolf Hitler tinha assumido o poder nazista em 1939, ocasião em que o Reichswehr dispunha de um abundante material bélico apoiado por uma poderosa indústria e era capaz de mobilizar treze milhões de homens. Existia desde 1936 o pacto anti-Komintern (abreviatura da Terceira Internacional Comunista) assinado entre Alemanha, Japão, Itália, Espanha, Hungria e Mandchúria. Esse bloco de paises também ficou conhecido como “Eixo”. A tática usada pela Alemanha era a de atacar a retaguarda do inimigo, isolando-o em bolsões e deixando-o privado dos meios de abastecimento. Com soldados bem treinados colocou em prática a Blitzkrieg, guerra relâmpago, rápida e violenta. A prepotência de Hitler em instalar o Terceiro Reich (Terceiro Reino) não tinha limite. Por isso Benito Mussolini, dizia: “falar Hitler sabe, mas cabeça não tem nenhuma”. Até 1942, a Alemanha foi arrasadora. Pouco a pouco o poderio das nações aliadas, entre elas o Brasil, prevaleceu. Os russos foram os primeiros a atingir o coração da capital do Reich, no dia 2 de maio de 1945. Eles penetraram na Alemanha no dia 29 de abril coroando de êxito uma campanha fantástica. A rendição incondicional da Alemanha foi assinada no dia 7 de maio, na cidade de Reims, onde estava instalado o quartel-general do comandante em chefe norte-americano Eisenhower. O total de mortos na II Guerra Mundial foi de 72 milhões de seres humanos dos quais 26 milhões de soldados e 46 milhões de civis. A União Soviética perdeu 29 milhões de pessoas, sendo 17 milhões de civis e 12 milhões de soldados. Do total de 72 milhões de mortos, 85% estavam do lado dos aliados e 15% do Eixo. As bombas mataram um milhão e 500 mil pessoas.  Aproximadamente doze milhões de seres humanos morreram nos 2.000 campos de concentração e de extermínio. A Alemanha criou os campos de concentração para confinar os indesejáveis: judeus, ciganos roma e sinti, eslavos, homossexuais, testemunhas de Jeová, deficientes motores, deficientes mentais, prisioneiros de guerra soviéticos, membros da elite intelectual polaca,russa e outros países do leste europeu, ativistas políticos, sacerdotes católicos, membros da igreja mórmon, sindicalistas, pacientes psiquiátricos, criminosos comuns e dissidentes políticos. Milhares de criaturas foram usadas como cobaia em experiências, o que acarretou doenças como o tifo e tuberculose. Cinco milhões e meio de pessoas ficaram inutilizadas. Nos campos de concentração ficavam os comunistas e homossexuais inimigos do estado alemão. Para os campos de extermínio, onde ocorria a matança organizada eram mandados os demais presos. Estima-se que foram mortos mais de seis milhões de judeus. Nos sete maiores campos de extermínio o registro de mortos é o seguinte: Auschwitz, 1 milhão e duzentos mil; Treblinka, 850 mil; Sobibor, 167.000; Belzec, 434.500; Chelmno, 152.000; Majdanex, 78.000. Os alemães utilizavam as seguintes cores para identificar a natureza dos presos: amarelo/judeus; vermelho/comunistas e dissidentes; verde/criminosos comuns arianos; púrpura(roxo)/testemunhas de Jeová; azul/imigrantes; castanho/ciganos roma e sinti; negro/lésbicas, alcoólatras e indolentes; rosa/homossexuais., As autoridades norte-americanas estimam que os gastos militares alcançaram a elevada soma de um trilhão e meio de dólares. Só os Estados Unidos despenderam 300 milhões. Nesses cálculos não estão incluídos as perdas das habitações, ferrovias, fábricas, pontes, aeroportos, chacina de rebanhos, extermínio de culturas agrárias, saques de riquezas particulares, telas, esculturas, jóias e móveis de grandes museus. No espaço de tempo em que os russos ficaram em Viena, danificaram o majestoso palácio de Luxemburgo, construído há dois séculos pela imperatriz Maria Tereza, o qual transformaram em garagem e oficina de consertos de suas viaturas militares.

A II Grande Guerra causou sérios problemas para japoneses, italianos, alemães e seus descendentes que residam no Brasil. Eles sofreram retaliações diversas. Nas localidades onde existiam colônias das citadas nacionalidades as escolas foram fechadas e as professoras proibidas de ministrar aulas no idioma pátrio. Muitos migrantes ainda não falavam português. Em 1943, cerca de 10 mil famílias descendentes de japoneses e alemães foram presas e levadas para o interior de São Paulo, isoladas e vigiadas. Invasões sistemáticas da polícia nas casas dos concentrados ocorria com frequência causando-lhes sérios transtornos. A Rádio Tókio e a Voz da Alemanha não podiam ser sintonizadas. Confiscavam-se rádios quando isso acontecia. Bastava uma denúncia feita por qualquer brasileiro para que a polícia agisse. Os anúncios comerciais das casas de comércio desse povo só podiam ser feitos em português. Em Santa Catarina, os alemães e seus descendentes padeceram bastante. Contam-se inúmeros casos de rapazes que foram obrigados a beber até um litro de óleo queimado porque eram tidos como “quinta coluna”, expressão surgida na Espanha durante a guerra civil para rotular o indivíduo que conspira em favor do inimigo. O Clube Germânia, de São Paulo, teve que abandonar essa denominação e adotar outra: Esporte Clube Pinheiro ainda hoje existente. O Clube Esperia passou a ser identificado como Associação Desportiva Floresta. Somente depois de 20 anos voltou a ser Esperia. O Palestra Itália, time de futebol da colônia italiana adotou o nome de Sociedade Esportiva Palmeira. Em 1942, o chefe de Polícia de Belém baixou uma portaria válida para todo o Estado do Pará determinado que os sacerdotes não fizessem rezas em casas particulares. Em decorrência da medida os Padres Felipe Blanke, Antônio Schulte, José Beste, João Theodoro Wermerk, Edmundo José Endres e Pedro Tomé que falavam bem o português, foram proibidos de celebrar missa, ensinar catecismo e realizar visitas domiciliares só porque eram de nacionalidade alemã. A ordem só foi abolida depois que o Arcebispo de Belém, Dom Jaime de Barros Câmara interviu a favor dos missionários. Nessa época ainda não tinha sido criado o Território Federal do Amapá e as autoridades policiais de Belém possuíam jurisdição sobre a área do atual Estado do Amapá.

Um ano com duas eleições

No do mês de janeiro de 1958, ano eleitoral, o deputado Coaracy Nunes e seu suplente Hildemar Pimentel Maia tinham agendado uma série de compromissos vitais para a permanência deles como detentores do único cargo eletivo existente no Território Federal do Amapá. O primeiro deles estava ligado às festividades de São Sebastião, na localidade Carmo do Rio Macacoary, isolada por terra, mas acessível por via fluvial e aérea. Eles sabiam que o uso de uma aeronave governamental suscitaria criticas prejudiciais à postura ética que ambos sempre procuraram evidenciar e isso os levou a fretar um avião particular, cujo piloto era o Oficial Administrativo e comerciante Hamilton Henrique da Silva. Brevetado pelo Aero Clube de Macapá, Hamilton Silva havia comprado o aparelho, um Paulistinha CAP-4, em sociedade com o pecuarista Eugênio Gonçalves Machado e seu genro Carlos de Andrade Pontes. Membro de uma família de fazendeiros no Município de Amapá. Se tivessem optado por uma viagem em barco, não retornariam a tempo de comparecer a uma importantíssima reunião, em Serra do Navio, com técnicos do Ministério de Minas e Energia e gestores da Indústria e Comércio de Minérios S.A.

Nos dois eventos eles manteriam contatos com eleitores, fator positivo para a campanha política que iria começar cedo. Viajaram para a Vila Nossa Senhora do Carmo ao amanhecer. Do Macacoary, o avião seguiria para Porto Grande e daí, até porto Platon o trajeto seria realizado por estrada de rodagem. Entre Porto Platon e Serra do Navio o deslocamento aconteceria em vagão especial da Estrada de Ferro do Amapá. De Macapá à Carmo do Macacoary a viagem foi curta e sem problemas. O Paulistinha era um aparelho com capacidade para transportar um tripulante e 3 passageiros. Levou 3 pessoas e um tambor com gasolina, que seria usado no trecho Macacoary/Porto Grande/Macapá.

O dia 20 de janeiro, consagrado a São Sebastião foi repleto de festejos. O deslocamento até Porto Grande estava programado para o dia 21, assim que amanhecesse. Ocorre que o dia amanheceu nublado e com uma chuvinha classificada de “molhar besta”. Acostumado a voar em situações mais adversas do que a evidenciada na manhã de 21 de janeiro, Hamilton Silva mostrou-se cauteloso. O Dr. Hildemar Maia também ficou receoso. Apenas o Dr. Coaracy Nunes insistiu para que o vôo fosse feito de imediato. A pista de aviação era de terra, aberta em uma área onde existia bastante areia. Para decolar, o pequeno avião precisou acelerar ao máximo e iniciar seu deslocamento até o ponto de decolagem. Árvores com altura acima de 15 metros margeavam a pista, fato que aumentava o receio do piloto. Sem possuir rádio, o Paulistinha operava em voos visuais. Quando tudo indicava que o aparelho ganharia os ares, a roda trazeira do trem de pouso bateu no galho de uma portentosa árvore e despencou contra o solo. Várias explosões ocorreram, envolvendo a aeronave e carbonizando os corpos de seus ocupantes. Naquele momento, o Amapá perdia seu Deputado Federal e o respectivo suplente. Ciente do fato, o Tribunal Superior Eleitoral marcou uma eleição complementar, estabelecendo sua realização no dia 18 de maio. Apenas o PSD registrou a candidatura de seu filiado, Dr. Amílcar da Silva Pereira, que deixou o cargo de governador, sendo substituído por Pauxy Nunes. No pleito de 1954, Coaracy Nunes, concorrendo pelo Partido Social Democrático-PSD, derrotou o candidato do Partido Trabalhista Brasileiro-PTB, João Bruno Lobo por 3.471 votos contra 556. A comoção decorrente da perda de três ilustres cidadãos sacudiu o Amapá.

O PTB preferiu manter-se à parte do processo. Um voto apenas elegeria Amílcar Pereira, mas ele obteve 3.034. Boa parte do eleitorado não se sentiu motivado a votar. Mesmo com as providências tomadas tempo relativamente breve, o médico Amílcar Pereira só tomou posse no dia 26 de junho. O Amapá ficou sem representante na Câmara Federal por quase 6 meses. Nem bem iniciou suas atividades, Amílcar Pereira precisou incrementar a campanha para as eleições de 3/10/1958, uma sexta-feira, quando enfrentaria nas urnas a força do PTB fortalecido com a filiação de ex-correligionários de Coaracy Nunes e Hildemar Maia. O pessoal do PTB chegou a pensar que a eleição estivesse ganha, haja vista que as urnas indicavam uma diferença a seu candidato de 80 votos (2.567 a 2.487). Porém, ao serem computados os votos da 1ª Zona Eleitoral, compreendendo Amapá, Calçoene e Oiapoque, o resultado final revelou a vitória de Amílcar Pereira.

Tropas do Pará ocupam a Guiana Francesa

No dia 14 de janeiro de 1809, tropas brasileiras que haviam saído de Belém no dia 27 de outubro de 1808, composta por 751 homens, ocupavam a cidade de Caiena aprisionando as principais autoridades francesas, inclusive o governador Victor Hugues. Este feito é considerado o batismo de fogo do Corpo de Fuzileiros Navais, criado em Lisboa a 28 de agosto de 1787, e que chegou ao Brasil a 7 de março de 1808, seguindo a Família Real lusitana que fugira das tropas de Napoleão Bonaparte. A ordem para desencadear a operação bélica partiu do Príncipe Regente D. João, que então geria os negócios da Coroa, devido à demência de sua mãe, a rainha Maria I. A declaração de guerra à França ocorreu no dia 1º de maio de 1808, como represália portuguesa a atitude de Napoleão que mandou tropas francesas invadir Portugal. O contingente luso-brasileiro estava sob o comando do tenente-coronel Manoel Marques e foi organizado em Belém pelo tenente-general José Narciso de Magalhães e Menezes que, em 1808, era o governador do Pará. Na época a província estava com reduzida capacidade financeira, fato que levou o capitão-general a assinar uma subscrição que ele próprio iniciou doando seis contos de réis. O restante dos recursos destinados ao pagamento de uma tropa de voluntários foi obtido junto às pessoas de bons recursos que residiam na capital paraense. Não há registro quanto à importância arrecadada, mas ela foi bem expressiva. Além da constituição de uma força terrestre, os líderes da expedição mobilizaram uma frota naval integrada pela escuna “General Magalhães” com 12 peças de artilharia de pequeno calibre; pelos dos brigues “Leão”, “Vingança” “Ninfa” e “Narciso”, cada um com 8 peças; 2 cúteros com 8 peças cada; 3 barcaças canhoneiras; 1 sumaca; 1 lancha e 1 iate. A oito de outubro a expedição partiu de Belém com 400 soldados, aportando na Vila de Breves para embarcar mais 100 homens do 2º Regimento de Infantaria ali aquartelado. No dia 12 de novembro os expedicionários atingiram o Cabo Norte, onde encontraram a corveta “Confiance” da Marina Real Britânica que tinham saído do Rio de Janeiro acompanhada pelos cúteros “Voador” e “Infante D. Pedro”, ambos da Marinha Portuguesa, transportando cada um, 18 fogos. Esta frotilha estava sob o comando do oficial inglês James Lucas Yeo e transportava mais de 300 fuzileiros-marinheiros luso-brasileiros. Na fragata “Confiance”, além da tripulação, viajavam 150 marinheiros ingleses. No dia 1º de dezembro, na foz do Rio Oiapoque, a expedição traçou o plano de ataque, realizando o primeiro embate no dia 15 às margens do Rio Aproak, onde aprisionou a escuna guianense “Petit Adele”. Dias mais tarde apressou a escuna “Creole”, logo incorporada à frota luso-brasileira com o nome de “Lusitânia”.

 

No dia 6 de janeiro de 1809, cerca de 300 homens conquistaram o forte Diamante, edificado no Rio Maroni. Em seguida ocorreram as conquistas dos fortes “Dégrad des Cannes” (sete de janeiro) e Trió (oito de janeiro), ambos eretos na ilha de Caiena. A partir do dia 9, com o recuo dos franceses, teve início a marcha decisiva sobre a capital da Guiana. Como o governador Victor Hugues não aceitou a proposta de rendição apresentada pelos invasores, a invasão da possessão francesa tornou-se inadiável. Na tarde do dia 12 de janeiro de 1809, o governador Victor Hugues se rende e, em Bourgarde, assina a rendição. Caiena foi totalmente dominada no dia 14 de janeiro. Para governar a Colônia de Caiena e Guiana, o Príncipe D. João designou. João Severiano Maciel da Costa, nascido em Mariana, Minas Gerais e formado em Direito pela Universidade de Coimbra. Antes de assumir a nova função, João Severiano ocupava o cargo de Desembargador do Paço, no Rio de Janeiro. Durante o período de 14 de janeiro de 1809 a 21 de novembro de 1817, ele governou Caiena desenvolvendo um belo trabalho. Por força do Tratado de Paris de 30 de maio de 1814, assinado pelas nações que derrotaram Napoleão Bonaparte, a Guiana Francesa deveria ser devolvida à França que então era governada pelo Rei Luiz XVIII. Os franceses pretendiam que a decisão fosse cumprida imediatamente, mas os portugueses só o fizeram a 21 de novembro de 1817. Para administrar a possessão na América do Sul, Luiz XVIII nomeou o conde de Claude Carra de Saint-Cyr, major-general da França e homem de sua extrema confiança.

A força bélica mobilizada contra Caiena contava com um ótimo poderio militar. A escuna “General Magalhães” era a capitânea das tropas paraenses e tinha o tenente coronel Manoel Marques no comando. A fragata “Confiance” estava equipada com 26 canhões e havia sido tomada da marinha francesa pelo capitão James Yeo em 4 de junho de 1805. Naquela oportunidade ele comandava a fragata “Loire” e o apressamento se deu no porto de Muros, na Espanha. O brigue “Voador” viajava sob comando de José Antônio Salgado, e o brigue “Infante D. Pedro” tinha a comandá-lo Luiz da Cunha Moura. Os brigues “Vingança”, “Leão”, “Ninfa” e ‘Narciso” eram comandados pelo tenente Manoel Luiz de Melo).

Migração hebraica para a Amazônia

A Inquisição Ibérica que tanto hostilizou os judeus contribuiu para que eles migrassem para o Brasil, ainda no período colonial. Para não serem condenados a morte, como hereges, grande leva de judeus fez de conta que aceitava o catolicismo. Em Portugal, eles ficaram conhecidos como cristãos novos, rótulo que também os identificou em nosso país. A carência de mão de obra contribuiu para que eles pudessem participar dos esforços lusitanos no povoamento do solo brasileiro e no desenvolvimento das atividades econômicas. Os judeus marcaram presença no ciclo de pau brasil, da indústria extrativa no século XVI, no ciclo do café e da cana de açúcar, no século XVII, no ciclo da mineração, no século XVIII e no ciclo da borracha no século XIX. Judeus de outras partes do mundo começaram a migrar para o Brasil após a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, em 1808. A migração aumentou depois da independência do Brasil e da extinção do tribunal da Inquisição. Em 1808, o governo português se instalou no Brasil, elevando-o à condição de reino unido de Portugal e Algarves. Uma série de medidas governamentais foi tomada no sentido de favorecer a migração, atraindo capital estrangeiro. Em 1824, quando D. João VI já havia retornado a Lisboa e o Príncipe Regente Pedro tinha proclamado a independência da antiga colônia, foi adotada a primeira Constituição brasileira. Na forma do artigo 5º, a Carta Magna estabelecia que o catolicismo apostólico e romano fosse a religião oficial do Império, embora todas as outras fossem permitidas, restringindo a realização de seu culto doméstico ou particular em casas para isso destinadas, sem forma exterior de templo. Nos termos do artigo 179 dessa mesma Constituição “ninguém mais poderia ser perseguido por motivo de religião, uma vez que respeitasse a do Estado e não ofendesse a moral pública”. Essa liberdade religiosa favoreceu a prática livre do comércio e a vinda de profissionais qualificados de todas as crenças e dos mais variados ramos de atividade. Assim, artistas, negociantes, capitalistas, artesãos e profissionais liberais entraram na Amazônia em busca de fortuna.

Os judeus de origem marroquina foram os que migraram em maior quantidade. Só não puderam migrar os judeus que não atendiam os dispositivos do decreto nº 12, de 12 de maio de 1838, aprovado pela Assembléia Legislativa da Província do Pará, que dizia que os estrangeiros cujas nações de origem não tivessem tratado com o Brasil não poderiam ter casas ou lojas de negócios, nem poderiam mascatear sem licença da Câmara Municipal. A licença em questão, segundo o decreto, deveria ser abonada por fiança idônea de quem a requeresse. Em julho de 1838, o Presidente da Província do Pará recebeu dezenas de pedidos de licença para comerciar, que os judeus requereram entre eles os que estavam assinadas pelos marroquinos Leão Serfat, Simão Benjó, Fortunato Cardoso, Judah Arrobas, Anna Fortunato, Duarte Aflalo, Fortunato Abocaxis, Marcos Dias Cohen, Fortunato Benchetrit & Cia, Salomão Levy & Irmãos, Fortunado Bendelack, Moyséis Benzimram, Fortunato Assenmonth e Isaac Benchetrit & Cia. Também apareceram companhias de navegação ligando Belém a Manaus, com escalas em Santarém e Óbidos. Os navios das empresas autorizadas a operar nos rios da Amazônia retornavam a Europa aportando nos Açores, em Lisboa, Barcelona, Marselha, Genova e Tanger. O maior fluxo de imigrantes de procedência marroquina de deve a passagem dos navios por Tanger. Nessa época foi desencadeada uma propaganda destinada aos judeus marroquinos, cujo teor era: “os homens de bons costumes que desejassem melhorar de vida no presente, e assegurar um futuro, deviam emigrar com suas famílias, parentes e amigos para o Brasil e dentro do Brasil ao Pará, cujos patrícios os acolheriam e ofereceriam trabalho e toda a sorte de facilidades para enriquecer. A vida no Brasil representava a vida do homem livre, o presente fácil e o futuro cômodo.” Os judeus que decidiram atender os reclamos da propaganda eram naturais de Tanger, Tetuan, Fez, Rabat, Casablanca, Marrocos francês, Espanha, Argélia, Gilbratar, Lisboa. Radicaram-se em Belém, Manaus, Macapá, Mazagão, Afuá, Almeirim Alenquer, Aveiros, Baião, Cametá, Gurupá, Itaituba, Mocajuba, Monte Alegre, Óbidos, Santarém, Parintins, Itacoatiara, Maués, Manacapuru, Tefé, Manicoré, Humaitá e outras localidades do interior amazônico. Não foram poucos os judeus que requereram licença para desenvolverem o trabalho de regatão, isto é, um mascate fluvial compreendendo um barco ou canoa, que percorria os rios, parando de lugar em lugar, comprando a grosso e vendendo a miúdo. Entre os anos de 1845 a 1858 houve 75 pedidos de licenciamento de regatões. Em 1861, quando ainda não tinha sido iniciado o ciclo da borracha, 96 regatões percorriam os rios amazônicos e 54 deles pertenciam a estrangeiros.

Os judeus que se devotaram ao comércio se valendo de regatões criaram o processo chamado “aviação”, desencadeado pelas casas aviadoras estabelecidas em Belém, Manaus e outras cidades da região. Essas casas aviadoras agiam como verdadeiros bancos e se transformaram em firmas de importação e exportação, arcando com todos os ônus das atividades de extração, comércio e exportação da borracha e de outros produtos florestais. Entenda-se como “aviação”, o ato de expedir, despachar e concluir praticado por grandes comerciantes através de seus caixeiros viajantes embarcados nos regatões. A transação comercial dificilmente utilizava dinheiro e sim troca de mercadoria ou entrega de produtos que o seringueiro precisava para extrair o látex e produzir a borracha. Concluído o ciclo do financiamento, o regatão voltava ao porto do seringueiro para embarcar as bolas de borracha e apurar o saldo ou o déficit do financiado. (continua no próximo domingo).

Igreja Matriz de São José – Parte II

Cont. . . Observa-se que, nos termos da narrativa do Padre Júlio Maria Lombaerd, na fachada da igreja, agora, existiam três portas, três janelas com vidros e pinhões no frontispício. São detalhes arquitetônicos que passaram a existir após as reformas feitas por iniciativa do Padre Rellier.

A iluminação das ruas e travessas de Macapá era a querosene, havendo um servidor municipal que acendia e apagava as luminárias. Voltemos às narrações do Padre Júlio Maria Lombaerd: “Entrado no Santuário, onde não pude conter uma exclamação – Que igreja bonita! E de fato, é uma das mais belas que encontrei, até agora, nesta terra brasileira. É simples e muito e muito simples mesmo e, por conseguinte, sem pormenores arquitetônicos; mas esta simplicidade lhe comunica algo de majestoso, quase misterioso. Tendo apenas uma nave central, sem as laterais, permite-nos vê-la, no conjunto, com o primeiro relance de olhos e avaliar suas dimensões. A nave, da porta de entrada até a mesa de comunhão, mede 22 metros de comprimento por 11 de largura. A estrutura é regular e sem saliências. As paredes são brancas; o piso é de ladrilhos de cimento, com desenhos variados e três divisões com imitação mosaica, marcando a linha média da nave.

 

O altar-mor está bem acima do piso, com seis grandes degraus. De cada lado do altar estão dois outros altares, do mesmo modelo, porém menores. Um tem, na última banqueta, a imagem do Sagrado Coração de Jesus; o outro a de Santo Antônio, mas, na banqueta principal está a imagem de São José, o padroeiro da igreja. O coro é separado do corpo da igreja por uma magnífica mesa de comunhão de ferro fundido. Nesta parte, o corpo da igreja se estreita de maneira a deixar bastante espaço, a cada lado da mesa de comunhão, para dois altares; um consagrado a São Benedito, e outro, a Nossa Senhora, ou antes, a um grupo de Santas Virgens. Há umas três ou quatro imagens destas Virgens, todas bem estragadas; umas mais do que as outras – carcomidas, quebradas. A uma falta mão; á outra braços. São todas pintadas de cores berrantes, quase ridículas.

Do lado do Evangelho está um lindo púlpito esculpido em cedro. No meio da igreja há dois altares laterais, um em frente ao outro. Um consagrado não sei a qual santo, porque há as imagens de São Miguel, São Vicente de Paulo, São Raimundo Nonato, São José e São Tomé, etc. Uma coleção de antiguidades. O do outro lado é consagrado à Sagrada Família. Ao entrar na igreja, o fiel podia ver dois altares separados por uma linda grade de ferro fundido. Um é o altar – túmulo (à direita), com a imagem do Salvador no sepulcro. É encimado pela imagem de Jesus carregando a cruz. Do outro lado está o batistério”.

A partir do segundo semestre de 1948, outras modificações aconteceriam. Presentes nas terras do Amapá desde 1911, os Padres da Congregação da Sagrada Família a deixaram em junho de 1948, repassando ao Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras a missão evangelizadora que haviam recebido em 1911. Os sacramentinos foram substituídos pelos sacerdotes italianos. Os dois primeiros, Aristides Piróvano e Arcângelo Cerqua, chegaram dia 29/5/1948.

No dia 25 de junho de 1948, chegavam a Macapá, por via fluvial, os padres Luiz Viganó, Mário Limonta, Lino Simonelli, Carlos Bassanini e Vitório Galliani. Mestre em restaurações, o Padre Mário Limonta ficou encarregado de reformar a igreja e a casa paroquial. No fundo do templo, foi modificado o altar central, permanecendo nele a imagem de São José. Nos altares ao lado, as imagens do Sagrado Coração de Jesus e a de Santo Antônio de Lisboa cederam espaço para dois belos painéis pintado pelo Pe. Lino Simonelli. À esquerda, cena da Sagrada Família fugindo para o Egito. À direita, a Sagrada Família foi retratada trabalhando na oficina de carpintaria de São José.

A Imagem do Sagrado Coração passou a ocupar o altar onde ficava a imagem de São Benedito, à esquerda da mesa de Comunhão. À direita, saíram as Santas Virgens, colocando-se na banqueta a Imagem de Nossa Senhora do Rosário. Os altares laterais da nave principal foram eliminados. O púlpito permaneceu recebendo melhoramentos. A mesa de comunhão de ferro fundido foi retirada e substituída por outra de alvenaria. A igreja foi pintada por dentro e por fora. Nas laterais foram abertas três portas de cada lado e fechadas as janelas. Posteriormente, em decorrência das decisões do Concílio Vaticano II, a mesa de comunhão deixou de existir, retirou-se o púlpito, o batistério e os bancos próximos ao altar principal. Os padres passaram a celebrar a missa em português e de frente para os fieis. Com o advento da nova catedral, surgiu a idéia de transformar a velha igreja em Santuário, com a reinstalação dos pormenores de outras épocas. . . )

Igreja Matriz de São José – Parte I

Figuro entre as pessoas que preferem usar a palavra templo, para designar a construção onde ocorrem os ofícios religiosos. A palavra igreja, ao tempo de Jesus Cristo, foi utilizada para identificar o conjunto de fieis ligados à mesma fé e sujeitos aos mesmos chefes espirituais. Os gregos chamavam de “ekklesia” as assembléias.

Os romanos também adotaram o termo, substituindo as letras k por duas letras c: ecclesia. Quando poucos indivíduos se reuniam para tratar de assuntos sigilosos, dizia-se que eles estavam fazendo uma igrejinha. Ainda hoje é assim. Foi o próprio Jesus Cristo quem usou a palavra ao se referir a sua comunidade: “lembra-te Pedro que tu és pedra e sobre esta pedra construirei a minha igreja”. Até mesmo algumas seitas protestantes usam a palavra, caso da “Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”.

Nossa pequena cidade de Macapá tem, na igreja de São José, o mais antigo monumento patrimonial da sua história. Mas, a igreja da qual falaremos não foi a primeira a ser erguida na “Província dos Tucujú”.

O primeiro templo era bem humilde, tendo um altar de madeira, sobre o qual ficava a imagem de São José, pai putativo de Jesus Cristo. Deve ter sido construída ainda no final do ano de 1751, na área onde está erguida a Fortaleza. Pouco tempo depois, ainda no mesmo local, foi erigido um novo tempo, em taipa, e coberto de palha.

A Paróquia de São José de Macapá foi criada em 1752, sendo nomeado como Vigário o Pe. Miguel Ângelo de Moraes, presente no povoado desde novembro de 1751. No dia 4 de fevereiro de 1758, ocasião em que o povoado de Macapá foi elevado à categoria de vila, se deu o lançamento da pedra fundamental de uma nova igreja, no Largo de São Sebastião. A 6 de março de 1751, o templo foi inaugurado. As plantas foram elaboradas pelo Sargento Mor da vila e aprovadas pelo arquiteto italiano Antônio Lande, especialista em cartografia e construções.

O aspecto do templo era bem singular. Nas laterais havia uma porta e uma janela alta. A frente do prédio tinha uma porta central de uma só folha. Ao alto, figuravam duas janelas gradeadas com ferro. Ao lado esquerdo do templo se levanta um campanário com uns 15 metros de altura. Em cada face do campanário há um sino.
O acesso ao campanário era feito por uma porta posterior à fachada, através da Passagem passagens do Espírito Santo, à esquerda e de Santo Antônio, à direita. A escada que leva ao piso onde são luxadas as cordas dos sinos é de madeira. Conforme a planta da Vila de São de São José de Macapá, traçada em 1761, pelo Capitão Engenheiro João Geraldo Gronsfeld, a igreja tem a frente para a Rua São José, a seu lado esquerdo, separando-a da casa paroquial havia a Passagem do Espírito Santo. Entre o templo e o Senado da Câmara existia a Passagem de Santo Antônio.

Os fundos demandavam para o Largo dos Inocentes. A coberta era de telha de barro, com um considerável beiral que protegia as paredes. Há informes de que suas características do estilo arquitetônico inaciano foram sendo modificadas com as reformas introduzidas. A reforma mais expressiva, feita antes da chegada dos padres italianos, é mérito do sacerdote francês François Rellier, no início do século dezenove.

O registro descritivo mais rico em detalhes é obra do Padre Júlio Maria Lombaerd, que desembarcou em Macapá a 27 de fevereiro de 1913, egresso de Belém. Além de descrever aspectos da cidade, Padre Júlio fala da igreja: “Da cidade baixa, fomos para a cidade alta, construída na planície. Primeiramente chegamos a uma grande praça, de mais de dois hectares de superfície. É a Praça da Matriz. E, realmente, na nossa frente, do lado oposto da praça, ergue-se solene, quase majestosa, uma grande igreja de pedra. Destaca-se no meio de tudo que a cerca. De construção regular, coberta de telhas francesas, com uma torre ao lado, como todas as igrejas brasileiras, tem um tríplice pórtico, encimado de três belas janelas com vidro. Uma escultura simples, mas de bom gosto. Termina com o pinhão que serve de base para uma cruz branca, dando ao conjunto um toque de esperança e de futuro. Um pavimento ladrilhado, à maneira européia, forma diante do pórtico, uma bela plataforma que termina de cada lado, com uma coluna de madeira com lâmpadas para iluminação”.  (Cont . . . )

Carnaval, coisa de doido e cabra assanhado

As origens do carnaval são bem antigas e a ruidosa festividade provavelmente ganhou notoriedade em Roma, nas saturnais de cunho religioso. O carnaval rigidamente falando, começa na epifania, no dia dos Santos Reis e se estende até a 4ª feira de cinzas, véspera da quaresma. É comemorado no mundo todo, variando as características, mas sempre festa profana de caráter popular. As festas de carnaval têm inicio no domingo da quinquagésisima, estendendo-se na 2ª e 3ª feiras seguintes, período em que se promovem festas e bailes de fantasia. Em Portugal, o carnaval é o período sem restrição para comer carne, em contraposição à quaresma, tempo de jejum obrigatório. São famosos os carnavais de Nice e Paris, na França; Veneza, Roma e Florença, na Itália; Munique, na Alemanha; Montevidéu, no Uruguai; Buenos Aires, na Argentina. Entretanto, é no Brasil que o carnaval adquire grande expressão, principalmente no Rio de Janeiro, Salvador e Recife. O primeiro baile carnavalesco realizado no Rio de Janeiro, aconteceu nos salões do Hotel da Itália e data de 22 de janeiro de 1840. Os proprietários do famoso hotel, influenciados pelas notícias do sucesso dos grandes bailes de máscara da Europa, procuraram imitá-los. O êxito foi tão grande, que o baile foi repetido no dia 20 de fevereiro. Realizado em local fechado e livre da violência do entrudo desenvolvido nas ruas, o baile ganhou fama e passou a ser levado a efeito anualmente. O entrudo português prevaleceu no Brasil colonial e monárquico, sendo a forma mais generalizada de brincar o carnaval. Era um folguedo violento e consistia em atirar contra as pessoas água, através de bisnagas ou limões de cera. Os maledicentes se encarregaram de incluir provisões de pós ou cal, este provocando queimaduras. Os mais bandalhos misturavam incrementos com água, levando o produto em baldes ou cacimbas para as vias públicas a fim de sujarem os transeuntes. Sujos e em blocos, os baderneiros não tinham respeito por ninguém. Os componentes da brincadeira eram rotulados como “bloco de sujos” ou “arruaceiros” A prática só mudou depois que a polícia foi obrigada a intervir para civilizar o jogo selvagem. Os brincantes passaram a usar água perfumada, vinagre, groselha e vinho, sempre com o propósito de molhar e sujar que passava desprevenido perto da baderna. O uso de bisnagas e limões de cheiro cessou quando ocorreu a introdução da serpentina, em 1892 e do Lança-perfume, em 1911.

Em 1846, o Teatro São Januário passou a concorrer com o Hotel da Itália, embora seus freqüentadores não tivessem os mesmos requintes do promotor pioneiro. Em 1846, o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes, que residia no Rio de Janeiro, saiu pelas ruas do bairro onde morava batendo um bumbo na horizontal. Nas bandas de música da época o bumbo sempre era tocado na vertical, com os couros voltados para os lados. A novidade não passou despercebida, dando origem ao surdo de hoje. Por onde o José Pereira passava os foliões o seguiam formando blocos compostos apenas por homens. A ação desenvolvida pelo Zé Pereira era um velho costume praticado em Portugal. No carnaval do ano de 1847, surgiram outros animadores da folia. Ao contrário do que muitos pensam, a famosa quadra carnavalesca que enaltece o Zé Pereira não foi cantada por ele e sim pelo comediante Francisco Correia Vasquez integrante de uma companhia teatral que levou à cena, em 1896, a paródia de “Lês Pompiers de Nanterre” (Os Bombeiros de Nanterre), na qual apregoava os méritos de grande animador do José Nogueira. Embora o sobrenome do animado lusitano fosse Paredes, o povo entendia que ele pronunciava Pereira, daí ter passado à história como Zé Pereira. A quadra original cantada por Francisco Correia era:

“E viva o zé-pereira
Pois que a ninguém faz mal
Viva a bebedeira
Nos dias de carnaval”

Em 1886, os jornais classificavam como cordões os grupos de foliões mascarados e provocadores. Seus integrantes saiam fantasiados satirizando personalidades e autoridades. Estes cordões lembravam os antigos cortejos de negros que participavam das procissões de Nossa Senhora do Rosário. Os instrumentos usados eram os chocalhos, tambores, reco-reco e cuíca. Um sujeito tocando apito comandava a folia. Em 1870, os bailes carnavalescos realizados em casas de espetáculos se generalizaram. No ano seguinte, até mesmo o Imperial Teatro Pedro II aderiu à moda, seguido depois pelo Teatro Santana, cujos bailes tornaram-se popularíssimos. Em 1879, um rinque de patinação denominado Shating Rink promoveu um baile que se estendeu até o romper do dia. No final do século XVIII existiam vários clubes dançantes promovendo festas carnavalescas. Até mesmo a Société Française de Gymnastique, cujo público era rigorosamente selecionado. Nos bailes de antigamente, quando ainda não existiam as músicas carnavalescas, o ritmo que prevalecia era a polca, seguida da quadrilha, da valsa, do tango, do Charleston e do maxixe. A primeira música realmente carnavalesca é a polca “Ô Abre Alas”, composta por Chiquinha Gonzaga, em 1899, para o Cordão Rosa de Ouro, que ensaiava próximo à casa da compositora. Ainda hoje, nos locais aonde são realizadas festas de salão, ela é bastante executada.

O porco-carneiro de Macapá

O cidadão João Barca de Araújo Coutinho, membro de uma família tradicional de Macapá, exercia a profissão de marceneiro quando ocorreu a criação do Território Federal do Amapá, a 13/9/1943. A exemplo de seus conterrâneos gostou da novidade, mas ficou meio escabreado com as noticias de que tudo mudaria na cidade onde residia. Na época, Macapá era uma pequena e carente cidade do Estado do Pará, onde o tempo passava de modo pachorrento. Muitos moradores possuíam “roçados” nas áreas periféricas da cidade e criavam seus animais soltos pelas ruas, passagens e largos. João Barca possuía um belo boi-cavalo, que em outras regiões do Brasil é denominado boi-de-montaria Era, então, figura de destaque do Marabaixo, tendo composto vários “ladrões” de sucesso. Também é de sua autoria uma canção dolente denominada “A Morte do Pedreira”.

O Pedreira foi um cavalo que pertenceu a Jeribá Álvares da Costa, criador de gado nos campos que margeiam o rio Macacoary e morreu de inanição devido ao descuido do vaqueiro encarregado de sua alimentação e segurança. O falecimento do Pedreiro ocorreu no local onde está erguido o Teatro das Bacabeiras. Após a instalação do governo territorial, a 25/1/1944, os hábitos dos moradores foram mudando gradativamente. O boi-cavalo do João Barca deixou de pastar livremente no centro de Macapá. Capim para alimentá-lo não faltava, razão pela qual o animal era mantido no cercado da residência de seu proprietário, situada à Rua General Gorjão, entre as Ruas São José e Coronel José Serafim Gomes Coelho, a atual Tiradentes. João Barca era vizinho de meu pai, Francisco Torquato de Araújo e seu compadre de “águas bentas”.

No dia da festa de São José, seu João Barca preparava o boi-cavalo com muito capricho, colocava uma bela sela em seu dorso e o levava para o largo da Matriz. Quem quisesse dar uma voltinha ou apenas tirar fotografia montado no boi-cavalo, pagaria Cr$ 1,00 (um cruzeiro). Habilíssimo com suas ferramentas de marceneiro, seu João Barca fabricava móveis, esquadrias, utensílios domésticos e brinquedos. Na oficina dele havia uma serra igualzinha a que aparece na pintura feita pelo Padre Lino Simonelli, ao lado esquerdo do altar mor da igreja de São José. Em 1953, por ocasião da realização da 6ª Feira de Animais e Produtos Econômicos, levada a efeito na Fazendinha, a Divisão de Pesquisa e Produção apresentou como novidade uma raça de porco totalmente desconhecida na região e pouco difundida no Brasil, a chamada porco-ovelha. A raça é originária da Áustria e da Hungria e o animal tem pelos densos e cacheados, parecendo lã. Provém do cruzamento da raça britânica Lincolnshire Curly Coat com a raça Mangalitza, na Áustria. Em 1900, os porcos da Inglaterra foram vendidos para a Áustria e Hungria, países onde surgiu a raça Mangalitza Gilt. Em 2007, os ingleses decidiram reintroduzir o porco-ovelha na Grã-Bretanha, extinta na comunidade desde 1972. O animal comprado por João Barca era um macho, ainda pequeno e tinha poucos pelos brancos. A proporção em ele que foi crescendo, os pelos cacheados foram aparecendo. A novidade foi considerada uma aberração da natureza, decorrente do cruzamento de um porco com uma ovelha, coisa impossível de acontecer, porque são animais de espécies diferentes.

A curiosidade humana transformou o porco-carneiro numa celebridade. Gente à beça aparecia na casa do João Barca querendo ver a extraordinária criatura. O assédio só diminui quando o dono do porco pintou uma tabuleta, pendurando-a na cerca de sua casa: “Porco-carneiro, entrada Cr$ 1,00” . Além do salário de servidor público lotado na Garagem Territorial, João Barca contava com os ganhos advindos do boi-cavalo, do porco-carneiro e de seus biscates como marceneiro. A existência do porco rendeu ao Batista, filho do João Barca, a alcunha de porco-carneiro, haja vista que lhe cabia receber os curiosos, cobrar a taxa de visita e cuidar do animal. Porém, com o passar do tempo, o apelido foi esquecido e o Batista apenas ri quando essa história é lembrada.

Submarinos alemães afundados na costa do Amapá

A Kaiserliche Marine da Alemanha utilizou 1.168 submarinos na II Guerra Mundial.  Cerca de 150 atuaram no litoral brasileiro e afundaram 33 navios mercantes que transportavam matérias primas para os Estados Unidos da América. Os alemães identificavam estas poderosas armas como “Unterseeboat”, que literalmente quer dizer “pequeno barco de baixo-de-água”. De forma simplifica, usavam a letra U e um número para identificá-los. Singrando as águas atlânticas, entre os Estados Unidos e o Golfo do México, os U-boats tinham o propósito de afundar navios de carga que transportavam suprimentos e material bélico dos Estados Unidos e Canadá para a Europa.  Ao entrarem na guerra, os Estados Unidos fizeram uso de radar, sonar, carga de profundidade, decodificação de códices, escolta aérea e formação de comboios, diminuindo a eficácia alemã. Em meados de 1941, começou a ser instalada a “Cintura do Atlântico”, que correspondia ao trecho de 1.700 milhas entre Natal e Dacar. O Brasil autorizou os USA a instalar bases aéreas nas cidades de Amapá, Belém, Natal e Recife e liberou-lhes os portos de Recife e Salvador. Ainda em meados de 1941, chegava a Natal a “Task-Force 3” dos Estados Unidos. Em represália, os alemães atacaram navios brasileiros na costa americana e no Caribe. Foram a pique os navios Cabedelo, Buarque, Olinda, Arabutan, Cairu e Parnaíba. Em águas brasileiras, o submarino italiano “Bergarigo” torpedeou sem sucesso o navio Comandante Lira.Barcos corsários camuflados de navios mercantes supriam as necessidades dos submarinos alemães. Havia U boats que só faziam o abastecimento dos outros e eram chamados de “milchkuh” ou vaca leiteira. A Força do Atlântico Sul, criada pelos americanos estava sediada em Recife. A ação contra os U-boats destruiu nove unidades alemãs, duas delas na costa do Amapá: U-590 e U-662.

 

O U-Boat-590, comandado pelo capitão OBLT Werner Kruer vinha sendo caçado porque afundara o navio Pelotas Lóyde. Navegava na superfície ao largo da costa do Amapá, em alto mar, dia 9/7/1943, quando o avião Catalina PBY-3, do Esquadrão PV-94 sediado em Belém, que patrulhava a região norte o avistou a 200 milhas do litoral amapaense. Ao perceber a aproximação do avião o submarino emergiu e desapareceu por cerca de uma hora. Logo depois retornou á superfície, ocasião em que o catalina mergulhou sobre ele e lançou suas bombas, atingindo-o em cheio. O U-590 foi ao fundo no ponto demarcado por 3º e 22’ de Latitude Sul e 48º, 38’ de Longitude Oeste. Restaramna superfície do oceano 5 homens e vários destroços. A tripulação do Catalina jogou ao mar várias balsas, mas apenas 2 alemães conseguiram alcançá-las. Horas mais tarde eles foram recolhidos por um navio e levados para os Estados Unidos e submetidos a interrogatórios.

 

O U-Boat-662 navegava ao largo da costa do Amapá, no dia 21/7/1943, comandado pelo capitão OBLT Heinz-Eberhard Muller, a espreita do comboio T3-2, que seguia com destino aos Estados Unidos. Ele já havia afundado três navios. O Catalina 94-P-4, que dava cobertura aos navios brasileiros avistaram o submarino a 4 milhas de distância e se posicionou para o ataque. O submarino imediatamente acionou a artilharia antiaérea, conseguindo ferir o radiotelegrafista do avião. O aparelho iniciou um pique raso, já atingido pelo fogo inimigo. Mesmo com problemas no estabilizador vertical e na cantoneira exterior do casco da estação radiotelegráfica, o Catalina conseguiu despejar suas bombas sobre o submarino, atingindo em cheio o casco a bombordo, da torre de comando à frente da proa. Esta se elevou sob espessa cortina de fumaça e o submarino afundou sob mancha de óleo. Pouco tempo depois, quatro tripulantes, entre eles o capitão foram vistos na superfície do oceano. O Catalina lançou balsas, para onde nadaram os sobreviventes que foram resgatados pelo navio USS – S Siren e levados para os Estados Unidos. Bastante danificado o catalina 94-P-4 retornou a Belém com problemas hidráulicos e de comunicação pelo rádio. O submarino foi a pique na posição Latitude 3º 56’ Sul e Longitude 48º 46’ Oeste.

Macapá deixa de ser povoação

Aproveitando o ensejo da viagem que realizou a Capitania de São José do Rio Negro, onde foi tratar das questões fronteiriças de Portugal com a Espanha, o Capitão General Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Governador do Estado do Grão Pará, colocou em prática o plano de elevar as povoações mais expressivas à condição de vila e as aldeias indígenas ao nível de povoado…

Antes de aportar em Macapá, Mendonça Furtado parou na aldeia dos índios Urucará, onde o Padre Antônio Vieira havia introduzido índios nheengaíbas, perseguidos por escravagistas. No dia 24 de janeiro de 1758, a aldeia Urucará foi elevada à categoria de vila e testemunhou a instalação do Senado da Câmara. A denominação mudou para Portel. A comitiva do governador chegou a Macapá dia 1º de fevereiro e as delineações do espaço que iria abrigar a vila ocorreram imediatamente. Este espaço corresponde as Praças Veiga Cabral (Largo de São Sebastião) e Barão do Rio Branco (Largo de São José/São João).

As denominações dadas aos dois largos traduzem bem a intenção de Mendonça Furtado em homenagear não apenas os santos, mas também seu irmão Sebastião José de Carvalho e Melo e o Rei D. José I. é claro que o delineamento em questão não passou de uma simples escolha, sem compreender a limpeza total da área, que por ser de cerrado facilitou a empreitada. No dia dois de fevereiro, a cerimônia de posse dos membros do Senado da Câmara certamente aconteceu no núcleo pioneiro de Macapá. Nela havia instalações diversas e a população ali residia. Devido ao porte que Mendonça Furtado quis dar a Macapá, o Senado da Câmara foi formado por quatro membros: Francisco Espíndola Bittencourt, que exerceria a presidência e seria o Juiz Ordinário; Carlos de Melo, acumulando as funções de Procurador do Executivo e Tesoureiro; Thomé Francisco Vieira e Manoel José Paes como vogais. Todos eram açorianos, brancos e letrados. Finda a cerimônia de posse, a comitiva do governador, acrescida por militares do reduto fortificado e por populares deu vivas ao Rei de Portugal e desejou-lhe longa vida. A ligação entre o platô da fortificação e a área do atual centro histórico era feita através de uma ponte de madeira construída sobre o igarapé do Igapó e por uma estrada aterrada. A abertura de vias públicas data de 1761, correspondendo a nove ruas, nove travessas e passagens, dois largos maiores e um largo menor.

No dia 4 de fevereiro houve missa campal celebrada pelo bispo Miguel de Bulhões e concelebrada pelo Padre Miguel Ângelo de Morais. Encerrado o ato litúrgico o bispo do Grão-Pará assentou a pedra fundamental da Igreja de São José. A seguir, o Governador Mendonça Furtado convidou o Ouvidor Geral Pascoal Abranches Madeira Fernandes a conduzir o cerimonial que redundaria na declaração de elevação do povoado à categoria de vila, que o fez de maneira formal e marcante, a começar pela ereção do pelourinho, símbolo das franquias municipais. Em Portugal “o pelourinho era um pilar de pedra, de estilo burlesco, mas às vezes formoso. Servia de poste para o condenado receber açoites, como lugar de execução, do qual penduravam o criminoso, ou contra o qual se estrangulava e decapitava.” Na Amazônia bastava um grosseiro tronco de madeira com duas travas cruzadas no topo ou argolas. Aos romanos o denominavam pilori e o tinham como símbolo da autoridade e da justiça.

O termo pilori evoluiu para pelouro, que era cada um dos ramos da administração de uma vila ou de uma cidade afeta aos vereadores da Câmara Municipal, onde se reuniam os vogais representantes do povo e entre eles o Juiz Ordinário e o Procurador. A franquia de que desfrutavam as vilas consistia na liberdade e direito de cobras impostos e ministrar a justiça em primeira instância. O vogal era o representante paritário da classe popular e tinha direito a voto. A direção da segunda vila a ser instalada por Mendonça Furtado foi exercida pelo Senado da Câmara, cujo prédio foi construído ao lado direito da Igreja, no espaço que hoje abriga a Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda.

Pouco a pouco, a contar de 1761, as casas destinadas aos moradores da vila e os prédios públicos foram sendo construído em taipa-de-mão. A área inicialmente habitada era delimitada pelas ruas Formosa (Cândido Mendes) e da Campina (Tiradentes) e pelas Travessas do Lago (General Gurjão) e da Estrela (Presidente Vargas). Por trás da Igreja de São José, que sempre ficou de frente para a rua São José, passava a rua dos Inocentes, interligando as travessas do Lago e da Estrela. O largo que demorava após a igreja também ficou rotulado pelo povo como Largo dos Inocentes. Com o passar do tempo, o quadrado compreendido entre a Rua São José, a rua da Campina e as Travessas do Lago e da Estrela tornou-se o ponto mais habitado de Macapá. O povo dizia que ali tinha tanta gente que mais parecia um formigueiro. A expansão no sentido do rio Amazonas ocorreu muito tempo depois. Neste dia 4 de fevereiro de 2012, comemoramos os 254 anos da elevação do povoado de Macapá à categoria de vila. Se contarmos o tempo desde o ano de 1751, período em que Macapá passou na condição de povoado, a existência de colonizadores nesta área sobe para aproximadamente 261 anos.