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Nilson Montoril

Os jabutis da política estão assanhados

Não estarei dizendo nenhuma novidade, se comparar os políticos a um jabuti encontrado no galho de uma árvore.  Todos sabem, que o jabuti costuma ficar sobre troncos de arvores caídas nas margens de rios e igarapés, mas só conseguem fazê-lo se o madeiro estiver na diagonal, sem ultrapassar os 30 graus de inclinação. Consequentemente, jabuti não sobre em arvore viçosa, posicionada na vertical. Se você encontrar algum jabuti nas alturas de alguma espécie vegetal pode ter certeza de que alguém o guindou àquele patamar. Na política acontece a mesma coisa. Não venham me dizer que os eleitos para ocupar cargos eletivos são bem sucedidos nas eleições porque são fora de série, excepcionais, verdadeiras sumidades. Chegam a determinados cargos à conta de muita conversa e “agrados”, alguns considerados ilegais pelo órgão que se encarrega da justiça eleitoral. Em determinadas eleições despontam cidadãos apadrinhados por gente que detém o poder econômico e decide financiar a campanha do neófito. Ele não entra inocente na parada. Vai para o teste nas urnas, ciente de que terá de compensar seus colaboradores caso seja eleito.

 

Em outros tempos já era assim, mas, devido às circunstâncias de cada época, o povo não tinha acesso aos detalhes de uma campanha e votava em quem seus patrões, parentes e amigos mais esclarecidos, embora comprometidos, Indicavam. Aqui no Amapá, tivemos a oportunidade de vemos candidatos e candidatas que saíram do nada. Tiveram seus nomes lançados para disputarem cargos eletivos contra verdadeiras “cobras criadas “ou “macacos velhos do fundo pelado”, como diziam antigos moradores de Macapá. Saíram para o pleito porque seus padrinhos políticos ficaram com medo de enfrentar adversários com força eleitoral. Basta lembrar duas cidadãs de nossa terra, que enfrentaram o atual senador José Sarney, mas acabaram sendo derrotadas, embora a votação obtida chamasse a atenção de todos. Novamente, estamos vendo que o receio volta a perturbar os adversários de Sarney.

 

A campanha ainda nem começou e seus adversários andam doidos para saber se o senador vai ou não se candidatar. Por seu turno, na condição de um político que já passou por momentos tormentosos na política nacional, o senhor José Ribamar fica na dele, quieto, só esperando a época certa para dizer alguma coisa a respeito de sua candidatura. Vale lembra uma estória bem interessante vivenciada pelo falecido deputado Ulisses Guimarães, no decorrer dos contatos mantidos com os militantes do PMDB Jovem. Em uma reunião bastante concorrida, um falante moço usou da palavra para estimular seus colegas a se lançarem com todo o ímpeto possível na caça ao voto. Ao se pronunciar, Ulisses Guimarães contou essa parábola: “No alto de uma montanha, um touro novo, portanto impetuoso e um touro velho, certamente cauteloso, observavam centenas de vacas e novilhas que pastavam tranquilamente em um verdejante vale.

O touro novo disse a seu parceiro: vamos descer o mais rápido possível e pegar uma dez. O touro velho balançou a cabeça em sinal de discordância e falou: não, vamos descer com muita cautela e pegar todas”. Na política, qualquer deslize é fatal. Desgraçado do candidato que tudo promete e não tem condições de honrar com os compromissos assumidos. Mais degenerado é o que se alia a gente de má fé, corrupta, capaz de praticar qualquer ato de improbidade para se dar bem. Esse tipo de gente só precisa de um “pato”, que aceite suas condições. Ocupando um cargo de relevante importância, o “jabuti” apoiado pelos detentores do poder econômico estará irremediavelmente “lascado”, se não os atender com generosas licitações fraudulentas ou dispensa delas, coisa que mais acontece na gestão pública. Só os tolos acreditam que o panorama não é desse jeito.

Sonoros de Macapá

O primeiro “sonoro” da cidade de Macapá foi instalado no dia 25 de fevereiro de 1945, por iniciativa do jornalista Paulo Eleutério Cavalcante de Albuquerque, coordenador do Serviço de Informações do Governo do Território Federal do Amapá. Os equipamentos para amplificação de som e voz foram assentados no subsolo da Intendência Municipal e o idealizador do sistema fazia a locução.

Em pontos estratégicos da cidade foram colocados quatro alto-falantes, tipo corneta, através dos quais as informações sobre as realizações do governo territorial e as notícias da segunda guerra mundial chegavam ao conhecimento do público. A cidade era tão pequena, que, querendo ou não, todos os seus moradores ouviam as transmissões.

Este sonoro foi o embrião da Rádio Difusora de Macapá. Após a inauguração da RDM, os equipamentos do serviço de alto-falantes foram incorporados ao acervo técnico da emissora. O segundo sonoro, instalado quando a Rádio Difusora já estava no ar, funcionou ao lado da Sorveteria Central, na esquina da Rua Cândido Mendes com a Avenida Siqueira Campos (Mário Cruz), com locução de Laurindo Banha.

Com um terraço aprazível, a sorveteria pertencente à firma Sarah Rofé Zagury atraía o pessoal apreciava sorvetes e picolés de leite, taperebá, açaí, nescau, maracujá e ameixa. E os que curtia músicas sentimentais. Corinhos, sambas, baiões, sambas-canção, tangos, foxtrot, guarânias e outros ritmos que faziam grande sucesso no cenário nacional eram executados com muita frequência. Os frequentadores que estavam desiludidos no amor pediam composições como “Lama”, “Último Desejo”, “Dez Anos”, “Devolvi”, “Lencinho Branco” e “Madressilvas”.

Estes e outros sucessos também tocavam no alto-falante da Farmácia e Drogaria Serrano, que revelou para o rádio amapaense o saudoso amigo Pedro Afonso da Silveira. Posteriormente surgiram as aparelhagens de som rotuladas como “picarp”, detentoras de invejáveis discotecas.

Elas se esmeravam na animação de festas dançantes, sendo a mais famosa a que pertenceu a Jefferson Pechouth, mais conhecido no seio da sociedade boêmia e festeira como Pecó. Cada sonoro festivo tinha suas peculiaridades e locutores. O sonoro da “Casa Ribamar”, localizado no poste fronteiriço ao referido estabelecimento comercial, na esquina da Avenida Padre Júlio Maria Lombaerd com a Rua Cândido Mendes, entrava no ar as 16 hora e encerrava suas atividades as 18 hora, após a execução da música “Ave Maria”.

Uma sentida mensagem religiosa era lida pelo locutor, que se intitulava como “o amigo de Vocês”. Deste sonoro saiu mais um bom valor do rádio amapaense, Bonifácio Alves. Não havia um só dia que o sonoro da Casa Ribamar não tocava uma música catastrófica, cujo início era: Sangue, Sangue, Sangue.

Na frente da Casa Ribamar, na Rua Cândido Mendes, estava edificada a Casa Dora, propriedade de Thanus Ziade. O som do alto-falante incidia agressivamente no quarto onde o Raja Ziade, filho do seu Thanus, costumava tirar uma sesta.

Um dia, cansado de ser perturbado, o Raja apanhou um rifle e detonou vários tiros contra a “garganta de ferro”.Foi o que bastou para que um novo aparelho fosse instalado,mas voltado para outro ponto. À proporção que a cidade crescia, algum dono de casa de comércio mandava instalar um sonoro para fazer a propaganda de seus produtos.

No Elesbão, área próxima ao flanco oeste da Fortaleza de Macapá, existiu um sonoro denominado Alvorada. O locutor gostava de tomar uns aperitivos antes do início das transmissões. Além do mais, seu português era sofrível. Quando o sonoro entreva no ar, ele caprichava na identificação da aparelhagem, baixando e subindo o nível de som do prefixo.

Certa vez, por ocasião de uma animada festa dançante, o locutor quis deixar patente que seu equipamento era melhor que os demais e sapecou esta preciosidade: “Estão ouvindo o Sonoro Arvorada, o único que não tem ruído, não tem zumbido e não tem porra nenhuma. São 250 kilowatts de saída e respeite a porrada nas caixas”. Os fofoqueiros que se encarregaram de espalhar está suposta louvação juram que ela de fato aconteceu.

Rompendo laços com o Pará

Quando o Presidente dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas decidiu criar mais cinco Territórios Federais, um com a denominação Amapá, o Estado do Pará tinha 53 municípios, figurando no meio deles Macapá, Mazagão e Amapá. A decisão de Getúlio Vargas visou à ocupação e o desenvolvimento de áreas de fronteira, à época muito vulneráveis. No caso do Território Federal do Amapá, a fronteira com a Guiana Francesa contava com a presença da Colônia Militar de Clevelândia do Norte, mas aventava-se a possibilidade de que tropas alemãs pudessem ser enviadas para a colônia da França, país então ocupado por tropas de Adolf Hitler. O ato presidencial, que tomou o nº 5.812 foi assinado no dia 13 de setembro de 1943. Para governar o Amapá, o presidente da República nomeou o então capitão Janary Gentil Nunes, paraense da cidade de Alenquer. Esta nomeação ocorreu no dia 27 de dezembro de 1943 e a posse do governador aconteceu no dia 29, na sede do Ministério as Justiça e Negócios interiores. O titular da administração amapaense se estabeleceu provisoriamente em Belém, a fim de poder tomar as medidas expressamente necessárias para a instalação do governo. Através dos jornais e das emissoras de rádio divulgou notas a respeito da contratação de mão-de-obra qualificada para construção civil, segurança pública, magistério, medicina, enfermagem, motoristas terrestres e navais. Carpinteiros, marceneiros, vigilantes, pessoal burocrático. Como não havia agência bancária em Macapá, a dotação orçamentária para o exercício de 1944, da ordem de dez milhões de cruzeiros foi depositada na Agência Central do Banco do Brasil, na capital paraense. No dia 25 de janeiro de 1944, uma terça-feira, ao alvorecer, o avião Douglas DC 3, do Aero Clube do Pará, decolou de Belém com destino a Macapá. Além da tripulação, estavam a bordo o Governador Janary Gentil Nunes, o Advogado Raul Montero Valdez, Secretário-Geral, o Advogado e Político João Guilherme Lameira Bittencourt, Secretário-Geral do Pará.

O Interventor Federal do Estado do Pará era o então Coronel Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, investido do cargo desde o dia 8 de fevereiro de 1943. Barata era membro destacado do Partido Liberal e “amigo de farda” de Janary Nunes. Seu apoio ao jovem gestor do Território Federal do Amapá foi importantíssimo. No momento em que se deu a instalação do governo, o município de Macapá contava com uma população de aproximadamente 9 mil habitantes. Em 1920, o contingente populacional do município de Macapá era de 18.387 pessoas. Nesta época a jurisdição de Macapá se estendia à região das Ilhas do Pará e o canal norte do rio Amazonas não figurava como limite territorial entre ele e vizinho estado. A cidade de Macapá, carente de assistência médica, sem energia elétrica, esgoto, água encanada, agência bancária, tinha apenas 1.936 almas. O grosso da população vivia na zona rural. A criação do Território Federal do Amapá tirou do Estado do Pará os municípios de Macapá, Mazagão e Amapá. Consequentemente, restaram 50 municípios. Na Região Norte havia dois Estados: Pará e Amazonas e o Território Federal do Acre, com população de 1.593.100 pessoas. O censo demográfico de 1940 demonstrou que o crescimento vegetativo da população foi mais expressivo na faixa etária de zero a 29 anos, assim distribuído: 0 a 9 anos iguais a 272.933 indivíduos; 10 a 19, em torno de 215.913 almas; de 20 a 29, aproximadamente 171.181 habitantes. Em 1943, a população do Pará era de 1.022.100 habitantes. Viviam 484.100 indivíduos no Amazonas e 86.900 almas no Acre.

O Estado do Amazonas ainda possuía domínio sobres as terras onde surgiram os Territórios Federais de Guaporé (Rondônia) e Rio Branco (Roraima. A exemplo da maioria dos municípios paraenses, as unidades municipais do Amapá enfrentavam sérios problemas de saúde. Se a coisa era complicada na cidade de Belém, imagine no interior. O índice de alfabetização das pessoas com 18 anos para mais era de 46,6%, correspondente a valor absoluto de 229.831 cidadãos, de um montante de 493.666 pessoas residentes na capital. A taxa de crescimento da população variava de 38,49% a 46,51%. A relação das doenças que mais matavam por ano indicava os seguintes dados: Infecciosas e parasitárias (5.042); câncer e outros tumores (286); aparelho circulatório (1.206); urinárias e aparelho genital, exceto doenças venéreas, gangrenas e puerperais (2.820); respiratórias, não incluindo tuberculose (1.278).

Dia de São Januca – I

O “ladrão” do marabaixo, intitulado “Pra Onde Tu vai Rapaz”, que foi originalmente composto por Raimundo Ladislau, ganhou duas interessantes quadras que prestam homenagem ao governador do Território Federal do Amapá, Janary Gentil Nunes. A primeira se reporta a data do aniversário do ilustre cidadão que implantou e implementou o Amapá: “Dia 1º de junho, eu não respeito o senhor, eu saio gritando vivas, ao nosso governador”. Na segunda quadra, que também é atribuída a Luiz Gonzaga, fica evidenciado um desejo perene: “Me agarrei com São José, Padroeiro de Macapá, pra Janary e Coaracy, não saírem do Amapá.” Janary Gentil Nunes nasceu em Alenquer, no Estado do Pará, no dia 1º de junho de 1912. Completaria 32 anos de idade em 1944, ano em que assumiu o governo do Território Federal do Amapá, fixando sua capital na cidade de Macapá e não em Amapá, como estava definido no Decreto Lei nº 5.12 de 13 de setembro de 1943, que criou a nova unidade federada. Tinha a patente de capitão do Exército Brasileiro e integrava a Arma da Infantaria.

Os primeiros estudos foram realizados em escolas públicas de Alenquer e Óbidos, transitando por Belém e, posteriormente a Escola Militar do Realengo no Rio de Janeiro, onde permaneceu de1930 a 1934. Sua atuação em Clevelândia do Norte, na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa e em Belém, comandando a 1ª Companhia Independente de Metralhadoras Antiaéreas da Base Aérea de Val de Cans, no curso da Segunda Guerra Mundial, foram os suportes pessoais que respaldaram sua escolha para governar o Amapá. O então jovem oficial militar tinha plena consciência de que a sua tarefa seria bastante árdua, haja vista que a situação socioeconômica dos municípios de Macapá, Mazagão e Amapá era bastante crítica. A cidade de Macapá, a maior dentre as três sedes municipais não possuía energia elétrica, água encanada, ruas calçadas, unidade de saúde e transporte terrestre motorizado. Com 31 anos, prestes a completar 32, Janary era casado com Iracema Carvão Nunes e o casal tinha uma filha de 5 anos, (Iracema ou Ceminha) e Janary Carvão (Janarizinho), com 3 anos de vida. Dona Iracema enfrentava à época preocupantes problemas de saúde, sendo mais grave a cardiopatia, que a impediu de vir para Macapá de avião.

A Prefeitura Municipal de Macapá operava com um orçamento praticamente insignificante, sem os reforços necessários advindos das cobranças de impostos, taxas e emolumentos. A comuna ocupava o único prédio público digno da cidade, suficientemente espaçoso para abrigar o governo territorial. Não havia sequer uma casa disponível, em boas condições para ser ocupada pelo governador e sua família. Os demais imóveis que antes integravam o patrimônio do Estado do Pará eram de taipa e careciam de reformas urgentes. A mão de obra apta a realizar as melhorias e recuperações estava disponível em Macapá, afinal de contas, até os moradores mais humildes tinham suas casas em taipa de mão, embora a maioria não contasse com assoalho e sim piso de chão. Janary Nunes chegou a Macapá no dia 25 de janeiro de 1944, trazendo consigo o senhor Guilherme Lameira Bittencourt na condição de representante do governo do Pará. Em Belém foi instalada uma representação do governo para recrutar mão de obra especializada em alvenaria, marcenaria, alfaiataria, sapataria, segurança, navegação, saúde, magistério, condução de veículos leves e pesados, serviços hidráulicos, eletricidade, serviço público administrativo, etc. Em meados de abril de 1944, a casa de madeira destinada á família do governador estava pronta. Bem construída, com forro de esteiras, foi de imediata ocupada pelo governador. Porém, dia 1º de maio, Dona Iracema Carvão Nunes, Ceminha, Janarizinho e a jovem Alice Déa, irmã da primeira dama, desembarcavam em Macapá, na condição de ilustres passageiras do Iate Itaguary, uma embarcação que o governo adquiriu junto ao senhor Tibúrcio Andrade, comerciante e pecuarista estabelecido em Santo Antônio da Pedreira.

Os Tupinambás

Os índios da Amazônia portaram-se de maneira amistosa com os aventureiros que navegavam nos rios da região, havendo maior identidade com os franceses. Os aventureiros interagiam com os silvícolas mediante escambo, sem a intenção de escravizá-los. Começaram a insurgir-se quando os portugueses se apossaram de suas terras e os tornaram cativos. Fazendo uso de armas de fogo, os luso-brasileiros combateram os índios e os massacraram impiedosamente levando grupos inteiros a extinção. A população indígena que Francisco Caldeira Castelo Branco estimara em dois milhões de indivíduos sofreu drástica redução. Os índios Tupinambás ocupavam toda a área que se estende de Belém a São Luiz, pelo litoral atlântico e as banhadas pelo rio Guamá. Na Ilha do Marajó viviam os Aruak, que os Tupinambás chamavam “nheengaíbas”, vocábulo que significa “fala ruim”. Entre os Aruak sobressaiam os Aruãs, os Anajás, os Sacacas, os Joanes e os Mocoões.

Antes da chegada dos portugueses, em 1616, os Tupinambás viviam tranquilos e suas aldeias estavam instaladas na área onde surgiria Belém, na região do rio Guamá e arredores. Eles ajudaram os luso-brasileiros a construir o forte do Santo Cristo (Presépio), as primeiras casas dos colonos, a abertura da Rua do Norte (Siqueira Mendes) e a base da Igreja da Matriz (Igreja da Sé). A Rua do Norte foi a primeira a ser aberta na povoação de Santa Maria de Belém e ligava o forte ao local onde surgiria a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Foi no decorrer da construção da Igreja Matriz que os Tupinambás se rebelaram contra os colonizadores. Acostumados a fazer o que bem entendiam, os índios passaram a ser tratados como escravos. O índio que liderou a rebelião tinha o nome cristão de Amaro e fora educado pelos Jesuítas que atuaram nas terras do Maranhão. O centro da revolta funcionou numa povoação chamada Cumat, que os franceses haviam instalado. Em pouco tempo, todos os Tupinambás residentes na região litorânea do Atlântico estavam em estado de guerra. Mesmo no Maranhão, o movimento em defesa da liberdade ganhou adeptos. No primeiro ataque desencadeado pelos Tupinambás ao forte do Presépio ou Castelo, trinta soldados foram surpreendidos e mortos enquanto dormiam. A reação luso-brasileira foi imediata e violenta. Os reforços que o governador do Maranhão, Jerônimo de Albuquerque, expediu para socorrer a povoação de Belém vieram fazendo estragos pelo litoral. O índio Amaro acabou sendo preso e, por ordem de Matias de Albuquerque, foi amarrado a boca de um canhão, tendo o corpo despedaçado com a detonação da arma de guerra. Este procedimento ocorreu na frente dos demais índios aprisionados, no sentido de amedrontá-los. Castelo Branco também foi bárbaro com os gentios e mandou arrasar as aldeias do Caju, Mortigura e Iguape. Os Tupinambás do rio Guamá renderam-se ao alferes Francisco de Medina e foram confinados no forte do Santo Cristo, em Belém.

Desde 1617, alguns franciscanos da Província de Santo Antônio já atuavam em Belém. Tinham construído um convento na margem do igarapé Una, com o objetivo de manter os índios afastados da povoação, evitando assim a escravidão dos mesmos. Mas, Castelo Branco não cessava com suas atrocidades. Só não tomava providências contra as peripécias de um sobrinho que havia matado um capitão. Os colonos se encarregaram de fazer justiça e destituíram do cargo de governador o fundador de Belém, substituindo-o pelo capitão Baltazar Rodrigues de Melo. Temendo ser atacados pelos índios, os colonos se refugiavam à noite no interior do forte. Graças à ação dos franciscanos, os ânimos dos silvícolas foram controlados e um período de tranquilidade reinou na povoação de Belém. Esta tranquilidade foi quebrada pelos Tupinambás, no dia 7 de janeiro de 1619, quando o chefe Guaimiaba (cabelo de velha) comandou um ataque ao forte. A nascente povoação de Belém só não foi arrasada porque Guaimiaba foi morto pelo arcabuzeiro Gaspar Cardoso no momento em que tentava pular a certa da fortificação. A morte do morubixaba fez os índios recuarem e baterem em retirada. No dia 18 de julho de 1621, o controle da capitania do Grão-Pará foi colocado nas mãos de Bento Maciel Parente, que se destacara nas lutas contra os Tupinambás, em 1619, ocasião em que, comandando oitenta soldados e quatrocentos índios flecheiros recrutados em Pernambuco, acabou com os indígenas, entre São Luiz e Belém, aprisionando e escravizando os que sobreviveram. Seu nome está registrado na História da Amazônia, como um dos mais sanguinários e violentos matadores de índios. Em junho de 1622, quase um ano depois de assumir a direção da capitania, Bento Maciel Parente praticou uma crueldade que deixou os colonos indignados. Durante uma festa que os Tupinambás realizavam um dos chefes, muito entorpecido pela bebida, disse que iria acabar com todos os portugueses. Ciente do que dissera o cacique, Maciel Parente mandou prender os vinte e quatro chefes presentes a festa e encarregou índios inimigos dos Tupinambás para matá-los, acutilados e estocados. Os índios que presenciaram as cenas tétricas abandonaram a foz do rio Amazonas e foram se refugiar em uma ilha do rio Madeira, que passou a ser chamada de Ilha Tupinambarana. Deixaram valiosíssima contribuição no Pará, ajudando na construção das igrejas da Matriz (atual catedral de Belém), Carmo, Mercês, Santo Alexandre e Santo Antônio, em Belém; a Matriz do Bom Jesus na cidade da Vigia, fortificações, moradias e o Palácio do Governo. O vocábulo Tupinambá é de origem tupi e significa “descendente de tupi”.

Uma filha de Cabralzinho na cidade de Amapá

No inicio do mês de julho de 1950, o Governador Janary Gentil Nunes formulou convite a Sra. Altamira Cândida da Veiga Cabral Cacela para que ela viesse conhecer Macapá, capital do Território Federal do Amapá e a cidade de Amapá, onde tseu pai, Francisco Cabral da Veiga Cabral, o Cabralzinho, liderou a reação dos brasileiros contra as pretensões dos franceses. Altamira Veiga Cabral era a terceira filha do casal Francisco Xavier da Veiga Cabral e Altamira Waldomira Vinagre da Veiga Cabral. Seu avô Pedro Augusto de Oliveira Vinagre descendia do tenente da Guarda Nacional, Francisco Pedro Vinagre, o 2º Presidente Cabano do Pará. Altamira Cândida já estava viúva do jurista e homem público do Pará, depurado estadual na década de 1920 e ex-prefeito de Belém na década de 1930, Dr. Alcindo Comba do Amaral Cacela. Dentre as filhas de Cabralzinho foi a que conviveu por mais tempo com o herói do Amapá. Sabia detalhes históricos da refrega entre brasileiros e franceses que o próprio pai lhe contou. Muitos destes detalhes foram repassados aos estudantes de Belém que a procuravam frequentemente. Desta feita ela iria conhecer a antiga vila do Espírito Santo do Rio Amapá Pequeno, local onde seu pai, a 15.05.1895 se notabilizou impedindo que os franceses consolidassem a ambição de dominar a região entre a margem esquerda do rio Araguary e a margem direita do rio Oiapoque. A ilustre visitante chegou a Macapá no dia 19 de julho de 1950, viajando em avião do Correio Aéreo Nacional-CAN, sendo festivamente recepcionada pelas autoridades, estudantes e populares.

Às 17 horas a senhora Alcindo Cacela, participou de uma solenidade realizada no Cine-Teatro Territorial, entregando ao governador Janary Nunes a farda de General Honorário do Exército Brasileiro que Cabralzinho usava nas solenidades cívicas, espada, cinto e insígnias. Também passou ao governador uma bandeira brasileira e uma francesa, ambas rasgadas, bandeira do Estado do Pará e do Triunvirato do Território Amapaense. Compareceu à solenidade o senhor Bernardo Batista da Silva, então com 63 anos de idade, mas que, segundo Otávio Meira, autor de “Fronteira Sangrentas”, tinha 8 anos em 1895. Ele era natural da vila de Amapá e recebeu grave ferimento no punho esquerdo devido a um tiro desferido pelos invasores. Bernardo Batista da Silva faleceu em Macapá no dia 7 de dezembro de 1979, com 99 anos. Até o dia 21 de julho a senhora Altamira da Veiga Cabral ficou em Macapá como hospede do governo territorial, alojada no Macapá Hotel. Dia 21, pela manhã, a ilustre visitante tomou o avião do CAN que fazia a linha Rio de Janeiro-Caine e seguiu para o Município de Amapá, desembarcando na pista da Base Aérea. Na cidade de Amapá ela foi saudada pelo Dr. José da Silva Castanheira, Juiz de Direito da Comarca local e pelo Prefeito Vitorino Luna. Algumas pessoas que participaram do ato de reação contra os franceses mantiveram demorada conversa com dona Altamira. No dia 22 de julho, aproveitando a escala que o avião do CAN fez em Amapá, com destino a capital da Guiana Francesa, com nova parada em Oiapoque, a filha de Cabralzinho seguiu para a cidade fronteiriça onde recebeu homenagens das autoridades e do povo. Ali conheceu outro cidadão que lutou ao lado de seu pai: Guilherme da Luz. Em 1950, Guilherme da Luz contava 79 anos de vida e deve ter nascido em 1877. Falecer em Oiapoque com 97 anos. Quando o avião retornou de Caiene e pousou em Oiapoque, dona Altamira Cândida da Veiga Cabral Cacela nele embarcou e voltou para Belém.

Os objetos que a senhora Altamira entregou ao governo do Amapá foram repassados ao Museu Territorial instalado no interior da Fortaleza de São José. A bandeira do Triunvirato correspondia a um retângulo dividido em três faixas horizontais de igual dimensão, nas cores vermelho branco e vermelho. A bandeira francesa é butim de guerra e foi tomada do soldado Etyenne depois que Cabralzinho o feriu com um tiro no rosto.

O uniforme de General Honorário foi vestido em um manequim cujo rosto tinha as feições de Cabralzinho. Nele estavam colocadas as insígnias do herói. A espada de Cabralzinho também estava colocada no manequim. A farda que Cabralzinho usava nas solenidades cívicas lhe foi concedida pelo Exército Brasileiro no Rio de Janeiro, dia 11 de junho de 1896.

8 de maio de 1945, o dia da vitória

O grande conflito, que a História registra como II Guerra Mundial, começou no dia 1º de setembro de 1939, ocasião em que a Alemanha invadiu a Polônia para retomar a cidade de Dantzig, situada na foz do rio Vístula e que lhe pertenceu até o fim da I Guerra Mundial. Dantzig passou a ser uma cidade livre do chamado “corredor polonês”, estreita faixa de terra que dividiu a Alemanha em duas partes. Esse espaço ficou sob controle da Polônia e a proteção da Sociedade das Nações. No dia 3 de setembro, a Inglaterra e a França declaram guerra à Alemanha. A ação bélica do Reichswehr (Exército do Reich) rompeu o Pacto de Versalhes assinado pela Alemanha na condição de nação derrotada. Adolf Hitler tinha assumido o poder nazista em 1939, ocasião em que o Reichswehr dispunha de um abundante material bélico apoiado por uma poderosa indústria e era capaz de mobilizar treze milhões de homens. Existia desde 1936 o pacto anti-Komintern (abreviatura da Terceira Internacional Comunista) assinado entre Alemanha, Japão, Itália, Espanha, Hungria e Mandchúria. Esse bloco de paises também ficou conhecido como “Eixo”. A tática usada pela Alemanha era a de atacar a retaguarda do inimigo, isolando-o em bolsões e deixando-o privado dos meios de abastecimento. Com soldados bem treinados colocou em prática a Blitzkrieg, guerra relâmpago, rápida e violenta. A prepotência de Hitler em instalar o Terceiro Reich (Terceiro Reino) não tinha limite. Por isso Benito Mussolini, dizia: “falar Hitler sabe, mas cabeça não tem nenhuma”. Até 1942, a Alemanha foi arrasadora. Pouco a pouco o poderio das nações aliadas, entre elas o Brasil, prevaleceu. Os russos foram os primeiros a atingir o coração da capital do Reich, no dia 2 de maio de 1945. Eles penetraram na Alemanha no dia 29 de abril coroando de êxito uma campanha fantástica. A rendição incondicional da Alemanha foi assinada no dia 7 de maio, na cidade de Reims, onde estava instalado o quartel-general do comandante em chefe norte-americano Eisenhower. O total de mortos na II Guerra Mundial foi de 72 milhões de seres humanos dos quais 26 milhões de soldados e 46 milhões de civis. A União Soviética perdeu 29 milhões de pessoas, sendo 17 milhões de civis e 12 milhões de soldados. Do total de 72 milhões de mortos, 85% estavam do lado dos aliados e 15% do Eixo. As bombas mataram um milhão e 500 mil pessoas.  Aproximadamente doze milhões de seres humanos morreram nos 2.000 campos de concentração e de extermínio. A Alemanha criou os campos de concentração para confinar os indesejáveis: judeus, ciganos roma e sinti, eslavos, homossexuais, testemunhas de Jeová, deficientes motores, deficientes mentais, prisioneiros de guerra soviéticos, membros da elite intelectual polaca,russa e outros países do leste europeu, ativistas políticos, sacerdotes católicos, membros da igreja mórmon, sindicalistas, pacientes psiquiátricos, criminosos comuns e dissidentes políticos. Milhares de criaturas foram usadas como cobaia em experiências, o que acarretou doenças como o tifo e tuberculose. Cinco milhões e meio de pessoas ficaram inutilizadas. Nos campos de concentração ficavam os comunistas e homossexuais inimigos do estado alemão. Para os campos de extermínio, onde ocorria a matança organizada eram mandados os demais presos. Estima-se que foram mortos mais de seis milhões de judeus. Nos sete maiores campos de extermínio o registro de mortos é o seguinte: Auschwitz, 1 milhão e duzentos mil; Treblinka, 850 mil; Sobibor, 167.000; Belzec, 434.500; Chelmno, 152.000; Majdanex, 78.000. Os alemães utilizavam as seguintes cores para identificar a natureza dos presos: amarelo/judeus; vermelho/comunistas e dissidentes; verde/criminosos comuns arianos; púrpura(roxo)/testemunhas de Jeová; azul/imigrantes; castanho/ciganos roma e sinti; negro/lésbicas, alcoólatras e indolentes; rosa/homossexuais., As autoridades norte-americanas estimam que os gastos militares alcançaram a elevada soma de um trilhão e meio de dólares. Só os Estados Unidos despenderam 300 milhões. Nesses cálculos não estão incluídos as perdas das habitações, ferrovias, fábricas, pontes, aeroportos, chacina de rebanhos, extermínio de culturas agrárias, saques de riquezas particulares, telas, esculturas, jóias e móveis de grandes museus. No espaço de tempo em que os russos ficaram em Viena, danificaram o majestoso palácio de Luxemburgo, construído há dois séculos pela imperatriz Maria Tereza, o qual transformaram em garagem e oficina de consertos de suas viaturas militares.

A II Grande Guerra causou sérios problemas para japoneses, italianos, alemães e seus descendentes que residam no Brasil. Eles sofreram retaliações diversas. Nas localidades onde existiam colônias das citadas nacionalidades as escolas foram fechadas e as professoras proibidas de ministrar aulas no idioma pátrio. Muitos migrantes ainda não falavam português. Em 1943, cerca de 10 mil famílias descendentes de japoneses e alemães foram presas e levadas para o interior de São Paulo, isoladas e vigiadas. Invasões sistemáticas da polícia nas casas dos concentrados ocorria com frequência causando-lhes sérios transtornos. A Rádio Tókio e a Voz da Alemanha não podiam ser sintonizadas. Confiscavam-se rádios quando isso acontecia. Bastava uma denúncia feita por qualquer brasileiro para que a polícia agisse. Os anúncios comerciais das casas de comércio desse povo só podiam ser feitos em português. Em Santa Catarina, os alemães e seus descendentes padeceram bastante. Contam-se inúmeros casos de rapazes que foram obrigados a beber até um litro de óleo queimado porque eram tidos como “quinta coluna”, expressão surgida na Espanha durante a guerra civil para rotular o indivíduo que conspira em favor do inimigo. O Clube Germânia, de São Paulo, teve que abandonar essa denominação e adotar outra: Esporte Clube Pinheiro ainda hoje existente. O Clube Esperia passou a ser identificado como Associação Desportiva Floresta. Somente depois de 20 anos voltou a ser Esperia. O Palestra Itália, time de futebol da colônia italiana adotou o nome de Sociedade Esportiva Palmeira. Em 1942, o chefe de Polícia de Belém baixou uma portaria válida para todo o Estado do Pará determinado que os sacerdotes não fizessem rezas em casas particulares. Em decorrência da medida os Padres Felipe Blanke, Antônio Schulte, José Beste, João Theodoro Wermerk, Edmundo José Endres e Pedro Tomé que falavam bem o português, foram proibidos de celebrar missa, ensinar catecismo e realizar visitas domiciliares só porque eram de nacionalidade alemã. A ordem só foi abolida depois que o Arcebispo de Belém, Dom Jaime de Barros Câmara interviu a favor dos missionários. Nessa época ainda não tinha sido criado o Território Federal do Amapá e as autoridades policiais de Belém possuíam jurisdição sobre a área do atual Estado do Amapá.

Um ano com duas eleições

No do mês de janeiro de 1958, ano eleitoral, o deputado Coaracy Nunes e seu suplente Hildemar Pimentel Maia tinham agendado uma série de compromissos vitais para a permanência deles como detentores do único cargo eletivo existente no Território Federal do Amapá. O primeiro deles estava ligado às festividades de São Sebastião, na localidade Carmo do Rio Macacoary, isolada por terra, mas acessível por via fluvial e aérea. Eles sabiam que o uso de uma aeronave governamental suscitaria criticas prejudiciais à postura ética que ambos sempre procuraram evidenciar e isso os levou a fretar um avião particular, cujo piloto era o Oficial Administrativo e comerciante Hamilton Henrique da Silva. Brevetado pelo Aero Clube de Macapá, Hamilton Silva havia comprado o aparelho, um Paulistinha CAP-4, em sociedade com o pecuarista Eugênio Gonçalves Machado e seu genro Carlos de Andrade Pontes. Membro de uma família de fazendeiros no Município de Amapá. Se tivessem optado por uma viagem em barco, não retornariam a tempo de comparecer a uma importantíssima reunião, em Serra do Navio, com técnicos do Ministério de Minas e Energia e gestores da Indústria e Comércio de Minérios S.A.

Nos dois eventos eles manteriam contatos com eleitores, fator positivo para a campanha política que iria começar cedo. Viajaram para a Vila Nossa Senhora do Carmo ao amanhecer. Do Macacoary, o avião seguiria para Porto Grande e daí, até porto Platon o trajeto seria realizado por estrada de rodagem. Entre Porto Platon e Serra do Navio o deslocamento aconteceria em vagão especial da Estrada de Ferro do Amapá. De Macapá à Carmo do Macacoary a viagem foi curta e sem problemas. O Paulistinha era um aparelho com capacidade para transportar um tripulante e 3 passageiros. Levou 3 pessoas e um tambor com gasolina, que seria usado no trecho Macacoary/Porto Grande/Macapá.

O dia 20 de janeiro, consagrado a São Sebastião foi repleto de festejos. O deslocamento até Porto Grande estava programado para o dia 21, assim que amanhecesse. Ocorre que o dia amanheceu nublado e com uma chuvinha classificada de “molhar besta”. Acostumado a voar em situações mais adversas do que a evidenciada na manhã de 21 de janeiro, Hamilton Silva mostrou-se cauteloso. O Dr. Hildemar Maia também ficou receoso. Apenas o Dr. Coaracy Nunes insistiu para que o vôo fosse feito de imediato. A pista de aviação era de terra, aberta em uma área onde existia bastante areia. Para decolar, o pequeno avião precisou acelerar ao máximo e iniciar seu deslocamento até o ponto de decolagem. Árvores com altura acima de 15 metros margeavam a pista, fato que aumentava o receio do piloto. Sem possuir rádio, o Paulistinha operava em voos visuais. Quando tudo indicava que o aparelho ganharia os ares, a roda trazeira do trem de pouso bateu no galho de uma portentosa árvore e despencou contra o solo. Várias explosões ocorreram, envolvendo a aeronave e carbonizando os corpos de seus ocupantes. Naquele momento, o Amapá perdia seu Deputado Federal e o respectivo suplente. Ciente do fato, o Tribunal Superior Eleitoral marcou uma eleição complementar, estabelecendo sua realização no dia 18 de maio. Apenas o PSD registrou a candidatura de seu filiado, Dr. Amílcar da Silva Pereira, que deixou o cargo de governador, sendo substituído por Pauxy Nunes. No pleito de 1954, Coaracy Nunes, concorrendo pelo Partido Social Democrático-PSD, derrotou o candidato do Partido Trabalhista Brasileiro-PTB, João Bruno Lobo por 3.471 votos contra 556. A comoção decorrente da perda de três ilustres cidadãos sacudiu o Amapá.

O PTB preferiu manter-se à parte do processo. Um voto apenas elegeria Amílcar Pereira, mas ele obteve 3.034. Boa parte do eleitorado não se sentiu motivado a votar. Mesmo com as providências tomadas tempo relativamente breve, o médico Amílcar Pereira só tomou posse no dia 26 de junho. O Amapá ficou sem representante na Câmara Federal por quase 6 meses. Nem bem iniciou suas atividades, Amílcar Pereira precisou incrementar a campanha para as eleições de 3/10/1958, uma sexta-feira, quando enfrentaria nas urnas a força do PTB fortalecido com a filiação de ex-correligionários de Coaracy Nunes e Hildemar Maia. O pessoal do PTB chegou a pensar que a eleição estivesse ganha, haja vista que as urnas indicavam uma diferença a seu candidato de 80 votos (2.567 a 2.487). Porém, ao serem computados os votos da 1ª Zona Eleitoral, compreendendo Amapá, Calçoene e Oiapoque, o resultado final revelou a vitória de Amílcar Pereira.

Tropas do Pará ocupam a Guiana Francesa

No dia 14 de janeiro de 1809, tropas brasileiras que haviam saído de Belém no dia 27 de outubro de 1808, composta por 751 homens, ocupavam a cidade de Caiena aprisionando as principais autoridades francesas, inclusive o governador Victor Hugues. Este feito é considerado o batismo de fogo do Corpo de Fuzileiros Navais, criado em Lisboa a 28 de agosto de 1787, e que chegou ao Brasil a 7 de março de 1808, seguindo a Família Real lusitana que fugira das tropas de Napoleão Bonaparte. A ordem para desencadear a operação bélica partiu do Príncipe Regente D. João, que então geria os negócios da Coroa, devido à demência de sua mãe, a rainha Maria I. A declaração de guerra à França ocorreu no dia 1º de maio de 1808, como represália portuguesa a atitude de Napoleão que mandou tropas francesas invadir Portugal. O contingente luso-brasileiro estava sob o comando do tenente-coronel Manoel Marques e foi organizado em Belém pelo tenente-general José Narciso de Magalhães e Menezes que, em 1808, era o governador do Pará. Na época a província estava com reduzida capacidade financeira, fato que levou o capitão-general a assinar uma subscrição que ele próprio iniciou doando seis contos de réis. O restante dos recursos destinados ao pagamento de uma tropa de voluntários foi obtido junto às pessoas de bons recursos que residiam na capital paraense. Não há registro quanto à importância arrecadada, mas ela foi bem expressiva. Além da constituição de uma força terrestre, os líderes da expedição mobilizaram uma frota naval integrada pela escuna “General Magalhães” com 12 peças de artilharia de pequeno calibre; pelos dos brigues “Leão”, “Vingança” “Ninfa” e “Narciso”, cada um com 8 peças; 2 cúteros com 8 peças cada; 3 barcaças canhoneiras; 1 sumaca; 1 lancha e 1 iate. A oito de outubro a expedição partiu de Belém com 400 soldados, aportando na Vila de Breves para embarcar mais 100 homens do 2º Regimento de Infantaria ali aquartelado. No dia 12 de novembro os expedicionários atingiram o Cabo Norte, onde encontraram a corveta “Confiance” da Marina Real Britânica que tinham saído do Rio de Janeiro acompanhada pelos cúteros “Voador” e “Infante D. Pedro”, ambos da Marinha Portuguesa, transportando cada um, 18 fogos. Esta frotilha estava sob o comando do oficial inglês James Lucas Yeo e transportava mais de 300 fuzileiros-marinheiros luso-brasileiros. Na fragata “Confiance”, além da tripulação, viajavam 150 marinheiros ingleses. No dia 1º de dezembro, na foz do Rio Oiapoque, a expedição traçou o plano de ataque, realizando o primeiro embate no dia 15 às margens do Rio Aproak, onde aprisionou a escuna guianense “Petit Adele”. Dias mais tarde apressou a escuna “Creole”, logo incorporada à frota luso-brasileira com o nome de “Lusitânia”.

 

No dia 6 de janeiro de 1809, cerca de 300 homens conquistaram o forte Diamante, edificado no Rio Maroni. Em seguida ocorreram as conquistas dos fortes “Dégrad des Cannes” (sete de janeiro) e Trió (oito de janeiro), ambos eretos na ilha de Caiena. A partir do dia 9, com o recuo dos franceses, teve início a marcha decisiva sobre a capital da Guiana. Como o governador Victor Hugues não aceitou a proposta de rendição apresentada pelos invasores, a invasão da possessão francesa tornou-se inadiável. Na tarde do dia 12 de janeiro de 1809, o governador Victor Hugues se rende e, em Bourgarde, assina a rendição. Caiena foi totalmente dominada no dia 14 de janeiro. Para governar a Colônia de Caiena e Guiana, o Príncipe D. João designou. João Severiano Maciel da Costa, nascido em Mariana, Minas Gerais e formado em Direito pela Universidade de Coimbra. Antes de assumir a nova função, João Severiano ocupava o cargo de Desembargador do Paço, no Rio de Janeiro. Durante o período de 14 de janeiro de 1809 a 21 de novembro de 1817, ele governou Caiena desenvolvendo um belo trabalho. Por força do Tratado de Paris de 30 de maio de 1814, assinado pelas nações que derrotaram Napoleão Bonaparte, a Guiana Francesa deveria ser devolvida à França que então era governada pelo Rei Luiz XVIII. Os franceses pretendiam que a decisão fosse cumprida imediatamente, mas os portugueses só o fizeram a 21 de novembro de 1817. Para administrar a possessão na América do Sul, Luiz XVIII nomeou o conde de Claude Carra de Saint-Cyr, major-general da França e homem de sua extrema confiança.

A força bélica mobilizada contra Caiena contava com um ótimo poderio militar. A escuna “General Magalhães” era a capitânea das tropas paraenses e tinha o tenente coronel Manoel Marques no comando. A fragata “Confiance” estava equipada com 26 canhões e havia sido tomada da marinha francesa pelo capitão James Yeo em 4 de junho de 1805. Naquela oportunidade ele comandava a fragata “Loire” e o apressamento se deu no porto de Muros, na Espanha. O brigue “Voador” viajava sob comando de José Antônio Salgado, e o brigue “Infante D. Pedro” tinha a comandá-lo Luiz da Cunha Moura. Os brigues “Vingança”, “Leão”, “Ninfa” e ‘Narciso” eram comandados pelo tenente Manoel Luiz de Melo).

Migração hebraica para a Amazônia

A Inquisição Ibérica que tanto hostilizou os judeus contribuiu para que eles migrassem para o Brasil, ainda no período colonial. Para não serem condenados a morte, como hereges, grande leva de judeus fez de conta que aceitava o catolicismo. Em Portugal, eles ficaram conhecidos como cristãos novos, rótulo que também os identificou em nosso país. A carência de mão de obra contribuiu para que eles pudessem participar dos esforços lusitanos no povoamento do solo brasileiro e no desenvolvimento das atividades econômicas. Os judeus marcaram presença no ciclo de pau brasil, da indústria extrativa no século XVI, no ciclo do café e da cana de açúcar, no século XVII, no ciclo da mineração, no século XVIII e no ciclo da borracha no século XIX. Judeus de outras partes do mundo começaram a migrar para o Brasil após a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, em 1808. A migração aumentou depois da independência do Brasil e da extinção do tribunal da Inquisição. Em 1808, o governo português se instalou no Brasil, elevando-o à condição de reino unido de Portugal e Algarves. Uma série de medidas governamentais foi tomada no sentido de favorecer a migração, atraindo capital estrangeiro. Em 1824, quando D. João VI já havia retornado a Lisboa e o Príncipe Regente Pedro tinha proclamado a independência da antiga colônia, foi adotada a primeira Constituição brasileira. Na forma do artigo 5º, a Carta Magna estabelecia que o catolicismo apostólico e romano fosse a religião oficial do Império, embora todas as outras fossem permitidas, restringindo a realização de seu culto doméstico ou particular em casas para isso destinadas, sem forma exterior de templo. Nos termos do artigo 179 dessa mesma Constituição “ninguém mais poderia ser perseguido por motivo de religião, uma vez que respeitasse a do Estado e não ofendesse a moral pública”. Essa liberdade religiosa favoreceu a prática livre do comércio e a vinda de profissionais qualificados de todas as crenças e dos mais variados ramos de atividade. Assim, artistas, negociantes, capitalistas, artesãos e profissionais liberais entraram na Amazônia em busca de fortuna.

Os judeus de origem marroquina foram os que migraram em maior quantidade. Só não puderam migrar os judeus que não atendiam os dispositivos do decreto nº 12, de 12 de maio de 1838, aprovado pela Assembléia Legislativa da Província do Pará, que dizia que os estrangeiros cujas nações de origem não tivessem tratado com o Brasil não poderiam ter casas ou lojas de negócios, nem poderiam mascatear sem licença da Câmara Municipal. A licença em questão, segundo o decreto, deveria ser abonada por fiança idônea de quem a requeresse. Em julho de 1838, o Presidente da Província do Pará recebeu dezenas de pedidos de licença para comerciar, que os judeus requereram entre eles os que estavam assinadas pelos marroquinos Leão Serfat, Simão Benjó, Fortunato Cardoso, Judah Arrobas, Anna Fortunato, Duarte Aflalo, Fortunato Abocaxis, Marcos Dias Cohen, Fortunato Benchetrit & Cia, Salomão Levy & Irmãos, Fortunado Bendelack, Moyséis Benzimram, Fortunato Assenmonth e Isaac Benchetrit & Cia. Também apareceram companhias de navegação ligando Belém a Manaus, com escalas em Santarém e Óbidos. Os navios das empresas autorizadas a operar nos rios da Amazônia retornavam a Europa aportando nos Açores, em Lisboa, Barcelona, Marselha, Genova e Tanger. O maior fluxo de imigrantes de procedência marroquina de deve a passagem dos navios por Tanger. Nessa época foi desencadeada uma propaganda destinada aos judeus marroquinos, cujo teor era: “os homens de bons costumes que desejassem melhorar de vida no presente, e assegurar um futuro, deviam emigrar com suas famílias, parentes e amigos para o Brasil e dentro do Brasil ao Pará, cujos patrícios os acolheriam e ofereceriam trabalho e toda a sorte de facilidades para enriquecer. A vida no Brasil representava a vida do homem livre, o presente fácil e o futuro cômodo.” Os judeus que decidiram atender os reclamos da propaganda eram naturais de Tanger, Tetuan, Fez, Rabat, Casablanca, Marrocos francês, Espanha, Argélia, Gilbratar, Lisboa. Radicaram-se em Belém, Manaus, Macapá, Mazagão, Afuá, Almeirim Alenquer, Aveiros, Baião, Cametá, Gurupá, Itaituba, Mocajuba, Monte Alegre, Óbidos, Santarém, Parintins, Itacoatiara, Maués, Manacapuru, Tefé, Manicoré, Humaitá e outras localidades do interior amazônico. Não foram poucos os judeus que requereram licença para desenvolverem o trabalho de regatão, isto é, um mascate fluvial compreendendo um barco ou canoa, que percorria os rios, parando de lugar em lugar, comprando a grosso e vendendo a miúdo. Entre os anos de 1845 a 1858 houve 75 pedidos de licenciamento de regatões. Em 1861, quando ainda não tinha sido iniciado o ciclo da borracha, 96 regatões percorriam os rios amazônicos e 54 deles pertenciam a estrangeiros.

Os judeus que se devotaram ao comércio se valendo de regatões criaram o processo chamado “aviação”, desencadeado pelas casas aviadoras estabelecidas em Belém, Manaus e outras cidades da região. Essas casas aviadoras agiam como verdadeiros bancos e se transformaram em firmas de importação e exportação, arcando com todos os ônus das atividades de extração, comércio e exportação da borracha e de outros produtos florestais. Entenda-se como “aviação”, o ato de expedir, despachar e concluir praticado por grandes comerciantes através de seus caixeiros viajantes embarcados nos regatões. A transação comercial dificilmente utilizava dinheiro e sim troca de mercadoria ou entrega de produtos que o seringueiro precisava para extrair o látex e produzir a borracha. Concluído o ciclo do financiamento, o regatão voltava ao porto do seringueiro para embarcar as bolas de borracha e apurar o saldo ou o déficit do financiado. (continua no próximo domingo).