A instalação da Prelazia de Macapá


O amanhecer do dia 30 de abril de 1950, uma quinta-feira, foi bastante festivo na cidade de Macapá. Uma grande festa tinha sido programada para a mencionada data, enchendo de júbilo a família católica residente na capital do Território Federal do Amapá, que veria ocorrer à implantação da Prelazia de Macapá e a posse do Monsenhor Aristides Piróvano como Administrador Apostólico e o Padre Arcângelo Cerqua como vigário da Paróquia de São José. Desde cedo, concentrado no antigo aeroporto da Panair do Brasil, o povo católico esperava com ansiedade a chegada do avião dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, que traria de Belém o Arcebispo Metropolitano do Pará, Dom Mário Miranda Vilas-Boas, nomeado subdelegado do Núncio Apostólico do Brasil, Don Carlos Chiarlo, na criação da Prelazia.

Ao descer do avião, Don Carlos se fazia acompanhar do Padre Adolfo Serra e ambos foram recepcionados pelo Governador Janary Gentil Nunes, que lhes apresentou destacadas figuras de sua administração. Do aeroporto todos seguiram para o centro da cidade. O governador, o Secretário Geral Raul Montero Waldez e dois ilustres visitantes utilizaram um automóvel Nask castanho. Alguns diretores de órgão públicos seguiram num carro Chevrolet preto, enquanto os populares foram transportados em um ônibus da Viação Primazia.

Na residência dos religiosos de Macapá, um antigo casarão edificado no lado esquerdo da Igreja foi servido pelo Administrador Apostólico, a Don Mário Vilas Boas e demais pessoas presentes, uma farta mesa de gelados. Em seguida, todos cumpriram um roteiro de visitas, percorrendo o Posto de Puericultura Iracema Carvão Nunes, o Grupo Escolar Barão do Rio Branco e a Escola Profissional Getúlio Vargas, que posteriormente passou à denominação de Escola Industrial de Macapá. Concluídas as visitas, os religiosos retornaram à Casa Paroquial para um almoço com os padres do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras-PIME.
Às 15 horas, Dom Mario de Miranda Vilas Boas, em companhia do Monsenhor Dom Aristides Piróvano, Padre Adolfo Serra, senhor Antônio Campos Monteiro, Oficial de Gabinete do Governador, médico Álvaro Simões, diretor da Divisão de Saúde e do Capitão Waukes de Aragão, Comandante da 4ª Companhia de Fronteiras, visitaram a Unidade Mista de Saúde instalada ao lado direito da Igreja de São José, a Olaria Territorial, Cadeia Pública e Fortaleza de Macapá, onde assistiram a realização de um exercício de tiro real. Deste último monumento rumaram para o Macapá Hotel, na frente da cidade, onde Dom Mário e seus acompanhantes se serviram de saborosos sorvetes de frutas regionais. Às 17 horas foi servido o jantar na residência governamental. Às 19 horas, começou a solenidade de instalação da Prelazia de Macapá.

A Igreja estava lotada de fieis. Iniciou-se a solenidade litúrgica com a reza do Terço, seguindo-se o canto da Ladainha a três vozes mistas (Perusi). Na sequência, Dom Mário Villas-Boas pediu ao Padre Adolfo Serra que procedesse a leitura do Decreto de sub-Delegação, pelo qual o Núncio Apostólico nomeava o Arcebispo do Pará seu próprio sub-Delegado na ereção da Prelazia e a Bula Papal que a criou. A função religiosa se estendeu até as 21h30min, com a benção do Santíssimo Sacramento, com o canto do “Tantum Ergo Sacramentum (Haller)” a 4 vozes mistas(Tão Sublime Sacramento). A igreja de São José também foi elevada à categoria de Catedral. A Prelazia de Macapá (Territorialis Praelatura Macapaensis) foi ereta canonicamente pelo Papa Pio XII através da bula “Unius Apostolicae Sedis” de 1º de fevereiro de 1949, com as paróquias de Macapá, Amapá e Bailique, desmembrada da Prelazia de Santarém e colocada pela Santa Sé aos cuidados do PIME. A transmissão dos encargos da Prelazia de Macapá ocorreu dia 23 de março de 1949, pelo Bispo de Santarém Dom Anselmo Pietrula. A nomeação do Padre Aristides Piróvano como Administrador Apostólico se deu no dia 14 de fevereiro de 1950. A instalação solene da Prelazia e a pose do Administrador Apostólico aconteceram no dia 30 de abril de 1950. A Prelazia passou à condição de Diocese por força da bula “Conferentia Episcopalis Brasiliensis” (Conferência Episcopal Brasileira), do Papa João Paulo II.


Jornal “O Balufa”


Hartiu do ginasiano Carlos Oliveira Nery, a idéia da criação de um jornalzinho independente no Colégio Amapaense. Fui o primeiro a ser informado de tal pretensão, haja vista que integrávamos a 4ª série ginasial B e éramos bons amigos. Isso aconteceu no dia 10 de setembro de 1962, após uma aula de Português, ministrada pelo Professor Raimundo Pantoja Lobo, o popular Aporema. Ao comentar a respeito do primeiro jornal a circular no Brasil, “A Gazeta”, do Rio de Janeiro, no ano de 1808, o ilustre mestre também se lembrou do Jornal “O Castelo”, periódico que circulou sob a coordenação do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa. Entusiasmado com o assunto, o Carlos Nery decidiu concretizar sua idéia. Rapidamente formou um grupo constituído por ele, Nilson Montoril de Araújo, Pantaleão Gonçalves de Oliveira, Aldony da Fonseca Araújo, José Maria “Gato” e Lucas Vale. Em 1962, o Colégio Amapaense era dirigido pelo Engenheiro e Professor de Matemática Manuel Nogueira, que se propões a nos apoiar, desde que, divulgássemos coisas deveras importantes.

A cordialidade do Professor Nogueira nos deu animo redobrado e nos levou à presença do Professor Antônio Munhoz Lopez, Diretor da Divisão de Educação.Na época, a Divisão de Educação funcionava em um anexo do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, atrás da Biblioteca e Arquivo Público. Fomos bem recebidos e aproveitamos para reivindicar a doação de papel, tinta e stêncil para mimeógrafo. Firmamos a importante parceria convidando o Professor Munhoz para nos honrar com artigos sobre literatura e cinema. O Carlos Nery era um craque em pedir. Tinha uma conversa capaz de derrubar avião. Dentre os nossos mais frequentes colaboradores, despontava o Carlos Nilson da Costa, que era aluno do Curso Científico, reconhecidamente “bom de caneta” Em dado momento, lembramos que o jornal ainda não tinha nome. Como o nosso grupo era muito ativo e levava tudo na brincadeira, além de ter a pecha de anarquista, decidimos usar o apelido do Aldony Araújo: Balufa. Ele era bem gordinho e alguém sapecou a adjetivo Balofo, que significa muito volumoso em relação ao peso. Acontece que nosso amigo Aldony não se importava com a alcunha e ela estava correta. Todos o chamavam de Balufa. A brincadeira virou coisa séria e não faltaram colaboradores.

O jornal falava de literatura, cinema, história, educação, esportes, poesia, crônicas, entrevistas, aniversários, humor e algumas fofocas. Em julho de 1963, a equipe do jornal integrou a embaixada do Grêmio/Colégio Amapaense, que realizou uma visita a Serra do Navio a convite da Gerência da Indústria e Comércio de Minérios S.A. O exemplar não era vendido. O jornal nunca criticou gestores públicos e se manteve alheio às questões políticas. Mesmo assim, sua impressão foi interrompida após a intervenção militar de 31 de março de 1964. O mesmo fato ocasionou o fechamento da sede do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, a destituição de sua diretoria e a clandestinidade da associação. Dentre os fundadores do jornal “O Balufa”, apenas o Pantaleão Oliveira e o Nilson Montoril de Araújo vivem em Macapá. Os demais já faleceram. O Carlos Nery mudou-se para Belém, onde cursou medicina. O Lucas Vale foi residir em Brasília, onde forças de repressão o teriam eliminado. O José Maria “Gato” retornou a Manaus. O Aldony Araújo, Balufa para os amigos, que simplificaram sua alcunha para Babá, andou por Belém, mas depois retornou a Macapá. Antes do surgimento do Jornal “O Balufa”, outro periódico denominado “O Castelo”, obteve enorme aceitação nos meios educacionais do Amapá. Circulou pela primeira vez no dia 5 de novembro de 1951, como órgão de publicidade do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, criado por um grupo de alunos do Ginásio Amapaense para progredir nas atividades literárias e jornalísticas.

O Ginásio Amapaense funcionava no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. A 1ª edição do jornal “O Castelo” colocava em destaque a memória de Rui Barbosa e continha crônicas, poesias e notícias diversas. O jornal tinha 12 páginas e boa ilustração, principalmente de um castelo, ainda hoje símbolo do “Colosso Cinzento”. Vários alunos que o idealizaram e nele publicaram obras literárias pararam de fazê-lo após a conclusão de curso ginasial. Porém, o jornalismo amapaense ganhou importante participes.


Revendo Mazaganópolis


Há quase três anos eu não ia a Mazagão. Havia dito que apenas uma razão muito forte me faria enfrentar à problemática e demorada travessia do Rio Matapi. Nem as festas de devoção que são realizadas em Mazagão Velho eu fui prestigiar. Tinha decidido que só voltaria à cidade onde fui gerado e vivi meus primeiros cinco anos de vida após a conclusão das obras da ponte que separa as terras de Santana e Mazagão. Porem, dia 25.11. 2015, a razão forte se evidenciou, correspondendo a uma solenidade elaborada pelo CRAM/Mzg. O convite para retornar ao pago que considero meu torrão natal partiu do amigo César Bernardo de Souza, que mantêm permanente vigilância e precaução contra uma neoplasia em seu intestino e está engajado nos trabalhos coordenados pelo Instituto Joel Magalhães-IJOMA.

O Professor Antonio Munhoz Lopes também fez parte do trio aventureiro. A despeito do fortíssimo calor, haja vista que o ar condicionado do carro do César está sem refrigerar, enfrentamos um trânsito morrinha por dentro de Santana (antiga Vila Maia) até alcançar a margem esquerda do Rio Matapi. Do outro lado do caudal havia uma viatura nos esperando, devidamente climatizada. Embarcamos na balsa do governo, que parecia uma lata de sardinhas devido ao aglomerado de carros, motos, bicicletas, gente e cachorros. Se dependesse de usar meu carro eu não teria ido. No decorrer da travessia pude contemplar a bela ponte que se estende sobre o rio e ficar aporrinhado com a insensatez dos projetistas. Se a cabeceira do lado de Santana tivesse sido direcionada para repousar sobre o asfalto da rodovia, ela já estaria pronta. Entretanto, por razões dúbias, uma guinada à direita direcionou-a para uma área de preservação ambiental. Dizem que nada foi feito por acaso. Teria havido a intenção de desapropriar uma área pertencente a um cidadão identificado com os governantes anteriores a Waldez.

O Professor Munhoz também ficou indignado. Concluída a travessia do Rio Matapi apanhamos a viatura que nos esperava e rumamos para Mazagão. Novo desencanto quando via a fumaceira gerada pela queima da vegetação localizada nos dois lados da rodovia. Sinais evidentes de invasão são vistos, mas nada consta em relação à ação coibitória da SEMA e do IBAMA. Transpomos o Rio Maracapucu (chocalho comprido em tupy), que o povo teima em chamar de Anauerapucu. A povoação ali estabelecida deve ser identificada como Maracapucu, visto que a escola local é que tem a designação de Anauerapucu. Somente depois de trafegarmos pela ponte Miguel Pinheiro Borges, estendida sobre o Rio Anauerapucu (anauera comprido) é que comecei a perceber algumas melhorias em termos de residenciais no trecho antes do Furo do Beija-Flor, onde existe uma ponte de concreto, a primeira do trecho, construída no governo de Aníbal Barcellos á frente do Território Federal do Amapá. Depois de três anos de ausência, notei que a cidade de Mazagão já não é aquele burgo relegado de outros tempos. Em breve, várias de suas ruas receberão revestimento asfáltico e a rodovia que a liga a Mazagão Velho está sendo pavimentada.

Quando a ponte do Rio Matapi for aberta ao público, quem se destina a Laranjal e Vitória do Jarí vai poder empreender a viagem passando por Mazagão, abreviando o percurso em mais de 100 quilômetros. Minha ida a Mazagão teve a ver com uma importante solenidade elaborada pelo Centro de Referência e Atendimento à Mulher – CRAM/Mazagão, em parceria com o IJOMA. Fomos cordialmente recepcionados pela Psicóloga Gabriela Picanço, que desenvolve suas atividades profissionais na citada instituição, inaugurada no dia 18 de julho de 2013.

O surgimento do CRAM veio em decorrência de um convênio firmado entre a Secretaria de Justiça e Segurança Publica/SEJUSP e a Secretaria de Políticas Para Mulheres, da Presidência da República. A patrona do CRAM é Francisca Jucilene da Silva do Nascimento, que foi morta por seu ex-companheiro no dia 9.5.2013, aos 27 anos de idade., na cidade de Mazagão.

O auditório do Fórum de Mazagão ficou lotado, contando com a presença de estudantes, comunitários, políticos. Uma exposição de slides mostrou detalhes sobre o câncer de próstata e os cuidados que os homens precisam ter caso a doença os atinja.


Farmácia Zagury


No dia 2 de julho de 1950, era instalada em Macapá, a Farmácia Zagury, constituída pela a firma Sarah Rofé Zagury, cuja titular era a esposa do marroquino naturalizado brasileiro, Leão Zagury, a época já falecido. A solenidade ocorreu numa manhã de domingo, contando com a presença do médico e advogado Raul Montero Valdez, Secretário Geral do Governo do Território Federal do Amapá, que exercia interinamente a governadoria.

Também prestigiaram o evento, o Diretor da Divisão de Saúde, médico Álvaro Pinho Simões, o Dr, João Gomes, Gerente do Banco do Brasil, o comerciante Lourenço Borges Façanha, Oficial do Gabinete do Governador e diversos amigos da família Zagury. A farmácia foi instalada na mesma área onde estava edificada a Casa Leão do Norte, a Avenida Presidente Vargas, número 733, trecho compreendido entre as Ruas Cândido Mendes de Almeida e Independência, atual Vereador Binga Uchoa. Antes da instituição da farmácia, a Casa Leão do Norte funcionava com loja de tecidos, mercearia e venda de drogas medicamentosas.

Fundada pelos irmãos Jayme Isaac Zagury e Moisés Zagury, a farmácia foi montada por Hernani Vitor Guedes, que havia concluído o curso superior na Escola de Farmácia do Pará, que posteriormente foi transformada em Faculdade. O curso feito pelo Hernani tinha a duração de três anos, mas assegurava ao aluno concluinte, as mesmas prerrogativas que depois se deu aos farmacêuticos bioquímicos. Hernani era o único funcionário e o responsável técnico do estabelecimento. Quando houve a necessidade de contratação de outro funcionário, a escolha recaiu inicialmente em Dulcinéia Guedes, Irmã do Hernani. Posteriormente, foram admitidos Francisco Quintela do Carmo e Bruno Gonçalves Guedes, pai do dirigente. Seu Bruno tinha trabalhado como atendente em farmácias de Belém.

Em 1963, em decorrência do fechamento da Sorveteria Macapá, que também pertencia à família Zagury, a farmácia passou a funcionar no prédio disponível, erigido na esquina da Rua Cândido Mendes com a Av. Siqueira Campos, hoje rotulada como Mário Cruz. Neste local, ingressou na firma a jovem Iracilda. Hernani Guedes era a alma da Farmácia Zagury. Seu conhecimento técnico assegurava o atendimento preciso dos fregueses.

Anos mais tarde, foi aberta uma filial da farmácia, em um dos anexos erguidos no lado direito do Mercado Central de Macapá, paralelos a Avenida, Henrique Antônio Galucio. O Farmacêutico Bioquímico Januário Guedes, irmão do Hernani Guedes, foi contratado para gerenciá-la, ficando sob coordenação e supervisão da matriz. A Senhora Sarah Rofé Zagury possuía um apreciável conhecimento do uso de plantas medicinais, enriquecida com os aprendizados obtidos junto às matriarcas da comunidade negra da cidade.

Em frente a sua casa morava a senhora Guadiana, chamada de Vó Guadiana pelos macapaenses. Esta cidadã foi uma ilustre parteira e curandeira. Para dispor de muitas ervas medicinais, Ela repassou muitos segredos curativos para Dona Sarah.

A viúva de Leão Zagury mantinha um grupo de colaboradores, que fazia as coletas necessárias pela periferia de Macapá. No meio da turma, destacava-se um rapazinho chamada Raimundo Souza, que anos depois, o cientista Valdemiro Gomes cognominou de Sacaca.

O farmacêutico Hernani Guedes nasceu em Belém, no dia 12 de abril de 1924. Em dois de julho de 1950, ao assumir a direção da Farmácia Zagury, estava com vinte e seis anos de idade. Ao desligar-se da firma Sarah Zagury, Hernani decidiu criar sua própria empresa.

Tornou realidade seu intuito no dia 17 de novembro de 1982, quando instituiu a firma Hernani Vitor Guedes & Cia Ltda, cuja atividade principal era o com comércio atacadista de medicamentos e drogas. O nome de fantasia ficou sobejamente conhecido – Farmácia Cristo Rei. Além de ter sido um brilhante empresário, Hernani devotou-se a música, despontando como autêntico mago tocando violino.

Em 1963, criou o conjunto musical “Os Mocambos”. Até pouco tempo, integrou a Orquestra Primavera. Ele completou 97 anos de idade no dia 12 de abril de 2021 e permanece ativo no seio de sua família, sob os cuidados da esposa Marly Carrera e dos filhos.


O boteco do Neco Brito


Um capricho do destino uniu duas almas que encarnaram em locais relativamente distantes. Anésio Amoras de Morais Brito e Eliza Homobono Brito. Ele, nascido no dia 11/11/1907, na vila do Igarapé Grande, arquipélago do Bailique. Ela despontou para a vida no município de Chaves mais precisamente na localidade Ciriaca, Ilha Viçosa, no dia 18/3/1916. Anésio, conhecido como Neco, pescava e criava gado. A notícia sobre a criação do Território Federal do Amapá o motivou a mudar-se para Macapá, em busca de melhor condição de vida para a família, então composta por ele, Dona Eliza, que estava gestante (Cristina), o filho José e a filha Marluce. Corria o ano de 1944, e o governador Janary Nunes estava implantando seu governo.

A mão de obra prioritária era composta por operários da construção civil, o que não era o ramo de Neco Brito. Com o dinheiro da venda de sua propriedade no Igarapé Grande, Neco Brito alojou sua trupe na canoa a vela “Titular”, decidido a abrir um boteco em área próxima a Fortaleza de São José. Com o passar do tempo, a área hoje cortada pela Av. Hélio Penafort, ganhou a denominação de “Baixa da Maria Mucura”. No limiar desse logradouro, teve inicio um arremedo de via pública denominada Fernando da Costa de Ataíde Teive, que depois recebeu o nome Rio Maracá. Na esquina da mencionada avenida, com a Rua São José, em ponto bem concorrido, que atualmente abriga uma loja sortida, foi instalada a mercearia “Jesus, Maria, José”, titulo expressivo, mas relegado pelos fregueses, que preferiram rotular o empreendimento como “Boteco do Neco Brito”. Anésio continuou exercendo a atividade de pescador. Mostrou que o trecho do Rio Amazonas, na frente de Macapá é piscoso e tem excelentes peixes. Numa de suas pescarias, ele capturou uma bela piraíba (filhote) e decidiu oferecê-la ao governador Janary Nunes, que a aceitou e o declarou como pescador oficial. Progressivamente, a família do casal Anésio e Eliza foi crescendo.

Na capital do Amapá, contando com a ajuda de “aparadeiras”, nasceram Maria Cristina, Maria de Nazaré, Águida Maria, Sônia Maria, Maria Regina e Salvador. Apenas a Nazaré Maria nasceu na Maternidade. Foram nove rebentos no total. Para suprir a necessidade da prole, Dona Elisa devotou-se ã costura coisa que fazia muito bem. Tinha uma seleta freguesia, inclusive gente da alta sociedade macapaense. Também preparava cachorro quente e pasteis, que o José Homobono saia vendendo pelos arredores do boteco. O ponto alto da venda ocorreu no decorrer do ano de 1953, com a construção do Mercado Central, graças ao apetite dos operários da importante obra.

O Boteco do Neco Brito foi freqüentado por tripulantes dos barcos do governo, operários que fizeram a restauração da Fortaleza São José, membros da Guarda Territorial aquartelados na fortificação, moradores do então bairro da Fortaleza, incluindo os habitantes do Remanso/Elesbão e a Baixa da Maria Mucura. Os habitantes do nascente bairro do Trem, notadamente a turma da birita, também costumavam ir rogar a proteção de “Jesus, Maria, José”. O boteco servia cachaça Alvorada, peixe salgado, carne de caça, principalmente de cotia, jacaré (abatido no quintal do botequim), açúcar moreno(mascavo), açúcar molhado, sal, querosene, tabaco, feijão sacaninha, farinha d’água, Flip Guaraná, sardinha em lata, carne em conserva e tira gosto. O aperitivo mais apreciado era a famosa “meladinha”, preparada com uma colher de mel, dois limões e três dedos de cachaça. A pinga tinha de ser a Alvorada, fabricada em Abaetetuba.

Em meados da década de 1950, Dona Eliza preparava saboroso mingau de milho/banana e café, que as filhas Cristina e Maria de Nazaré iam vender na frente do Mercado Central. Ainda amassava açaí para vender. Dona Eliza controlava toda a renda das vendas, cabendo ã Marluce elaborar a escrituração e manter atualizada a lista dos devedores. A residência dos Homobono Brito foi edificada em um terreno cedido pela Prefeitura de Macapá, ã esquerda da Rua Coronel José Serafim, entre as avenidas Antônio Coelho de Carvalho e Henrique Galucio, que ainda pertence aos descendentes de Neco e Eliza. Anésio Brito se manteve em atividade ate 1964, com 57 anos. Os filhos com mais idade já trabalhavam e Dona Eliza permaneceu confeccionando roupas. Seu Neco faleceu no dia 1/9/1987, aos 80 anos. Dona Eliza desencarnou a 16/11/1996, também com 80 anos. Ainda moram em Macapá, muitos dos antigos fregueses do boteco, que narram causos muito interessantes ali ocorridos.


Largo dos Inocentes


O Largo dos Inocentes consta na planta da Vila de Macapá traçada em 1761. As casas dos moradores deveriam ser construídas nas suas duas laterais, após a Igreja de São José. A largura do logradouro correspondia ao trecho ocupado pelo templo e pelas duas travessas que o separavam da Casa Paroquial e do Senado da Câmara respectivamente: Travessa de Santo Antônio e Travessa do Espírito Santo. No ponto de fundo paralelo a igreja ficava a última via pública da vila, que ostentava o nome do fundador de Belém, Capitão Francisco Caldeira Castelo Branco. Uma passagem, denominada anos mais tarde de Coronel José Serafim Gomes Coelho interligava o Largo dos Inocentes com a Rua General Gurjão e com a Travessa Floriano Peixoto. Ao lado esquerdo da Igreja de São José o espaço abrigaria a casa do vigário Miguel Ângelo de Moraes. No lado oposto foi construído o prédio do Senado da Câmara (atual Biblioteca Pública Elcy Lacerda). As casas que circundavam o Largo dos Inocentes tinham paredes barro (taipa de mão), assentadas em traçados de varas de taboca (bambu) atracadas a esteios de aquariquara. Não havia espaço entre uma casa e outra. De cada lado figuravam aproximadamente 15 casas. Ao longo da existência de Macapá, inúmeras famílias ocuparam as moradias. Em anos mais recentes, que antecederam a criação do Território do Amapá, famílias tradicionais ali se estabeleceram, entre elas: os Lino da Silva, os Tavares do Carmo, os Tavares de Almeida, os Serra e Silva, os Lino Ramos, os Tavares, os Gaia, os Lemos, os Mariano Picanço, os Silva, os Picanço, etc. O Largo dos Inocentes tinha então a maior concentração populacional de Macapá e as famílias mais numerosas, por isto dizia-se que o local parecia um formigueiro humano.

Em 1948, com a chegada dos Padres Italianos, a configuração do Largo dos Inocentes mudou. O trecho da Travessa José Serafim Gomes Coelho, entre o Largo e a Avenida Presidente Vargas (ex-Travessa Floriano Peixoto) foi fechado devido a ampliação as área que o Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras – PIME, que congrega padres italianos e ainda permanece entre nós, precisou para instalar o Oratório Festivo e Recreativo São Luiz. As casas edificadas entre a passagem e a casa do Vigário foram desapropriadas. O domínio dos Padres ganhou cerca e virou “Quintal dos Padres”, local muito freqüentado pelas crianças da Paróquia de São José. Na área conquistada foram construídos: O Salão Paroquial Pio XII, a quadra polivalente de vôlei, basquete e futebol-de-salão, a Escola Paroquial São José, a sede da Juventude Operária Católica, a sede do Grupo de Escoteiros Católicos São Jorge, o Pensionato São José e o Cine Teatro João XXIII. No Salão Paroquial era celebrada a Santa Missa de Domingo, encenadas as peças teatrais dos meninos e das meninas e as exibições cinematográficas em máquinas de 16 milímetros . Depois da missa, os moleques ruins de bola jogavam futebol no Largo dos Inocentes, a despeito do solo ser duro e repleto de piçarra.

O Largo dos Inocentes tem este nome por causa da Rua dos Inocentes que ligava a Rua do Lago (General Gurjão) e a atual Coriolano Jucá, que já teve a denominação de Braz de Aguiar e se estendia desde a Vila Santa Engrácia e a estradinha que dava acesso ao “campo de pouso de aviões” da cidade No largo, eram realizadas as festas em louvor a Nossa Senhora Menina, ao Menino Jesus e aos pequenos Mártires Inocentes do inicio do cristianismo. Os festejos destinados a São Raimundo Nonato, São Luiz Gonzaga, São Benedito, São Sebastião e Nossa Senhora do Rosário aconteciam no interior da igreja. A parte litúrgica em louvor ao Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade também. Porém, desde o tempo em que o Padre Júlio Maria Lombaerd foi Vigário da Paróquia de São José, a parte profana ocorria no Largo de São João. Bem definida pelo sacerdote com a aceitação dos católicos praticantes, o evento ganhou o titulo de Festa das Coroas, desdobrada em duas quadras: Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade. Os festeiros e os foliões do chamado Marabaixo não dispensavam costumeiras visitas ao Largo dos Inocentes, principalmente no período em que faziam o recolhimento dos donativos. Ainda assim, tinham que prestar contas ao Padre Júlio, afinal de contas não é ético e moral alguém colocar santo em esmola e se apropriar do dinheiro e bens arrecadados.

Nos dias atuais, o Largo dos Inocentes está muito descaracterizado, mas continua a mexer com a imaginação de muita gente. Há até quem diga que naquele espaço existiu um cemitério. Outros dizem que era um cemitério só de crianças não batizadas, daí a termo inocente. Não me consta que no catolicismo as crianças pedem a inocência depois do batismo, já que o sacramento instituído por João Batista lhes é ministrado em tenra idade. No período em que presidi o Conselho Estadual de Cultura ( 2004 a 2010), foi gerado um processo visando o tombamento do Largo dos Inocentes, pelo seu valor histórico e etnográfico. Os governantes não lhe deram a atenção devida.


O padroeiro dos namorados


Épocas mais recuadas, a comemoração do dia dos namorados acontecia no dia 14 de fevereiro, dia da execução de São Valentim ou Valentinus, Bispo de Roma, que não obedeceu as imposições do Imperador romano, Claudius II Gothicus, proibindo que se venerassem outros deuses, que não os romanos, e fossem realizados casamentos em seu reino, porque ele queria formar um grande exército e acreditava que os jovens que não tivessem família se alistariam. Muito popular, em Roma, Valentinus incentivava os jovens a casarem, para levarem a vida sob as bênçãos divinas. No decorrer de anos, São Valentin foi considerado o protetor dos namorados Além das solteironas, São Valentin também figurava como protetor dos epiléticos.

Isto perdurou até o ano de 1964, quando a Igreja Católica colocou em prática o Novo Calendário Litúrgico, removendo mais de 200 santos da lista daqueles cujos dias festivos são celebrados pelo catolicismo. Na forma das decisões do Concilio Ecumênico Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, a igreja de Roma rompeu a tradição, que estabelecia a data de comemoração, como sendo o dia da morte do santo. O dia de São Valentin coincidia com o inicio da estação de acasalamento das aves, o que provocou a associação de seu nome com o amor humano. O nome de São Valentin foi excluído da lista dos santos da Igreja Católica, sob a alegação de que não se tinha certeza sobre a existência dele. Mesmo assim, ate que Congregação dos Ritos estude cada caso de santificados, ele continuariam a ser venerados. Esta tolerância, que ainda não foi totalmente resolvida, acatou a indicação de Santo Antônio, nascido em Lisboa e falecido em Pádua, na Itália, como o novo patrono dos namorados. Não se tem dúvida da existência de Santo Antônio, mas os méritos para tal, também decorrem da tradição religiosa, focada em uma lenda. Isto mesmo. Há uma lenda no seio da Igreja Católica, que fala da existência, em Pádua, de um tirano de nome “Erzelino”, que baixara um decreto, segundo o qual, as pessoas deveriam levar idêntico dote para o casamento. Assim, sempre casaria rico com rico e pobre com pobre, Casava-se mais com a carteira de dinheiro do que com o coração.

A população da cidade revoltou-se, e Santo Antônio, que era o pároco de Pádua, frentou o tirano em praça pública, defendendo a união de um jovem rico e uma mocinha pobre, que se amavam verdadeiramente. Temendo ser excomungado e não suportando a pressão do povo e os argumentos de Santo Antônio, Erzelino foi obrigado a revogar seu esdrúxulo decreto. Santo Antônio foi carregado em triunfo e aclamado como “Santo Casamenteiro”. Também conta-se, que uma nobre senhora havia perdido as chaves de sua casa e resolveu pedir a ajuda de Santo Antônio para localizá-la. Prometeu que daria pão para os pobres, a cada terça-feira. As chaves foram encontradas e ela cumpriu rigorosamente o prometido. Parte deste fato, a instituição do ato de caridade denominado “Pão de Santo Antônio”.

Antônio nasceu em Lisboa e formou-se padre entre os Cônegos Regulares de Santo Agostinho, na Abadia de São Vicente e no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. Em 1220, decidiu seguir o modo de vida de São Francisco, embalado pelo idealismo missionário. Seu nome de batismo era Fernando de Bulhões. Depois de ordenado sacerdote, foi para o Marrocos, onde morreram martirizados os cinco primeiros franciscano. Pouco tempo permaneceu no Marrocos, pois seu estado de saúde não permitiu. Morreu no dia 13 de junho de 1231, no eremitério de Campo Sampiero, vitimado por diversas doenças, principalmente hidropisia (acumulação de liquido em cavidades do corpo). Quando São Valentim era o patrono dos namorados, no Brasil, em 14 de fevereiro, jovens enamorados trocavam mensagens amorosas, sem presentes. Este costume ainda prevalece na França e nos Estados Unidos da América do Norte. No Brasil, a licenciosidade de certas devotas, compromete o respeito que se deve reservar a Santo Antônio. As encalhadas culpam o santo por não conseguirem arranjar namorados e o colocam de cabeça para baixo, em vasilha com água. As pessoas mais antigas dizem que São Valentin é o patrono dos namorados. Santo Antônio é casamenteiro. O santo das causas perdidas é São Judas Tadeu.


Pauxi Nunes, um desportista esquecido


Pauxy Gentil Nunes, filho do comerciante Ascendino Nunes e Laury Nunes, portanto irmão de Janary Gentil Nunes, primeiro governador do Território Federal do Amapá, nasceu na cidade de Alenquer, no Estado do Pará, no dia 27 de fevereiro de 1918. Estudou o primário na cidade natal. O Ginásio (primeiro ciclo) e o curso de Humanidades (segundo ciclo) foram feitos em Belém, no Colégio Progresso Paraense. Depois de passar alguns meses atuando em Macapá, integrando a equipe de governo do irmão, seguiu para o Rio de Janeiro onde passou a trabalhar no Instituto dos Bancários. Formou-se como Contador, no dia 5 de dezembro de 1947 e ingressou na Representação do Governo do Amapá na capital federal. Amante dos esportes, principalmente do futebol, Pauxy Nunes assumiu um papel relevante dentro da Representação do Amapá, articulando-se com os grandes clubes cariocas e com a Confederação Brasileira de Desportos no sentido de estruturar e desenvolver o futebol do Amapá.

A 26 de fevereiro de 1944, participou da histórica reunião que redundou na fundação do Amapá Esporte Clube. Ao lado de Francisco Serrano, Manuel Eudóxio Pereira (Pitaica), Zoilo Pereira Córdova, Eloy Monteiro Nunes (seu tio) e outros abnegados desportistas fez valer a preferência do grupo pelas cores do Botafogo de Futebol e Regatas. Posteriormente, quando a agremiação passou a figurar com o designativo Amapá Clube, as letras iniciais do nome foram colocadas no interior da “Estrela Solitária”. O futebol de Macapá era excessivamente amador.

Os presidentes dos clubes, influentes no governo, promoviam a vinda de jogadores de Belém compensando-os com empregos nas repartições públicas. Entretanto, sem uma mentora regional organizada na forma da legislação exigida pela Confederação Brasileira de Desportos, o Amapá jamais participaria de uma competição oficial. A fundação da Federação de Desportos do Amapá, a 26 de junho de 1945 foi um acontecimento memorável. A idéia da sua criação partiu de Pauxy Nunes, a quem os dirigentes de clubes conferiram a presidência. Até que ela funcionasse normalmente, muitos momentos de inércia foram registrados. Depois da criação da FDA os clubes preocuparam-se com o aspecto organizacional. Em 1947, aconteceu o primeiro campeonato e o Esporte Clube Macapá conquistou o titulo Por solicitação de Pauxy Nunes a CBD prometeu incluir o Território do Amapá nas disputas do Campeonato Brasileiro de Futebol entre seleções das unidades federadas, caso o governo territorial construísse um estádio.

O espaço da Praça capitão Assis Vasconcelos (Veiga Cabral) não possuía área para acomodar o novo empreendimento. Aliás, o campo sequer possuía as medidas mínimas toleradas pela FIFA e CBD. No dia 15 de janeiro de 1950, o Estádio Territorial era inaugurado com o jogo Pará 1×0 Amapá. Desde este momento até julho de 1953 foi o Delegado da FDA junto a CBD, transferindo a função para Kepler Navegante Mota. No Dia 7 de novembro de 1954, por iniciativa de Pauxy Nunes, contando com o apoio do governo e da CBD, aconteceu, em Macapá, um congresso das federações desportivas do Norte e Nordeste do Brasil. Dirigiu o evento o senhor Rivadávia Correa Mayer, presidente da mentora mater nacional. Seu vice era Jean-Marie Goodefroide de Havelange. Idêntica promoção ocorreu em Salvador, nos dias 27 e 28 de 1957, de âmbito nacional.

O tenente José Alves Pessoa era o presidente da Federação de Desportos e o Prof. Mário Quirino exercia o cargo de presidente da Federação de Desportos Aquáticos. Pauxy Nunes se encontrava em Macapá, na condição de Secretário Geral (vice-governador) do Amapá e deus aos próceres mencionados todo o apoio necessário para que eles fossem a Bahia. Neste encontro foi lançada a candidatura de Havelange para a presidência da CBD. As ações de Pauxy Nunes visavam o esporte amador e foram sentidas nos Estados e Territórios Federais, Ainda nos dias atuais, na cidade de Icoaraci/Pará é realizado o Torneio Pauxy Nunes. Além do desporto, Pauxy tem o mérito de ter sido o primeiro governante a promover o asfaltamento de algumas ruas de Macapá, transferir o aeroporto para uma área mais distante do centro urbano e assistir melhor o interior.


O Forte Príncipe da Beira


A preocupação dos portugueses em atingir o Amazonas teve início a partir de 1614, quando Portugal estava sob domínio espanhol. Isso facilitou as ações dos lusitanos, haja vista que as terras do vale amazônico pertenciam à Espanha, conforme estabelecia o Tratado de Tordesilhas. A empreitada envolveu militares, religiosos e colonos. Uma rede de fortificações, que começou com os estabelecimentos que defendiam Belém, estendeu-se pelo interior e cobriu a fronteira. Entre as principais posições armadas se destaca o Forte Príncipe da Beira, erguido na Amazônia Oriental. Relatos feitos pelo explorador castelhano Nuflo Chaves sobre o Vale do Guaporé foram úteis aos portugueses, notadamente a Antonio Raposo Tavares, que, descendo o Paraná alcança os rios Guaporé, Mamoré e Amazonas, em 1647.

Foi a primeira bandeira a tomar conhecimento das cachoeiras e corredeiras do rio Madeira. Através dela, foi incorporada à zona de influência da Coroa portuguesa, toda a região Oeste e se vislumbrou a possibilidade de uma ligação fluvial entre São Paulo e o Amazonas. Em 1722, quando Portugal já havia reconquistado sua soberania, Francisco de Melo Palheta, partindo de Belém, atingiu os rios Madeira, Mamoré e Guaporé, chegando a Santa Cruz de La Sierra, reduto espanhol. Em 1748, o rei de Portugal dividiu a província de São Paulo em duas partes e deu o nome à segunda parte de Província de Mato Grosso. Nomeou como Presidente o capitão-general Antônio Rolim de Moura. Os espanhóis protestavam contra as atitudes dos lusitanos, alegando que as terras da Amazônia eram da Espanha.Porém, em 1750, quando foi firmado o Tratado de Limites, entre Espanha e Portugal, acertara-se que haveria paz permanente entre os súditos das duas coroas, independentemente das violações praticadas na planície Amazônica.Adotava-se, na ocasião, o principio jurídico UTI POSSEDETIS, que assegurava aos portugueses a posse mansa e pacifica, ou ocupação real das terras ocupadas. Embora concordando com isso, porque a decisão impediria Portugal a ir além dos pontos conquistados, os castelhanos procuraram, por força das armas, impedirem a validade da medida. Desde 1743, havia na margem esquerda do rio Guaporé, portanto em terras espanholas, uma redução jesuítica que o Padre Atanázio Teodori denominara de Aldeia de Santa Rosa. Ao tomar conhecimento dos termos do Tratado de 1750, o sacerdote, em sinal de protesto, mudou-a para a margem direita do rio. Em 1753, partindo de Vila Bela, fundada pelos lusos, Rolim de Moura atacou Missão Santa Rosa e fundou no local o povoado de “Guarda de Santa Rosa Velha”.Outros entreveros aconteceram. Em 1769, sendo Presidente da Província de Mato Grosso Luis Pinto Coutinho, foi inaugurado o fortim Bragança, cujas obras tinham sido iniciadas na gestão de João Pedro da Câmara,sobrinho de Rolim de Moura.Em 1772, uma enxurrada destruiu o fortim.Em 1776.

O governado do Grão Pará Luiz Albuquerque de Melo Pereira e Cárceres foram ao local do desmoronado fortim Bragança, escolhendo outro espaço para a ereção de um novo forte. Assim, dia 20.6. 1776, na margem oriental do rio Guaporé, era lançada a pedra fundamental do Forte Príncipe da Beira, sob a direção do engenheiro Domingos Sambuceti, que já havia atuado na construção da Fortaleza de São José, em Macapá. O projeto compreende um quadrado de 970 metros de perímetro, muralhas com 10 metros de altura e quatro baluartes (Nossa Senhora, Santa Bárbara, Santo Antônio de Pádua e Santo Avelino), cada um armado com 14 canhões, 14 edificações no pátio central, em tudo igual a Fortaleza de Macapá. A denominação do forte é uma homenagem a D. José de Bragança, príncipe do Brasil e da Beira.
A edificação ocorreu entre 1776 e 1883. Ficou muito tempo escondido pela mata, pilhado por bolivianos e aventureiros. O Marechal Cândido Rondon o localizou e o Exército Imediatamente passou a ocupá-lo. É um belo monumento da cidade de Guajará-Mirim, no município de Costa Marques, Estado de Rondônia. O Forte Príncipe da Beira foi tombado pelo IPHAN, em 30.11.1937, 13 anos antes do tombamento da Fortaleza de Macapá.


Rodovia Mazagão Velho-Mazagão Novo


Em 1949, um grupo de homens destemidos, residentes em Mazagão Velho, decidiu desencadear uma empreitada homérica, que a maioria de seus conterrâneos considerou coisa de louco. A figura proeminente da turma era Washington Elias dos Santos, jovem que integrou o contingente de soldados da Amazônia na campanha que a Força Expedicionária Brasileira realizou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de agosto daquele ano, quando a estiagem começava a marcar sua presença, os valentes mazaganenses passaram a reunir para tratar da abertura do pico da estrada que ligaria o burgo onde nasceram à cidade de Mazaganópolis, então sede do município de Mazagão.

Os que ouviam falar de tal propósito giravam o dedo indicador ao lado direito da cabeça, insinuando que os desbravadores deveriam estar doidos. Como é que alguém, em sã consciência, aparecia com uma novidade tão absurda? Se o governo do Território Federal do Amapá ainda não havia tomado a iniciativa para realizar a obra era porque a floresta, as áreas alagadas, os rios e igarapés se apresentavam como obstáculos difíceis de ser vencidos. Outro grande problema sempre era lembrado, a malária. Naquele tempo, a doença imperava no interior e causava muitos estragos na saúde dos que precisavam penetrar nas matas em busca de alimentação e para coletar produtos com boa aceitação no comércio. Além de Washington Elias dos Santos, popularmente conhecido como “Vavá”, os intrépidos Osmundo Barreto e Laudelino Maia Barreto, o Lódio, afirmavam que o pico da estrada poderia ser feito sem riscos eminentes.

O povo ouvia os comentários e apoiava a pretensão, afinal de contas, estava cansado de empreender viagens desgastantes entre Mazagão Velho e Mazagão Novo usando pequenas canoas rotuladas como “montarias”, “cascos”, ”batelões” e “reboques”. Deslocamentos em embarcações motorizadas era coisa rara naquele tempo. Na vila de Mazagão Velho apenas duas pessoas possuíam motores de popa. O comerciante Inácio Santos, pai do “Vavá” tinha um Archimedes de 12 HP. O capitão da Guarda Nacional Wolfgang Fonseca, ex-vereador nos idos do Conselho de Intendência Municipal, quando o Pará mantinha jurisdição na região, valia-se de um Johnson de 25 HP, mais veloz que o Archimedes e menos possante. Transitar numa ubá propulsionada por um motor de popa era privilégio de poucos. A gasolina não era cara e só podia ser comprada em lata com 20 litros e tambores com 200 litros. A granel só os comerciantes podiam vender. Os reboques adaptados com vela ajudavam bastante, mas apenas quando havia vento. Canoas e barcos movidos a vela quase sempre andavam abarrotados de madeira, sementes oleaginosas e mercadorias decorrentes de fretes. A propulsão das montarias, cascos e batelões provinha do remo. Por esta razão, os pobres viajantes programavam seus deslocamentos na “reponta da maré”. Remar contra amare só por necessidade. Para sair da vila de Mazagão Velho, descer o rio Mutuacá até sua foz e depois enveredar à esquerda no sentido de Mazagão levava, se os remadores caprichassem no serviço, cerca de 8 a 10 horas. Munidos de machados, terçados, serras, serrotes, machadinhas, cordas e rancho, os desbravadores iniciaram o trabalho voluntário seguindo o “rumo da venta”.

O trecho menos complicado foi o compreendido entre Mazagão Velho e a vila do Ajudante, banhada pelo rio de igual denominação. Progressivamente o grupo foi avançando até despontar em Mazagão. Cumprida a nobre missão, os devotados mateiros aguardaram que o governo assumisse o compromisso de mandar tratores e caçambas. Não foi fácil colocar as máquinas em operação. Apenas um trator e uma caçamba foram transportados, por via fluvial para Mazagão. A caçamba saiu de Macapá com o motor funcionando, acelerado para não “morrer”. Noite e dia ela foi mantida em tais condições até que uma bateria chegasse de Belém, Também tinha problema no motor de arranque, por isso ela ficava parada num declive. Se o motor “apagasse”, o motorista soltava o freio de mão e fazia o “tranco”.Pior seria se ela precisasse de manivela.