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Pe. Claudio Pighin

Educação digital

As pessoas, desde crianças, já conhecem os mecanismos do funcionamento da ação digital, mas não sabem avaliar as consequências dessas atividades. Uma linguagem às vezes indecente com difamações e ameaças, espreitando as pessoas, leva a progressivos conflitos. Não é por acaso que constatamos um índice crescente de violência. A essa altura, parece evidente que precisamos percorrer uma nova educação cívica em educação digital. Eu costumo fazer a comparação dessa nova tecnologia digital com um ‘super’ carro tipo Ferrari que está a nossa disposição, mas não sabemos dirigi-lo.

 

A máquina é muito veloz e cheia de tecnologia: como dirigi-la? Se não tivermos uma devida preparação, podemos nos arrebentar, porque foge do nosso controle. Assim é essa nova tecnologia: se não tivermos uma devida preparação, podemos nos prejudicar seriamente. Quantas histórias tristes e frustradas, provocadas via on-line, marcam a nossa convivência social! Como reverter tudo isso? Todos precisamos conhecer mais, porém, os jovens deveriam ser prioridade. A Rede é uma maneira de comunicação anômala, diferente da comum convivência do cotidiano.

 

Para tanto, creio que seja necessário, urgentemente, uma educação escolar a respeito. Contudo, eu me pergunto: quantas escolas estão preparadas para isso? Quantos professores estão habilitados em ter conhecimentos técnicos e jurídicos para essa formação digital? Como dar segurança e proteger, sobretudo, os mais novos na Rede das tantas coisas indecentes, em todos os sentidos?  Parece-me que já existem ou estão surgindo corporações-associações com o intuito de educar o uso da Rede. Não é para menos: no mundo digital, encontra-se de tudo; e muitas vezes se torna cruel e perigoso, com o uso de palavras de baixo nível e ameaçadoras.

 

Portanto, é importante alertar os jovens que a verdadeira vida não é somente na Rede, mas também fora dela. Lendo os comentários nos blogs, pode-se perceber como muitos adultos não compreenderam ainda como as pessoas são as mesmas, a vida é a mesma. E escrevem todos os tipos de insultos e ruindades que o ser humano pode fazer. Esse tipo de presença pode ser evitada? Veja o que disse o antigo presidente de Google, Eric Schmidt: “1% do povo é louco”. E isto não se pode mudar. No entanto, eu creio que isto não nos livra de ajudar os jovens a compreender esse novo mundo para melhor viver.

O mundo digital

A tecnologia digital se desenvolve com uma velocidade sem precedente na história da humanidade, leva-nos a uma desorientação na vida individual e social. O que constatamos perante esse grande fenômeno? Alguns rejeitam totalmente; outros são atraídos por esta tecnologia, sem conseguir, efetivamente, entrar em sua lógica. Enfim, há outros que se identificam em fazer uma só coisa com esta nova tecnologia.

Aqueles que rejeitam este fenômeno digital sustentam a tese de que essa nova realidade não condiz com suas idades já avançadas nem com seus hábitos e rotinas. A vida deles já foi planejada e, portanto, foram acostumados a um estilo de vida que não permite mais se aventurar em outras experiências. Existe um imobilismo nesta situação. Aqueles que se tornaram eufóricos perante a nova tecnologia foram, praticamente, os primeiros fregueses, adquirindo produtos sem, porém, conhecê-los de maneira correta. Podemos dizer, de maneira muito simples, que há uma total dependência e entusiasmo pela estética dos meios.

Aqueles, no entanto, que se lançaram totalmente à tecnologia digital se integraram na nova realidade, quase se identificando com ela. Quem são eles? São os verdadeiros especialistas que criaram outra dependência: sem esta tecnologia parece quase impossível viver. Aqui nasce uma nova maneira de viver e pensar. Um novo mundo se direciona para esta realidade, aliás, que transforma totalmente a mesma realidade do passado e não a continua, como alguns a consideram.
Perante este novo cenário, nós nos conscientizamos do quanto é difícil a convivência dessas três realidades. Eu diria que nos deixa um pouquinho inquietos, perplexos, e assim surgem espontaneamente essas perguntas: como dialogar com essas três realidades? Como fazer para não exasperar a convivência uns com os outros? Quais os elementos que poderiam unir no lugar de dividir? Como fazer do mundo digital um verdadeiro serviço a humanidade? Como a evangelização pode usar esse mundo digital? O novo mundo digital pode favorecer mais justiça e fraternidade no mundo? O novo mundo digital será a verdadeira mudança do mundo por sua correta compreensão?

A virtualização e a ilusão do contato físico levam para problemas de reconhecimento, comportamento, privacidade e de ética em geral. A fragilidade do sistema é dada pelo seu formato transmissível na rede e é totalmente dependente da energia ou de outros componentes técnicos que quando falham põe em crise a mesma sociedade. A Igreja é provocada a enfrentar tal realidade, não como uma simples expectadora, mas como uma verdadeira protagonista. Educar permanentemente em todo o lugar subsiste para sempre.

Por isso, também, esse novo mundo digital precisa ser instruído conforme o mandato de Jesus, o Ressurgido. A nova cultura virtual requer tempo, espaço e estrutura nova para uma nova evangelização.

A importãncia dos símbolos

O símbolo fala e comunica por si. Mas, ao mesmo tempo em que comunica, ele esconde algo de misterioso. Os símbolos são irrenunciáveis na nossa vida. Eles têm uma linguagem própria de comunicar diferente da linguagem lógica e racional.

Isto não quer dizer que a linguagem lógica não se sirva dos símbolos. Desta forma, o símbolo aparece como dimensão transcendental na vida do ser humano. A linguagem humana é expressa através dos símbolos que falam, sem reduzir a conceitos e objetivos. Só a dimensão do simbólico permite transcender o aspecto da aparência de algo, para explicá-lo além de sua própria substância. Um dos campos mais ricos do simbólico, certamente, é o campo religioso. O símbolo assume na vida humana uma importância relevante, pois, sem ele, o ser humano não teria capacidade de comunicar toda a sua expressividade.

 

Portanto, é natural perguntar o que é na verdade o símbolo. Ele é um sinal, mas um sinal com um sentido próprio. No símbolo, impregnam-se muitos significados. É racional e se estrutura em âmbito hermenêutico, pois traz uma compreensão que rompe as barreiras do físico e se projeta além dele para mostrar o seu significado. Historicamente falando, a palavra símbolo é encontrada pela primeira vez no antigo Egito, que era uma espécie de marca de identidade, confeccionado de diferentes materiais.

 

Mais tarde, o conceito se concentrou em um sinal e passou a ser usado em expressões que descreviam a ideia de reunir. Assim sendo, o símbolo passou a referir-se a união de duas coisas. Ora, se junta o que está separado, assim o símbolo expressa a união de coisas que estavam separadas. Era comum, no mundo grego antigo, ao fazer um contrato, as pessoas quebrarem em duas partes um objeto de cerâmica e cada um levava um pedaço. Uma ulterior reclamação seria legitimada pela união das duas partes coincidentes.

 

A questão, entretanto, não está no nível das coisas em si mesmas, mas no nível do sentido. Além do mais, é bom precisar que o sinal não pode ser identificado como o símbolo, enquanto estrutura diversa. O sinal recoloca o próprio significado a algo que quer representá-lo. Portanto, não tem nunca um significado em si. No entanto, o símbolo recoloca, sim, o significado em algo que representa, mas também tem em si mesmo um significado. O sinal sempre representa e o símbolo, porém, tem a capacidade de ter um significado em si.

 

A força do símbolo desloca a experiência do humano para outra realidade, para além do âmbito do sensível.

Deus nos fala

Evangelho de Marcos 8, 27-35

Para compreendermos melhor esse trecho do evangelho de Marcos, precisamos ver em que contexto foi escrito e quais eventos marcaram aquela circunstância. Estamos nos anos setenta depois de Cristo e a comunidade destinatária dessa evangelização passava por momentos não fáceis. Muita cruz pesava na vida das pessoas. Só para se ter uma ideia, seis anos atrás, isto é, nos anos 64, o famoso imperador romano Nero tinha decretado a perseguição aos cristãos, matando muitos deles. E, justamente no ano 70, Jerusalém estava para ser destruída pelo império romano. Além do mais, surgiu o conflito entre judeus convertidos a Jesus e aqueles fiéis ao Judaísmo. Sabe por quê? Tudo por causa da cruz de Jesus.

Para os judeus era uma coisa que nem se podia imaginar ver um Messias pendurado numa cruz porque, segundo o Deuteronômio (21, 22-23), quem fosse crucificado era um amaldiçoado por Deus. Portanto, eles esperavam outro Messias, outro salvador que manifestasse toda a sua majestade. Dito isso, Marcos questiona os seus discípulos em relação ao Mestre, porque sabia que não era fácil aceitar Jesus Messias desse jeito, crucificado. As multidões se afastaram, porque era mais fácil seguir um Jesus que fazia milagres do que um Jesus na cruz. Por isso, o Mestre quer preparar os seus discípulos para compreender a cruz como projeto de Deus. É a cruz o ponto de referência para entender a nossa verdadeira vida de fé. Sempre dialogando com os discípulos, o Mestre, quer saber mais sobre o que os outros dizem, e o que eles pensam. E Pedro prontamente responde que Ele é o Messias. Isto é, o Senhor que todo mundo esperava. E Jesus proibiu a Pedro de falar para o povo, porque a expectativa das pessoas era conforme os anseios delas e assim se beneficiarem. Jamais iam pensar de receber um Messias servo. No entanto, Jesus ensina que é Ele mesmo o ‘Messias servo’, que será preso, torturado e morto na cruz. Perante esse anúncio, agora Pedro reage e pede ao Mestre de se opor. Resposta de Jesus: “Afasta-te de mim, Satanás!”. Por que Jesus fez isso? ‘Satanás’ significa acusador, aquele que afasta os outros do caminho de Deus. Por isso, Jesus se torna duríssimo com Pedro, porque não permite a ninguém que o afaste da missão que Deus Pai lhe entregou. Também Pedro queria, no final, um Messias conforme os seus desejos. Nesse sentido, temos que nos questionar sempre até que ponto somos fiéis à missão que recebemos de Deus. Ou queremos fazer as nossas missões, confundindo-as com as de Deus? Porém, Jesus, com um tom imperativo, nos convida a segui-Lo carregando a cruz.

No tempo do Nazareno, o Império Romano executava a pena de morte para os pobres com a cruz. Portanto, carregar a cruz e seguir a Jesus é aceitar o desafio de ser excluído, humilhado para imitar o testemunho do Mestre em proclamar que todos têm que se tratar como irmãos e irmãs.

Deus nos fala

Evangelho de Marcos 7, 31-37

 

Jesus se encontra no território da decápole, que quer dizer dez cidades. É uma região a sudeste da Galileia, fora da Palestina, cuja população era pagã. É aqui que ocorre o milagre do surdo-gago. Por que o evangelista Marcos quis nos contar esse prodígio de Jesus em um contexto fora do povo escolhido? Ele nos mostra que Jesus já era conhecido também fora da sua terra e o povo recorre ao Mestre para ajudar uma pessoa que não consegue se comunicar direito, e, portanto, é marginalizada pelos outros. Ainda hoje quantas pessoas são marginalizadas entre nós porque não têm capacidade de comunicação? Esse povo que leva o surdo-gago sente-se impotente perante uma realidade como essa e, portanto, recorre ao Mestre, para que lhe impusesse as mãos. Porém, o Mestre vai além disso. Ele o leva para longe da multidão, colocando os dedos nas orelhas e com a saliva toca-lhe a língua e olha para o céu, suspira e diz “abre-te!”.

O toque da língua com a saliva lhe restabelece o poder da fala. Parece uma ação anti-higiênica, mas na mentalidade popular daquele tempo o gesto era considerado um ato medicinal. O olhar para o céu indica que quem faz o milagre da cura é Deus. Diz o evangelho que, imediatamente, o surdo-gago recuperou a escuta e a fala.
O sentido de tudo isso é dar o poder a todo mundo para poder recepcionar as mensagens e consequentemente transmiti-las, sobretudo as de Deus. É verdade, muitas vezes, talvez quase sempre, que não conseguimos ouvir, e, por conseguinte, nem falar do nosso Deus. Somos surdos e mudos em relação à verdadeira vida, ao Altíssimo. Perante o encontro com o Deus que nos proporciona vida é-nos recomendado de não fazer publicidade. Tudo isso tem que contemplá-lo no silêncio do nosso ‘coração’. Perante o milagre, o povo ficou admirado e falou que ‘ele fez tudo bem’. Isto evoca a criação do mundo (Gn 1,31), para confirmar a divindade de Jesus. Porém, as pessoas não conseguem ficar caladas diante dessa manifestação do Mestre e proclamam aquilo que viram.

A força da Palavra de Deus vai além das nossas capacidades e se auto-proclama sozinha. Quem encontra Jesus não consegue se calar porque é tão contagiante que quer contá-lo sucessivamente aos outros. Esse trecho do Novo Testamento nos revela também a importância da missionariedade da evangelização. Essa presença de Jesus fora da Palestina, território pagão, adquire a mensagem de que a ação de salvação de Deus não se restringe a um povo escolhido, mas vai ao encontro de todos os povos. E nós não temos o direito de se opor a esse projeto do nosso Deus. Assim, temos a certeza que Ele favorece as pessoas e faz tudo por elas. Essa é garantia de esperança de Vida. Para melhor entender isso, precisamos intensificar a oração que nos ensina que a salvação é um dom de Deus e, por isso, temos que pedi-la toda hora, sem pretensão nenhuma.

Deus nos fala

Evangelho de Marcos 7,1-8.14-15.21-23

Jesus, o verdadeiro Mestre, foi interpelado primeiro pelos fariseus e escribas, depois pelo povo, e, enfim, por seus discípulos. Seu ensino era tão profundo e sábio que escandalizava as autoridades religiosas daquele tempo e deixavam perplexos os outros. Por isso Jesus quis ensinar, sem medo de nada, para fazer uma correta experiência do Altíssimo entre nós. Para melhor entender a lição do Mestre, precisamos contextualizar o seu discurso.

O povo daquele tempo estava demais preocupado com a pureza (hoje diria quase estranha para o nosso tempo). Todas as leis daquele tempo eram endereçadas para purificar as pessoas. Eram normas indispensáveis para se colocar na presença de Deus e se tornar assim uma ‘pessoa santa e imaculada’. A experiência de Deus e sua bênção passavam por esse puritanismo. Só para se ter uma ideia, no tempo de Jesus, as pessoas não podiam tocar um leproso, comer com os publicanos, participar das refeições sem lavar as mãos, tocar o sangue ou cadáver, entre outras, e depois se colocar perante Deus.

Tudo isso tornava impura a pessoa. Assim, quem não respeitasse essas regras, era afastada do convívio da comunidade. Vivia separada. Imaginem o medo que tomava conta dessa criatura humana. Com o ensino de Jesus, tudo isso muda. Ele nos revela como fazer o encontro com Deus. Diz o evangelista Marcos que os escribas e fariseus fizeram notar a Jesus que os seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras. É bom fazer presente que essas autoridades eram de Jerusalém e que estavam aí para fiscalizar Jesus e os seus discípulos. De fato, devido à convivência com o Mestre, os discípulos tiveram a coragem de transgredir as leis impostas pela tradição “religiosa” porque compreenderam que essa preocupação com a higiene, por mais que importante fosse, não podia discriminar a pessoa. Isto é, as normas e os conselhos que os seres humanos produzem não são garantia de experiência de Deus, mas essas normas têm que se submeter ao Altíssimo para se purificar.

Qual foi a resposta de Jesus perante essa prática religiosa? A resposta foi muito severa perante a incoerência dos fariseus, porque eles insistiam nas leis da pureza e esvaziavam os mandamentos de Deus. Eles, agindo daquele jeito, em observar tantas coisas exteriores, conseguiam fazer esquecer o que mais conta: o amor e a justiça. Jesus se opõe a essa maneira de se preocupar tanto por aquilo que está fora do ser humano e, no entanto, se esquece do interior do mesmo. Desse jeito, o Mestre quer mostrar que para combater o mal temos que procurar onde realmente surge, isto é, dentro de nós. Assim sendo, compreendemos a lição do Mestre Nazareno em dizer que não é aquilo que entra no ser humano que o contamina, mas aquilo que sai do seu coração. Não podemos fazer uma experiência de Deus na nossa vida somente com a exterioridade.

Deus nos fala

Evangelho de S. João 6, 60-69

 

Seguir a Jesus significa dizer se deixar questionar por ele. Não podemos, de jeito nenhum, para testemunhar a nossa vocação cristã, simplesmente falar dele, aplaudi-lo e reconhecê-lo prodigioso. A nossa verdadeira vocação em seguir a Jesus é caracterizada em se deixar questionar por ele, para viver seriamente a sua proposta de vida. Como Jesus se encarnou na nossa história, assim também nós temos que se encarnar nele. Realmente, a gente se pergunta, como pode acontecer isso? Falar dele não é tão difícil assim, mas se tornar a vida dele nossa vida, isto é mais complicado. Portanto, até quanto é possível?

O evangelista João nos diz que, sem a luz do Espírito Santo, torna-se difícil acontecer. Continua o evangelista, perante as palavras do Mestre Jesus sobre “comer a minha carne e beber o meu sangue”, muitos murmuravam, como o povo no deserto quando saiu do Egito, e por isso o deixaram de segui-lo. Ficou com os poucos discípulos. E o Mestre Nazareno acrescenta: “é o Espírito que dá vida, a carne não serve a nada”. Isto é, para compreender Jesus, precisamos nos deixar atrair por Deus. É ele que dá a vida e luz. Porém, também os discípulos duvidaram da presença de Jesus em partilhar o pão; que ele é o alimento da vida. Sem a sua partilha, não temos como alcançar a verdadeira libertação.

Aqui temos o significado da eucaristia. Comer o pão sem depois se fazer pão para os outros, isto se torna inútil. Se o amor recebido na eucaristia não for partilhado, não serve para nada. Como é grande o nosso Deus! Aquilo que, aparentemente, é uma falência aos nossos olhos, no entanto, para Deus é uma vitória. A acolhida desse pão para se tornar pão para os outros gera na própria vida uma potência criadora de esperança que supera qualquer tipo de obstáculo. Jesus não tem medo de perder também os poucos discípulos que ficaram, porque ele quis ser fiel a Deus Pai, no seu projeto de redenção. Tanto é verdade que provoca os discípulos de maneira categórica: “vocês querem ir embora também?”

Eles seguiam Jesus pelas próprias necessidades e não compreenderam que para segui-lo precisavam fazer que a própria vida fosse destinada ao bem e às necessidades dos outros, sobretudo para quem mais sofre. Pedro, perante o desafio do Mestre, faz a famosa e bela confissão: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”. Pedro, sem compreender tudo, aceita e crê em Jesus Filho de Deus. Professa a sua fé no pão partilhado e na sua Palavra, porque é daí que tira a verdadeira fome e sede do povo. Finalizando, pergunto: até que ponto você sabe desafiar qualquer situação da vida cotidiana para manter a opção do Mestre Jesus? Tem medo de segui-lo? Pedro nos deu uma aula a respeito como acreditar nele, embora com todas as limitações humanas.

Deus nos fala

Evangelho de Lucas, 1, 39–56

A visita de Maria à sua prima Isabel, segundo o relato do evangelista Lucas, mostra, para as comunidades espalhadas pelo Império Romano, um exemplo de acolhimento da Palavra de Deus. Ao saber aceitar e praticar a Palavra, Maria se torna um modelo para as comunidades cristãs. Ela escutou e logo se deixou envolver: foi encontrar-se com a prima, que precisava de auxilio.

Esta sua prontidão, sem mais nem menos, chama muito a minha atenção. Veja bem, para entender melhor, mais de 100 quilômetros separam Nazaré das montanhas de Judeia, e o percurso era feito sem os veículos que desfrutamos hoje em dia.

A disponibilidade de Maria em ir ajudar quem estava necessitando era totalmente despojada de qualquer interesse pessoal. Quantas vezes, entre nós, temos dificuldade de ajudar porque temos medo de deixar algo de nós, ou somos demais preocupados com os próprios interesses pessoais! Dedicação recíproca e realização estão na base da comunicação dialógica entre Maria e Isabel. É um encontro que revelou, através da linguagem gestual e verbal, aquilo que o próprio coração estava sentindo, mostrando, assim, toda a infinita gratidão para o Deus da vida. É a prova de que a mensagem de Deus realmente chegou aos seus destinatários.

Maria percebe que Isabel a entendeu e não estranhou o segredo dela, que não ousou contar para ninguém. Aliás, sente-se humanamente acolhida, estimada e apreciada.

O carinho deste encontro é a imagem de um comunicar humano e satisfatório. Com o hino do Magnificat, Maria, quer louvar a Deus pela sua ação na história.
O louvor é um pilar fundamental da praxe comunicativa. Não se pode comunicar na tristeza, de cara fechada, fechando o próprio mundo em quatro paredes. Vejamos rapidamente a nossa comunicação na nossa vida eclesial: é alegre, triste, feliz ou chora toda hora?

O Magnificat é uma demonstração dos diversos caminhos tortuosos ou difíceis que a comunicação pode encontrar, e também do aspecto positivo dela na história: “entre as gerações”.

Por isso, Maria, que tem uma intimidade com Deus, olha para todos os lados para descobrir, sobretudo, as coisas ou fatos, talvez, menos significantes para sociedade, mas reveladores de grande sabedoria no plano de Deus. Esses são os comunicadores da Boa Nova, que focalizam as alternativas que a midia não têm capacidade de enxergar.

Creio que precisamos fazer do canto do Magnificat o canto da vida da gente: a acolhida da comunicação divina por parte de Maria é fundamento da capacidade do nosso comunicar na história e, também, a antecipação da comunicação na outra vida que nos espera, isto é, a do paraíso.

Enfim lhe pergunto: a sua comunicação é concentrada somente nas suas capacidades humanas, sociais ou é aberta também à divina?.

A alma do ser humano (4ª parte)

Nos últimos séculos, diversos teólogos católicos e protestantes quiseram dar uma interpretação inovativa a respeito da alma, para dialogar com a ciência. Na realidade, essas duas formas de saber, teologia e ciência, sempre tentaram se aproximar, embora tivessem, ao longo dos tempos, conflitos e harmonias. Principalmente nos últimos tempos, teologia e ciência se caracterizaram pelo diálogo como necessidade de compreender melhor a realidade. Assim foi com a alma. Um dos mais notáveis teólogos foi, sem dúvida, Karl Rahner (1904-1984). Sacerdote jesuíta, ele participou como teólogo do Concílio Vaticano II e criou a famosa revista Concilium.

Rahner quis, em poucas palavras, ir ao encontro da ciência, dizendo que a origem da vida pertence a Deus através da criação e a geração segue a ordem da evolução. Nesse sentido, Deus é o fundamento real e transcendental do processo evolutivo do mundo. Ele age, portanto, a partir da nossa realidade limitada para eleva-la, potencia-la e, assim, ter a capacidade de ir além das próprias forças. Segundo Rahner, o poder de Deus é que constitui os seres humanos como pessoas, isto é, além de uma concepção simplesmente corpórea. De fato, hoje em dia, temos dificuldades de entender essa verdade sobre a pessoa, devido ao fato de que estamos demasiadamente concentrados, quase exclusivamente, na dimensão corpórea.

O magistério da Igreja Católica a respeito da alma pode ser resumido com o texto do documento da Congregação pela Doutrina da Fé: “A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência depois da morte de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o ‘eu humano’ subsista. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra ‘alma’, consagrada pelo uso que dela fazem a Sagrada Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos significados, ela julga, não obstante isso, que não existe qualquer razão séria para rejeitá-lo e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para suster a fé dos cristãos”.

Todos os estudos e reflexões sobre a alma ao longo da história do ser humano levam a um princípio unificante, a um centro espiritual da sua vida. É verdade, se os primeiros séculos cristãos focalizaram na unidade psicossomática da pessoa, demonstrando de maneira bem evidente que corpo e alma são unidos, os séculos sucessivos favoreceram a separação entre corpo e alma, influenciados pela concepção dualística helenista. O magistério da Igreja nos mostra, claramente, que a alma da pessoa é criada por Deus sem alguma mediação. Para melhor compreender isso, temos o documento do Concilio Vaticano II, Gaudium et spes, a Igreja no mundo contemporâneo, que nos explica a essência da natureza do ser humano.

Diz o texto: “O homem, ser uno, composto de corpo e alma, sintetiza em si mesmo, pela sua natureza corporal, os elementos do mundo material, os quais, por meio dele, atingem a sua máxima elevação e louvam livremente o Criador. Não pode, portanto, desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há-de ressuscitar no último dia… Ao reconhecer, pois, em si uma alma espiritual e imortal, não se ilude com uma enganosa criação imaginativa, mero resultado de condições físicas e sociais; atinge, pelo contrário, a verdade profunda das coisas.”

Portanto, estamos vendo como o magistério da Igreja mantém a unidade do ser humano, em perfeita sintonia com a Sagrada Escritura, dando assim uma harmonia em todo o seu ser e no seu mistério. É nessa unidade que as pessoas adquirem a grande força para se reconhecerem e viverem a condição de filhos e filhas de Deus. Desse jeito, tem capacidade de louvar o seu Criador. Ainda no catecismo da Igreja Católica se lê o seguinte: “Muitas vezes, o termo alma designa na Sagrada Escritura a vida humana ou a pessoa humana inteira. Mas designa também o que há de mais íntimo no homem e o que há nele de maior valor, aquilo que mais particularmente o faz ser imagem de Deus: ‘alma’ significa o princípio espiritual no homem (A. 26.23 § 363).”

O cardeal emérito de Milão, Dionigi Tettamanzi, disse: “A lei suprema da Igreja é a salvação das almas, não em uma visão dualística nem unilateral da pessoa humana, mas, sim, na unidade incindível.” Concluindo, posso dizer que a ciência perante a morte para. No entanto, a experiência da fé na busca de Deus nos permite falar de alma que é eterna. Assim sendo, o ser humano é muito mais daquilo que estamos enxergando através da sua corporeidade. Ele é também alma.

A alma do ser humano (3ª parte)

A existência da alma no pensamento moderno se tornou, mais que um fato científico, uma instância de fé. Deve-se simplesmente crer e nada de raciocinar. A alma não é mais vista como uma realidade que dá fundamento às ações imateriais do ser humano. O humanismo do Renascimento, método de aprendizado que faz uso da razão individual e das colocações práticas para tirar conclusões, focalizou a sua reflexão sobre a subjetividade humana, deixando em segundo plano a alma. Quem foi o maior expoente desse pensamento? Temos, na verdade, vários. Certamente que René Descartes é um grande destaque nesse movimento cultural. Ele, com as suas ‘ideias claras e distintas’, quis mostrar a importância de superar qualquer dúvida e afirmar as certezas.

Portanto, para o filósofo francês, a alma é nada mais do que uma subjetividade pensante. Isto é, como o ‘eu’ que pensa a si próprio. Assim sendo, ele acha que a alma é distinta do corpo e é unida a ele somente acidentalmente. Desse jeito, corpo e alma são separados, mas cada um tem o seu papel. Veja como ainda hoje existe esse pensamento na nossa sociedade. Significa que o pensamento de Descartes continua vivo. Podem notar que isso não representa o dado bíblico da alma. Para Descartes: “Portanto, porque até agora eu tenho uma ideia clara e distinta de mim mesmo, segundo a qual eu sou uma ‘res’ que pensa e não uma ‘res’ extensa, é igualmente claro que a minha alma, pela qual eu sou aquilo que sou, é completamente e verdadeiramente distinta do meu corpo” (Meditationes de prima philosophia VI).

Seguindo Descartes, também Nicolas Malebranche (1638-1715) considera que a alma não influencia o corpo e tanto menos o corpo a alma. Ele critica os filósofos que estudam as relações da alma com o corpo, sem considerar sua união com Deus. Benedito Espinoza (1632-1677), outro autor filósofo, fundador do criticismo bíblico moderno, afirma que corpo e alma são “duas maneiras” da “única substância” que coincidem. Inclusive, ele prefere falar de mente no lugar de alma. Outro famoso filósofo, Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716), vincula a relação entre corpo e alma com as assim chamadas mônadas, “formas substâncias do ser com as seguintes propriedades: elas são eternas. Mônadas são centros de forças; substância é força, enquanto o espaço, extensão e movimento são meros fenômenos.”
Corpo e alma estão sincronizados por mérito da criação dada por Deus. Porém, são ligados entre eles de maneira extrínseca. Esse ponto de vista é percorrido por vários autores do período de Leibniz. No século sucessivo, os filósofos, em si, não negam a alma como substância espiritual, mas afirmam, porém, que não se tem como demonstrar a existência enquanto substância. A partir dessas considerações de descrenças filosóficas, chega-se até as afirmações puramente materialistas, negando a existência da alma. Podem assim constatar como o pensamento desses autores começam a se distanciar de modo bem evidente da reflexão bíblica. Em seguida, com o surgimento da psicologia expressa pelos autores Freud, Jung e Adler, mostra-nos o desinteresse pela alma como tal.

Atenção, porém: eles destacam uma “psicologia do profundo”, em que o ser humano não age somente em nível consciente, mas também no subconsciente, isto é, identificam a alma com o pensamento consciente. Desse jeito, a psicanálise toma o lugar da vida do espírito e da salvação. Também o pensamento marxista corre nesse sentido. Os marxistas consideram a alma como um produto da matéria, negando desse modo a sua existência como substância espiritual. O alemão F. Engels (1820-1895), colaborador de K. Marx, expressou-se nesses termos: “O que é original, o espírito ou a natureza? Dependendo da resposta que se dá a esta questão, os filósofos encontram-se divididos em duas grandes escolas. Aqueles que afirmam a originalidade do espírito sobre a natureza admitem de um modo ou de outro a criação do mundo (…). Aqueles para quem é a natureza o ser original, pertencem às diferentes escolas de materialismo”.

Portanto, para os materialistas, a concepção da alma é instável e alienante como fenômeno da vida humana individual. Para eles, a vida psíquica e a consciência de si são consideradas o produto mais alto da matéria do mundo físico. Hoje, através da explosão tecnológica, sobretudo digital, o ser humano é cada vez mais fragilizado na sua pertença comunitária, dando ênfase a um espírito individualístico. Assim sendo, parece que o ser humano, quanto mais busca a si somente com a razão, deixando de lado a concepção antropológica bíblica, mais ele reduz a pessoa à matéria e não sabe abrir horizontes infinitos para ela, justamente centralizados na alma.