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Pe. Claudio Pighin

A fala deve fazer triunfar a caridade

O mundo está cheio de palavras. O que é efetivamente a palavra? Segundo o filósofo La Croix: “A palavra é possuir a mesma humanidade”. Por meio da palavra se fixa o ponto de partida do diálogo. Nesta perspectiva, tem de se colocar a relação “pessoa, liberdade, palavra”. O falar da pessoa liberta para dizer algo de verdadeiro.

Na liberdade e na relação, o ser humano constrói a cada dia, traçando a estrada da alegria que leva à civilização autêntica, isto é, a civilização cristã. O ser humano, como sujeito comunicativo, por meio da liberdade e da palavra dele, deve atingir constantemente a realidade espiritual, estabelecendo, assim, aquele centro de gravitação que consiste em enfrentar o desafio do nosso tempo dominado pelo consumismo e pelo abuso do poder.

O ser humano é, portanto, chamado a realizar a “pessoa do amor”, no qual se juntam a “pessoa da força” e a “pessoa do direito”. Um válido compromisso da mídia contribuirá de tal modo a fazer triunfar a virtude positivamente contagiosa definida por muitos filósofos como a virtude da caridade. A palavra cristã, assim sendo, é, em síntese, comunicativa, porque traz sentido e vida e não podemos certamente defini-la de “trombeta, címbalo sonoro”.

O monge Gregório Magno, que se tornou papa no ano 590, chamava a atenção de todos durante seus pronunciamentos dizendo: “Os discursos ociosos são palavras ao vento. Quando não se freia a língua dos discursos inúteis, chega-se, sem perceber, até a chamada de atenção de estultos e temerários. Começa com não dar atenção às palavras ociosas, alcançam-se aquelas danosas; primeiro se acha prazer ao falar da vida dos outros, depois se começa a colocar em discussão a própria vida”.

É a partir disso que surgem os estímulos, a ira, ódio, raiva e, desse modo, acaba-se a paz do coração. Pode acontecer, às vezes, que também pelo medo podemos nos calar além do necessário. De fato, com o silêncio exagerado, devemos sofrer no coração uma grave falação de pensamentos, que fervem com violência quanto mais ficam fechados no nosso indiscreto silêncio. Às vezes, a mente se ensoberbece do seu silêncio e olha como imperfeitos aqueles que ouvem falar. Ao mesmo tempo, mantém fechada a boca do corpo, e não se conscientizam de que com a soberba abre a porta aos vícios.

É verdade que hoje se escreve pouco a respeito do passado. A correspondência epistolar foi reduzida ao mínimo, notadamente por se ter a disposição sistemas de comunicação em tempo real para imensas distâncias. Em compensação, fala-se muito mais. Se quiséssemos interpelar aos antigos cristãos, permitindo a eles olhar os nossos sistemas de comunicação, nos recomendariam de escolher palavras e discursos capazes de fazer bons e verdadeiros exemplos àqueles que falam e aos que escutam.

Temos na verdade um grande desafio, o de adequar a palavra à liberdade, sem deixar que o silêncio da tecnologia seja uma barreira, mas sim um meio de evangelização concreto.

Hoje as notícias correm mais rápidas

O que está acontecendo? Passaram mais de 20 dias e não recebi mais nenhuma Fake News (Notícia falsa). As redes sociais favoreceram esse modo de comunicar. Distorcendo totalmente a realidade. Assim sendo, as notícias falsas são sempre notícias. E relembrando-nos o que falou o ex-ministro Goebbels da Alemanha de Hitler: “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, assim nos leva a não compreender mais a verdade. Por que essa lógica?

Fechada esse parêntese, hoje as notícias correm mais rápidas e só depende da gente intercepta-las. Quanta vez me aconteceu de ter anticipado informações através dos motores de busca via on-line! O digital tem o mérito que pode ser consultado em qualquer momento e lugar sem grandes recursos e não precisa imprimir. Tudo isso a custos bem acessiveis a qualquer um. Gratifica a sua ação.

Além do mais, nestes últimos anos, o número de pessoas que frequentam a Internet aumenta cada vez mais. Isto é confirmado por uma infinidade de estatísticas, tanto nacional quanto internacional. Somente o Brasil tem quantos milhões de internautas? A praça digital é cada vez mais frequentada. E, assim, o número de pessoas e de ideias que posso entrar em contato diariamente aumentam de maneira sensivel. Consigo me manter informado em muitas coisas que, em um passado até recente, isto me era impossivel. Torna-me fácil explorar novas realidades geograficas, sociais e eclesiais quando, no passado, para ter isso precisava se locomover pessoalmente, fazer viagens incansáveis e extenuantes.

Hoje em dia, tudo isso se reverteu, ficando sentado numa cadeira em frente a um simples computador. Quando tenho dificuldade em solucionar algo pertinente ao meu interesse, compartilho com os meus contatos nos motores de busca.

Eu fico feliz quando consigo lançar uma ideia no mundo, e o mundo digital nisto me ajuda muito, sem encontrar dificuldade de qualquer natureza. É claro que em tudo isso precisa respeitar uma assim chamada deontologia profissional. Isto me trasforma na minha concepção de pensar e agir. Rende-me cada vez mais universal e menos local. Abre-me a mente para os fatos mais consistentes e fecha-me aos insignificantes. Reconheco que esta nova técnologia é um útil instrumento para a nossa evangelização. Porém, precisamos saber usa-la.

Repito: não se trata somente de um símples uso dela, mas precisamos saber o que significa e a portada dela no nosso dia a dia. Devemos discernir como condiciona a nossa realidade. Nisto já pude mostrar através de vários artigos antecedentes neste jornal. Esta cultura digital me facilitou uma leitura mais veloz dos textos. Ebook reader, smartphone, iPad são novos instrumentos tecnológicos que nos permitem de ler um livro em qualquer lugar e momento, com uma certa rapidez. Imagino se uma evangelização entrasse nesses parâmetros o que deveríamos fazer? Certamente a lógica digital é mais presente no mundo jovem.

Com essa nova lógica, torno-me um leitor diferente e creio mais exigente, porque quero saber fazer distinção daquilo que é verdadeiro e daquilo que é falso.

A visita aos nossos mortos

Dia dos finados, dia de visita aos cemitérios. Como é bom relembrar, rezar pelos parentes, amigos que faleceram. Relembrar e homenagear a vida deles é reviver mais intensamente a nossa vida, a nossa peregrinação terrena.

Refletir sobre a morte significa experimentar o profundo silêncio da vida. Um silêncio sem resposta, angustiante, gélido e ameaçador. O ser humano, perante ela, sente-se totalmente só. Nós temos consciência de que deveremos morrer, é isto que mais nos dá medo, não tanto a morte em si. Nós, cristãos, como enfrentamos essa realidade humana? Nós, seguidores de Jesus, como reagimos perante o fato de morrer?

O morrer faz parte da vida humana. A mesma morte se torna um instrumento de vida. Parece um absurdo aquilo que estou escrevendo, mas a verdade é isso mesmo, porque, sem a morte, como teríamos acesso definitivo para a vida que somos chamados?

Quando as pessoas nascem, elas não têm consciência daquilo que está acontecendo. Somente no decorrer de suas vidas vão adquirindo conhecimento e se conscientizando da natureza e da existência humana. Com a morte, cessa essa conscientização. Por isso, nascer e morrer são uma entrega total de si. Os poderes humanos assim, no começo e no fim, se limitam a uma total dependência que garantem a sua promoção de vida. Quem nos ajuda a compreender melhor isso é o nosso único Mestre Jesus, que, com as suas palavras e o seu testemunho, nos dá uma resposta definitiva sobre essa confiança em depender do Deus da vida.

Não temos outras respostas no curso histórico da humanidade. Nesse sentido, lendo a Bíblia, podemos entender melhor tudo isso. O Antigo Testamento nos revela que Deus quer estabelecer uma relação pessoal com o próprio povo. Está escrito em Amós (5,4): “Procurai-me e vivereis.” Assim sendo, é uma relação de confiança do povo com o seu Deus. Um Deus que garante a vida. Porém, as pessoas têm que fazer uma opção de obediência a Ele, que garante a vida, ou de desobediência, que leva a morte.

Desde o começo da Bíblia, fala-se também da morte. Porém, não como projeto de Deus. Deus criou tudo para a vida. Por que, então, a morte? O livro do Gênesis nos mostra que pode acontecer a morte na medida em que o ser humano fique longe Dele. Assim diz a Palavra de Deus: “Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá (Gn 2,17).” Fica bem claro, portanto: perdendo a comunhão com Deus, compromete-se a vida. É essa obediência a Ele que nos afasta da morte. Nesse sentido, se a morte foi criada, certamente não foi Deus, mas, sim, o próprio ser humano.

Deus é somente o Senhor da vida. Nisso consiste o pecado do ser humano de ter ameaçado o poder da vida, que pertence a Deus. Consequência de tudo isso: chegada da morte. Então acendemos as velas nos cemitérios para acender a luz da nossa esperança na vida que Deus nos oferece.

Ter consciência dos nossos limites da identidade

Hoje em dia, qual é a sua identificação? Quem acha de ser?

 

O que está em jogo é a própria identidade pessoal. Nesse sentido, questionar-se é como um espelho que mantém viva a sua capacidade de não perder de vista o conhecimento de ‘SI’. Do ponto de vista psicológico, podemos dizer que muitos elementos da vida mental não conseguem ter uma constância. Ou seja, temos componentes que vão e vem, conforme as circunstâncias da vida.

Além do mais, há componentes, inclusive, que agem por si mesmo, iludindo que sejam decisões do nosso ‘si’, da nossa consciência. Esse grande questionamento da nossa identidade pessoal a revista New Scientist demonstrou, por meio de uma pesquisa, que a identidade é um conjunto de componentes. Agora a questão é essa: como esses componentes ficam unidos entre eles? De outro jeito, faltando essa unidade, continuidade, não teríamos capacidade de nos conceber como pessoa única. Portanto, psicologicamente falando, o que nos tem unidos na percepção de tantas informações que vem tanto do corpo quanto do mundo externo da gente?

Justamente, o que mantém unido tudo isso, é a nossa personalidade, o ‘si’, a própria identidade. Na verdade, trata-se de uma ação bem complexa, em que o cérebro faz a parte dominante, e que na maioria das vezes a gente não tem consciência. Além do mais, existe também a ilusão de sermos os autores conscientes das nossas ações.

É bom dizer também que a nossa percepção identifica o presente como algo reconstruído que tinha acabado de passar. Ou seja, talvez não exista o presente em ‘si’. Os pesquisadores dizem que não temos capacidade mentais de conhecer o futuro porque não percebemos, de fato, o presente, mas, sim, o passado imediato que o transformamos como presente. Com isso, podemos dizer que chegamos atrasados na percepção da realidade. Com essa margem de diferença, por quanto possa ser mínima, não podemos dizer que conhecemos 100% o presente. Porém, segundo o psicólogo Bruce Hood, da Universidade de Bristol, é por meio das relações com os outros que damos mais consistência ao próprio ‘si’.

Naturalmente, para poder interagir com os outros, precisamos ter consciência dos nossos limites da identidade. Isto nem sempre é alcançável. Veja bem, no caso das pessoas que sofrem autismo há maior dificuldade nesse relacionamento, e também de compreender as ações dos outros. Além disso, segundo alguns psicólogos, incide muito a interação social na construção e sustentabilidade do ‘si’. E essa interação social se diferencia em contextos culturais diferentes.

Essa diferença nos testemunha que, em contextos culturais diferentes, se formam ‘Si’ não iguais, cada um com a sua bagagem que mantém a identidade pessoal. Outro elemento importante que foi relevado por um grupo de pesquisadores americanos é que a saudade teria o papel principal de manter a condição psicológica de continuidade do próprio ‘Si’. Veja como acontece tudo isso. Na medida em que tens o prazer de lembrar o passado, na realidade estás dando valor às próprias identidades passadas e também às pessoas, aos lugares e fatos da vida transcorrida. A saudade está a serviço da unidade do ‘Si’.

Deus não pensa como o mundo

O mundanismo parece que toma conta da nossa realidade. Ele se insere no nosso modo de pensar e agir, como se fosse a regra certa de vida e de felicidade. No entanto, é capaz de gerar ódio e divisão. É capaz de corromper, e de corromper até na Igreja. É uma ilusão de vida baseada, exclusivamente, nos bens materiais, na diversão egoística. E quem se opõe a isso é odiado, não é bem visto. Essa maneira de ser criou até uma cultura. Uma cultura que não consegue ir além daquilo que se enxerga, do que aparece. Os valores consistem somente na superfície e, portanto, é esdrúxula, com tempestividades de mudanças, perdendo as certezas de vida do além. Assim sendo, promove-se um modo de ser descartável, isto é, ‘usa-se e se descarta’. Delineia-se uma cultura sem fidelidade, sem raízes, como diz papa Francisco. E muitos cristãos assumem esse modo de ser mundano, confundindo Deus com o mundo. Jesus, o nosso verdadeiro mestre, no entanto, nos diz que esse mundanismo sufoca a Palavra de Deus, a combate.

 

Precisamos resgatar a espiritualidade, qual aprofundamento da palavra de Deus, testemunho e experiência comunitária. É tentar, a partir desta experiência, uma busca de Deus. Neste sentido, a experiência da mãe de Jesus, Maria, ajuda-nos a encontrar caminhos. Todos nós lembramos quando Maria se achava em um profundo silêncio contemplativo e, de repente, foi alcançada pelas palavras do anjo Gabriel. A materialidade não a distraiu.

 

E, assim, Maria conseguiu dialogar com o anjo. Saem palavras simples, mas exaustivas. No começo, até que ela ficou perturbada e refletiu sobre aquilo que estava acontecendo. Aqui surge, espontaneamente, a pergunta: como podemos perceber a presença de Deus na nossa vida, se a gente não consegue fazer um momento de silêncio no nosso dia a dia? As coisas efêmeras mandam na vida. Imagino Maria totalmente absolvida nesta ação para tentar entender.

 

De fato, isto acontece também conosco quando não sabemos o que fazer? Qual a nossa reação perante tudo isso? Maria nos orienta neste sentido. Ela procurou escutar atentamente o enviado de Deus e, com isso, conseguiu dialogar. Nós conseguimos reconhecer o enviado de Deus na nossa vida cotidiana? Deus não falou só naquele tempo e a uma só pessoa, mas em toda a história da humanidade. E, assim sendo, também no nosso tempo. Estamos percebendo tudo isso? Para poder dialogar, temos que saber escutar.

 

Como vivemos a nossa dimensão de saber ouvir os outros? Maria consegue dar um sentido a sua vida, por meio do diálogo com o anjo que interveio na vida histórica dela. Portanto, Deus não pode ser encontrado fora da nossa realidade, da nossa vida e dos nossos acontecimentos. Toda a Bíblia nos confirma que Deus toma a iniciativa da sua presença na vida do ser humano. Maria demonstrou que tem consciência disso reconhecendo-O na sua história, dando aquela sublime resposta de confiança: “faça-se em mim segundo a tua palavra!”.

Enciclica do papa Francisco: ‘Fratelli tutti’

“Mesmo depois do céu cinzento da pandemia, esta encíclica abre um horizonte de esperança: todos nós somos chamados a nos tornarmos irmãos e irmãs. Surge um sonho pelo qual devemos viver e lutar, mesmo com as mãos nuas”. Assim falou o professor Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egidio, docente de História Contemporânea, sobre a nova encíclica do papa.

“Fratelli tutti” (Todos irmãos), do santo padre Francisco, nos convida a ter um coração aberto ao mundo inteiro para trabalhar em prol da fraternidade universal. Como? Em síntese: acolher as pessoas migrantes e todos os marginalizados, desenvolver a consciência de que ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém e buscar um ordenamento jurídico, político e econômico mundial que tenda para o desenvolvimento solidário de todos os povos.

Precisamos, diz o papa, abrir as nossas mentes e os corações para que nos ajude a perceber o diferente na comunhão universal de cada grupo humano que encontra a sua beleza. O ser humano é o ser fronteiriço que não tem qualquer fronteira. “Todos irmãos”, expressão do grande santo Francisco, aponta um projeto de fraternidade bem claro e substancial para toda a humanidade, meio perdida. E um dos obstáculos para essa fraternidade é a guerra. “A guerra – diz o Papa alarmado – não é um fantasma do passado, mas se tornou uma ameaça constante”.

O professor Riccardi comenta que “a encíclica alarga o nosso olhar sobre o mundo à luz da fraternidade: o que está distante de nós, diz-nos respeito. O olhar da fraternidade nunca é míope. É evangélico e humano, mas também muito mais realista do que muitas ideologias ou políticas que a si mesmas se autodefinem como realistas.” As guerras não podem melhorar a vida das pessoas e dos povos, alias abalam o ser humano como um todo.
Lembro-me quando meu pai me contava sobre os seus momentos trágicos que viveu na II Guerra Mundial e que nunca conseguiu delatar de sua memória. Dizia-me que a vida dele foi marcada por essas bombas e projéteis que passaram perto dele. O seu psicológico foi prejudicado para sempre, tanto que uma vez, chorando, ele me pediu para compreendê-lo, quando se alterava demais. E, por isso, concordo com o papa quando ele diz: “Cada guerra deixa o mundo pior do que o encontrou”. A guerra, escreve o santo padre “é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota diante das forças do mal”.

A encíclica “Fratelli tutti” insiste sobre a responsabilidade de todos como construtores da paz. Portanto, desperta em todos nós o lado protagonista, o ser promotor de um mundo da paz. “Fratelli tutti” envolve também todas as religiões a testemunhar o diálogo, a promover a paz, mensageiras de amor transcendente a um mundo faminto e sem escrúpulos.

Papa Bergoglio escreve ainda na encíclica: “Procurar a Deus com o coração sincero, contudo, sem o macular com os nossos interesses ideológicos ou instrumentais, ajuda-nos a reconhecer-nos como companheiros de caminho, verdadeiramente irmãos”.

Este belíssimo documento nos exorta, enfim, a sermos mais próximos uns dos outros para compreendermos a beleza do Criador, da vida e sermos arquitetos da paz. E termino com essa frase tão significativa do papa Francisco: “Se consegues ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da tua vida.”.

O que de fato sabemos?

Eu me pergunto: até aonde chega a nossa capacidade de compreender a realidade? Afinal, o que de fato sabemos? Esse excesso de informação não nos dá mais ansiedade e insatisfação?

Agora, temos também a concorrência da internet que multiplicou a produção, causando, assim, uma hiperprodução do chamado “saber”, transformando os conteúdos do mesmo saber quanto o mesmo significado do conhecimento. Vocês percebem hoje como diminuiu o número de frequentadores nas bibliotecas, porque com um simples computador em casa se pode fazer uso mais rápido e eficiente de pesquisa. Portanto, o nosso conhecimento está extremamente ligado à nova vida eletrônica. Por isso que o mercado multiplica esses meios, porque se tornaram, eu diria, vitais na vida das pessoas. A perspectiva atual, por exemplo, é de que cada “blogger se torna um meio e cada leitor um editor”.

Isto quer dizer que hoje é muito mais fácil participar dos eventos da vida do mundo todo, e, ao mesmo tempo, ter a capacidade de dar as próprias opiniões independentemente dos meios oficiais. Assim, toda pessoa se manifesta, porque acredita no saber. Nesse sentido, os internautas participam ativamente das atividades digitais, dando seus pareceres, criticando, corrigindo ou enriquecendo, se for o caso. O quadro cultural muda da necessidade de saber à necessidade de compartilhar. Porém, o que provoca tudo isso? Neste ponto, a questão do conhecimento torna-se uma discussão. Hoje em dia, a base disso são os fatos que contam, contrariamente do passado que era a teoria dos símbolos para mostrar uma ideia universal e analogias para melhor entender.

Agora, com a internet, visando o social, evidencia-se que os fatos não são unidades isoladas de conhecimento, mas fazem parte de uma rede mundial. E tudo isso pode subsistir pelo fato de ter pessoas que querem compartilha-los. Para demonstrar tudo isso no passado, quando se queria dizer que a criminalidade do estado tinha diminuído, era suficiente citar as estatísticas dentro de um artigo. O leitor não tinha outra escolha senão acreditar ou não. No entanto, hoje os mesmos dados estão à disposição de todos os internautas e podem verificar a veracidade da informação.

Este novo compartilhamento oferecido pelas redes sociais muda o príncipio do novo conhecimento. Portanto, hoje a inteligência passa através das redes sociais que permitem as conexões entre as pessoas pelo mundo inteiro. Essa nova maneira de conhecer permite de ser mais humano, menos preciso, mas mais transparente; menos consistente, mas mais abrangente. É em ato um novo saber. Naturalmente, perante essa realidade, é necessário uma educação para saber fazer um correto uso dessas redes sociais. Percebe-se que no on-line acontece de tudo, como também de quantas coisas que passam por ai e que poderiam prejudicar o próprio saber das pessoas. Por isso, é urgente construir filtros que possam promover o novo saber.

As redes dos fluxos de informação replasmam a sociedade

A mídia tradicional não chegou ao fim, mas houve uma re-mediação dela em um novo modelo digital global. Os videogames, por exemplo, ensinam às crianças as regras escondidas para poder interagir com os nossos desejos e necessidades. A inteligência conectiva está substituindo aquela lógica linguística.

 

As redes dos fluxos de informação replasmam a sociedade contemporânea. A lógica dos fluxos de informação na sociedade é global e universal, mas não onicompreensiva. É impossivel reduzir à uniformidade a multiplicidade. Dezenas de milhões de pessoas usam os blogs para compartilhar e trocar experiências. Este uso hoje já é reconhecido tanto pelos jornalistas quanto pelos jornais do mundo todo como fonte de informação. No entanto, o uso é muito pessoal. Por isso, hoje as notícias não passam da mídia para as pessoas, mas das pessoas para a mídia. Metodologia e conceitos mudaram. Vimos como a mídia analógica triunfou na época da produção industrial de massa, mas este sistema de comunicação parece que não consegue responder mais às necessidades e desejos de uma sociedade pós-industrial.

 

Segundo a teoria de Lasswel (1948), a mídia e o modelo comunicativo se baseiam sobre uma teoria de comunicação que quer informar e persuadir mais ou menos ocultamente para convencer ou manipular, no lugar de interagir ou a cooperar.

 

Umas das características da mídia elétrica, segundo McLuhan, e da mídia eletrônica, segundo Bolter, é aquela que tem como conteúdo outra mídia (nova mediação). A mídia digital, tenta englobar, na nova mediação, toda a midia analógica.

 

A tese que queremos demonstrar é que, em breve e médio tempo, a atual organização do mercado da indústria cultural é destinada a se acabar. A mídia tradicional, como nós conhecemos hoje, vai se extinguir.

 

Um novo modelo é destinado a se afirmar, assim como uma nova estruturação do setor da comunicação e da cultura, um modelo baseado sobre dinâmicas da convergência e divergência digital.

 

Por convergência e divergência digital, entende-se o convergir em código binário (é um sistema de numeração posicional em que todas as quantidades se representam com base em dois números) de todos os conteúdos: informações, notícias, conteúdos textuais, musicais e visuais.

 

Segundo o “profeta” da comunicação McLuhan, quando uma nova tecnologia da comunicação entra na vida da sociedade, precisa ver quais são os efeitos socioeconômicos produzidos. Por isso é necessário se questionar: o que desenvolve ou promove a comunicação? Quais são os meios que se tornam obsoletos ou inutilizados pela inovação tecnológica?

 

O que reutiliza a nova mídia daqueles meios que foram jogados para o escanteio? Quais os efeitos que geram e que acontecem quando são levados nos seus limites comunicacionais?

 

Com certeza, essa mudança de época nos obriga a ter atitudes bem dinâmicas, não podemos somente ser espectadores neste novo cenário social.

As pessoas e a internet

A internet está cada vez mais inteligente? Este é o questionamento de muita gente hoje, no terceiro milênio. O famoso Marshall McLuhan (1911-1980), canadense, ‘profeta’ da comunicação, tinha previsto, já no ano 1962, que o “próximo meio teria sido a extensão da consciência, e a internet representaria de fato esta grande extensão que contem memória e inteligência.

 

Que a televisão iria se tornar uma forma de arte, e o YouTube não a poderia representá-la, enquanto colocada à disposição para cada um de nós, transformando em arte e emoção global. O sonho de Marx se realizou: a apropriação de um instrumento à disposição de todos”.

 

Esta previsão perspicaz nos surpreende e nos interpela mais ainda para aprofundar tal debate. Certamente, não se pode dizer que a internet está cada vez mais inteligente, no entanto, que é uma “ação orquestrada entre os seres humanos e Web (rede de alcance mundial). Esta combinada ação dos dois elementos pode dar início a um princípio de inteligência superior a cada uma das partes.

 

Com certeza, não podemos parar aquela fome de se conectar à rede, o desejo de ficar ligados à telinha, mas é possível incorporar aquela necessidade de uma fusão efetiva da tecnologia com o corpo, para fazer daquela conexão, por meio da tecnologia, uma ligação física”.

 

E nesta época de explosão tecnológica surgem diversas perguntas e questionamentos que poderíamos resumir desta forma: quando os sentimentos podem ser programados, podemos, na verdade, acreditar naquilo que nos dizem do mundo? Esta mudança de época pode transformar profundamente a vida do ser humano?

 

Continuando com McLuhan, o computador teria sido, segundo o pesquisador, o próximo “sistema de pesquisa e de comunicação” e teria capacidade de “melhorar o resgaste da informação e tornar ociosa a organização da biblioteca”.

 

Além de desenvolver uma “função de enciclopédia” e de se transformar numa “versão privada para transmitir dados”. Atualmente, nós entramos, segundo Derrick de Kerckhove, (Wanze, 30 maio 1944) um crítico literário belga naturalizado canadense, e que trabalhou com Marshall McLuhan por mais de 10 anos como tradutor, auxiliar e co-autor, “na terceira idade da linguagem. A primeira é representada pelo reino da oralidade, baseada sobre os relacionamentos face a face e sobre a qualidade de ser sociável.

 

A segunda, a era da escrita, cria uma nova situação: a linguagem é revelada, colocada sob o controle do leitor de maneira que pode gerar uma mudança entre comunidade e a pessoa, que toma o poder sobre a linguagem e escreve o seu destino. Com a passagem à eletrônica, pelo contrário, na terceira era, a linguagem se mistura ao nosso ser.

 

Agradecendo à digitalização, nos tornamos criadores e atores da linguagem, mas somos também condicionados pela possibilidade de rastreamento. Por fim, o Ipad nos leva ao tato, revertendo o pensamento do século de Freud, no qual o homem tem medo do seu corpo e o olho prevalece sobre o tato”.

A democracia de inspiração cristã

O catolicismo democrático nasceu e cresceu na Europa, no fim do século 19, porque os católicos se preocuparam com vivência dos valores da própria fé, uma fé encarnada na sociedade como um todo. Como se deve identificar a democracia de inspiração cristã? Creio que poderíamos dizer: é bem reformista.

Isto é, segundo a Enciclopédia Treccani, o ‘reformista é aquele movimento político que repudiando tanto os sistemas revolucionários quanto os conservadores, reconhece a possibilidade de modificar o ordenamento político existente somente por meio da atuação de orgânicas, mas graduais reformas’. Assim sendo, é uma democracia que se caracteriza pela capacidade de mediação. Porém, essa mediação não se define em agradar a todos, mas representar a todos, sobretudo os menos favorecidos e frágeis.

Não temos dúvidas em afirmar que aqueles que aderem a esse tipo de democracia, a laicidade na sociedade, vivem a maneira de ser cristão adulto. Gostei dessa definição de Pietro Scoppola, político e acadêmico italiano, que disse o seguinte a respeito da laicidade: “A laicidade não é apenas sobre os Estados, as leis, o modo de ser das Instituições. A laicidade é, antes de tudo, um modo de viver a experiência religiosa ao nível pessoal e interior; se falta esta condição interior também os aspectos institucionais da laicidade, eles serão enfraquecidos e, no fim, comprometidos”.

O Magistério da Igreja daquele tempo se pronunciou a respeito disso, reconhecendo a importância histórica dessa experiência de fé na política. E essa inspiração cristã na democracia de então solidificou um planejamento em que se destacava a defesa da família, liberdade do ensino, referendos locais, centralidade dos municípios e formas de previdências sociais, representação proporcional e voto às mulheres, liberdade da Igreja e construção de uma ordem mundial nova.

Tudo isso não era um compromisso político, mas uma proposta de convivência social, a partir da Doutrina Social da Igreja. E a famosa Encíclica RerumNovarum, do papa Leão XIII, 15.05.1891, também inspirou esse movimento democrático: “A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social.

Efetivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos de um pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião, enfim, mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito…”

Já se passaram mais de cem anos e essa lição é tanto mais atual para os nossos tempos. Não por acaso, o mesmo Concilio Vaticano II, com a Gaudium et Spes, considera o compromisso político como uma vocação especifica na Igreja. E a democracia garante a participação dos cidadãos às escolhas políticas. Tudo isso iluminado pelos valores da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja. ■