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Pe. Claudio Pighin

Não se pode comercializar Deus

Estamos assistindo, ao longo desses últimos anos,a religião sendo apresentada igual a um produto de consumo. O processo de marketingparece que se tornou um meio muito atrativotambém para as igrejas do nosso tempo. A fé não pode ser comparada a uma roupa, a um sabonete. Ela não pode ser comercializada, como não pode absolutamente ser comercializado Deus, porque Ele está acima de tudo e de todos. Veja como as empresas, estrategicamente, fazem de tudo para vender a própria logomarca como garantia de sucesso na comercialização dos seus produtos. As igrejas também se preocupam, sobretudo, em reforçar as próprias instituições para ter garantias de venda de seus “produtos”. Portanto, adquiriu-se, em certo sentido, um processo de falta de fé, reduzindo Deus em segundo lugar: a instituição se tornou mais importante. Praticamente, ainstituição substitui, pelo privilégio, Deus. Nesse sentido, temos que reconhecer, desse jeito, que a mediação supera mensagem.

 

Com isso, não podemos, de jeito nenhum, reduzir as igrejas a empresas, que se preocupam em fazer “conquistas” para “ter” cada vez mais. Assim sendo, amplia-se sempre mais um processo de materialismo no lugar da fé. Esse grande perigo pode levar o indivíduo a fazer uma experiência reduzida do ser humano, limitando-o a uma simples dimensão corporal.

 

É verdade, embora não se fale expressamente de marketing comercial, porém, os métodos são muitos parecidos. A religião, para manter as suas lideranças, multiplica as maneiras de como mais consumir. Assim, propõe produtos de atração para o povo, que quase se sente obrigado a valorizá-los, confundindo-os com o dom da fé. É verdade, também, que as pessoas começam a demonstrar certa insatisfação em relação às instituições e procuram dar mais ênfase a uma experiência direta com Deus. O pragmatismo individual não isenta nem mesmo a religião. A cultura que favorece o individualismo, típica da nossa sociedade urbanística, certamente promoverá uma experiência religiosa pessoal mais que comunitária.

 

Com isso, vai se complicando o mandamento de Deus de “Amar a Deus e ao próximo”. O cenário da sociedade não favorece essa prática de fé. Torna-se difícil entender Jesus e viver o seu testemunho, porque não vai ao encontro das nossas concepções da vida. Com isso, é muito fácil criar idolatrias, que tentam substituir a verdadeira presença de Deus. Por sinal, isto é o pecado, segundo as Sagradas Escrituras, que enfurece o nosso Deus. Um processo de marketing não seria, por acaso, uma pretensão de querer manipular a Deus? Marketing é também ter certezas. No entanto, quem faz a experiência de Deus na sua vida não tem outra certeza se não depender totalmente Dele.

 

A fé, de fato, é se deixar conduzir cegamente por Deus. Dessa forma, quero dizer que o marketing religioso é mais um serviço por interesses não estritamente espirituais. Às vezes, eu penso como as religiões podem fortalecer a dimensão materialista de marketing no lugar da espiritual.

O drama da pessoa

O pior drama para o ser humano, eu creio, é quando a pessoa se sente só; não consegue dar sentido a sua vida; é ausência total do seu eu. Para dizer a verdade, eu me sinto à vontade quando consigo fazer o silêncio ao meu redor para ajudar o silêncio dentro de mim. É esse encontro que me ajuda a dar sentido a minha vida. Sinto-me seguro e sereno. Como diz a Sagrada Escritura nos livros dos Salmos: “Como a criança bem tranquila, amamentada no regaço acolhedor de sua mãe (Sl 130)”. E esse silêncio me favorece em perceber o quanto é precioso o convívio, por exemplo, com a mãe natureza. Ouvir a linguagem dos animais, do vento, das árvores, das águas… Essa percepção me permite entender melhor o ser humano e seu cotidiano. Sentir o drama e a alegria das pessoas. Portanto, refugiar-me no meu silêncio não significa fugir da realidade do mundo, mas, pelo contrário, ir ao encontro dele com toda a pureza de espírito.

A partir disso, eu me pergunto: por que a cidade é tão barulhenta? Por que nossos lares são invadidos por tantos aparelhos tecnológicos audiovisuais? Por que todos esses celulares, esses desejos de falar sempre com alguém, sem deixar tempo para falar consigo? Parece que o ser humano tem medo de estar só. Quer evitar a tudo custo a experiência de se achar consigo mesmo.

O barulho, sons e exterioridade são uma maneira de preencher esse vazio. Para eles, o silêncio dá ansiedade, marginalização. Assim, não se consegue mais ouvir as outras linguagens sutis da natureza e das lamentações silenciosas dos irmãos em perigo ou sofrimento. A nossa surdez causada pelo excesso de sons e barulhos nos prejudica na nossa fala, na nossa comunicação. É verdade que não só falamos muito, mas também gritamos. Porém, não comunicamos. Isto é, não conseguimos nos fazer entender. Estamos numa situação babélica. A verdade, mais que falar é gaguejar. Daí, pode-se compreender como podemos nos comunicar.

O ser humano, assim, vai se enfraquecendo e se tornando cada vez mais frágil na comunicação. Para dizer a verdade, eu aprendo muito mais a falar ficando tempos prolongados, todos os dias, perante a cruz. É o silêncio da cruz que desperta em mim os conteúdos da vida, perspectivas cósmicas, preenchendo o meu ‘coração’. Tudo isso gera palavras mediadoras daquilo que existe em mim. Elas se tornam veículo de transmissão daquilo que a minha vida tem. Portanto, silêncio e palavras não podem ser separados, mas cada um precisa do outro. São coexistentes. Porém, quando o silêncio se torna uma tumba, rompe a harmonia do ser e da sua existência. De fato, posso ouvir, mas não entender, posso perceber os sons das palavras, mas não decifrá-las ou decodificá-las. Assim, cala-se a minha vida nos meandros da história. O mundo parece tornar-se um deserto, uma total aridez.. ■

A Igreja não pode ficar calada

Tenho a impressão de que as incertezas e a autodestruição estão dominando nosso tempo. Tempo de mudanças antropológicas que focam um novo relativismo. Os papas, e sobretudo Bento XVI, denunciaram esse perigo. Um perigo que pode levar às ideologias totalitárias e autoritárias e que, por sua vez, pretendem ser donas da verdade. A nossa Igreja, defensora da verdade em Jesus Cristo, não pode ficar calada perante esse perigo das ideologias totalitárias. Ideologias essas que querem dominar desde o campo religioso até o campo politico e social.

A campanha contra o Sumo Pontífice, papa Francisco, por exemplo, é sustentada por uma ideologia totalitária, porque o vê como um perigo para os poderosos que, sobretudo, querem celebrar, perpetuar o presente como absoluto, abrindo assim movimentos reacionários. Com essa lógica do presente absoluto, não tem espaço para Deus, pelo menos o Deus que Jesus Cristo nos revela, porque Ele criou a realidade temporal absoluta que vai além do presente, do passado e do futuro. Com essa lógica e realidade de Deus, a vida do ser humano deve ser avaliada na totalidade e, portanto, dar vida a diferenças e manifestações de pessoas.

Nesse sentido, por exemplo, uma economia que não favorece uma solidariedade e fraternidade foge dos tempos de Deus e favorece um presente absoluto que beneficia uns e exclui outros. Também, em nível político, a tendência é privilegiar uns, deixando de lado uma maioria. Perante um cenário desse tipo, a Igreja não pode ficar calada, mas deve proclamar a grande verdade que Deus é o absoluto. Ao Deus que tudo lhe pertence. Um Deus que é Pai e que favorece todos os filhos e filhas, sem excluir ninguém. Uma ideologia do presente absoluto gera divisões, exclusões, materialismo.

Não tem mais espaço para Deus, mas, sim, para um deus que não ouve e não fala. Diria a Palavra de Deus: um deus dos pagãos. Tenho a impressão que no nosso tempo prevalece um deus dos pagãos e o Deus de Jesus Cristo é considerado muito perigoso. Assim sendo, podemos constatar que o aspecto humano esteja muito enfraquecido, justamente porque o Deus verdadeiro se tornou uma experiência de vida do passado ou pelo menos está ausente no momento presente. E a Igreja não pode ficar ausente num cenário como esse. Não pode ficar apartada.

A Igreja tem uma grande responsabilidade de proclamar a Palavra de Deus, de educar, de edificar na fé e da promoção humana. Formar as consciências sócio-políticas dos fiéis, convidando-os a uma nova responsabilidade pessoal ao redor dos valores do evangelho. E perante essa crise que marca o nosso tempo, que é fruto também da passagem da era industrial à era tecnológica, de um mundo fechado nos próprios confins a um mundo globalizado, a Igreja que caminha com o mundo se sente cada vez mais envolvida.

Por tudo isso, a Igreja não pode ficar calada perante concepções antropológicas e políticas inconciliáveis com os pontos de vistas da Palavra de Deus sobre o ser humano e sobre a sociedade. É urgente evitar um ‘presente absoluto’ para valorizar todas as pessoas.

Louva, ó minha alma, o Senhor!

O salmo 145 das Sagradas Escrituras é o grande louvor ao Senhor Deus. Um louvor sem fim, que perdura até o fim: “Louvarei o Senhor por toda a vida. Salmodiarei o meu Deus enquanto existir.” Portanto, é um hino de festa, mas, ao mesmo tempo, pode-se notar uma grande concentração teológica. Veja nesses versículos: “É esse o Deus que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; que é eternamente fiel à sua palavra, que faz justiça aos oprimidos, e dá pão aos que têm fome. O Senhor livra os cativos; o Senhor abre os olhos aos cegos; o Senhor ergue os abatidos; o Senhor ama os justos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva; mas entrava os desígnios dos pecadores. O Senhor reinará eternamente; ó Sião, teu Deus é rei por toda a eternidade.”

Observa-se quantas vezes o nome de Deus é citado. E qual o sentido de todos esses nomes? Preocupam-se em celebrar quanto esse Deus ama as suas criaturas, em particular, àquelas fragilizadas e fracas. E mostra o salmista através da citação “Deus que fez o céu, a terra e o mar”, de maneira bem simbólica, a criação do universo na sua totalidade. É esse o Deus criador que tudo lhe pertence, e nós queremos adora-Lo. Por que queremos adora-Lo? Porque Ele é fiel para sempre à sua imensa obra criada. Que maravilha aos nossos olhos essa obra divina! Não temos palavras ao contemplarmos tudo isso. Além do mais, revela o autor que Deus faz ‘justiça aos oprimidos’ e abate os poderosos. Um Deus, portanto, que é justo e defensor dos últimos.

Na mesma lógica, continua o salmista dizendo que Deus ‘dá pão aos que tem fome’. Assim sendo, afirma, de maneira indireta, sobre a destinação universal dos bens que estão antes de cada direito de propriedade privada. Continua dizendo que o Senhor livra os presos e abre os olhos aos cegos. Isto mostra implicações da era messiânica, revelando assim sinais da nova criação de uma nova humanidade. O salmista conclama também que Deus ‘ergue os abatidos’: Ele se curva sobre aquele que está no chão pelo desespero e pela humilhação da vida e fica próximo para lhe dar a possibilidade de se agarrar e assim se levantar para ter novas perspectivas de vida. Dignidade. Tem mais: ‘O Senhor ama os justos’, isto é, os fiéis que seguem e vivem a lei moral divina. ‘O Senhor protege os peregrinos, os estrangeiros’: eles têm em terra estrangeira o defensor e protetor supremo que é o mesmo Deus. ‘Ele ampara o órfão e viúva’, categorias desprotegidas de um defensor, neste caso, que seriam pai e esposo, e, portanto, confiados diretamente ao Senhor. ‘Entrava os desígnios dos pecadores’, o autor quer mostrar como Deus se opõe àqueles que se afastam Dele em seus gestos e mentalidades. É a justiça que prevalece contra os projetos dos ímpios, de forma que quem reina é sempre o Senhor.

Por isso, o louvor é proclamar o projeto de amor e de misericórdia de Deus sobre o mundo. É este Reino que perdurará pelos séculos, de maneira gradual e eficaz. Esta perspectiva leva a louvar sempre o Senhor da Vida.

Por que as notícias falsas?

Por que notícias falsas correm rapidamente nas redes sociais? Qual a intenção de tudo isso? Para que serve esse tipo de (des) informação? Em síntese, poderíamos dizer que as falsas informações percorrem de forma extraordinárias as redes sociais porque é através delas que se tenta firmar as amizades com pessoas de mesmo caráter e que trocam conteúdos entre si. Todos nós sabemos que a informação é um fenômeno de contagio social e, nesse sentido, nunca, como hoje, vimos a grande importância que assumiu a mídia como informação. Essa vitalidade das notícias tem uma semelhança entre as pandemias e a maneira como circula uma falsa notícia nas redes sociais, mas também tem grandes diferenças.

A partir dessas considerações se torna difícil prever e analisar suas dinâmicas. A essa altura, podemos nos questionar: sobre esse tipo de ação nas redes, é possível considera-la como inteligência grupal-comunitária ou poderia ser considerada uma ignorância grupal-comunitária? Provavelmente, por que não considera-la as duas faces da mesma moeda? Uma coisa é certa: a informação é um fenômeno de contágio social. Assim que recebo, por exemplo, algumas informações dos meus amigos ou conhecidos e começo a repassa-las. É como se tivesse sido infectado. E, por sua vez, eu infecto os outros. Portanto, como se defender dos vírus das redes?

Falando de informação, a sociedade tem uma grande incidência sobre a possibilidade de contágio. E se por acaso essas informações vierem de amigos ou de pessoas que simpatizamos e que confiamos porque têm os mesmos interesses e pensamentos, então têm ainda mais importâncias as informações. Assim sendo, é possível prevê onde, quanto e quando se difunde uma informação falsa? Perante esse questionamento, precisamos compreender o que é uma notícia falsa, o que é desinformação. Às vezes, é simples para entender, às vezes, é meio complicado. Portanto, compreender qual é a percepção do mundo a respeito de uma determinada notícia pode ser bem complexo.

Precisamos detalhar o espaço, o ambiente onde nasce essa falsa notícia; identificar as pessoas com quem se mantém o contato constantemente e seus costumes de vida, e assim por diante. Com essas novas tecnologias que invadem qualquer território pode ser mais possível identificar elementos para uma melhor analise da realidade e, assim, cruzar as notícias e identifica-las. Mas se isso é verdade para peneirar melhor as notícias, também é verdade que se podem difundir cada vez mais notícias falsas. Essas redes sociais, colocando a disposição de todos quaisquer tipos de notícia, podem iludir muitos de saber tudo, de estar informado de maneira eficiente. No entanto, isso não é verdade.

É urgente nos conscientizar para evitar abrir um grande conflito entre a idade da inteligência coletiva e da ignorância coletiva. Infelizmente, essa ignorância coletiva pode mudar a própria realidade: compreender uma coisa por outra pode levar a situações desastrosas.

Papa Francisco promovera missão evangelizadora

A instrução da “Conversão Pastoral da Comunidade Paroquial a Serviço da Missão Evangelizadora da Igreja”, da Congregação para o Clero,20.07.2020, focaliza muitos aspectos. Por exemplo, render a “evangelização como promoção para que as comunidades cristãs tornem-se cada vez mais centros propulsores do encontro com Cristo”. E o papa Francisco se pronunciou assim: “Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer (Mc 6, 37).”

A Igreja de Jesus Cristo sempre se preocupa em estar presente na vida das pessoas e como melhor servi-las na ótica do Reino de Deus. O seu projeto vai além dos projetos humanos, porque é de Deus. E o Santo Padre, o papa Francisco, hoje deve ser fiel a Deus na sua missão, porque ele é sucessor de Pedro. O que me deixa, sobretudo hoje em dia, altamente triste é ver católicos que contestam o papa, dizendo que não o representam, talvez porque não satisfaça as ideologias deles. É bom esclarecer que o papa não é eleito por nós nem por partidos ou por qualquer um que o pretenda. Ele foi escolhido pelo Espirito Santo, isto é, por Deus.

Quando Jesus escolheu Pedro, não foram os apóstolos que o indicaram, mas foi o próprio Deus que o escolheu. Não reconhecer isso significa que estamos fora da Igreja de Jesus. É muito grave isso enquanto rompe a comunhão com a mesma Igreja que Jesus fundou. A Igreja não é um partido político; e tentar se espelhar nela para dar uma razão partidária é manipular a verdade, distorcer a verdade. O papa, fiel ao Evangelho, conduz a Igreja rumo à salvação, a uma vida que fica para sempre.

Segundo alguns católicos, por sorte são poucos, o papa Francisco é comunista, faz política e assim por diante. O papa, como verdadeiro pastor, deve conduzir a Igreja conforme Deus estabeleceu e planejou. É evidente que esse pastoreio abrange tudo e afeta tudo. Justamente, com essa preocupação da missão evangelizadora, o papa nos ajuda como melhor realizá-la. Portanto, o nosso papel é saber escutá-lo e colocar em prática o seu ensino. Isto significa que, como bons católicos, devemos ser obedientes a ele e não desobedientes como alguns fazem. No lugar de duvidar e rejeitar, precisamos viver seriamente aquilo que o sucessor de Pedro nos orienta, porque é para o nosso bem, para uma vida infinita que nenhuma ideologia desse mundo pode nos dar. Duvidar de Pedro é duvidar do projeto de Deus. Aqui está em jogo a verdadeira felicidade da nossa vida.

Conversão pastoral

Algum tempo atrás, escrevi que o racionalismo tecnológico se torna protagonista da vida das pessoas e dos jovens. Porém, esse racionalismo algorítmico tem uns limites. Por que isso? Porque os compromissos e as analogias das aproximações algorítmicas levam a suprimir tudo aquilo que não se compreende. A nossa sociedade hoje é envolvida nisso e, então, a verdade é geralmente e exclusivamente pessoal.

Assim é difícil dialogar. Mesma a religião, se não é possível compreender nem se percebe ter entendido, migra-se com facilidade para outra crença. Tudo se generaliza e se formaliza, dizendo que mais ou menos tudo é igual. A verdade se torna subjetiva e não objetiva e o pensamento mágico é um claro processo algorítmico. Além do mais, o perigo é raciocinar que o pensamento humano e os processos da computação são como idênticos. Nós confundimos o conhecimento e o significado, o processo e o propósito.

Efetivamente, se o nosso raciocínio é cada vez mais dependente dos sistemas de computação tanto mais deveremos enfrentar processos racionais que estão fora do nosso controle, e mais dependentes da técnica informática. Por isso, com toda sinceridade, confiamos e delegamos a esse processo algorítmico o nosso pensar e agir. De tal modo, a verdadeira ameaça cultural ainda somos nós, porque fomos nós a dar todo esse poder ao processo algorítmico computacional. É assim que o novo Diretório para a Catequese quer ajudar a renovar a catequese na evangelização nesse novo processo cultural digital.

O que é este Diretório para a Catequese? É um documento da Santa Sé para todas as igrejas no mundo. Os envolvidos diretos com o uso desse diretório são Bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos e catequistas. A preocupação desse documento é ajudar a realizar uma catequese mais eficaz aos tempos de hoje. Tempos que mudaram totalmente a cultura, como falava acima, tecnológica e digital. A proposta de Jesus deve passar necessariamente pelos meios de hoje, em que o imaginário é muito reforçado, eu diria constitucional.

Assim sendo, denota-se uma séria preocupação de como melhor encarnar a proposta de catequese em nossos dias. A Cultura digital, já globalizada, determina o nosso processo evangelizador. Estamos numa transformação radical da nossa convivência e da mesma identidade pessoal. Portanto, é necessário um modelo de comunicação, de novas linguagens que possam responder a esta nova realidade. Este novo diretório pretende inspirar novos percursos para que a catequese possa oferecer aos fiéis deste mundo digitalizado capacidades de compreender e acolher a Boa Notícia de Jesus Cristo.

Realmente, eu me questiono: se, no passado, a evangelização se deixou manipular pela linguagem da escrita e verbal, por que hoje a mesma não pode se deixar manipular pela linguagem digital? É demais importante a evangelização e devemos fazer de tudo para que se torne sempre mais eficiente. Assim sendo, a catequese não pode estar separada da evangelização e não pode ser uma teoria abstrata, mas um instrumento existencial.

A realidade dos fiéis

Uma pesquisa sobre religião, teoria e prática, realizada em 2001, com jovens e adultos de bairros de Belém indicou que muitas pessoas passaram a frequentar as Igrejas evangélicas. As mais frequentadas são Universal, Seitas Pentecostais, Assembleia de Deus e Quadrangular. Apesar da maioria dos entrevistados ser da religião católica, ficou evidente, ou quase, o grande desconhecimento sobre a Igreja. De questões mais simples de catequese como os dez mandamentos e os sacramentos da Igreja, até questões mais profundas da Igreja como o funcionamento da paróquia, a maioria dos entrevistados mostrou desconhecimento.

O importante que a pesquisa desnudou foi uma tendência cada vez maior de fiéis não praticantes que, na verdade, conhecem pouco ou quase nada da Igreja que participam. Dizem-se católicos por tradição da família ou por influência de terceiros, mas em geral vão à missa eventualmente nos momentos de festa da Igreja. Isso indica que há uma massa de pessoas que se dizem católicas, mas não praticam os ensinamentos doutrinais.

Destaca-se na pesquisa uma maioria de jovens, em geral de famílias de classe baixa, que vive de 1 a 3 salários mínimos. Os dados indicam uma tendência clara dos jovens para o desapego ao modelo eclesial tradicional que não responde mais as exigências do mundo contemporâneo. O fato da Igreja Católica no Brasil, nos últimos 10 anos, ter investido mais na construção de um estilo de Igreja que valoriza muito mais o louvor, com aspectos espiritualistas, em detrimento da vivência de uma espiritualidade libertadora que engaja as pessoas em pequenas comunidades e paróquias é um dos fatores que incidem nessa mudança.

A prática recente de querer tão somente encher as paróquias sem processo de formação catequética e eclesial coloca a Igreja Católica na direção de dois dilemas: manter o número de católicos atual, mesmo considerando que a grande maioria sabe quase nada da instituição, e investir na espiritualidade que não liberta para manter fiéis que não conhecem nada da doutrina da Igreja, portanto, incapazes de construir uma Igreja engajada e libertadora.

É importante destacar que ao não se interessar por esses problemas que consideramos serem cruciais para o avanço da Igreja Católica, entendemos que se coloca em crise uma instituição histórica que, de pouco a pouco, perde espaço para as seitas e as outras Igrejas cristãs.
A pesquisa é reveladora de uma situação que precisa ser enfrentada pelos líderes católicos: declínio do número de fiéis que migram para outras Igrejas e crenças; e o aumento cada vez maior de jovens que são católicos não por terem paixão e acreditarem na doutrina da Igreja, mas tão somente por uma questão familiar e outras que advém, como a não exigência de participar da Igreja seguindo os ensinamentos e respeitando a sua doutrina.

As motivações missionárias, evangélicas, paixão pelo paradigma de Igreja Católica, aceitação da simbologia, do discurso, cada vez mais seduzem menos e influenciam pouco na vida dos católicos que encontram poucas respostas para justificar a sua fé em um modelo de Igreja do qual sabem pouco ou quase nada. Depois de 19 anos esta pesquisa é ainda válida? Tem algo que melhorou ou piorou? Eis as questões!

A robótica invade nossa vida

O robô está presente em nossa vida, na nossa sociedade, e parece que a pandemia da covid-19 acelera ainda mais sua presença. Nota-se como em algumas cidades do mundo diversos serviços são efetuados por meio de robôs, tanto na vigilância quanto na prestação de serviços, bem como em restaurantes e, em alguns casos, nos hospitais, tudo isso para se defender do contágio do novo coronavírus.

A robótica se tornou útil para enfrentar a doença e suas consequências, evitando aglomerações e contatos diretos entre as pessoas. Assim sendo, surgem perspectivas de vida em que o uso do robô é cada vez mais ativo, suplantando a atividade humana. A tecnologia vai tomando conta da sociedade, sempre menos humana e mais técnica. Destaca-se, assim, uma relação no sentido ‘a mão única’. O que significa isso?

Inicia-se, nesse sentido, uma exclusão de afeto que provém da escuta e do ficar juntos. E nessa relação do ser humano-máquina se promove o desenvolvimento de uma busca egocêntrica da mesma pessoa. Firma-se, portanto, o primado das certezas individuais sem comparação, de onde advém uma crescente dificuldade em se envolver com o outro. Prosseguindo nessa experiência, não há dúvida de que a pessoa hoje se sente cada vez mais sozinha e, portanto, cada vez mais abandonada.

Além disso, todas as estratificações sociais, políticas ou religiosas são direcionadas para esse modo de ser em que a pessoa se projeta no quadro de uma visão distintamente individualista. Consequentemente, o relacionamento eu-você se traduz no relacionamento eu-eu. A máquina, no entanto, sempre permanece um produto que nunca substituirá a pessoa. Não há dúvida de que o relacionamento homem-máquina se torna tão forte que cria a ilusão do relacionamento com o outro, e essa ilusão depende da crescente incidência da imaginação.

O imaginário está, portanto, se tornando a base da racionalidade do ser humano, na qual a capacidade de pensar é filtrada por esse ato constitutivo da pessoa que terá que encontrar as vicissitudes concretas da vida, experimentará uma crescente perplexidade e uma fragmentação caracterizada pela separação de uns dos outros. É uma época que vivenciamos, na qual a lógica linear e consequencial; aquela tradicional, ou seja, do papel impresso, está sendo substituída por uma lógica quebrada, típica do discurso publicitário.

Isso tem um impacto significativo nas diferentes condições operacionais da própria pessoa. Assim sendo, os robôs que pretendem substituir as pessoas são estudados e atualizados para poder dialogar melhor com os seres humanos e desenvolver funções mais precisas. E este suporte de inteligência artificial torna-se o objetivo principal do trabalho. É natural a esse ponto se perguntar: qual o futuro do trabalhador humano? Aumenta o desemprego? Como sobreviver numa sociedade onde a técnica domina a humanidade? Estas e outras questões nos interpelam e precisamos dar respostas imediatas para que as pessoas possam ser pessoas e não simples objetos de outros sujeitos artificiais da história.

Construir a nossa vida para a liberdade

Como é difícil acolher e construir a vida! De fato, todos nós nascemos, mas não livres. Por quê? Experimente pensar um pouco e veja que não fez nenhuma opção para nascer, mas se achou no mundo por vontade do pai e da mãe. Não impôs nenhuma preferência de vida. Simplesmente se achou no mundo dentro de uma raça, de um país, de uma língua, de uma religião, de uma condição sociopolítica. Nasce no anonimato. Porém, com o passar dos anos, toma consciência da sua existência e passa a ter liberdade de ação. Isto significa que vai construindo sua vida pelas suas escolhas que a alicerçam.

É verdade que você recebeu a vida, mas depende também de como vai plasma-la na sua vida. Ela é uma obra nas nossas mãos. E a passagem da vida recebida desde o começo vai se realizando pela educação. É essa educação que permitirá ao ser humano crescer em um terreno fértil das relações. A convivência com os outros se configura como intercâmbio para ensaiar a própria liberdade, característica fundamental para dar vida à sua autenticidade e realidade presente. É nisso que a vida se torna realmente uma ‘mestra’, porque ajuda alcançar o “Bem” dentro os intercâmbios de solidariedades, interpessoais e de vivência.

E, neste sentido, fala também o papa Francisco: “Toda geração deveria pensar em como transmitir seus saberes e seus valores à geração futura, pois é através da educação que o ser humano alcança o seu potencial máximo e se torna um ser consciente, livre e responsável. Pensar na educação é pensar nas gerações futuras e no futuro da humanidade. É algo profundamente arraigado na esperança e exige generosidade e coragem”. Assim sendo, a nossa vida se torna uma verdadeira aprendizagem em que nunca se acaba de aprender.

Como verdadeiros estudantes, a cada dia se aprende sempre algo de novo que promove os aspectos de conhecimentos, de relacionamentos e afetos que enaltecem a mesma realidade. Conhecimentos em todos os sentidos. Lembra-me o que o grande filósofo Sócrates dizia: “Eu sei que não sei de saber”. Isto quer dizer que a nossa vida é uma mestra e que precisamos sempre aprender, reconhecendo as nossas limitações e desejosos de construir a própria vida nos alicerces da educação.

A nossa liberdade cresce na medida em que cresce a nossa educação, qual potencialidade da nossa vontade. As características disso são marcadas pelo diálogo como dom para a realização do outro. Na realização do outro se define a própria realização. Esta verdade se fundamenta sobretudo na Palavra de Deus. E esta verdade se constrói aos poucos e com muita paciência. O ser humano é ser humano na medida em que consegue ser um educador, fazer da vida uma mestra sem fim. É esta mestra que nos ajuda a buscar uma real aproximação do outro e, por isso, Jesus Cristo põe o grande mandamento a seguir: o amor. O amor que nos rende mais próximos e viver melhor a liberdade para que fomos chamados. Nisto consiste a nossa felicidade.