Entrevista

“O câncer já foi uma sentença de morte, felizmente não é mais”

A semana foi marcada pela passagem do Dia Mundial de Combate ao Câncer, reforçando a importância do diagnóstico precoce. O oncologista Murilo Miglio fala sobre prevenção, avanços no tratamento, desafios no combate no Amapá.


Médico oncologista Murilo Miglio em entrevista exclusiva ao jornalista Cleber Barbosa, do Diário.

 

Cleber Barbosa
Da Redação

 

Diário – Doutor, o que o Dia Mundial de Combate ao Câncer representa e que mensagem o senhor deixa para a população?

Murilo Miglio – É um dia extremamente importante, principalmente para conscientização. O foco principal é a detecção precoce do câncer. Esse é o grande segredo do tratamento. Quando o diagnóstico é feito cedo, as chances de cura ultrapassam 90%. Por isso, é fundamental que as pessoas procurem seus médicos e realizem os exames de prevenção.

 

Diário – Durante muito tempo, a palavra “câncer” foi quase proibida. Ainda existe esse estigma?

Murilo – Sim. Existe sim, mas estamos conseguindo quebrar isso aos poucos. Antigamente, principalmente nas décadas de 70 e 80, o diagnóstico e o tratamento eram muito difíceis. Hoje, com o avanço da medicina e da tecnologia, a maioria dos cânceres é curável. Não é mais uma sentença de morte. Cerca de 80% a 90% dos casos têm cura atualmente.

 

Diário – Dar a notícia de um diagnóstico ainda é um momento delicado e exclusivo para um médico?

Murilo – Sempre é um momento difícil, pela ansiedade e pelo medo do paciente e da família. Mas hoje conseguimos conduzir isso de uma forma mais leve e tranquila, explicando as possibilidades de tratamento. Na maioria das vezes, graças a Deus, os resultados são positivos.

 

Diário – O Amapá avançou no tratamento oncológico, especialmente com a radioterapia agora no serviço público. Qual a importância disso?

Murilo – É um avanço histórico. Durante muitos anos, o Amapá não tinha radioterapia, e os pacientes precisavam sair do estado, principalmente para Belém. Hoje, com quimioterapia e radioterapia disponíveis aqui, o paciente pode se tratar em casa, o que faz toda a diferença, tanto emocional quanto socialmente.

 

Diário – O senhor também atende na rede pública? E quantos profissionais especialistas como o senhor atuam no Amapá atualmente?

Murilo – Atendo sim, na Unacon, que funciona no Hospital de Clínicas Alberto Lima. É um trabalho desafiador, mas muito gratificante. Somos apenas quatro oncologistas no estado. Durante muitos anos tivemos apenas um. Ainda é pouco, mas já representa um avanço, tanto na rede pública quanto na privada.

Diário – Quais são os cânceres mais frequentes no Brasil atualmente?
Murilo – Nas mulheres, o câncer de mama é o mais comum. Nos homens, o câncer de próstata. Mas, na região Norte e Nordeste, o câncer do colo do útero ainda é muito prevalente, principalmente por falhas no acesso à atenção básica. O exame preventivo, o PCCU ou Papanicolau, detecta lesões antes mesmo de se tornarem câncer. Ele deve ser feito por todas as mulheres a partir do início da vida sexual. Esse câncer é causado pelo HPV, que é um vírus sexualmente transmissível.

 

Diário – A vacina contra o HPV pode mudar esse cenário? Os mais otimistas afirmam que ela pode erradirar esse tipo de câncer, não é?

Murilo – Sem dúvida. A expectativa é muito alta. Hoje, meninas a partir dos 9 anos e meninos a partir dos 12 já podem ser vacinados, antes do início da vida sexual. Com uma cobertura vacinal em torno de 90%, podemos reduzir drasticamente — e até eliminar — o câncer de colo do útero no futuro. Em termos de saúde pública, isso é extraordinário.

 

Diário – Os protocolos de prevenção estão começando mais cedo?

Murilo – Sim. Antigamente, a mamografia começava aos 50 anos, hoje aos 40, ou até aos 35 se houver histórico familiar. O câncer de próstata, que antes era investigado aos 60, hoje começa aos 50, com PSA e toque retal. Estamos vendo casos cada vez mais precoces, inclusive em pessoas por volta dos 40 anos.

 

Diário – Para encerrar, qual é a principal mensagem neste Dia Mundial de Combate ao Câncer?

Murilo – O Conscientização e prevenção. Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor o prognóstico. Procurem sempre seus médicos e realizem os exames preventivos. Essa é a melhor forma de salvar vidas. O Dia Mundial de Prevenção e Combate ao Câncer reforça que informação, acesso à saúde e diagnóstico precoce são armas fundamentais contra a doença.

 

Perfil

Murilo Miglio – O médico Murilo Miglio Neiva atua na especialidade de Oncologia. Com experiência na área, possui reconhecimento pelo seu comprometimento em oferecer tratamentos individualizados e eficazes para seus pacientes.

BREVE CURRÍCULO
-Dr. Murilo Miglio é formado pela Universidade do Estado do Pará (UEPA)
– Possui especialização em residência clínica médica no Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo.
– Fez residência em Oncologia Clínica na Universidade Federal de São Paulo – Hospital São Paulo (UNIFESP).
– É médico oncologista na Oncológica do Brasil.

DATA ESPECIAL
– O Dia Mundial do Câncer é celebrado anualmente em 4 de fevereiro, liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) com apoio da OMS. Criada no ano 2000, a data visa aumentar a conscientização, educação e prevenção contra o câncer, que é a segunda maior causa de morte mundial.

OS NÚMEROS
– De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 704 mil novos casos da doença por ano, somando mais de 240 mil óbitos anuais. O impacto é tão profundo que o câncer já se tornou a principal causa de morte em 670 municípios, superando doenças cardiovasculares nessas regiões.

 

 


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