Mestre Lino celebra título do Boêmios e fala sobre emoção de desfilar na Mangueira
Menestrel da nação negra do Laguinho destaca evolução do carnaval amapaense, exalta a comunidade e relembra homenagem na Sapucaí

Cleber Barbosa
Da Redação
Cleber Barbosa – Olha só, que honra estar aqui na casa de Francisco Lino da Silva, o nosso Mestre Lino, menestrel da nação negra do Laguinho e campeão do carnaval deste ano com o Boêmios do Laguinho. Mestre, obrigado por nos receber. O senhor esteve na Diário FM recentemente e hoje a gente retribui a visita.
Mestre Lino – Eu que agradeço. É um prazer dar entrevista para uma das maiores rádios do Amapá. A casa está sempre aberta.
Cleber Barbosa – Este ano o senhor não desfilou aqui em Macapá porque estava no Rio de Janeiro, homenageado pela Estação Primeira de Mangueira. Como foi viver o carnaval na Sapucaí?
Mestre Lino – Foi uma emoção muito grande. É um carnaval diferente, que mexe com a gente. A gente ainda tem muito a aprender com as escolas do Rio. Lá tudo é planejado com antecedência. Mas digo que as nossas escolas também podem chegar nesse nível, desde que haja organização e compromisso.
Cleber Barbosa – Quando saiu o resultado da apuração aqui em Macapá, o senhor já estava de volta?
Mestre Lino – Já estava. Acompanhei pela televisão e pela rádio. Foi uma alegria enorme. O Boêmios fez um grande desfile. No ano passado perdemos no critério de desempate. Este ano foi sem contestação. A escola passou e foi aplaudida.
Cleber Barbosa – Muitos analistas elogiaram o nível do carnaval deste ano. Alegorias bem acabadas, sem ferragens aparentes, organização melhor. O senhor também percebeu essa evolução?
Mestre Lino – Percebi, sim. Isso é fruto de aprendizado. Uma alegoria precisa ter acabamento perfeito. O repasse antecipado ajudou muito, porque os carnavalescos puderam comprar material antes. O resultado apareceu na avenida.
Cleber Barbosa – O senhor já exerceu praticamente todos os cargos na escola, não é?
Mestre Lino – Só não fui passista (risos). Já fui ritmista, aderecista, já fiz de tudo um pouco. Mas minha maior contribuição é como compositor. Já são 35 sambas-enredo cantados na avenida, fora os que a gente nem lembra mais. Minha filha está até organizando um acervo para catalogar tudo.
Cleber Barbosa – E como é o processo de composição? É mais técnica ou inspiração?
Mestre Lino – É a união dos dois. Primeiro vem a técnica, porque a gente precisa estudar a sinopse da escola e escrever dentro do enredo. Depois vem a inspiração. E cantar o samba na avenida, ouvir a comunidade cantando junto, é a maior recompensa.
Cleber Barbosa – O carnaval também movimenta a economia e depende muito da comunidade, não é?
Mestre Lino – Sem comunidade não existe carnaval. Quem faz a festa é o povo. Aqui no Laguinho e no Perpétuo Socorro muita gente ajuda sem pedir nada em troca. Somos um bairro pequeno, com escolas próximas umas das outras, mas cada um puxando a sardinha para sua brasa (risos). E isso faz parte.
Cleber Barbosa – O senhor é botafoguense assumido. Aproveitou a ida ao Rio para visitar General Severiano?
Mestre Lino – General Severiano eu já conhecia. Ainda não fui ao Engenhão, mas assisti jogo pela televisão. O coração é alvinegro.
Cleber Barbosa – Para fechar, o que o carnaval representa na sua vida?
Mestre Lino – Representa tudo. Está no sangue. Como um dos fundadores do Boêmios, eu continuo fazendo o que puder pela escola. Enquanto tiver saúde, estarei aqui. O carnaval é cultura, é economia, é identidade.
A casa de Mestre Lino, no Laguinho, virou ponto de referência cultural. Uma placa na frente indica o endereço como se fosse atração turística — e de certa forma é. Ali moram memórias, fotografias, sambas históricos e a trajetória de um homem que ajudou a escrever capítulos importantes da folia amapaense.
Ao final da conversa, o mestre retribui o carinho: “Você é dedicado. Parabéns pelo trabalho”. E assim, entre lembranças e projetos, o menestrel da nação negra segue firme, com a mesma paixão de sempre.
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