Cidades

Especialista explica como a TI sustenta a indústria de óleo e gás no Brasil

Em entrevista ao Conexão Margem Equatorial, Eduardo Bastos detalha os bastidores do maior banco de dados de exploração e produção do país, fala sobre inteligência artificial, consumo de energia e aponta oportunidades para profissionais de tecnologia no Amapá


 

Cleber Barbosa
Da Redação

 

Cleber Barbosa – Hoje o Conexão Margem Equatorial recebe o especialista em tecnologia da informação aplicada à indústria de petróleo e gás, Eduardo Bastos. Você trabalhou durante anos na Agência Nacional do Petróleo, no banco de dados de exploração e produção, considerado um dos maiores do mundo. Como é a dinâmica de manter a infraestrutura de software de um acervo tão gigantesco?

Eduardo Bastos – Foi uma experiência que abriu minha visão sobre tecnologias em uma escala completamente diferente da que eu conhecia. A gente sai de uma realidade de gigabytes e terabytes e passa a lidar com petabytes. Hoje o banco de dados da ANP trabalha com cerca de 22 petabytes de informações ligadas à exploração e produção de petróleo no Brasil.

Estamos falando de dados de todos os poços, áreas exploratórias e pesquisas sísmicas do país. É algo impressionante. Você percebe que está lidando com um dos principais ativos estratégicos de uma nação. Isso traz uma responsabilidade enorme, mas também um sentimento de pertencimento muito forte.

Além disso, tive a oportunidade de aprender tecnologias avançadas e trabalhar ao lado de equipes extremamente qualificadas, em uma indústria poderosa e estratégica para o Brasil.

 

Cleber Barbosa – Esse trabalho acabou rendendo premiações importantes para a equipe. O que motivou esses reconhecimentos?

Eduardo Bastos – Foram dois projetos premiados internamente pela ANP dentro do programa Inova. O primeiro envolveu automação de processos ligados à análise de conformidade de dados de poços. Nós precisávamos acelerar processos regulatórios e melhorar a velocidade das análises feitas pela superintendência.

Foi aí que utilizamos Python e tecnologias modernas de automação. O Python hoje é essencial quando falamos em automação de processos. Existem bibliotecas muito eficientes para manipulação e análise de grandes volumes de dados, e isso ajudou bastante no ganho de produtividade.

O segundo projeto envolvia dados sísmicos pós-stack, que são extremamente complexos e pesados. Precisávamos extrair, tratar e validar essas informações com alta eficiência computacional. O Linux e as ferramentas open source foram fundamentais nesse processo, porque oferecem estabilidade, escalabilidade e um ecossistema muito rico de soluções.

Esses projetos impactaram diretamente a agilidade de resposta da ANP para pesquisadores e operadoras do setor.

 

Cleber Barbosa – Pensando no futuro, o banco de dados da ANP já está preparado para trabalhar com análises em tempo real?

Eduardo Bastos – Esse é um caminho natural e necessário. Hoje a infraestrutura já possui tecnologias capazes de responder rapidamente às demandas do mercado. Existe investimento constante em ampliação da capacidade computacional e melhoria dos sistemas que gerenciam esses dados.

No último período em que trabalhei lá, houve um reforço importante na infraestrutura justamente para ampliar a capacidade de processamento e armazenamento. Então, sim, existe um movimento forte para tornar as análises cada vez mais rápidas e eficientes.

 

Cleber Barbosa – Hoje muito se fala sobre inteligência artificial e o enorme consumo de energia dos data centers. Qual sua visão sobre isso?

Eduardo Bastos – A demanda por energia é real e tende a crescer muito. Os centros de computação voltados para inteligência artificial precisam de equipamentos altamente especializados, que consomem bastante energia e exigem sistemas robustos de resfriamento.

A indústria do petróleo depende cada vez mais de análise avançada de dados e automação inteligente. Isso exige capacidade computacional contínua e infraestrutura de alto desempenho.

O Brasil possui vantagens importantes nesse cenário. Temos potencial hídrico, fontes renováveis e condições de expandir a geração de energia para atender essa nova demanda. Esse talvez seja um dos grandes desafios do momento: equilibrar crescimento tecnológico com sustentabilidade energética.

 

Cleber Barbosa – Se você fosse um profissional de TI aqui do Amapá, olhando para essa nova fronteira de exploração de petróleo, o que começaria a estudar agora?

Eduardo Bastos – Muita gente talvez se surpreenda com a resposta, mas eu estudaria armazenamento de dados em fita. A tecnologia de fitas magnéticas continua extremamente importante na indústria de óleo e gás.

Estamos falando de ambientes remotos e hostis, como navios de pesquisa e áreas marítimas. Os dados coletados são gigantescos e precisam de um meio de armazenamento seguro e resistente. As fitas têm uma durabilidade muito maior do que HDs convencionais e SSDs em determinadas condições.

Hoje existem fitas que armazenam mais de 40 terabytes de dados. E não estamos falando de algo ultrapassado. As chamadas Tape Libraries são sistemas automatizados, operados por robôs, funcionando 24 horas por dia para gerenciar essas informações.

Então, profissionais que dominam backup corporativo, administração de redes e gestão de armazenamento em fita têm um mercado muito promissor.

Outro ponto importante é a comunicação em ambientes remotos. Tecnologias como 5G e satélites de baixa órbita devem ganhar muito espaço nesse processo de expansão da indústria de petróleo na região Norte.

 

Cleber Barbosa – Ou seja, o profissional de tecnologia do Amapá precisa começar a olhar para essas oportunidades agora.

Eduardo Bastos – Sem dúvida. Existe um cenário enorme se formando. A indústria de óleo e gás vai demandar infraestrutura, conectividade, armazenamento de dados, automação e inteligência artificial. É uma oportunidade muito grande para os profissionais da região.

 

Cleber Barbosa – Eduardo, muito obrigado pela entrevista e pelos esclarecimentos.

Eduardo Bastos – Eu que agradeço pelo espaço e pela oportunidade. Foi um prazer participar e poder compartilhar um pouco dessa experiência. Espero voltar em breve.

 


Deixe seu comentário


Publicidade