José Sarney

Bruno e a Jornada 6×1


 

Meu bisneto, Bruno, de 12 anos, me surpreende sempre com perguntas de gente grande, já que ele tem acesso, pela leitura de jornais e revistas, à pauta política. Foi assim que, de supetão, ele me perguntou:

 

— Meu bisavô, o senhor é a favor ou contra a jornada de trabalho cinco dias?

 

Eu me surpreendi, mas pensei que, com a internet e as redes sociais, os problemas maiores e menores invadem a sociedade alcançando todas as camadas sociais e faixas etárias, chegando mesmo à quase meninice. Na verdade, a era digital apressou o desenvolvimento cognitivo das crianças, que passaram a amadurecer seus questionamentos de maneira mais célere.

 

No Japão, o uso do ensino pela televisão visa, sobretudo, equalizar o nível de aprendizagem das classes. Assim, os alunos que não acompanham o ritmo regular, apresentando algum atraso no aprendizado são matriculados em turmas que utilizam métodos visuais, de modo a acelerarem o aprendizado e alcançarem o nível da classe da qual foram retirados.

 

Na verdade, comecei a divagar e já me desviava da curiosidade de meu bisneto, que percebeu minha esquiva ao não querer impor-lhe uma posição. Ele insistiu:

 

— Meu bisavô, o senhor não respondeu à minha pergunta. Diga-me se o senhor é contra ou a favor da diminuição do tempo de trabalho para cinco dias.

 

Eu, então, repliquei.

 

— Pois bem, se você quer saber, não é para orientar-se, mas para conhecer minha opinião. Então me diga primeiro: qual é a sua?

 

Ele retrucou: — Eu sou a favor.

 

— Por quê?

 

— Porque é mais justo.

 

— O que é ser justo?

 

— Trabalhar menos — ele respondeu.

 

Vi, então, que sua opinião era simplista, sem entrar, em razão da sua pouca idade, no âmago da questão.

 

A verdade é que eu também sou a favor, não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social.

 

Esta discussão tomou conta do país. Mas devo confessar que o debate realizado pelo Correio Braziliense foi o mais abrangente de todos: foram bons e competentes os debatedores ao dissecar os prós e contras das posições. O Ministro Gilmar Mendes foi brilhante em suas conclusões de que “O desafio está menos em escolher entre proteção social e dinamismo econômico e mais em compatibilizar os dois setores.”

 

Penso que o Projeto de Emenda Constitucional nº 221/19, aprovado pela Câmara dos Deputados, demonstra a capacidade de articulação e o prestígio do Presidente Hugo Motta ao reduzir a resistência a apenas 19 votos contrários. E o resultado mostra que as premissas do Ministro Gilmar Mendes foram plenamente recepcionadas, ou seja, o equilíbrio entre o social e o econômico prevaleceu.

 

A proposta inicialmente buscava a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, mas avançou no Congresso como base para a instituição da jornada de 40 horas semanais, com dois dias de repouso remunerado (fim da escala 6×1), alterando o ar. 7º, XIII e XV, da Constituição Federal.

 

Nenhum assunto debatido recentemente teve tanta participação da comunidade e da mídia, nem seminários com tamanha amplitude de debatedores, quanto este.

 

Recordo que, quando comecei a implantar o sistema digital e a internet no Senado Federal, falei que um dia o desenvolvimento da informatização nos levaria de volta à democracia direta, aquela que, nos primórdios do regime democrático, era o sistema praticado em Atenas.

 

O nosso grande historiador João Lisboa — que Capistrano de Abreu, seu concorrente como escritor desse gênero literário, considerava o melhor historiador do país e dono da melhor escrita — tem um livro, intitulado Jornal de Timon, em que se dedica às eleições na Antiguidade. Nele, estuda os diversos métodos eleitorais, desde o Palmômetro (Aplausômetro), aquele sistema de aferição de resultados pela intensidade das palmas na praça pública, até outras formas que buscavam a democracia direta. A internet, no futuro, fará isto.

 

Mas, para responder ao meu bisneto Bruno, manifesto minha opinião de que sou favorável à diminuição dos dias de trabalho, como já ocorre em muitos países.

 

Assim, vou encerrar este artigo e gozar de um pouco de preguiça que eu não conhecia durante toda a vida, mas de que agora desfruto em minha velhice, porque ninguém é de ferro.

 

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