Cidades

Dia do Orgulho Autista destaca respeito, inclusão e importância de diagnóstico para além dos estereótipos

Especialistas que receberam diagnóstico na vida adulta defendem uma sociedade mais acolhedora e informada sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA)


 

O Dia Nacional e Internacional do Orgulho Autista, celebrado neste 18 de junho, convida a sociedade a enxergar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) para além dos preconceitos e generalizações. Em fala no programa ‘LuizMeloEntrevista’ (Diário FM 90,9), nesta quinta-feira, 18, o biomédico Eduardo Serrão e o fisioterapeuta Erickson Lima compartilharam experiências pessoais, desafios profissionais e reflexões sobre a necessidade de ampliar o respeito e a inclusão das pessoas autistas.

 

 

Especialistas na área do autismo, ambos receberam o diagnóstico já na fase adulta. Segundo eles, o processo representou não apenas uma resposta para comportamentos antes incompreendidos, mas também um caminho para o autoconhecimento e para o desenvolvimento de estratégias que melhoraram a qualidade de vida.

 

 

“Eu recebi o diagnóstico tardio, mais para autoconhecimento mesmo. O dia de hoje fala muito sobre isso: sobre a pessoa se aceitar, se conhecer e trabalhar habilidades que precisava desenvolver nos ambientes profissional, familiar e nos relacionamentos”, afirmou Eduardo Serrão.

 

O biomédico explicou que a identificação ocorreu a partir da atuação profissional com crianças autistas. Ao aprofundar os estudos sobre o tema, passou a reconhecer em si características do espectro que, durante anos, haviam sido interpretadas apenas como sintomas de ansiedade ou depressão.

 

“Muitos comportamentos que antes eu não entendia, como a sobrecarga e dificuldades em determinados contextos sociais e profissionais, começaram a fazer sentido. Isso nos levou a buscar uma avaliação”, relatou.

 

Erickson Lima viveu trajetória semelhante. O fisioterapeuta contou que o contato diário com o universo do neurodesenvolvimento infantil despertou a percepção sobre suas próprias características.

 

 

“Quando recebemos o diagnóstico, as peças do quebra-cabeça se encaixam. Algumas questões que eu apresentava estavam relacionadas ao autismo. Com um diagnóstico adequado, conseguimos direcionar melhor o acompanhamento e compreender nossas necessidades”, disse.

 

Do “grau” ao nível de suporte

Durante a entrevista, os especialistas destacaram mudanças importantes na forma como o autismo é compreendido e abordado. Uma delas diz respeito à terminologia utilizada para classificar o transtorno.

 

Segundo Eduardo Serrão, expressões como “autismo leve”, “moderado” e “severo” deram lugar à classificação por níveis de suporte, conforme os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).

 

“O autismo não é uma doença, é um transtorno que pode causar prejuízos na comunicação, na interação social e em outras áreas da vida. O espectro é diverso. Nenhum autista é igual ao outro”, explicou.

 

Para os profissionais, um dos maiores desafios enfrentados pelas pessoas autistas não está necessariamente nas características do transtorno, mas na forma como a sociedade reage a elas.

 

“Ainda existe muito estereótipo. Muita gente acredita que todo autista é igual, que não gosta de toque, de barulho ou de socialização. Algumas pessoas apresentam essas características, mas o espectro é muito mais amplo”, destacou Eduardo.

 

Inclusão que vai além da matrícula

Os especialistas também abordaram os desafios da inclusão escolar. Ambos atuam no acompanhamento de crianças dentro das instituições de ensino e defendem que a inclusão exige planejamento, adaptação e trabalho conjunto entre profissionais da saúde e da educação.

 

“Não basta a criança estar matriculada. Quando existe indicação para acompanhamento terapêutico e planejamento educacional individualizado, é preciso construir estratégias que favoreçam a participação e a aprendizagem”, explicou Eduardo.

 

Apesar das dificuldades, eles relatam experiências positivas no ambiente escolar, sobretudo na convivência entre os alunos.

 

“As crianças costumam demonstrar muita empatia. Existe respeito, carinho e acolhimento. Muitas vezes, os adultos subestimam essa capacidade de compreensão”, observou Erickson.

 

Os dois atuam no Espaço Norte Vida, centro especializado em neurodesenvolvimento infantil localizado na rodovia Josmar Chaves Pinto, antiga JK, nº 631, no bairro Jardim Marco Zero, em Macapá. A clínica oferece serviços desde o rastreio e pré-diagnóstico até o acompanhamento terapêutico pós-diagnóstico.

 

Ao fim da entrevista, os especialistas foram convidados a apontar qual mudança gostariam de ver na sociedade em relação ao autismo. “Respeito. Cada indivíduo é único. Antes do diagnóstico, existe o ser humano e suas particularidades”, respondeu Eduardo. “Inclusão. Existe muito medo de incluir, como se fosse algo impossível. Quando o ambiente oferece suporte, a convivência acontece de forma natural e todos aprendem juntos”, completou Erickson.

 


Deixe seu comentário


Publicidade