Entrevista

“Pesquisa sísmica alia tecnologia, proteçãoambiental esoberania”

Country Manager da TGS Brasil, João Corrêa destaca dados geofísicos que ajudam a reduzir riscos exploratórios, produzir conhecimento sobre biodiversidade e ampliar a participação das comunidades locais na Costa do Amapá.


 

Cleber Barbosa
Da Redação

 

Diário do Amapá – A TGS ocupa um dos primeiros elos da cadeia de óleo e gás por meio da pesquisa sísmica. Como esse trabalho pode avançar atendendo às exigências ambientais atualmente?

João Corrêa – A questão ambiental é fundamental e precisa caminhar junto com a atividade. A indústria de óleo e gás vive uma atenção especial também por causa da transformação energética, então existe uma responsabilidade muito grande sobre tudo o que fazemos. A sísmica é o primeiro elo da cadeia de exploração e produção. Nós somos praticamente o cartão de visita da indústria, os primeiros a chegar às regiões que poderão ser exploradas. Eu venho falando da Margem Equatorial desde 2014, quando fizemos os primeiros projetos 2D na Bacia Pará-Maranhão. Depois avançamos pelo Amapá, águas profundas e Rio Grande do Norte, cobrindo a margem continental brasileira com esses dados. Desde 2019, avançamos também com dados 3D, que são mais precisos e permitem uma visualização melhor da subsuperfície, reduzindo o risco geológico. Ao mesmo tempo, precisamos produzir informação ambiental para que o órgão licenciador tenha os elementos necessários para tomar suas decisões. Também existe a dimensão social. Precisamos levar informação para a sociedade, dialogar com as comunidades e elevar o nível desse debate. A exploração dessas novas fronteiras está relacionada inclusive à soberania nacional.

 

Diário – A Marinha reconheceu a contribuição dos dados da TGS para a expansão da plataforma continental. Qual é a importância para a soberania e natureza?

João – A sísmica tem uma contribuição muito importante para a soberania. Costumo explicar que ela funciona como uma espécie de radiografia da subsuperfície. Conseguimos visualizar como as camadas geológicas estão dispostas e identificar regiões com potencial para acumulação de hidrocarbonetos. Isso não significa afirmar que existe petróleo naquele local, porque somente a perfuração pode confirmar. Mas os dados reduzem o risco geológico. Existe também a soberania territorial. Dados nossos foram utilizados pela Marinha e contribuíram para integrar ao território nacional uma região de aproximadamente 360 mil quilômetros quadrados na Margem Equatorial. Quando o Brasil incorpora essas áreas, recebe não apenas benefícios, mas também responsabilidades de preservação. Por isso, os levantamentos sísmicos possuem condicionantes do Ibama que exigem pesquisas ambientais. Já foram investidas dezenas de milhões de dólares em pesquisas ambientais na Margem Equatorial e também na Bacia de Pelotas. É uma quantidade muito grande de conhecimento produzido sobre biodiversidade.

 

Diário – Como fazer para que eventual riqueza gerada pela exploração gere oportunidades para quem vive lá?

João – Esse trabalho precisa começar antes da produção. Desde quando comecei a atuar na região, procurei as federações das indústrias do Pará e do Maranhão justamente para despertar essa discussão e ajudar na preparação das populações locais. Se não houver investimento em capacitação e preparação, quando as oportunidades chegarem elas poderão acabar sendo ocupadas principalmente por profissionais que já estão no Rio de Janeiro, em São Paulo ou em outras regiões onde a indústria de petróleo está consolidada. É fundamental preparar as pessoas que vivem na região para absorver essas demandas. Ainda estamos falando de uma possibilidade, mas ela se torna cada vez mais concreta à medida que conseguimos obter imagens melhores da subsuperfície e observamos as descobertas que vêm acontecendo na Guiana e também do outro lado do Atlântico, na África. O Brasil precisa continuar explorando e revelando novas reservas para preservar sua segurança energética no futuro.

 

Diário – Um dos projetos ambientais desenvolvidos nesse processo é o Projeto Peixe-Boi. Como ele surgiu e qual é sua importância?

João – Nasceu a partir de uma obrigação relacionada ao licenciamento, dentro do trabalho de monitoramento de praias. Temos muitas pessoas fazendo monitoramento diário em áreas da Margem Equatorial e também precisamos criar estruturas para estabilização e reintrodução de animais na natureza. Na Ilha do Marajó, em Soure, desenvolvemos uma estrutura inicialmente voltada à estabilização de animais. O trabalho foi reconhecido pelo Ibama como um modelo e surgiu a proposta de transformar aquele espaço em um recinto de aclimatação do peixe-boi. Isso é muito importante porque muitos desses animais são órfãos, frequentemente filhos de mães que foram caçadas, e não tiveram um adulto para ensiná-los a sobreviver na natureza. Antes da reintrodução, eles precisam passar por um processo de adaptação. O recinto foi concluído com participação das comunidades locais e o trabalho acabou se transformando em um projeto de preservação do peixe-boi no Pará e, posteriormente, no Plano Nacional de Preservação do Peixe-Boi. Para mim, é motivo de muito orgulho, principalmente porque aproximou o projeto das comunidades.

 

Perfil

João Corrêa – O executivo é uma das principais lideranças do setor de geofísica marinha e exploração de energia no Brasil, atuando como principal elo da multinacional norueguesa TGS no país.

Cargos atuais
– Country Manager & Global Account Manager na TGS do Brasil: Lidera as operações da empresa no país e acumula a função global de gerenciar contas estratégicas, conduzindo a parceria e interface técnica diretamente com a Petrobras.
– Co-Líder do Comitê de Licenciamento Ambiental na Amcham-Brasil: Atua ativamente no Rio de Janeiro na discussão e aprimoramento de políticas regulatórias de meio ambiente voltadas à indústria.

Experiência Profissional Anterior
– Country Manager & Representante Legal na Spectrum Geo (2014–2025): Atuou por mais de 11 anos gerenciando as operações e a aquisição de dados sísmicos Multi-Client e offshore da companhia no mercado brasileiro, antes de migrar integralmente para a estrutura da TGS.
– Diretor na Amcham Brasil (Regional RJ/ES, 2019–2025): Exerceu cargo de liderança e diretoria na Câmara Americana de Comércio.

Áreas de especialização:
– Pesquisa Sísmica e Novas Fronteiras: Coordena as campanhas de mapeamento geofísico e aquisição de dados em grandes hotspots regulatórios e exploratórios do Brasil, com forte protagonismo nos projetos da Margem Equatorial.

 

 


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