Saga de mulheres marabaixeiras, narrada em “Memórias de Velhas’, chega ao Amapá em outubro
Público vai conhecer livro do escritor e pesquisador paraense Francisco Borges, mestre em Letras pela Unifap

“O Marabaixo é vida, é a poética negra de improvisação dos versos de cada dia, é o ato ritualístico que representa a vida negra a cada batida da caixa de marabaixo entoada nos versos dos ladrões (versos e cantigas poéticas cantados em coro pelos participantes da roda), das cantadeiras negras que historicizam a vida; a história afro-amapaense no cancioneiro negro popular do Amapá. O marabaixo é o ato ritual negro que traz a história de mulheres embebidas da tradição ancestral do lugar”. Na fala do escritor paraense Francisco Borges, nota-se a pujança dessa manifestação cultural do estado do Amapá, patrimônio imaterial da cultura brasileira. E é tema do livro que Borges lançou neste sábado (29), em Belém, na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, no Estande do Instituto Federal do Pará (IFPA), no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia. A reportagem de Eduardo Rocha foi destaque no jornal paraense O Liberal.
O livro recebeu o título de “Memórias de Velhas sobre a manifestação cultural do Marabaixo na Amazônia Amapaense” e traz uma abordagem curiosa sobre essa expressão da cultura popular: a obra reúne relatos de cinco mulheres marabaixeiras reconhecidas como guardiãs do patrimônio imaterial amazônico. Francisco Borges atua como escritor, poeta, letrólogo e crítico cultural afro-amazônida. Portanto, os leitores vão ter a oportunidade, por meio do livro, de conhecer mais sobre o marabaixo como um ato ritualístico cultural, que traduz o dia a dia de comunidades na região.
Francisco Borges é doutorando em Letras pela Universidade Federal do Pará (UFPA), mestre em Letras pela Universidade Federal do Amapá (Unifap) e em Linguagens e Saberes na Amazônia pela UFPA. O livro tem co-autoria com a orientadora acadêmica Raquel Amorim dos Santos, doutora em Educação pela UFPA e pós-doutora em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Histórias de vida “Memórias de Velhas” reúne pesquisa acadêmica, memória histórica e poesia para reafirmar o marabaixo como símbolo de resistência, identidade e pertencimento do povo negro no Amapá.
“Essa pesquisa foi desenvolvida com base na Teoria da Memória Histórica e na História Oral, reunindo entrevistas, registros fotográficos e relatos produzidos durante a pandemia da Covid-19. O livro dialoga com importantes estudiosos da memória e da cultura afro-amapaense, revelando o marabaixo como expressão viva de fé, resistência, tradição e continuidade ancestral”, explica o autor.
Essa pesquisa percorreu os territórios de preservação afro-cultural do Mazagão Velho, Quilombo do Curiaú, bairro do Laguinho e a antiga Favela, hoje Santa Rita, para colher as narrativas das guardiãs Tia Joca, Tia Zefinha, Tia Zefa do Quinca, Tia Biló e Tia Zezé Libório sobre resistência e memórias afro-amazônicas, que ajudam a compreender o papel do Marabaixo na cultura e na história.
Essas memórias de luta envolvem, em especial, o próprio Francisco Borges. Ele nasceu em Parauapebas, no sudeste do estado do Pará, teve uma infância e juventude bem sofrida, mas conseguiu encaminhar os estudos e o trabalho, até ingressar no curso de Licenciatura Integrada em Letras – Português e Inglês, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), aos 19 anos, e tornar-se professor.
Esse autor lecionou em cidades do Pará e do Amapá, incluindo a Escola Bosque Eidorfe Moreira, em Belém, e deu aula em campi da UFPA no interior do estado. Francisco Borges assinou publicações, como o conto “Entre o Céu e Inferno” da coletânea “Parábolas do Mal” (2021) e o capítulo “O desejo homoerótico de uma paixão avassaladora” da coletânea “Anjos em flerte, amantes em pecados: Sussurros poéticos sobre o amor e suas dores” (ambos de 2021); o capítulo “Infâncias, tambor e Marabaixo: narrativas de crianças marabaixeiras sobre as práticas culturais afro-amapaenses” do livro & ldquo;Infâncias e Culturas Populares da Amazônia” (2022); o capítulo “Linguagens, Memórias e Velhas: a representação da Cultura do Marabaixo na fala de guardiãs ancestrais negras amapaenses”, da coletânea “Linguagens e pesquisas, diálogos frutíferos do Programa de Pós-graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia da UFPA” e o capítulo “A evolução das pesquisas sobre a cultura afro no estado do Amapá” no livro “Nas teias da Amazônia: tecendo pesquisas e traçando caminhos” (ambos de 2023).
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