”Petróleo pode financiar desenvolvimento sustentável e transformar realidade da Amazônia”
Especialista em regulação Jaqueline Mariano afirma que a Margem Equatorial representa uma janela de oportunidade para o Brasil e defende que as rendas da atividade sejam transformadas em emprego, infraestrutura, tecnologia, saneamento e proteção ambiental na Região Norte

Cleber Barbosa
Da Redação
Diário do Amapá – De que forma a indústria do petróleo está se posicionando diante dos desafios da transição energética?
Jaqueline Mariano: O que temos visto nos últimos anos é uma resposta da indústria baseada em várias frentes. Uma delas é o aumento dos investimentos em gás natural, entendendo o gás como um vetor da transição energética por possuir menor intensidade de carbono. Existe também uma busca muito grande por eficiência operacional, justamente para reduzir as emissões diretas e os gases de efeito estufa gerados pelas próprias operações da indústria. Outro movimento é o investimento em fontes renováveis para compor a própria matriz energética das empresas. Temos ainda a produção de biocombustíveis e os investimentos em tecnologias voltadas à mitigação das emissões, como captura, utilização e armazenamento de carbono, o CCS e o CCUS. Além disso, muitas grandes empresas de petróleo estão migrando também para a geração e comercialização de eletricidade, especialmente de origem renovável. Portanto, não estamos falando de uma única resposta, mas de um conjunto de ações que mostram como a indústria está se adaptando a esse novo cenário.
Diário do Amapá – E quando comparamos o Brasil com outros países, estamos avançados nessa agenda ou ainda temos muito a recuperar?
Jaqueline Mariano: Eu acredito que os movimentos que acontecem no Brasil são, de modo geral, bastante de vanguarda. Temos exemplos de empresas de petróleo se associando a empresas produtoras de biocombustíveis e formando negócios conjuntos. Também vemos investimentos em programas de eficiência energética operacional. A própria Petrobras possui iniciativas nesse sentido. Além disso, temos uma característica muito importante: cerca de 50% da nossa oferta interna de energia é renovável. Então, pela própria composição da matriz energética brasileira, acredito que a indústria de petróleo do Brasil está bastante alinhada com os movimentos internacionais de transição energética. Isso não vale apenas para a Petrobras. As outras grandes empresas que operam no país e também empresas de médio porte já incorporaram essa pauta aos seus planejamentos.
Diário do Amapá – Nós acompanhamos com muita atenção o que está acontecendo na Guiana e no Suriname. É possível comparar o desenvolvimento da indústria nesses países com o potencial da Margem Equatorial brasileira?
Jaqueline Mariano: Eu acho que sim. Na Guiana, as atividades exploratórias começaram antes da produção, que efetivamente teve início em 2019. A partir daí, o país passou a experimentar um crescimento econômico extremamente expressivo. As empresas que chegaram inicialmente assumiram um risco exploratório significativo e, quando as descobertas aconteceram, esse risco passou a ser muito bem remunerado. Depois veio o Suriname, aproveitando também as características geológicas daquela região. Estamos falando de um sistema geológico extremamente semelhante ao que temos na Bacia da Foz do Amazonas, que é justamente a bacia da Margem Equatorial brasileira mais próxima da Guiana e do Suriname. O que vemos nesses países é um desenvolvimento econômico muito forte, investimentos em infraestrutura e grandes empresas internacionais atuando na produção. É uma experiência que naturalmente chama nossa atenção quando olhamos para o potencial brasileiro.
Diário do Amapá – E existe também a expectativa de que o petróleo encontrado na Foz do Amazonas possa apresentar características semelhantes às do petróleo produzido na Guiana?
Jaqueline Mariano: Podemos fazer essa analogia, considerando a semelhança do sistema geológico. O petróleo produzido na Guiana possui elevada qualidade e, consequentemente, alto valor no mercado internacional. É um petróleo leve, em torno de 32 graus API, e com baixo teor de enxofre, por isso chamado de petróleo doce. O que se espera é que, se encontrarmos petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, ele também possa apresentar características semelhantes e, portanto, um alto valor. Isso é importante inclusive dentro da discussão da transição energética, porque petróleos mais leves demandam menos energia e menor custo para serem refinados. Com isso, também se reduz a intensidade das emissões durante seu processamento. Seria, considerando a produção de petróleo, uma situação bastante favorável para a Margem Equatorial brasileira.
Diário do Amapá – Mas é realmente possível compatibilizar uma futura produção de petróleo na Margem Equatorial com os objetivos da transição energética?
Jaqueline Mariano: Na atual etapa do desenvolvimento tecnológico, das infraestruturas e das tecnologias de geração, distribuição e transmissão de energia, nós ainda dependemos das fontes fósseis. Os próprios cenários internacionais trabalham com a permanência do petróleo, do gás e do carvão durante algum tempo. Por isso, entendo que o Brasil possui uma janela de oportunidade com os recursos da Margem Equatorial. E, quando penso em compatibilizar essa produção com a transição energética, imediatamente lembro dos desafios enfrentados pela Região Norte. Temos problemas relacionados à coleta de lixo, saneamento básico, desenvolvimento humano e outras questões ambientais e sociais. Se conseguirmos utilizar as rendas do petróleo para verdadeiramente promover desenvolvimento econômico e enfrentar esses problemas, podemos produzir um resultado extremamente positivo.
Diário do Amapá – Então essas rendas poderiam ajudar inclusive a resolver problemas ambientais que hoje já existem na Amazônia?
Jaqueline Mariano: Exatamente. Podemos pensar, por exemplo, nos lixões existentes na Região Norte, emitindo metano, que é um potente gás de efeito estufa. Se produzirmos petróleo, gerarmos empregos, impostos e participações governamentais e utilizarmos esses recursos para promover um desenvolvimento sólido, sustentável e de longo prazo, podemos enfrentar problemas ambientais que já existem atualmente. Também temos possibilidades de recuperação de áreas degradadas, combate ao desmatamento e adoção de soluções baseadas na natureza. A ideia seria olhar a conta líquida: aquilo que a atividade emite e aquilo que pode ser compensado, capturado ou evitado por meio de investimentos. Eu nunca parei para fazer essa conta em números, mas vejo claramente essas oportunidades para o setor de petróleo.
Diário do Amapá – Ao mesmo tempo, a demanda mundial por energia continua crescendo. Como isso interfere nessa discussão?
Jaqueline Mariano: Existe uma expectativa concreta de aumento da demanda de energia. Basta observarmos, por exemplo, o crescimento dos data centers, que são grandes consumidores de água e energia. A inteligência artificial já faz parte das nossas vidas e isso significa que precisaremos continuar ampliando a oferta energética, tanto no Brasil quanto no mundo. E temos uma Região Norte que ainda é carente de desenvolvimento socioeconômico e enfrenta problemas ambientais importantes. Por isso, vejo grandes oportunidades para que a indústria do petróleo faça parcerias e ajude a trazer soluções baseadas na natureza, recuperação de áreas degradadas, combate ao desmatamento e outras ações. Precisamos pensar em como utilizar a força econômica e tecnológica dessa indústria em favor do desenvolvimento.
Diário do Amapá – Você considera que interromper novos projetos exploratórios seria um risco para um país que ainda necessita de desenvolvimento econômico?
Jaqueline Mariano: A indústria do petróleo possui uma importância enorme para o Brasil. É uma indústria que gera centenas de milhares de empregos e responde por um desenvolvimento tecnológico extraordinário. A Petrobras, por exemplo, é uma empresa reconhecida internacionalmente pela sua capacidade tecnológica. Então, como dizer simplesmente para essa indústria que precisamos acabar com os projetos exploratórios quando nosso país ainda possui uma necessidade tão grande de desenvolvimento econômico? Eu acredito que é perfeitamente possível caminharmos com uma agenda de transição energética que mantenha espaço para uma indústria de petróleo ambientalmente responsável e consciente.
Diário do Amapá – A própria complexidade da Margem Equatorial também exige empresas altamente qualificadas para operar naquela região?
Jaqueline Mariano: Sem dúvida. A Margem Equatorial não é um ambiente simples para produção de petróleo. Uma empresa que queira se candidatar a produzir naquela região precisa estar no topo das qualificações técnica, jurídica e econômica exigidas pelo Brasil. Por natureza, portanto, estamos falando de uma grande empresa ou de um consórcio no qual uma grande empresa necessariamente terá capacidade para operar. Essas grandes companhias sabem o que estão fazendo. Muitas delas já estão atuando na Guiana e no Suriname e estão alinhadas tanto com a agenda de transição energética quanto com os requisitos de proteção ambiental exigidos para desenvolver suas atividades.
Diário do Amapá – Dá para conciliar, então, o potencial de produção de petróleo da Margem Equatorial com um projeto de desenvolvimento sustentável para a Amazônia?
Jaqueline Mariano: Eu entendo que sim. A indústria do petróleo pode ser fonte de grandes problemas ambientais, e sabemos que isso aconteceu no passado em alguns países. Mas ela também pode ser indutora — e faço questão dessa palavra — de um expressivo desenvolvimento socioeconômico. Estamos falando de uma indústria que demanda mão de obra qualificada, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e que atualmente passa por um enorme escrutínio social. No meu entendimento, temos uma oportunidade de ouro para que essa indústria chegue e contribua efetivamente para o desenvolvimento da Região Norte. E isso pode ser feito de forma sustentável. Desenvolvimento sustentável significa utilizar os recursos naturais hoje sem impedir que as próximas gerações também tenham acesso a esses recursos.
Diário do Amapá – Mas existe também o risco da chamada “maldição dos recursos naturais”. Como evitar que uma riqueza tão grande deixe de chegar à população?
Jaqueline Mariano: Essa é justamente uma questão que precisa envolver a sociedade e os governos federal, estaduais e municipais. As experiências internacionais estão aí para mostrar tanto os exemplos positivos quanto os negativos. Precisamos entender como as rendas do petróleo serão utilizadas, caso realmente tenhamos produção na Margem Equatorial, porque ainda estamos falando de potencialidade. Existe uma expectativa muito grande em relação às reservas, mas precisamos transformar uma eventual riqueza encontrada no subsolo em benefícios concretos. Não basta produzir petróleo. É necessário pensar em como essa riqueza será apropriada pela população.
Diário do Amapá – E por que existe tanta urgência em continuar explorando novas áreas?
Jaqueline Mariano: Porque precisamos garantir a reposição das reservas que estão sendo transformadas em produção. O petróleo que hoje está no reservatório amanhã está sendo produzido e depois vira combustível que utilizamos diariamente. O Brasil é hoje um dos grandes produtores mundiais e é exportador líquido de petróleo, embora ainda importe derivados. Para mantermos essa posição, precisamos de atividade exploratória. A própria ANP tem discutido formas de dinamizar a exploração no país, porque estamos passando por um período de menor intensidade dessas atividades. Além disso, existe a perspectiva de que a produção do pré-sal atinja seu pico nos próximos anos. Portanto, precisamos olhar para as próximas fronteiras.
Diário do Amapá – O Brasil possui estrutura suficiente para desenvolver a Margem Equatorial com responsabilidade?
Jaqueline Mariano: No meu entendimento, todas as ferramentas já existem. Temos órgãos ambientais fortes e com voz, temos um regulador forte, grandes empresas interessadas e adquirindo concessões nas áreas da Margem Equatorial, além de empresas que já produzem nos países vizinhos. Temos também a Petrobras capitaneando esse processo. Então temos, como se diz popularmente, a faca e o queijo na mão. E temos uma janela de oportunidade. Se daqui a dez ou quinze anos petróleo e gás se tornarem fontes obsoletas, o nosso petróleo poderá continuar no subsolo sem que tenhamos aproveitado essa riqueza.
Diário do Amapá – E qual deveria ser, então, o grande objetivo do Brasil e especialmente da Região Norte diante dessa oportunidade?
Jaqueline Mariano: A grande questão é saber se vamos aproveitar essa riqueza para fazer com que as rendas do petróleo sejam verdadeiramente apropriadas pela população. Petróleo é riqueza. Ainda não temos a confirmação das reservas, mas existem expectativas em relação ao potencial da Bacia da Foz do Amazonas e das demais bacias da Margem Equatorial. Se essa riqueza for confirmada, precisamos transformá-la em investimentos em infraestrutura, empregos, desenvolvimento tecnológico, proteção e recuperação ambiental e solução de problemas básicos. Podemos, por exemplo, enfrentar situações como a falta de coleta de lixo e de destinação adequada de resíduos sólidos, que hoje mantém lixões a céu aberto emitindo metano. Essa é a pergunta que nós, enquanto sociedade, precisamos fazer neste momento: como aproveitar essa janela de oportunidade e fazer essa riqueza chegar verdadeiramente às pessoas? Hoje ainda dependemos de petróleo e gás, temos uma matriz energética com forte participação renovável e temos condições de fazer essa discussão pensando simultaneamente em desenvolvimento econômico, segurança energética e responsabilidade ambiental.
Deixe seu comentário
Publicidade
