Cartórios, a memória escrita do Amapá
Dos antigos escribas aos livros que registraram a vida de Macapá, os cartórios ajudam a contar a história do Brasil e do Amapá

Evandro Luiz
Da Redação
Quando alguém procura um cartório para tirar uma certidão de nascimento, registrar um casamento, reconhecer uma assinatura ou formalizar a compra de um imóvel, dificilmente imagina que está entrando em contato com uma instituição cuja história atravessa séculos.
Mais do que locais destinados à emissão de documentos, os cartórios guardam uma parte significativa da memória da sociedade.
No Amapá, essa dimensão histórica ganha um significado ainda maior. Livros antigos preservados nos cartórios de Macapá e de outros municípios permitem reencontrar nomes, famílias, propriedades, casamentos, negócios e acontecimentos que ajudam a reconstruir a trajetória do território.
A história também está nos livros dos cartórios
Em Macapá, um dos mais importantes acervos históricos está ligado ao 1º Ofício de Notas, conhecido como Cartório Jucá.
Pesquisas realizadas pela Universidade Federal do Amapá identificaram esse cartório como o mais antigo da cidade, com livros de notas que remontam ao século XIX e documentos relacionados à vida civil e econômica de Macapá.
Esses livros são muito mais do que simples documentos administrativos.
São testemunhos de uma época em que Macapá ainda era uma pequena cidade amazônica, muito distante da estrutura urbana que surgiria décadas depois.
Em suas páginas estão registradas relações comerciais, propriedades, contratos, casamentos e outros acontecimentos que ajudam o pesquisador a compreender como a sociedade macapaense se organizava.
Um documento pode revelar uma sociedade inteira
Entre os registros históricos existentes no antigo 1º Ofício estão documentos do século XIX, inclusive um registro de casamento datado de 1876.
Há também documentos relacionados à compra e venda de pessoas escravizadas.
São registros que podem provocar desconforto, mas que precisam ser preservados.
A história não é feita somente dos acontecimentos dos quais nos orgulhamos. Ela também é construída a partir das contradições, injustiças e desigualdades que marcaram determinadas épocas.
Por isso, os livros cartoriais possuem valor que ultrapassa o aspecto jurídico.
Eles podem se transformar em fontes para historiadores, pesquisadores, genealogistas e famílias que procuram reconstruir suas origens.
O registro civil chega ao território
A história dos registros no Amapá possui ainda um capítulo singular.
Em 1895, durante o período do chamado Triunvirato do Amapá, foi editado o Decreto nº 8, que tornou obrigatória a comunicação dos nascimentos e falecimentos.
O documento determinava a criação de um cartório de registro civil e estabelecia que os moradores deveriam informar o nascimento de crianças e o falecimento de pessoas.
Havia até punição para quem deixasse de cumprir a determinação.
O decreto também estabelecia que nenhum sepultamento poderia ocorrer sem que o falecimento tivesse sido comunicado ao cartório.
6Era o Estado tentando transformar acontecimentos da vida cotidiana em registros oficiais.
O nascimento de uma memória documental
Esse processo acompanhava uma transformação que ocorria em várias partes do Brasil.
O registro civil começava a substituir gradualmente a exclusividade dos registros religiosos na documentação da vida das pessoas.
Nascia uma nova forma de organizar a sociedade.
Uma criança que viesse ao mundo deveria ter seu nascimento registrado. Um casamento deveria ser documentado. Uma morte deveria deixar uma certidão.
Assim, pouco a pouco, a vida do cidadão passou a ser acompanhada por uma documentação oficial.
Macapá e seus cartórios
A trajetória dos cartórios acompanha o próprio crescimento de Macapá.
A cidade que durante décadas teve uma população relativamente pequena começou a se transformar profundamente ao longo do século XX.
Novos bairros surgiram, a população cresceu, novas famílias chegaram e as relações comerciais se multiplicaram.
Com isso, aumentou também a necessidade de registrar imóveis, contratos, casamentos, nascimentos, óbitos e outros atos da vida civil.
Os antigos livros manuscritos começaram a receber novas páginas, enquanto os cartórios passaram a acompanhar a expansão urbana e econômica da capital.
O cartório como testemunha da cidade
Existe uma maneira interessante de olhar para a história de Macapá.
Podemos observá-la pelas ruas, pelas praças, pelas igrejas, pelas fotografias e pelos jornais antigos.
Mas também podemos observá-la através dos cartórios.
Ali estão nomes de pessoas que viveram na cidade, famílias que constituíram patrimônio, casais que oficializaram suas uniões, comerciantes que fizeram negócios e proprietários que transferiram seus imóveis.
Cada documento é uma pequena peça de um enorme quebra-cabeça histórico.
Dos livros manuscritos à era digital
O cartório mudou muito.
O que antes dependia de livros, penas, tinta e longas horas de escrita hoje pode ser feito com computadores, sistemas eletrônicos e certificação digital.
Mas a finalidade permanece semelhante: registrar, guardar, dar autenticidade.
Produzir uma prova que possa atravessar o tempo.
Hoje, o sistema de cartórios do Amapá está muito mais estruturado. Macapá possui diferentes serventias, distribuídas entre registros civis, notas, imóveis e outras atribuições. O Tribunal de Justiça do Amapá mantém atualmente uma estrutura de fiscalização e regulamentação desses serviços.
Uma certidão é também uma lembrança
Talvez seja essa a parte mais humana dessa história.
Para o cartório, uma certidão pode ser apenas um documento.
Para uma família, entretanto, ela pode representar uma história inteira.
Uma certidão de nascimento pode revelar o nome dos pais e o início de uma trajetória.
Uma certidão de casamento pode recuperar a história de um casal que viveu décadas atrás.
Um registro de imóvel pode mostrar como determinado pedaço da cidade passou de uma geração para outra.
Um registro de óbito pode ser a última informação oficial sobre alguém que deixou saudades.
Por isso, os cartórios não guardam apenas documentos.
Guardam fragmentos da vida.
O passado que permanece
Quando os antigos livros cartoriais são preservados, não se está apenas conservando papel.
Está-se preservando a possibilidade de conhecer o passado.
No caso do Amapá, esses documentos ajudam a contar uma história que ainda possui muitos capítulos a serem descobertos.
Nos nomes escritos à mão, nas antigas assinaturas, nas escrituras, nos registros de casamento, nos documentos de propriedade e nas certidões estão escondidos personagens que ajudaram a construir o território.
Talvez por isso os cartórios possam ser vistos como verdadeiros arquivos da vida cotidiana.
Enquanto os grandes livros de história costumam registrar governadores, guerras, decisões políticas e grandes acontecimentos, os cartórios registram o cidadão comum.
E é justamente essa gente comum que, no final das contas, constrói a história de uma cidade.
Dos antigos escribas às telas dos computadores; dos primeiros registros aos documentos digitais; dos pequenos núcleos urbanos à Macapá de hoje, a história dos cartórios se confunde com a própria história da sociedade.
No Amapá, os livros dos cartórios continuam contando, silenciosamente, uma história que ainda está longe de terminar.
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