Nota 10

Primeiro grupo de carimbó de mulheres indígenas se apresenta em Macapá

Turnê cruza 12 cidades com show da circulação contemplada na Seleção Petrobras Cultural, que faz reverberar pelo norte, nordeste e sudeste do Brasil as vozes indígenas, femininas e subversivas das Suraras


Suraras do Tapajós | Foto: Bruna Callegari

 

Quando a humanidade e o planeta parecem cada vez mais divididos e ameaçados, os povos da floresta erguem a voz para avisar: o futuro é, necessariamente, verde, coletivo e ancestral. E para conclamar os brasileiros a honrar suas tradições originárias, as Suraras do Tapajós, primeiro grupo de carimbó do Brasil formado exclusivamente por mulheres indígenas, realizam dois shows gratuitos em Macapá, estado do Amapá, nos dias 27 e 28 de outubro. O show do dia 27 (terça-feira), acontece no palco do Festival Quebramar, no Parque Residência, centro da capital. O local e horário do segundo show será divulgado nas redes sociais do grupo. A passagem por Macapá contempla em sua programação, atividades paralelas, como oficinas de ritmos, moda sustentável e feira de artesanato indígena.

 

A turnê do grupo teve início dia 19 de abril, em São Paulo, e vem cruzando 12 cidades nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país. Até dezembro, a gira passará por Ouro Preto (MG), Salvador (BA), Manaus (AM), Natal (RN), Rio Branco (AC) e São Luis (MA).

 

 

Suraras do Tapajós – Mulheres Indígenas, a Voz da Resistência, maior projeto de circulação que o grupo já realizou, carrega o simbolismo de estrear em uma data que congrega duas importantes celebrações para as artistas e ativistas: o Dia dos Povos Indígenas e os oito anos que o grupo se consolidou como uma das principais referências da música indígena contemporânea no Brasil. De Alter do Chão, em Santarém, território do povo Borari, as paraenses marcam presença em um ritmo tradicionalmente executado por homens e, de forma subversiva, amplificam suas lutas pelo protagonismo feminino e indígena na defesa dos territórios da floresta.

 

Depois de uma turnê pelo Canadá em julho, e pela Europa, no ano passado, alcançando países como França, Portugal e Finlândia, e de integrar a programação da COP30, em Belém, as Suraras estreiam esta turnê aprovada na Seleção Petrobras Cultural, com patrocínio da Petrobras, realização do Ministério da Cultura e recursos da Lei Rouanet. A produção é da Alter do Som.

 

Repertório

A fim de dar conta da missão sem tirar os pés do chão de suas tradições, as artistas garantem que os shows, um misto de celebração, ritual e manifesto, terão novidades do figurino ao repertório. E que será mantida sua identidade musical, mesclando canções autorais e clássicos da música paraense de mestres do carimbó, como Dona Onete, que fortalecem a cultura na região, com letras que exaltam a natureza, a força feminina, a ancestralidade indígena e a relação profunda de seus povos com as águas e seus territórios.

 

 

Idioma usado até hoje no Baixo Tapajós, o Nheengatu se faz presente em falas e músicas, reforçando o compromisso com a preservação dos saberes originários. O trabalho autoral do conjunto tem como base o álbum “A Força Que Vem das Águas – Kiribasáwa Yúri Yí-Itá” e singles mais recentes, que ampliam o diálogo entre tradição e contemporaneidade.

 

Em cena, as Suraras utilizam instrumentos como curimbós, maracas feitas de cuia, banjo e violão. E apresentam arranjos vocais que seguem a tradição do gênero, com alternância entre solista e coro. Além da voz, a coreografia é parte importante do espetáculo, promovendo a integração do público, que é convidado a participar, somando seus movimentos à roda que se forma no palco. Noutro momento do espetáculo, elas compartilham com suas plateias o ritual do banho de cheiro com ervas medicinais, prática ancestral amazônica ligada à cura, à proteção e ao bem-estar, misturando música, dança e espiritualidade, numa experiência imersiva e sensorial.

 

Para reafirmar essa dimensão ritualística, simbólica e identitária de seus espetáculos, as artistas se apresentam descalças e pintadas com grafismos corporais feitos com tinta de jenipapo, vestidas com largas e coloridas saias artesanais e cocares indígenas.

 

de penas, cobertas de biojoias e adornos manufaturados, apresentando a riqueza da ancestral sabedoria artesanal indígena.

 

“Sempre que subimos num palco, representamos nosso povo e nossa região: somos um território encontrando outros”, diz Vall Munduruku, artista e ativista socioambiental do povo Munduruku, gestora pública, maraqueira e backing vocal, presidente da Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós, do qual o grupo musical faz parte. “Nossa arte é nossa luta. E vice-versa. Cantamos em defesa do rio, da floresta, das mulheres e dos povos indígenas. É uma luta árdua e é também uma grande celebração. Nossa resistência é pela alegria, pela tradição.”

 

 

Em cada cidade por onde passarem com a turnê, as Suraras oferecerão um mergulho na tradição e na técnica. A experiência inclui oficina de carimbó e de moda consciente, com apresentação de processos baseados em um modo de produção que respeita o ritmo da natureza e suas identidades. Haverá rodas de diálogo com coletivos indígenas e convidados locais, além de pontos de venda de artesanato. Também oficina de som e vivência para jovens que irão acompanhar os bastidores dos trabalhos dos técnicos na execução do projeto. As informações e inscrições para as oficinas estão disponíveis em @surarasdotapajos.

 

O público ainda contará com o Ponto de Encontro Petrobras, instalação inspirada na Amazônia e nas mulheres indígenas das Suraras do Tapajós. “Essa troca é muito importante. Entendemos a cultura como uma poderosa ferramenta de transformação social”, analisa Vall. Assim como os shows, todas as ações contarão com intérprete de Libras.

 

Suraras

Criado a partir da Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós, em 2018, o grupo musical nasce do encontro entre arte, ancestralidade e luta social. Por meio do carimbó, manifestação reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2014, as Suraras demarcam territórios confirmando vozes, fôlego e protagonismos novos ao ritmo historicamente marcado pela presença masculina, para ressignificar a tradição a partir da experiência das mulheres indígenas amazônicas.

 

Nos últimos anos, foram presença constante em importantes festivais e circuitos culturais, como Virada Cultural de São Paulo, Coala Festival, Rec-Beat, Se Rasgum, Festival Psica, além das temporadas na CAIXA Cultural e circulação nacional pela Bolsa Funarte de Música Pixinguinha. Em 2024, realizaram um show histórico na edição especial de 50 anos do Rock in Rio, unindo o carimbó ancestral ao tecnobrega em um encontro simbólico de forças da música amazônica.

 

Em 2025, o grupo ampliou sua atuação internacional, realizando turnê na França, no contexto do Ano do Brasil na França, com apresentações em Lyon, Angoulême, Podensac e Paris, mais participação na Womex, na Finlândia, e no Festival Mate, em Portugal. Essa trajetória recente reforça não apenas o reconhecimento artístico das Suraras, mas também sua capacidade técnica, organizacional e de adaptação a diferentes contextos de palco, públicos e produções.

 

 

Além de Vall Munduruku, as Suraras são Adelina Borari, do povo Borari, graduanda em Arqueologia, ativista, artivista, compositora, maraqueira, backing vocal; Carol Pedroso, do povo Borari, integrante da Associação e Grupo de Carimbó, ativista, secretária, coordenadora executiva do musical, cantora e compositora, acadêmica de Gestão Ambiental pela UFOPA; Estefane Galvão, ativista socioambiental, produtora sociocultural, graduanda em Gestão Ambiental e banjista. Jaciara Borari, do povo Borari, percussionista/curimbozeira e diretora executiva da Associação e do grupo musical, comunicadora, fotógrafa, produtora artística, ativista socioambiental, Keissiane Borari, Borari, administradora, compositora, artista e ativista ambiental, curimbozeira, produtora executiva do musical; Leila Borari, Borari, turismóloga, ativista socioambiental, empreendedora, musicista, produtora cultural; Marina Arapiun, ativista, pedagoga, maraqueira, dançarina de carimbó e backing vocal; e Samara Borari, Borari, dançarina, curimbozeira e graduanda em Fisioterapia, diretora de Cultura e Patrimônio na Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós.

 

Proponente e coordenadora-geral do projeto, a Alter do Som é uma agência cultural, produtora e selo musical criada a partir do Espaço Alter do Chão, que promove artistas da região do rio Tapajós, no coração da Amazônia brasileira. Idealizada pelo produtor cultural Borô, promove a difusão da música amazônica como forma de preservação, sustentabilidade, memória e registro e salvaguarda do carimbó tradicional. A missão é projetar o trabalho dos artistas da região de Alter do Chão, Santarém e Tapajós para o Brasil afora e além-mar.

 


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