A corrente

Nos tempos de Jesus, certos pecados, pela Lei de Moisés, deviam ser extirpados com o apedrejamento. Assim nos fala a página do evangelho deste 5º Domingo da Quaresma.

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O grande chefão chegou de repente no escritório e ralhou duramente com o responsável daquela repartição. O responsável da repartição passou um carão ao funcionário do escritório. O funcionário baixou a cabeça, mas, quando chegou em casa, descarregou a sua raiva gritando com a mulher. A mulher tirou satisfação com a filha, porque não tinha arrumado o seu quarto. A filha ficou zangada e deu um chute no cachorro que, por sua vez, ficou brabo e correu atrás do gato. A história acabou com a morte dos ratos. Dificilmente reconhecemos os nossos erros. Muito mais fácil mostrar indignação e repúdio com os erros dos outros.

Nos tempos de Jesus, certos pecados, pela Lei de Moisés, deviam ser extirpados com o apedrejamento. Assim nos fala a página do evangelho deste 5º Domingo da Quaresma. O episódio da mulher encontrada em flagrante adultério pertence ao evangelho de João, mas foi escolhido, porque continua a catequese deste tempo quaresmal: Jesus, com suas palavras e gestos revela a extraordinária grandeza do amor misericordioso de Deus Pai. A situação foi mais uma armadilha dos fariseus e dos mestres da Lei “para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar” (Jo 5,6). No entanto, ele não reage de imediato, ganha tempo. Inclina-se e escreve no chão. À insistência deles, responde com as palavras bem conhecidas: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 5,7). Depois disso, Jesus volta a inclinar-se e a escrever no chão. N unca vamos saber o que Jesus escreveu, também se santos e teólogos tentaram responder. Pode ser, simplesmente, uma pausa de silêncio, para que todos pudessem refletir sobre o que pretendiam fazer: aplicar uma lei, friamente, sem se importar se isso significava a morte daquela mulher. A culpa era dela. Eles estavam julgando o pecado, não a pecadora. A vida dela pouco ou nada importava. O castigo devia ser exemplar, para amedrontar os futuros infratores ou, simplesmente, para que, como tantos outros e outras, tomassem mais cuidado para não ser pegos em flagrante.

A morte do pecador nunca é uma vitória contra o mal. Também naquele momento, a condenação era só o fruto amargo do orgulho de quem se considerava “justo” perante Deus e que, por isso, sentia-se dono da vida e de morte daquela mulher. Segue outro silêncio. O anterior estava carregado de ódio e de desafio contra Jesus. Este outro tem o peso dos pecados de todos e, talvez, o pecado da mulher não fosse nem o maior e nem o pior. Todos foram embora, nenhuma pedra foi arremessada. Ficaram somente “a misericórdia de Deus e a miséria humana”, uma na frente da outra, como ama lembrar Papa Francisco, citando Santo Agostinho (título da Carta Apostólica “No término do Jubileu Extr. Da Misericórdia”) “A misericórdia” não condenou “a miséria” humana. Só o perdão restaura a vida e o Deus, Pai de Jesus, não quer a morte do pecador, mas “que mude a sua conduta e viva” (Ez 18,23). A Lei também não era para a morte, mas para acertar os caminhos da vida, escrevê-la no coração, aprender a respeitá-la, a torná-la mais fraterna e solidária. O pecado nos dá a sensação de estar acima de qualquer Lei, de qualquer Deus que queira mandar em nós. É perigoso; nos faz perder as medidas do respeito, da justiça, dos direitos e da dignidade dos nossos irmãos. Passamos por cima de tudo e de todos. Também nos achar “certos” demais nos conduz a julgar e desprezar os outros. Pode ser que, em muitos casos, a aplicação rigorosa da lei consiga corrigir também os grandes e os poderosos que se consideram inatingíveis. Outras vezes, porém, os próprios infratores são as primeiras vítimas de uma soc iedade que não lhe ofereceu uma família amorosa, uma vida digna, uma educação cativante e um trabalho honesto. As “periferias existenciais” são habitadas por irmãos e irmãs como nós. Sempre crescem quando aumentam as desigualdades sociais. É muito fácil julgar os outros estando numa posição confortável e protegida. Melhor pensar bem, vasculhar a fundo a nossa consciência, antes de chutar, nem que seja um cachorro.


 
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