A curiosidade

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Um rei estava convencido de que a curiosidade era uma das maiores virtudes da inteligência humana e a ela se deviam inúmeras descobertas, científicas e não. Pensou que o primeiro ministro do seu reino devia ser uma pessoa sumamente curiosa. Chamou os pretendentes ao cargo; entregou a todos uma moeda de ouro e lhes disse:

– Aquele de vocês que provar, utilizando-se unicamente da moeda de ouro por mim entregue, ser o mais curioso de todos, será nomeado Primeiro Ministro.

Um dos pretendentes começou a olhar a moeda com uma lente no verso e no reverso. Outro a comparou com outras que tinha consigo. Outro batia nela com um pesado martelo. Todos viravam e reviram a tal de moeda, sem parar, em busca de algum segredo. O rei, porém, reparou que um deles estava bem tranquilo, num canto, observando, muito atento, o acontecer da disputa. Foi ter com ele e perguntou-lhe porque estava tão parado. Respondeu-lhe o homem:

– Prezado rei, estou desistindo da minha pretensão de ser primeiro ministro.

– E por quê? – insistiu o rei.

– Não posso examinar com a devida atenção a moeda, porque estou empenhadíssimo em saber como vai acabar esta história.

– Bravo! – gritou o rei – Você é o mais curioso de todos. Será o meu Primeiro Ministro!

Temos que admitir que a curiosidade continua sendo uma das maiores motivações da busca humana. Quando é “boa”, nos faz pesquisar, experimentar, testar e criar. Ao contrário, a curiosidade “má” nos torna espiões da vida alheia, fofoqueiros e, muitas vezes, nos descuidamos do que é nosso para nos preocupar com o que é dos outros. O que tem a ver a “curiosidade” humana com a Solenidade da Assunção de Maria ao céu que, nós, católicos celebramos neste domingo? Nós acreditamos que Maria foi a mãe humana de Jesus. Assim, tendo participado de uma maneira única do mistério da encarnação do Filho de Deus, acreditamos que também participe desde já, de corpo e alma, terminado o curso de sua vida, da glória da ressurreição. Como será esta vida? Como será o estar com Deus? Tudo isso não suscita em nós nem um pingo de curiosidade? Nesse caso a nossa “curiosidade” vai junto com a nossa esperança, ou seja, com o valor que damos à vida futura em Deus, após ter concluído, por nossa vez, o tempo limitado desta vida terrena.

A Festa da Assunção de Nossa Senhora abre para nós, por assim dizer, uma janela sobre o que acreditamos e podemos entender, de longe, da vida verdadeira, a vida eterna, ou plena, prometida por Jesus a quem acreditar nele. Ainda não podemos ter experiência desta vida, está fora do alcance dos nossos sentidos e, também, da nossa inteligência. No entanto, se damos ouvido aos mais profundos e puros sentimentos do nosso coração, não é difícil desejar algo que seja a superação de todos os nossos defeitos e limitações. Deveríamos sonhar com a paz e não mais com as brigas. Deveríamos imaginar uma grande fraternidade, sem mais discriminações, separações ou privilégios. Basta de lugares reservados com mordomias e distinções. Se esta vida foi para nós difícil e sofrida, como não desejar algo mais do que a saúde do corpo? Por que não almejar um bem-estar para todos e todas, uma grande alegria, sem mais lagrimas, invejas, ciúmes e rancores? Como cristãos, deveríamos nos preocupar muito se tudo aquilo que acabo de lembrar não suscita mais algum desejo para nós. Não quer dizer que as coisas deste mundo e as suas riquezas não tenham nenhum valor. Têm, e muito grande, mas os bens passageiros não deveriam ser confundidos com os bens eternos. Estamos trocando o Deus infinito por pessoas e coisas, frutos das nossas mãos. Adoramos e desejamos poder, riqueza e sucesso; são os ídolos mundanos, como os chama Papa Francisco. A fé nos faz acreditar e confiar em Alguém muito maior que os bens materiais e a esperança deve tornar incansável a nossa busca. No final, porém, será o amor a preencher definitivamente a eternidade. Um amor sem fim, acima de tudo e de quanto conseguimos imaginar; o prêmio será o próprio Deus. Então, será que nem mais a busca do amor motiva a nossa “curiosidade”?


 
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