A ponta do rabo preta

Desculpem o caso bem banal de crianças, mas é justamente sobre isto que devemos refletir: mudar os critérios com os quais avaliamos situações e pessoas. Também não quero faltar de respeito ao assunto tão precioso do evangelho deste domingo.

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Um cachorro, branco com a ponta do rabo preta, estava morto à margem da estrada. Alguns moleques o olhavam com os olhos marejados de lágrimas. Um homem parou e disse: – Deve ter sido um bom cão de caça. – Quem? Spot? Não! Ele não era nada de especial. – Era um cão de guarda? – Não. Respondeu outro. – Era um bom corredor? – Não…- Mas, se não era nada de extraordinário, porque tinha tantos amigos? O rapaz olhou para o cachorro com tristeza e disse: – Está vendo o rabo dele? Spot, mexia o rabo quando nos encontrava na rua. Talvez não fosse o melhor cachorro que se poderia desejar, mas era bom e nós brincávamos felizes com ele!

Desculpem o caso bem banal de crianças, mas é justamente sobre isto que devemos refletir: mudar os critérios com os quais avaliamos situações e pessoas. Também não quero faltar de respeito ao assunto tão precioso do evangelho deste domingo. Passar do “alimento que se perde” àquele que “permanece para a vida eterna e que o Filho do homem vos dará” (Jo 6,27) não é nada fácil. Devemos treinar muito. Ou seja, precisamos aprender a arte dificílima de olhar mais no interior dos fatos e das pessoas que ficar simplesmente nas aparências exteriores, naquilo que nos satisfaz imediatamente. O povo que seguia a Jesus queria fazê-lo rei, por causa da fartura do alimento. Tinham esquecido que tudo era “sinal” de algo mais. Sinal da bondade de Deus e do seu projeto de uma nova criação, de uma nova e mais feliz humanidade.

Os bens materiais, desde a comida até o necessário para uma existência digna para todos, são importantes, já dissemos. Mas não conseguem preencher totalmente a vida e o coração humano. Nós fomos feitos para algo maior e que vai além da materialidade das coisas. No mínimo, precisamos de afetos, de atenção e carinho. Tudo isso se chama de relacionamentos amorosos, de amizade e confiança. Qualquer ser humano que não tenha o coração endurecido pela ganancia, a violência ou o poder, em qualquer lugar do mundo e em qualquer situação, sabe que isto é verdade. No entanto, onde e com quem podemos aprender a amar e a fazer o bem sempre? No meio de tanto mal, de tanta desumanização, não faltam, está claro, bons exemplos, que nos vêm, às vezes, de onde menos esperamos.

Todos conseguimos ser bons vez por outra. A questão é fazer de tudo isto o sentido da nossa vida, o segredo mais profundo que motiva qualquer gesto de bondade e faz de nós pessoas boas sempre, que acreditam e promovem o bem. Nós cristãos ensinamos que, sozinhos, não damos conta de conseguir fazer isto, mas não é porque não acreditamos nas possibilidades do ser humano de mudar. Se buscamos a ajuda do próprio Deus, que é amor, é porque queremos mudar de verdade, e não só algumas vezes. Somente ele pode refazer o nosso coração, a nossa maneira de pensar, os valores que motivam a nossa vida.

É por isso que a “obra” que Jesus pede de fazer para mudar a nossa vida é antes de tudo aquela de “crer” nele, o “verdadeiro pão do céu”. Isto significa acolher e arriscar sobre a sua pessoa. Quem se “alimenta” de amor, aprende a amar. Quem acompanha Jesus e se deixa transformar por ele, aprende e treina gestos e palavras de vida e de esperança. Por sua vez se torna um comunicador de consolação e fraternidade. Não precisamos de ações clamorosas. Quando temos um coração bom – habitado pelo Espírito de Amor, o Espírito Santo – tudo muda. Aprendemos a ter compaixão, a ver a bondade dos outros, a ser felizes e esperançosos até nas contrariedades da vida. Temos fome e sede de amor. Pagamos caro por isso, empolgados com as novidades e a badalação da propaganda. Perdemos tanto tempo porque os procuramos onde, ou com quem, nunca irá nos saciar plenamente. Não acreditamos e desistimos da gratuidade do amor infinito do Pai, do Filho e do Espírito que “habita em nós”, se o deixamos (Rom 8,9).

É difícil aprender, mas basta pouco para ser felizes e fazer felizes os outros. As lagrimas de moleques por um cachorro morto, nos lembram disso: – Era bom e nós brincávamos felizes com ele. Nada mais. Porque era bom.


 
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