O angelim e o bambu

Estava ainda falando, quando se levantou uma tempestade sem igual, com um vento que mexia com força todo o mato.

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O angelim disse ao bambu: “Tu não tens sorte na vida. Os passarinhos não fazem seus ninhos contigo e basta um pouco de vento que tens que baixar a cabeça. Olha para mim! Eu fico sempre de cabeça erguida contra o sol, resisto como as montanhas e desafio os ventos. Para ti, cada pé de vento é uma tempestade, para mim cada tempestade é um pé de vento. Ainda mais: o Céu não te fez nascer ao abrigo da minha sombra. A natureza te fez nascer na beira dos igapós, no meio do vento e da lama”.

Estava ainda falando, quando se levantou uma tempestade sem igual, com um vento que mexia com força todo o mato. O bambu não ficou muito prejudicado, baixou a cabeça, curvou as costas ao vento e resistiu. O angelim, porém, resistiu às primeiras rajadas, mas depois o vento acabou com a árvore: as folhas e os ramos voaram longe e as raízes ficaram no ar.

Domingo passado, Jesus nos ensinava a não desistir da oração. Desta vez, com a parábola do fariseu e do cobrador de impostos, que vão ao templo para rezar, ele nos diz qual deve ser a melhor atitude, quando nos colocamos perante a grandeza e a misericórdia de Deus. A própria situação humana deveria nos orientar para a humildade, no entanto, até na hora de levantar os olhos para o alto, em lugar de reconhecer as nossas fraquezas, aparece o demônio do nosso orgulho. Nada de mais errado; pensamos em nos aproximar de Deus e, na realidade, com a oração arrogante, ficamos mais longe dele.

Jesus não escolhia por acaso as personagens das suas parábolas. Os fariseus foram seus inimigos declarados, sempre polemizando e acusando-o de ser um desobediente escandaloso. Jesus também não poupou os fariseus “hipócritas” nas suas pregações. A causa de tantas controvérsias era, sabemos, a interpretação da Lei de Moisés. Para os fariseu devia ser obedecida ao pé da letra, nos mínimos detalhes, alguns deles quase impossíveis de serem cumpridos. Jesus, aos olhos dos fariseus, se apresentava livre. Capaz de obedecer a algumas normas, mas decididamente contrário aquelas regras que pretendiam julgar e condenar quem não as cumpria. Para Jesus a misericórdia do Pai estava muito acima de tod a lei, vinha antes de toda normativa, porque Deus ama a todos e a todos quer oferecer o seu perdão. Mais chocante, ainda, para os fariseus, era que Jesus acolhia os pecadores e falava da alegria do Céu pela volta de um só deles. Tudo isto incomodava os fariseus, fazia cair o seu castelo de preceitos que, segundo eles, devia-lhes garantir o prêmio eterno. Não cabia na mente e no coração deles que Deus pudesse ser tão generoso e que a salvação fosse, afinal, um dom gratuito da sua bondade e não a consequência de direitos adquiridos pela simples e fria obediência a uma Lei.

Os fariseus tinham medo do perdão; achavam que isso podia parecer um prêmio para os pecadores e, com isso, incentivá-los a pecar. A experiência de Jesus nos encontros com os cobradores de impostos e as prostitutas, apresentados nos evangelhos, provam claramente o contrário: é a misericórdia que aproxima e faz mudar de vida, não o rigor e a punição da Lei. É porque já fomos muito amados que acabamos reconhecendo que o melhor é amar.

Entendemos, com isso, que a oração do cristão deve ser mais semelhante àquela do cobrador de impostos, não por termos necessariamente grandes pecados, mas simplesmente para nos dispormos a acolher com humildade o amor misericordioso do Pai. Um coração orgulhoso, de quem se considera melhor do que os outros, que julga e condena, afasta de Deus. Ao contrário, o reconhecimento da nossa urgente necessidade da bondade do Pai, aproxima-nos dele, coloca-nos na condição também de sermos “misericordiosos como o Pai é misericordioso”. O cobrador de impostos não é um exemplo para nós pelos seus pecados, mas pela humildade e a sinceridade em reconhece-los e, assim, poder ser perdoado. Dobrar a cabeça e p edir perdão a Deus e aos irmãos, que ofendemos e ignoramos, não é tão mal assim. É questão de vida plena na fraternidade ou de orgulho inútil na autocontemplação. Vida ou morte. Como o bambu. Nas tempestades e…Sempre.


 
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