O resgate do avarento

Se me concedes dois dias, te darei duzentos mil denários e dois terços do meu patrimônio. O Anjo não aceitou. O homem lhe ofereceu ainda os trezentos mil denários e todas as suas riquezas em troca de um só dia. O Anjo não quis escutá-lo.

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Durante o império de Trajano, vivia em Roma um mercador avarento, que tinha acumulado com muito esforço, com o comércio e a usura, trezentos mil denários. Decidiu, então, descansar por um ano. Mal tinha concluído o último negócio, eis que se lhe apresentou o Anjo da Morte para tirar-lhe a vida. O avarento tentou todos os argumentos para dissuadir o Anjo, mas não teve jeito, ele não desistia de arrastá-lo para o Inferno. Por fim o homem disse:

– Mais três dias de vida e eu te darei um terço dos meus bens.

O Anjo não aceitou. De novo o avarento propôs:

– Se me concedes dois dias, te darei duzentos mil denários e dois terços do meu patrimônio. O Anjo não aceitou. O homem lhe ofereceu ainda os trezentos mil denários e todas as suas riquezas em troca de um só dia. O Anjo não quis escutá-lo. Então, o avarento suplicou:

– Por favor me deixe ao menos o tempo para escrever uma pequena frase.

Dessa vez o Anjo concordou. O condenado escreveu com o seu próprio sangue: “Homem, aprende a contar os teus dias e faze bom uso da tua vida. Eu não pude comprar uma hora só com os meus trezentos mil denários”. O Anjo, em lugar de arrastar o pobre direto para o Inferno, resolveu poupar-lhe a vida. Com efeito, o Senhor, nunca deixa de acolher a menor fagulha de uma boa obra. Aquele avarento se chamava Mirko e morreu mártir, poucos dias depois de ter-se convertido à fé cristã.

Esta história está nas Acta Santorum, os primeiros mártires. Aquele rico avarento ainda teve a possibilidade de resgatar-se de uma vida gastada atrás do dinheiro. O mesmo não aconteceu com o rico, sem nome, da parábola do evangelho de Lucas, que encontramos neste domingo. Foi para os tormentos. O pobre, que se chamava Lázaro, foi acolhido no seio de Abraão. Podemos nos perguntar: por que o rico não teve uma segunda chance? Por que, parece que, neste caso, a misericórdia de Deus não funcionou? Ela não é maior de todos os nossos pecados e não nos alcança sempre?

O sentido da parábola do rico e do pobre Lázaro não está numa possível diminuição da misericórdia de Deus, mas na impossibilidade de inverter uma situação que nunca foi mudada, quando ainda tinha condição de ser corrigida, ou seja, durante os dias de nossa vida. Moisés e os profetas, que Abraão lembra, assim como o morto que ressuscita, são todos os claros alertas enviados para quem se dispõe a escutar a Palavra de Deus e a praticá-la durante a sua vida. Arrepender-se ou querer mudar as coisas, após a morte, não adianta. Deus não desiste e nem descuida de nos alertar, mas respeita a nossa liberdade. Quem quis entender aquelas mensagens somente para a própria vantagem, terá que arcar com as consequências das suas interpretações e decisões.

A primeira culpa daquele rico, com certeza, foi esta: apesar de conhecer a miséria do pobre Lázaro, sentado à porta da sua casa, nunca teve compaixão e não fez nada para amenizar a triste situação dele. Mas o rico da parábola teve outra culpa, muito mais grave e partilhada com muitos outros, ainda hoje, infelizmente. Esta é uma grave distorção da justiça-misericórdia de Deus: achar que a riqueza seja sinal de bênção e a pobreza castigo! Talvez, por isso, o rico se achou no direito “divino” de não interferir na situação do pobre. Talvez, por isso, ficou agradecido e imaginou qual crime horroroso tinha feito Lázaro para merecer tamanho sofrimento. Essa era a ideia, mesquinha e interesseira, da “justiça” de Deus, que muitos abastecidos e poderosos tinham nos tempos de Jesus. As riquezas, os bens e a s capacidades que temos são, é verdade, dons, gratuitos e imerecidos, da bondade de Deus, mas para serem administrados com responsabilidade “social”, solidariedade com os menos favorecidos e caridade compassiva com os sofredores. Não devem ser aproveitados de forma egoísta, porque Deus quer se servir da nossa capacidade de amor e justiça para continuar a exercer a sua infinita misericórdia. A verdadeira “bênção” que devemos pedir ao Pai não é para o nosso bem-estar individual, mas para que a humanidade inteira aprenda a partilhar os bens – inclusive do planeta! – que a generosidade de Deus nos confiou. Como irmãos. Isto é, “contar os dias” e fazer “bom uso” da própria vida.


 
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