O Rio da Paz

– Vem comigo, meu filho, iremos até o Rio da Paz. Andaram por muitos dias e atravessaram lugares tão escuros, que não era possível distinguir o dia da noite. Finalmente, Fulgêncio começou a escutar o ruído de águas correndo. Um rio imenso de águas puras e claras estava à frente deles.

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Fulgêncio era um bom pai e um excelente esposo. Num dia triste de desventura, a jovem esposa dele partiu para sempre. Ele chorava, inconsolável. Certa noite, quando estava recolhido em sua cama e chorando baixinho para não acordar as crianças, Nossa Senhora das Lágrimas teve compaixão dele. Era uma visão calma e consoladora. Maria o tomou pela mão e lhe disse:

– Vem comigo, meu filho, iremos até o Rio da Paz. Andaram por muitos dias e atravessaram lugares tão escuros, que não era possível distinguir o dia da noite. Finalmente, Fulgêncio começou a escutar o ruído de águas correndo. Um rio imenso de águas puras e claras estava à frente deles.

– Mergulha no Rio da Paz, peregrino da dor – ordenou-lhe a Virgem – as suas águas vão derreter a tua pena e a tua angústia. Fulgêncio entrou na água. Sentiu no seu corpo todo uma grande paz e um novo vigor. Todas as suas feridas estavam sendo curadas. Quando saiu da água, perguntou a Nossa Senhora:

– De onde vêm as águas benfazejas deste rio?

– São as lágrimas do mundo – respondeu a Virgem – todas as lágrimas chegam aqui. Lágrimas amargas de medo, de dor, de decepção, de derrota, de raiva. Mas também lágrimas doces, aquelas derramadas por amor, pela volta de uma pessoa querida, por um perigo afastado. Fulgêncio percebeu os gemidos de todos os que lá tinham derramado lágrimas e compreendeu que, também, as suas agora faziam parte daquele único rio. Sentiu-se em comunhão com toda dor e alegria do mundo.

Naquele momento, Maria, a mãe de Jesus, falou-lhe da dor do seu filho. Fulgêncio escutou o choro de Jesus na frente do túmulo de Lázaro, o choro no Horto das Oliveiras, o choro da cruz. Lá estavam juntas, também, as lágrimas de Nossa Senhora. Naquele momento, Fulgêncio acordou. O travesseiro ainda estava molhado, mas uma paz profunda estava tomando conta dele. Não era mais o filho da dor, mas o filho da compaixão.

Acredito que Nossa Senhora da Assunção, que celebramos neste domingo, vai me perdoar se hoje a chamei de Nossa Senhora das Lágrimas. O nome não muda a santidade da pessoa e nem diminui a glória merecida. A Igreja nos convida a contemplar a glória de Maria, mas não para diminuir a sua humanidade; ao contrário, o faz para aproximá-la mais de todos nós e nos indicar, assim, o caminho do céu. Junto ao Filho Jesus ressuscitado, Maria, com a sua realidade corporal, lembra-nos a meta final da nossa busca e peregrinação terrena: a alegria de estar com Deus.

Esquecemos que estamos neste mundo só de passagem. Algo melhor, uma vida mais plena e feliz nos atende. Nós todos deveríamos desejar e preparar esta vida que é a própria vida de Deus Trindade. O Caminho para chegar e a Porta para entrar é Jesus. O segredo? O amor. Os indicadores? As lágrimas de dor e de compaixão. Assim foram as lágrimas de Jesus, pela sua infinita misericórdia com a nossa pobre humanidade, desfigurada pela violência, ódio, ganância que produzem infelicidade, sofrimento e morte. Foram também as lágrimas de Maria, quando, aos pés da cruz, entregou o seu filho nas mãos do Pai, sem poder fazer nada a não ser chorar e confiar. Como tantas m&atil de;es que choram, ainda hoje, os seus filhos. Somente se aceitamos não ser os donos da nossa vida e da vida dos outros, conseguimos suportar as separações que a morte nos traz.

Todos somos, em primeiro lugar, filhos amados pelo Pai. Ele nos permite nos amarmos por um tempo. Todos somos dons dele uns pelos outros. Dons que deveriam ser bem aproveitados e nunca desperdiçados. Deus não brinca de nos fazer sofrer. Não seria o Deus-amor. Chora conosco e, um dia, enxugará as nossas lágrimas, naquela vida plena de reencontro e comunhão que somente ele pode oferecer. Sem essa dimensão de fé, amor e esperança, é difícil suportar os sofrimentos. Parecem injustiças e castigos. Podem se tornar percursos de amor e compaixão. Nossa Senhora da Assunção já andou por esses caminhos e chegou à glória. Basta lembrar que não existem somente l&aacu te;grimas de dor; tem também lágrimas de alegria, esperança, solidariedade e, sobretudo, de compaixão. Um grande rio.


 
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