O Sínodo para a Amazônia

Por causa do Evangelho, a Igreja não pode se omitir perante situações relevantes para a humanidade. Fez isso no século passado para alertar sobre o perigo de uma guerra nuclear.

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Neste domingo, inicia-se em Roma o Sínodo “Especial” convocado pelo Papa Francisco sobre a Amazônia. Participam desta assembleia, os bispos ordinários da Pan-Amazônia que abrange, além da Amazônia brasileira – a mais extensa territorialmente – áreas que pertencem a outros oito países da América Latina. A Guiana Francesa, nossa vizinha, por exemplo, é “Amazônia”. Eu também, como bispo de Macapá, estarei lá, levando, espero, um pouco da vivência eclesial da nossa Diocese-Estado junto aos anseios e esperanças dos diversos grupos sociais e étnicos que constituem a população amapaense. Também participarão outros bispos convidados pelo Santo Padre e diversos assessores e estudiosos da realidade amazônica. Devido ao fato de que este Sínodo já deu muitas polêmicas e que o assunto “Amazônia” está na pauta da agenda mundial, parece-me correto explicar um pouco o que tentaremos fazer por três semanas de escutas, reflexões, oração e trabalho.

Em primeiro lugar, devo lembrar que o Sínodo será um evento de Igreja. Basta entender bem o tema da convocação: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. No entanto, todas as vezes que pessoas da Igreja, incluindo Papa Francisco, colocam ou denunciam alguma grave situação social, uma questão humanitária e agora também a crise ecológica, são acusadas de se meter em política. Os futuros candidatos não se preocupem. A Igreja faz “política” do seu jeito. Não será a política partidária das disputas do poder, mas a “política” no sentido do bem comum, dos interesses dos mais pobres, dos grupos humanos excluídos e esquecidos. Se não o fizesse, a Igreja, trairia o evangelho de Jesus Cristo, que veio neste mundo para nos mostrar que aqui devem começar a nova jus tiça e a nova paz do Reino do Deus. A Igreja não tem receitas ou soluções sociais e econômicas prontas e infalíveis, sabe que a humanidade avança por contrastes e ajustes, por disputas e acordos, por avanços e recuos. Ela tem, porém, um rumo certo, aquele do respeito pela vida de todos os seres humanos e de todas as criaturas. Sabe que deve ser reconhecida a dignidade de toda pessoa humana, porque todos têm direitos e deveres, têm necessidades materiais e espirituais, vivem melhor se alimentam a paz e a fraternidade com os outros e com a natureza.

Por causa do Evangelho, a Igreja não pode se omitir perante situações relevantes para a humanidade. Fez isso no século passado para alertar sobre o perigo de uma guerra nuclear. Nos nossos dias, Papa Francisco nos alerta sobre a crise ambiental. É o nosso planeta, a nossa única Casa Comum, que está em perigo, e com ele o futuro de todos os seus habitantes. A Amazônia pela sua extensão florestal, pela sua biodiversidade e pela quantidade de água doce que ainda guarda, contribui muito com o equilíbrio climático e a preservação de muitas espécie animais e vegetais. Esta região é uma grande reserva de tudo isso, e muito mais se juntamos os minérios, mas, se mal administradas essas “riquezas”, ou dádivas de Deus para quem acredita, podem acabar com prejuízos gravíssimos para toda a humanidade. Além da questão ecológica, cara ao Papa Francisco, aqui existem muitos grupos étnicos diferentes e nos mais diversos ambientes. Temos os povos originários que vivem em harmonia com as florestas e os milhões de pessoas que moram nas grandes cidades. Encontrar soluções de convivência e respeito, com tantos interesses opostos, não é nada fácil. Contudo, como cristãos, acreditamos nas luzes do Espírito Santo e na sabedoria milenar dos povos originários. As respostas a tantos desafios não podem vir de fora ou só da tecnologia e das ciências. Devem vir das próprias pessoas daqui – a começar por nós mesmos – envolvidas nas diversas situações e, por isso, conhecedoras dos ritmos da natureza, e sempre confiantes em todo seu semelhante que, mesmo sem saber, ainda guarda em si a imagem de Deus Criador.

O Sínodo da Amazônia quer ser uma convocação para a esperança. Levantará a voz, denunciará desequilíbrios, mas, sobretudo, desafiará os povos da Amazônia a dizer aos demais irmãos e irmãs do mundo inteiro, se ainda é possível, ou não, viver em paz entre culturas e crenças diferentes, em harmonia com a natureza e as suas diversidades. Os povos da Amazônia não podem desistir de acreditar e esperar em si mesmos e na bondade de Deus que os chamou a esta responsabilidade planetária abrindo novos caminhos para ir além de todos os mitos de progresso e consumo que desumanizam e escravizam o homem “moderno”.


 
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