O livro da vida

Certa vez, um homem conseguiu permissão para entrar numa grande gruta, onde estavam guardados os livros da vida de cada um com seu passado e futuro. Ele poderia ficar lá por alguns minutos, durante os quais era possível modificar o rumo do seu próprio destino e o de quantas pessoas desse conta no prazo marcado. […]

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Certa vez, um homem conseguiu permissão para entrar numa grande gruta, onde estavam guardados os livros da vida de cada um com seu passado e futuro. Ele poderia ficar lá por alguns minutos, durante os quais era possível modificar o rumo do seu próprio destino e o de quantas pessoas desse conta no prazo marcado. Decidido, ele achou que primeiro devia aproveitar para se vingar dos seus desafetos. Foi direto no livro da vida do seu maior inimigo e corrigiu muitas coisas, juntando desgraças, doenças e pobreza. O mesmo fez com outros. Riscava o que tinha de bom e escrevia misérias e desventuras. Ele fazia tudo muito rápido, mas o tempo corria também e já estava para terminar. Quando, finalmente, resolveu pegar o livro da vida dele para anotar fortunas, saúde e bem-estar, o encarregado tocou no ombro dele e lhe disse:
– Amigo, o tempo acabou.

– Ainda hoje – o infeliz lamenta – tive o livro da minha vida nas mãos, mas, fiquei tão ocupado em fazer o mal aos meus inimigos, que perdi a chance de fazer o bem para mim mesmo.

Continuando a leitura dominical do evangelho de Lucas, encontramos uma página que nos apresenta duas atitudes opostas: de um lado, temos a “firme decisão” de Jesus de ir a Jerusalém e, do outro, as desculpas de alguns discípulos que, apesar das declarações clamorosas, pedem tempo para decidir mesmo se acompanham, ou não, Jesus na sua missão. Entre as escolhas difíceis aparece, também, aquela de um povoado de samaritanos que resolve não acolher Jesus porque, indo para Jerusalém, provava que pertencia a outro grupo religioso. Não é difícil entrever atrás desses casos a situação dos cristãos daquele tempo e, também, a nossa. A acolhida de Jesus e da sua mensagem, não pode ser algo de forçado e, menos ainda, o resultado do medo de algum possível castigo. Jesus repreende Tiago e João que queriam jogar pragas contra aquele povoado. A liberdade de escolha e as diferenças religiosas, nesse caso, devem ser respeitadas. No entanto precisa entender que qualquer decisão tomada terá consequências e que também quando, aparentemente, não decidimos nada ou deixamos tudo para depois, de fato, estamos escolhendo: sempre algo irá acontecer. Porque para ninguém a vida é um passeio inútil ou um enganar o tempo que passa. Ou decidimos o rumo da nossa existência ou, talvez, lamentaremos, depois, as ocasiões perdidas sem poder voltar atrás. Uma dessas decisões é, sem dúvida, a fé: ser cristãos para valer ou fazer de conta. É um tema extremamente atual num tempo de tantas propostas religiosas, algumas mais prometedoras – ou enganadoras – que outras.

Jesus caminha rumo a Jerusalém. Entende que lá acontecerá o grande confronto entre a sua mensagem e o conjunto daqueles poderes religiosos e políticos que não admitem novidades, sobretudo, quando estas têm a pretensão de vir de Deus. Também os doutores da Lei, os fariseus, os sacerdotes do Templo e os anciãos do Sinédrio estavam convencidos de falar em nome do seu Deus. Nem por isso Jesus desiste. Ele tem coragem, vai em frente, ainda que já vislumbre a sombra da cruz. Bem diferentes são os três candidatos ao seguimento. Aparecem aqui os maiores medos para tomar uma decisão séria: o conforto dos bens que poderá ser perdido, a incerteza sobre o sucesso da missão, a separação do ambiente familiar tranquilo e seguro. Quem declara que quer seguir a Jesus, mas não sabe renunciar a nada é como quem parece ir para frente, mas continua olhando para trás. Não é possível seguir o Mestre que será crucificado sem passar pelo desconforto do abandono, da pobreza, da insegurança. Todas coisas, porém, que afinal não dão segurança alguma, porque são tão frágeis como a própria vida que passa. Somente no Pai de Jesus é possível encontrar força, coragem e a certeza do amor. Ele sabia que não estava sozinho.

Na vida não existe “destino”, como se alguém – quem? Deus? – já estivesse tudo planejado e nós fôssemos vítimas inocentes dessas decisões. Na vida existem oportunidades e escolhas que dependem de nós. O bem e o mal, amizades e inimizades, fé, esperança e amor se constroem. Melhor não perder tempo.


 
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