A condição humana

Foi essa a ideia que me levou a afastar sempre as receitas clássicas de combater a inflação com recessão.

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A condição humana é uma expressão que pode significar várias coisas: a fragilidade do homem e a inevitabilidade da morte, com Montaigne; o engajamento revolucionário, a solidão, o medo, como André Malraux num dos romances mais importantes do século XX; para os mais humildes, pura e simplesmente a sobrevivência, a sua situação na sociedade.

O primeiro motivo do político é esta visão da condição humana. É a sua transformação, a busca da felicidade — no fecho da fórmula feliz que Thomas Jefferson colocou na Declaração de Independência americana —, que nos leva a lutar. O medo da morte, que nos leva a construir a sociedade, é superado pelo medo da vida, que nos expulsa dela, que exige de cada um mais que o esforço e o trabalho, a sorte, o acaso, para poder levar para casa o pão de cada dia. O medo do desemprego.

Foi essa a ideia que me levou a afastar sempre as receitas clássicas de combater a inflação com recessão.

O Brasil enfrenta, hoje, como seu problema mais grave, uma crise de emprego terrível. A grande dificuldade do governo federal tem sido encontrar um equilíbrio entre a solução de crescer com inflação e a de acabar com a inflação para crescer. Com esta opção, temos hoje 14 milhões de pessoas desocupadas, entre as que procuram emprego — as que nem procuram mais são três milhões. A taxa de desemprego é de 13,1%. Mais de quatro milhões desistiram de procurar emprego. Mais de 26 milhões de pessoas queriam trabalhar mais, mas não conseguiram. Pensem em cada pessoa sem esperança, e depois juntem a ela cada uma das outras, .

Presidente da República, tive bem presente essa ameaça, para mim a mais danosa, pois destrói a dignidade do homem. Vínhamos de grandes níveis de inflação e de desemprego. Resolvi buscar outra solução, e para isso mandei estudar os planos de Israel e da Argentina, que tentavam caminhos novos. Fiz o Plano Cruzado, com a coragem do congelamento de preços. Sem ele não teríamos saído da recessão. Com ele alcançamos o menor nível de desemprego de nossa História — 2,16% —, e o mantivemos baixo até o fim do governo, tendo uma média de 3,59% — praticamente o pleno emprego. A inflação — preço que pagamos — vinha com correção monetária, isto é, o salário, no fim do mês, comprava o mesmo. Embora isso complicasse a economia, mais complicaria não ter salário no fim do mês, e, portanto, as compras não existirem.

E lá no Maranhão?
O emprego estava crescendo no período de Roseana. A taxa de desocupação caíra em 2014 para 7,4%. Depois de seu governo ela subiu: em 2015 foi para 8,6%; em 2016 para 11,7%; em 2017 para 13,3% — 359 mil pessoas. Em São Luís ela subiu de um nível já muito alto — 11,3% —, para se tornar o maior das capitais brasileiras, 19,8%.

Esta semana novos índices retratam a situação terrível de nosso Estado e de nossa gente: cresceram os índices de pobreza extrema. No Estado, hoje, são cerca de um milhão e 200 mil pessoas; e em São Luís, onde ela explodiu, aumentando 48%, são 147 mil.

Esses números, é claro, não nos alegram. Ficamos com pena do povo maranhense, na última das situações, que é o desemprego. A “mudança” veio, mas foi essa.

Volto a lembrar que é o sofrimento, a situação de cada pessoa que tem que ser levada em conta pelo político. A frieza dos números obscurece a carga trágica que cada uma delas carrega, a dor cotidiana, o desânimo, a desilusão, a ansiedade, a fome, as doenças. A condição humana, que cada um deseja transformar para alcançar a felicidade, não pode ser abstraída da realidade pessoal. Ela é a soma de todos os infinitos sentimentos humanos, de suas condições materiais, de sua força espiritual. É a imensa lição que essas pessoas nos dão: apesar de tudo, ter esperança.


 
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