Vieira, 300 anos

Lembra o padre Andreoni que a dor de sua morte era a lembrança de sua vida, “passada principalmente na missão do Maranhão e nas longas e frequentes navegações que empreendera pela libertação e salvação dos índios”.

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Há 320 anos, em julho de 1697, morria, em Salvador, Bahia, o padre Antonio Vieira.

A carta do padre Andreoni, comunicando o seu desaparecimento ao superior dos jesuítas, diz que foi “na primeira hora depois da meia-noite”, “adormeceu tranquilamente”. Informa, ainda, que estava com 90 anos e “com grande conformidade”, pois Deus tirara-lhe dois consolos: “da sua biblioteca” e “do retiro de sua capela (…) onde não podia demorar-se senão às escondidas, por causa do intolerável ardor e do penosíssimo incômodo da urina”.

Lembra o padre Andreoni que a dor de sua morte era a lembrança de sua vida, “passada principalmente na missão do Maranhão e nas longas e frequentes navegações que empreendera pela libertação e salvação dos índios”.

Usa-se, muitas vezes, a expressão generosa para alguns mortos de que “não morrerão jamais”. Mas morrem. Poucos os que desfrutam da vida depois da morte, da eternidade. Enquanto existir a língua portuguesa, Vieira existirá como o maior monumento de sua expressão barroca, em que se conjugaram a ação e a palavra. Vieira é o maior orador sacro da Igreja Católica.

Ninguém lhe excedeu no volume das obras, na profundidade dos seus sermões, na riqueza dos milhares de cartas que escreveu e na sua vida de pregador, evangelizador e homem de ação. Enfrentou reis, capitães-mores, desafetos, superiores eclesiásticos, a própria Inquisição, os mares, as florestas, as amarguras para levar o Evangelho e defender os índios contra a escravização. “Se eu torcesse minha batina, em vez de suor sairia sangue”, disse ele, e “a desgraça desta região (o Brasil) é causada pela injustiça e sofrimento impostos aos índios”.

Esse padre tinha a língua de fogo. Sua palavra queimava. Seu sermão pelo “Bom sucesso das nossas armas” é, sem dúvida, uma das mais altas manifestações literárias do gênero humano.
Ali, ele estabelece um diálogo com Deus e com ele argumenta: “Lembrai-vos, senhor, do vosso testamento, lembrai-vos de vossas promessas”. Esse Vieira que diria que não vem pedir pedindo, mas protestando e argumentando.

Na Missão do Maranhão ele passou nove anos. Muitas vezes fustigou os que mandavam (“Os príncipes sempre têm quem sirva mais depressa aos seus apetites que à sua honra”). Mas, em uma carta, indagado onde queria morrer, disse que era no Maranhão. Nossas igrejas estão cheias, dia e noite, do seu fantasma. Como não se sabe exatamente como eram e em que púlpito pregou, ele está em todas.

Mas há um lugar sagrado, um chão de terra batida, onde descobrimos o altar-mor na antiga igreja de Nossa Senhora das Mercês, ao lado do convento, hoje restaurado, que abriga a Fundação da Memória Republicana e o Memorial Sarney. Ali, é o único lugar em que se tem certeza que Vieira pregou no Maranhão, pois, na inauguração da igreja, há muito desaparecida, ele proferiu o famoso “Sermão de são Pedro Nolasco”, inaugurando o tempo, e lá profetizou: “Aqui tragamos nossos memoriais”. Esse memorial ali está, com a presença de Vieira.

O mesmo Vieira que, levado ao tribunal da Inquisição, tratou os seus juízes de “equíssimos doutores”. Chamado a atenção, esclareceu que não era de “equus” (cavalos, éguas), mas de equidade!…


 
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