Ambores de asfalto em chamas

No inicio do ano de 1960, o governo territorial adquiriu um lote de tambores de piche destinado ao asfaltamento das principais vias públicas de Macapá.

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O Contador Pauxy Gentil Nunes, quarto governador do Território Federal do Amapá, iniciou sua gestão administrativa quando ainda era muito presente a lembrança e os efeitos do acidente aéreo, ocorrido no dia 21 de janeiro de 1958, na vila Carmo do Macacoary, que ceifou as vidas do Deputado Federal Coaracy Gentil Monteiro Nunes, Suplente Hildemar Pimentel Maia e do piloto Hamilton Henrique da Silva. Antes dele, o cargo era ocupado pelo médico Amilcar da Silva Pereira, que substituira o Coronel Janary Gentil Nunes, guindado para a Presidência da Petrobrás. No período de 2 de fevereiro de 1956 a 14 de fevereiro de 1958, Pauxy Nunes atuou como Secretário Geral da administração territorial.

O cargo equivalia ao de vice-governador. Com a saída de Amilcar Pereira, para canditar-se ao cargo de Deputado Federal, o Presidente Juscelino Kubitschek efetivou Pauxy Nunes como governador a contar da ultima data supra mencionada, e, na mesma data nomeou o Promotor Público João Telles como Secretário Geral. Entre fevereiro de 1958 a 17 de fevereiro de 1961, o clima político foi tenso, haja vista, que Pauxy Nunes revelou acentuada intempestividade e hostilidade em relação aos adversários políticos filiados ao Partido Trabalhista Brasileiro. João Teles conservou sua “mineirice” e tentou conter o temperamento explosivo do parceiro. Sobejamente conhecido como devotado desportista na região amazônica, principalmente no Pará e no Amapá, Pauxy Nunes ganhou a alcunha de “Caudilho do Norte”. Sua atuação como gestor público não foi das piores. A ele, a cidade de Macapá deve o traçado de ruas e avenidas, graças ao Plano Diretor da Administração Amapaense.

No inicio do ano de 1960, o governo territorial adquiriu um lote de tambores de piche destinado ao asfaltamento das principais vias públicas de Macapá. O capeamento de ruas e avenidas utilizaria o processo alto-selante, que, em 1963, a Indústria e Comércio de Minérios S.A. tinha realizado nas travessas da Vila Amazonas, Vila da Serra do Navio e do Escritório Central. O processo consistia em jogar o piche sobre a terra, cobrindo-o com areia. Isso exigia um bom tempo para o piche absorvesse a areia e a mistura secasse. O período invernoso não era propicio para um trabalho dessa natureza, por isso, os tambores foram colocados atrás da Fortaleza de São José, próximo ao baluarte de Nossa Senhora da Conceição.

O tempo passou, o mato cresceu em volta dos tambores e a estiagem presente a partir de setembro provocou o vazamento do material de fácil combustão. Na noite de 24 de setembro de 1960, um incêndio de graves proporções irrompeu no local. A sirena da Usina de Força e Luz, situada na Av. General Gurjão foi ligada e o povo ganhou as ruas. O fogo, certamente ateado no capinzal por algum sujeito de má índole atingiu o piche derramado no solo e se expandiu.

Os tambores fechados eram arremessados ao ar com sucessivas explosões. A situação só começou a ser controlada, quando o Corpo de Voluntários de Defesa de Incêndios, conhecido como CVDCI, pertencente à ICOMI chegou ao local do sinistro. A unidade de Santana utilizou um caminhão-bomba com capacidade para quatro mil litros d’água, extintores de carga especial e outros dispositivos inexistentes em Macapá. Os bombeiros voluntários da ICOMI integravam duas unidades, em Santana e Serra do Navio, cada uma delas com 42 homens, todos funcionários da empresa mineradora. Bem treinados e agindo com muita cautela, não demoraram a eliminar o fogo. Mereceu reconhecimento especial da ICOMI o funcionário Hilkias Alves de Araújo, chapa 5499, que, usando roupa adequada subiu nos tambores ainda livres das chamas, para despejar água no interior deles. Sem os vedadores das tampas, e, conseqüentemente, sem gás represado, o piche não iria explodir. Em maior número, os demais membros da CVDCI faziam jorrar muita água sobre os tambores incandecentes.

A cidade de Macapá, que passou maus momentos com pavorosos incêndios, em 1960 ainda não tinha um grupamento de bombeiros regulamentado e aparelhado. Com muita limitação, a Guarda Territorial se virava para apagá-los.


 
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