Improvisação tenebrosa

A condição de “amigado” e ”amancebado” atingia uma considerável parcela dos operários. Quando o relacionamento dava certo eles evoluíam para o matrimônio.

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A improvisação fez parte da vida de muitos trabalhadores, que vieram trabalhar em Macapá a partir de janeiro de 1944, marco o inicial da implantação e implementação do território federal do Amapá. Pequena e sem imóveis disponíveis para aluguel, a capital da nova unidade federada simplesmente inchou em termo populacional. As velhas casas do centro eram de taipa de mão, unidas uma às outras, compridas, mas possuíam poucos cômodos. Mesmo assim, diversas famílias aceitaram hóspedes e também viraram pensão fornecendo marmitas aos que não tinham onde preparar a própria comida. Alguns moradores aproveitaram espaços excedentes em seus quintais e construíram quartos, alocando-os a terceiros. Progressivamente, os que pagavam aluguel saíram desse sistema. Arranjaram namoradas, noivaram e casaram com relativa brevidade.

A condição de “amigado” e ”amancebado” atingia uma considerável parcela dos operários. Quando o relacionamento dava certo eles evoluíam para o matrimônio. Quando um solteirão convicto sumia do convívio com seus amigos de boemia, esses diziam que o desaparecido havia arranjado um “cobertor de orelhas”. Se o relacionamento capengasse e ficasse marcado por aconchegos e desprezos, a mulher não passava de um “quebra galho”. Para a turma da birita, que não admitia perder sua liberdade de vaga-mundo, valia passar aperreios em relação à alimentação, fosse de dia ou á noite. Conheci alguns solteirões pertinazes, que residiram em quartos alugados na área onde hoje fica a Praça Isaac Zagury. Eles enfrentavam o batente com denodo, mas passavam rasteiro nas noites de domingo, porque as mais simples biroscas fechavam suas portas e nem ovo frito vendiam. Essa turma não tinha fogão. Alguns alimentos de rápido preparo eram feitos em fogo de lenha colocada entre dois tijolos e instalado fora do quarto. Nestas ocasiões prevalecia o consumo de carne enlatada e sardinhas. Se estivesse chovendo, a gororoba descia sebosa com a ajuda de água ou cachaça. Certa vez, uns quatro ferrenhos solteirões passaram a manhã e as primeiras horas da tarde de um domingo no “Bananeira”, um local relativamente aprazível onde a plantação de bananas era marcante. Ali, saia peixe cozido, frito, grelhado, camarão no bafo, galinha cabidela, feijoada e outros quitutes que porre não rejeita depois do terceiro trago. Por volta das 15h30min, acrescido por outros frequentadores do dançará, o grupo rumou para o então Estádio Municipal de Macapá.

Macapá estava sob os efeitos de fortes chuvas e a “aviação canela” era o meio de transporte maciçamente usado. Os personagens que me contaram o fato lembravam que o jogo tinha sido entre o Trem Esporte Clube Beneficente e o Amapá Clube, mas nenhum dos desportistas lembrava o placar da partida. Também não tiveram a curiosidade de perguntar a alguém. Saindo do estádio grudaram no Bar do Pina e no “Canta Galo” dois renomados estabelecimentos frequentados pelo amantes da “marvada pinga”. Em torno das 21 horas, com o sono e a fome martirizando o grupo, o retorno para o “doce lar” tornara-se imperioso, notadamente porque havia chovido bastante. A jornada foi penosa e despertou nos caminhantes uma fome danada. No interior do quarto sentiram que seria difícil dormir com fome. Um deles decidiu ir à casa de um comerciante, dono de uma geladeira a querosene, buscar a carne do grupo que ali ficava conservada.

O encarregado da façanha levou uma esculhambação sem precedentes,mas pegou a carne. Farinha tinha. De tempero, só o sal. E o fogo, como seria aceso? O fogão improvisado ficava no quintal e a lenha estava molhada. Alguém lembrou ter visto um saco de sarrapilheira cheio de papel na frente do Fórum e foi buscá-lo. Despejaram o papel no chão e jogaram a lenha molhada sobre ele. O calor faria os restos de caixas de madeira pegar fogo. Quando a lenha ardeu os espetos de carne foram estendidos. O mau cheiro era muito forte, gerando a suspeita de que a carne estava estragada. O mais faminto gritou: “vai assim mesmo, depois a gente toma magnésia”. Na 2ª feira, bem cedo, os farristas viram que o papel recolhido no Fórum era de sanitário.


 
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