Interessantes ditos populares

A primeira vez que ouvi esta expressão eu não entendi nada. Afinal de contas, eu não tinha a menor idéia de que pavão era uma bela ave de bela plumagem, que abria as penas do rabo em leque.

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Sou apreciador dos ditos populares. No meu tempo de criança, dificilmente um conselho dado pelos mais velhos não continha um ditado. Se alguns moleques estivessem “batendo perna” pelas vias públicas, alguém os mandava para casa, afirmando, que “boa romaria faz, quem em casa fica em paz”. Por ocasião de briga numa pelada futebolística, os contendores eram concitados a contarem o motivo da contenda “sem enfeitar o pavão”.

A primeira vez que ouvi esta expressão eu não entendi nada. Afinal de contas, eu não tinha a menor idéia de que pavão era uma bela ave de bela plumagem, que abria as penas do rabo em leque. Julguei tratar-se do Raimundo Ramos, um pouco mais velho do que eu, cujo apelido era pavão. Mas, por que diziam para não enfeitar o pavão? Um dia perguntei ao meu pai e ele esclareceu o mistério. Por ser belo, o pavão não precisa de enfeite. Outro ditado pitoresco é dizer, que um sujeito embriagado estava “meio pau, meio tijolo”. Quer dizer, que o indivíduo estava porre, mas nem tanto. O cabra cheio da cachaça era tido como “coçado”, ou seja, tinha levado uma coça(surra) da “maldita água que passarinho não bebe”. Só se for passarinho, haja vista que alguns animais adoram beber cachaça, como o gambá. Deve ser por isso, que uma pessoa “bebida” fica “mais porre que um gambá”. Certa vez, uns molecões praticaram um roubo no quintal de uma moradora do bairro central de Macapá levando toda a roupa que secava num varal. A pobre mulher ganhava o sustento da família como lavadeira e não tinha recursos para indenizar os fregueses lesados. A Polícia foi acionada e não demorou a identificar os autores da gatunagem. A pista foi dada por um deles, o mais pobre, que apareceu todo na pinta num tertulhão do dançará Hally Gally.

O investigador conhecido como Calango desconfiou do sujeito e foi chamar a lavadeira. De longe, a mulher começou a gritar: “Prendam este safado. A camisa de seda que ele está usando pertence ao Professor Pedro Ribeiro, meu freguês de lavagem”. Alarme dado e providência tomada. O toque especial deste caso partiu de um velho morador do Laguinho, que corujava a festa dançante: “O alheio reclama seu dono”. Outro observador comentou: “O sem vergonha quer luxar, mas não tem condições. Por isso apela pra ladroagem. Quem não pode com o pote não pega na rodilha”. Em pouco tempo um grupo de quatro pilantras estava atrás das grades. O mais ladino deles era sobrinho de um badalado lunfa macapaense, o que fez o Delegado Antônio Melo declarar: “Quem puxa aos seus, não degenera”. Nesta época, o Governo do Território Federal do Amapá mantinha um convênio com a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará, a conta do qual mandava para uma Escola Correcional, situada na Ilha de Cotijuba, perto de Belém, os menores delinquentes de Macapá. Ao comunicar as mães dos infratores, que seus filhos iriam ficar internos, para aprender um oficio e estudar, o Delegado Melo afirmou: “A medida se faz necessária, afinal de contas, mente desocupada é oficina do diabo”.

A estrutura educacional inicialmente implantada na ilha de Cotijuba (cotia amarela) visava a recuperação de adolescentes entregues a vadiagem e ladroagem. Com o fechamento da Escola Correcional foi implantado um presídio. Quando isto ocorreu, os jovens macapaenses já estavam reintegrados ao seio de suas famílias e não voltaram a praticar ações delituosas, comprovando, que “A instrução é a luz do espírito”. Dentre os moleques problemáticos, ganhou fama um afro descendente de boa compleição física, bom de carreira e de porrada.Costumava frequentar o Mercado Central para afanar pedaços de carne, que os açougueiros colocavam sobre os balcões dos talhos. O moreno agia com muita rapidez e ninguém se atrevia a tentar agarrá-lo. Era a forma de assegurar um caldinho no almoço. Pobres, o rapaz sabia,”que “Deus dá a farinha,mas o diabo fura o saco”. Depois da sua passagem pela Escola Correcional da ilha de Cotijuba virou outra pessoa e serviu como guarda-costas de um importante militar e gestor público paraense. “Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes”. Sua mãe deve ter dito: “Antes a minha face com fome amarela,que vermelha de vergonha”.


 
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