Recordações de minha infância (II)

O Formiga era pacato, mas o Xunda virava o cão em figura de gente quando ingeria uns gorós. Seu Jorge faleceu no inicio do ano de 1952. Seus familiares não tardaram a obter um terreno no chamado bairro da CEA e ali construíram casa própria.

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O antigo prédio da Cadeia Pública de Macapá, erigido na esquina da Av. General Gurjão com a Rua São José mexia com a imaginação dos supersticiosos. Seu Jorge Modesto, o barbeiro que se encarregava de cortar o cabelo da molecada dizia que os causos sobrenaturais a respeito do imóvel não passavam de invencionices. O tal buraco escuro ficava exatamente na parte que ele e sua família ocupavam. Como eu era amigo do Clóvis e do Antonio, filhos de seu Jorge e Dona Nilza Madureira, tinha liberdade para entrar na casa e conhecia bem o lugar, Os cômodos ocupados por Dona Mariinha e seus familiares também abrigaram a alfaiataria do Seu José Atayde, o Barbudo. Seus auxiliares eram o Formiga e o Xunda, dois apreciadores da água que passarinho não bebe.

O Formiga era pacato, mas o Xunda virava o cão em figura de gente quando ingeria uns gorós. Seu Jorge faleceu no inicio do ano de 1952. Seus familiares não tardaram a obter um terreno no chamado bairro da CEA e ali construíram casa própria. Os cômodos passaram a ser alugados para o seu Edgar, um relojoeiro apaixonado pelo Paysandu Esporte Clube conhecido como “boca rica”. A edificação foi demolida em 1970, para permitir o alargamento da Avenida General Gurjão. Passando este prédio, estava a casa do senhor João Batista Coutinho, identificado como “João Barca”.Era um bom marceneiro e desenvolvia suas atividades funcionais na Garagem Territorial. Fabricava brinquedos, utensílios de cozinha em madeira, copos e tigelas de vidro. Os copos podiam ser cortados de garrafas de remédios, refrigerantes, cachaça, cerveja e vinho. As tigelas surgiam da utilização de garrafões de vinho de cinco litros. Ele utilizava óleo retirado dos motores geradores de energia da Usina de Força e Luz nos períodos de troca do lubrificante. A técnica empregada nos deixava fascinados.

O óleo era colocado para ferver e depois derramado dentro do recipiente que seria cortado, que se encontrava dentro d’água. O gargalo quebrava certinho no nível da água. Seu João Barca possuía um “boi cavalo” preto muito manso chamado de “Beleza”. Nos período das festas de devoção (São José e Nossa Senhora de Nazaré), ele selava o animal e o levava para o Arraial. Quem quisesse dar uma voltinha sobre o bicho tinha que pagar. Sua esposa era a mazaganense Raimunda de Araújo Coutinho, Dona Dica, mulher trabalhadora e primorosa no preparo de açaí, cuscuz, pastéis, pé-de-moleque, bolo de macaxeira e filhós.

No quintal de sua residência havia uma mangueira que produzia mangas saborosas. Creio que era a única de Macapá com esta propriedade. Num dia de muita chuva e ventos fortes a mangueira veio ao chão. Passando o cercado do seu João Barca demorava uma velha casa coberta de palha e com piso de barro batido. Ela serviu de local para o funcionamento da unia fábrica artesanal de vinagre. Eram donos do empreendimento o Seu Júlio e meu pai Francisco Torquato, que depois se retirou do negócio. A produção tinha venda certa, mas as precárias instalações impediam a expansão. Como único dono, seu Júlio transferiu o empreendimento para a Rua José Serafim Gomes Coelho, atual Tiradentes, instalando em prédio de madeira entre as casas do casal Ramiro Leite/Sime Madureira e Luzia Francisca da Silva, a Mãe Luzia. O fundo do terreno conflitava com a área do casal João Costa Cecílio e Ursina, cuja frente ainda hoje demanda para a antiga Rua dos Inocentes (Passagem Rio Branco).A casa dos meus pais era a mais nova da rua, com a sala de visita e o pátio feitos em taipa de mão,mas sem a rede de ripas e cipós.

As paredes eram feitas de tábuas brutas, ripadas no sentido horizontal. Sobre as paredes foram assentadas camadas de argamassas preparadas com barro, cal e óleo animal. Quem construiu os dois cômodos era muito bom em sua profissão. Bem niveladas e alisadas, as paredes receberam demãos de cal e ficaram bem bonitas. O restante do material veio da serraria que meu pai possuía no “Reduto do Rio Furo Seco”. Madeira de lei de primeira qualidade e bem aparelhada. Nosso terreno se estendia da Rua General Gurjão à Avenida Professora Cora de Carvalho.


 
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