Fernando Lourenço: A saga de um sertanejo na Amazônia Legal

O Prefeito de Calçoene, Reinaldo Barros, com o apoio da edilidade local, resolveu justamente homenagear o garimpeiro Fernando Lourenço nominando a praça do Distrito do Lourenço com o seu nome. Mas, quem foi, afinal de contas, Fernando Lourenço da Silva? Um nome, um homem, uma história, uma lenda! Ele foi como um verdadeiro e destemido […]

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O Prefeito de Calçoene, Reinaldo Barros, com o apoio da edilidade local, resolveu justamente homenagear o garimpeiro Fernando Lourenço nominando a praça do Distrito do Lourenço com o seu nome.

Mas, quem foi, afinal de contas, Fernando Lourenço da Silva?

Um nome, um homem, uma história, uma lenda!

Ele foi como um verdadeiro e destemido bandeirante nordestino, em plena Amazônia Legal, mestre garimpeiro desbravador do Vila Nova e Cassiporé, Amapá, ponto norte setentrional do Brasil.

 

Duras aventuras

Aos 26 anos, aqui chega nesta insulada terra, em 1938, ano em que a chamada “volante” cerca e mata Lampião e seu bando. Nesta época, a região amapaense ainda pertencia ao Pará. Meses antes, em Campina Grande, Paraíba, sua terra natal, já ouvira diversas histórias sobre o Amapá, Cabralzinho e o ouro do Calçoene. E então, intuitivamente e inesperadamente, reúne economias e resolve arriscar tudo, e vir para o Amapá. Em Macapá, compra o básico para sua sobrevivência e depois, embrenha-se nas matas. Atravessa rios e cachoeiras e muitas vezes sofre sozinho e dorme ao relento.

Os anos seguintes seriam de uma busca inglória por ouro, sem muito sucesso, embora tivesse um incrível faro para descobrir veios auríferos. Até que, a partir de 1942/1943 em diante, a sorte começa a sorrir para ele, a alterar caminhos. Logo, consegue encontrar um pouco do precioso minério. Sua humilde residência, inicialmente, era próxima ao Mercado Central de Macapá.

 

O encontro com Janary e a chegada das famílias

Em 1943, meses após assumir o cargo de primeiro governador do território federal do Amapá, Janary Gentil Nunes já ouvira falar de Fernando Lourenço e suas incríveis façanhas no Vila Nova e em Calçoene, rio Cassiporé. Sabedor de sua coragem e grande capacidade de liderança, o governador imediatamente manda chamá-lo em seu gabinete para conversar. Assim começa, entre ambos, uma sólida, duradoura e respeitosa amizade. Chegando ao Palácio do Governo, um pouco assustado, “seu Fernando”, como era chamado por todos, imediatamente percebe o grau de responsabilidade que o governador lhe pedira, em seu gabinete:

Trazer famílias, gente de responsabilidade do sertão nordestino para trabalhar em território amapaense. O navio Taimbé, da gloriosa Marinha de Guerra do Brasil, foi a nau encarregada de trazer estas famílias para o Amapá, em plena Segunda Guerra Mundial. Após longas horas de viagem, inicialmente, pelo litoral nordestino, sem poder acender lamparina ou candeeiro, por causa de submarinos nazistas, o navio aporta em Fortaleza, Ceará, onde todos são vacinados contra febre amarela. A próxima parada, com navegação pelo litoral norte, seria em Belém do Pará para depois e finalmente o navio aportar com segurança em Macapá. Na insulada região macapaense aqui chegam, em 1943, a esposa, Maria Severina da Silva e os filhos João Lourenço (9 anos), José Lourenço (7 anos), Francisca (4 anos), Luzia (3 anos), a família Barreto e os sertanejos Ataíde e Bibi, pai da educadora amapaense, minha grande mestra, professora Ivanilde Lacerda.

Anos depois, em solo amapaense, nasceriam as filhas do casal Fernando & Maria, Maria Nazaré Lourenço da Silva (in memorian, vítima de malária), Alzira Lourenço da Silva (Alzira Lourenço da Silva Ramos), Irene Lourenço da Silva (in memorian), Teresinha Lourenço da Silva (Teresinha Lourenço Semblano Oliveira) e Geni Lourenço da Silva (in memorian) (Geni Lourenço Rodrigues). Milene Lourenço (filha de criação).

Os primeiros netos foram Solange Lourenço, Maria Betânia, Wellington Silva e Núbia Soraia.

 

Progresso, sociedades, e mais lutas…

No dia 19 de novembro de 1948 Fernando Lourenço compra um dos seus primeiros imóveis, situado em Macapá, na Avenida Presidente Vargas, 826, bairro central, documento registrado em cartório pelo histórico tabelião de notas, Jaci Barata Jucá, assim como na prefeitura, pelo grande pioneiro da administração pública municipal de Macapá, Heitor Picanço. Tempos depois o mestre da garimpagem compraria nada mais e nada menos que 28 terrenos, em sua boa parte, localizados no centro da cidade de Macapá. Chegou a fazer promissora sociedade com o pai do Dr. Ribamar, Guilherme, residentes que eram onde hoje funciona o Restaurante Sarney, assim como com o Sr. Evaldo Cavalcanti. Décadas depois, em 1969, na promissora área de garimpo, próxima do rio Vila Nova, é visitado por sua filha, Luzia, primeira mulher a adentrar área de garimpagem, acompanhada de seu esposo, João Bosco Nogueira Lima. Aos 29 anos, com indenização recebida das Casas Pernambucanas, por oito anos de trabalho, Luzia resolve apoiar o pai e viaja com o marido a Belém do Pará para efetuar a compra de maquinário. Objetivo: Facilitar e agilizar o processo de moagem de pedras para posterior seleção de ouro, cassiterita e tantalita. Infelizmente, o equipamento é comprado errado! O estabelecimento comercial vende uma máquina para moer ostras, de 24 martelos, situação que culminou em grande desgaste ao maquinário, vez por outra tendo de fabricar martelos, em Macapá. Tia Luzia, como é carinhosamente chamada, até hoje lembra da grande dificuldade existente, na época, de se chegar as áreas de garimpo de Fernando Lourenço, no Vila Nova, e Cassiporé:

“ Após horas de carro em estrada de chão tínhamos de atravessar cachoeiras e segurar em cipós pela beira de rios e corredeiras para finalmente chegar as áreas de garimpo de papai. Houve um momento que meu irmão, José Lourenço, por muito pouco não morreu. A “rabetinha”, desgovernada em função da grande força da correnteza, o jogou para fora da pequena embarcação! Ele foi pego e puxado pelo cabelo! Foi por muito pouco”! Relembra, emocionada.

Nos anos 60 Fernando Lourenço já gozava de grande crédito no Banco do Brasil e de profundo respeito de parte da Receita Federal. O imóvel onde hoje residem os advogados e netos Ageu e Virgílio Lourenço, localizado ao lado do Boticário, centro de Macapá, por muito tempo funcionou, alugado, o escritório da CEA e depois do Banco da Amazônia (anos 50/60). Seu procurador legal e de ofício foi o Dr. Hildemar Maia, vizinho da família, por longos anos, residente na Avenida Presidente Getúlio Vargas.

 

Nascimento e falecimento

Fernando Lourenço da Silva nasceu no dia 30 de maio de 1907, em Campina Grande, Paraíba. Aos 07 anos, junto com 9 irmãos, perde prematuramente seus pais Manoel Lourenço da Silva e Joaquina Maria Assunção, vítimas da gripe espanhola, fato que marcou profundamente sua vida. Faleceu aos 64 anos, às 20:04 hs do dia 01 de julho de 1971, em Macapá, no Hospital Geral de Macapá, vítima de cirrose hepática, tendo sido sepultado no cemitério Nossa Senhora da Conceição, localizado no centro da cidade de Macapá.


 
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