Wellington Silva

Ivan Amanajás: Escala de Cinza


 

“Creio que o artista nunca deve parar de produzir! Renoir, já fraco, no leito de sua morte, viu andorinhas voando no céu e gritou: Andorinhas! Andorinhas! E pediu as suas inseparáveis ferramentas de pintura para retratar a cena! Da Vinci, antes de morrer, pediu desculpas a Deus por ter ocupado boa parte de seu tempo com invenções e não ter conseguido produzir mais obras sacras. Creio que Paul McCartney não vai parar agora, porque está no sangue e na alma do artista o forte sentimento de produzir, de se expressar dentro de sua arte. Renoir, Da Vinci, Paul McCartney, todos nós, artistas, somos criaturas em constante mutação, é assim que eu vejo!”

Assim começamos um papo muito legal, altamente inspirativo, prazerosamente ouvindo Ivan Amanajás em sua residência a abordar questões e fatores históricos da arte, os grandes gênios da pintura, e a respeito de sua exposição plástica surrealista intitulada Escala de Cinza, que será realizada no Sindicato dos Estivadores, com abertura prevista à partir das 20h, neste sábado, dia 25 de novembro, ali na Odilardo Silva, número 2381, bairro do Trem. A exposição se estenderá até o dia 28 de novembro.

Particularmente, para mim atualmente Ivan Amanajás é o melhor surrealista futurista da região Norte, e quem sabe, do Brasil!

Estamos falando de um artista premiado, que já ganhou diversos prêmios, títulos, honrarias, como o Prêmio Maestro Siney Saboia de Cultura, em 2021, categoria Artes Visuais.

Quem conhece artes plásticas e pesquisa surrealismo, e já teve a oportunidade de visitar inúmeras exposições, e já observou cuidadosamente a obra de diversos artistas, no final, irá concordar comigo!

O perfeccionismo de Ivan, as formas, o minucioso estudo geométrico das formas, a anatomia, rostos, a mecânica advinda do fantástico imaginário do artista, as cores empregadas, os tons, tudo te faz adentrar ao seu mundo, e te suga, te puxa pra dentro! É um mundo assustador, não de homens, mas de máquinas, onde o artificialismo domina a cena, e por vezes te mostra portais do que foi, ou do que será…

Em alguns cenários, por ele construídos, aparecem seres inteligentes, em suas naves espaciais, observam o “errare humanum est” (este erro humano), e repentinamente surgem ou desaparecem em seus portais.

Seria ele uma ferramenta premonitória de alerta, a antevisão de futuro, através de sua fantástica arte?

Como Ivan Amanajás, dentro desta visão futurista crítica, com seu alto nível de qualidade temática e técnica, só vislumbro apenas o fantástico artista plástico inglês Roger Dean, autor das históricas capas da lendária banda britânica de rock progressivo, o Yes.

E o que Ivan Amanajás atualmente nos mostra?

Trata-se de uma perturbadora visão futurista, que já bate à porta, e sem pedir licença! É a chamada inteligência artificial a causar muita polêmica, discussão científica e política, atualmente.

Obras como Pêndulo Sobre o Abismo mostra o tempo como um abismo imaginário, criado para preencher a existência humana. Uma obra que veio a exigir do artista uma nova releitura, pintada 40 anos atrás, mas desta vez, revista e atualizada, mais atual que nunca! Basta ver, e sentir!

Cavalo doido, cavalo robô, figura o homem desalmado, aprisionado, refém da tecnologia, obra inspirada na antológica canção do genial Alceu Valença, Cavalo Doido, Cavalo de Pau.

Outra obra, Um Dia Perdido no Futuro, mostra seres robóticos, a energia quântica, perdida em uma praia qualquer, no futuro. O Homem Já Procura Novos Caminhos é uma obra inspirada em uma canção do genial Zé Ramalho. Ela mostra a “la decadense”, a decadência humana, o “bicho” homem, ancorado em seu porto de destruição, e os cavalos do apocalipse, mas, uma luz figura no fim do túnel…

A obra Etakarinai figura a engenharia humana, a mecanização, o artificialismo. São formas quadradas que contrastam com a forma universalista esférica criativa do Grande Geômetra: a Terra, os planetas, o universo…

De resto, é visitar e revisitar esta intuitiva, inspirada e fantástica exposição, observando atentamente obra a obra, formas, detalhes, as cores, mensagens ocultas, a fim de compreender a reflexiva mensagem deste grande artista amapaense.