Justiça com saneamento básico nacional

Não, não pensem que a nossa corajosa justiça brasileira, entenda-se Juiz Sérgio Moro, Superior Tribunal Federal e TRF-4 (Tribunal Regional Federal, 4ª Região) tenham mudado de ramo de atividade, não, nada disso. O que está sendo por eles saneado é a vida pública nacional, entenda-se, o poder executivo e legislativo, com suas exceções é claro, […]

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Não, não pensem que a nossa corajosa justiça brasileira, entenda-se Juiz Sérgio Moro, Superior Tribunal Federal e TRF-4 (Tribunal Regional Federal, 4ª Região) tenham mudado de ramo de atividade, não, nada disso. O que está sendo por eles saneado é a vida pública nacional, entenda-se, o poder executivo e legislativo, com suas exceções é claro, sem generalizar.Muita creolina, diabo verde e soda cáusticaestá sendo jogada eas intrincadas tubulações dos esgotos estão sendo descobertas e reparadas. É que entupiram os esgotos. Um grande elenco sem fim foi formado sob o comando de excelsos caciques do petismo brasileiro que se misturaram em um mercado aberto de negócios com outras legendas partidárias. E o que vemos?Um elenco sem fim, digno de uma trama de guerra fria de bastidores entre caciques e testas-de-ferro, de roubar a cena e faltar espaço em um descampado de Brasília.Bom, que tal um filme nacional com o título Dia D Brasil? Seria um longa metragem com quatro horas ou mais de duração, com vilão que não acaba mais e sacanagem que não acaba mais. O espectador teria que ter muito saco para esperar o final, leia-se, os taisembargos declaratórios, recurso que não pode reverter o resultado, mas permite protelar o bom final do filme, isto é, finalmente ver a justiça acontecer. O filme poderia ser um pé no saco misturado com uma grande revolta interior se não fosse à persistência cirúrgica e detalhista da justiça contra os vilões, para um final justo e feliz.

Após o resultado do julgamento com condenação de Lula no TRF-4 (Tribunal Regional Federal) em Porto Alegre, a 12 anos de prisão, em regime fechado, o petismo nacional ficou balançado. Logo começaram a jogar pedras pra todo lado:

“A culpa é da imprensa, é armação, é perseguição sistemática contra nosso líder, é pura conspiração, é coisa da Globo…”

O PT acabou com o PT e suas lideranças acabaram com a digna luta do velho trabalhismo petista. Ninguém acabou com Lula e o perseguiu sistematicamente. Ele mesmo acabou consigo mesmo e suas lideranças também. Ninguém torpedeou o barco petista. Foram eles, embriagados pelo poder e pela sede insaciável de poder, que bateram contra os recifes. O grande decano da jurisprudência nacional, Hélio Bicudo, fundador do PT, deixou o PT e formatou o volumoso processo de impeachment contra Dilma Rousseff movido por uma profunda decepção.

No estado democrático de direito ameaçar a justiça e a imprensa e provocar a violência não são atitudes dignas de quem teoricamente defende a democracia e o trabalhismo. Lembro certo dia em Brasília, lado a lado com servidores federais do Amapá e sindicalistas. Era um dia de sérios conflitos no planalto central do Brasil. Mais parecia uma batalha campal. Gente do PT e da CUT se digladiava com seguranças e Polícia do Senado. No grande salão do hall de entrada do Senado Federal logo notei a presença de uma figura histórica que me fez voltar ao passado. Era o jornalista e senador Hélio Costa, braço direito do saudoso Tancredo Neves, grande ícone da Campanha Diretas Já e símbolo da Constituinte de 1988. Aproximei, indaguei e pedi autógrafo:

– Senador, me perdoe à intromissão, mas o senhor faz parte da história nacional. Acompanhou Tancredo Neves e tudo mais. Fico imaginando a contribuição que Tancredo não daria a esse País. Sou servidor público do Estado do Amapá e escrevo para o Jornal Diário do Amapá. Não poderia esquecer o senhor.

Ele educadamente pegou a minha agenda, meio emocionado, e autografou:

“Ao colega jornalista Wellington Silva, com minha admiração, Hélio Costa.”

Depois, disse:

– Certamente, o doutor Tancredo daria uma grandiosa contribuição ao Brasil. Muito havia por fazer, mas, os tempos são outros…

Lá fora, a batalha campal continuava. Ele agradeceu e eu também disse muito obrigado. Fiquei olhando para aquele homem com cabelos esbranquiçados pelo tempo, que viveu um tempo e tantas reportagens fantásticas fez para o Fantástico. Foi um tempo difícil,tempo delicado, era de transição para o regime democrático. Para muitos, a morte de Tancredo Neves é uma história por detrás da oficial. A obra de Laurentino Gomes, 1808, resultado de 10 anos de investigação jornalística, mostra como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. Pensei: “Foi assim que tudo começou…”

Lá fora, muito barulho, com a batalha campal continuando à frente do gramado do Senado Federal…


 
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