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Heróis em Semanas

A construção instantânea da imagem política na era digital
Da série “já aconteceu antes”, provocamos com este artigo nova reflexão histórica eleitoral, com a passagem do feriado de Tiradentes:


 

Fábio Lobato Garcia
Advogado, Especialista e Mestrando em Direito Eleitoral e Político

 

Em abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado e esquartejado numa manhã de quinta-feira no Rio de Janeiro. Seu nome levou quase um século para ser transformado em símbolo nacional. Hoje, um político desconhecido pode acordar irrelevante e dormir celebrado como herói. A diferença não é de caráter, é de tecnologia.

A construção da imagem de Tiradentes revela um paradigma clássico de formação de capital simbólico político. Foi somente com a Proclamação da República, em 1889, que o Estado brasileiro, necessitando de uma narrativa fundacional desvinculada da Coroa, passou a ressignificar sua trajetória. O processo envolveu seleção de elementos biográficos, supressão de ambiguidades e um longo ciclo de institucionalização por meio da educação formal e da iconografia oficial. A construção do herói Tiradentes demandou décadas de repetição pedagógica. Trata-se de um processo lento, cumulativo e dependente de estruturas de poder organizadas.

Esse modelo está longe de desaparecer, ao longo da história foi se sofisticando. A evolução dos meios de comunicação acelerou o processo. Getúlio Vargas compreendeu, antes de qualquer outro líder brasileiro, que o rádio era uma máquina de fabricar intimidade. A “Hora do Brasil”, criada em 1935, transformou o Estado em narrador de si mesmo. Vargas não precisou de décadas para construir a imagem do “pai dos pobres”, precisou de um microfone, que com a cadência certa e da repetição sistemática de um arquétipo simples: o protetor que fala diretamente ao povo. A imagem ainda precisava de tempo para criar raízes.

Fernando Collor de Mello eliminou boa parte desse tempo. Em 1989, o Brasil assistiu ao primeiro experimento nacional de candidato-produto fabricado em escala industrial pela televisão. Filho de um senador, herdeiro de um grupo de comunicação, ex-governador de Alagoas, Collor não tinha nada outsider. Mas a Rede Globo e a revista Veja construíram meticulosamente o personagem: jovem, atlético, num jet-ski no Lago Paranoá, numa Ferrari a 200 km/h, com quimono de karatê e discurso de combate à corrupção. O “caçador de marajás” era, ele próprio, um marajá, como o Brasil descobriu três anos depois. O impeachment foi aprovado por 441 a 38 votos na Câmara. Em 2025, o STF o mandou prender. O herói televisivo tinha prazo de validade, mas durou tempo suficiente para chegar ao poder.

O que Collor fez com a televisão, certos gestores da atualidade fazem com o Instagram, Facebook, TikTok e, muitas vezes, com uso do dinheiro público. Não faltam exemplos pelo Brasil afora: prefeitos reeleitos com percentuais históricos, aclamados como “prefeitões do povo”, que constroem sua popularidade sobre três pilares cuidadosamente escolhidos. 1. praças reformadas, avenidas asfaltadas (obras visíveis, fotografáveis, virais); 2. shows gratuitos de artistas nacionais que replicam, em escala municipal, o modelo “panen et circenses”, frase cunhada pelo poeta satírico do século II D.C, ao se referir a uma estratégia de controle social; e 3. uma presença digital obsessiva com conteúdos onde: o gestor em plena chuva, com a narrativa de identificar pontos de alagamentos, transmite em lives sua atuação, revertendo, como num passe de mágica, a adversidade do momento; no palco sendo homenageado pelos artistas, e, uma vez consolidada a popularidade, mergulhando nos braços da multidão em cenas calculadas de exaltação popular, onde o povo aclama e o algoritmo registra. A imagem é sempre a mesma: o herói incansável, jovem, próximo, que resolve pessoalmente, os problemas da comunidade.

Não se contesta que as obras existem. O problema está no que elas escondem. Em mais de uma capital brasileira governada por esse perfil de gestor, os índices de saneamento básico figuram entre os piores do país, o erário previdenciário definha em silêncio e as obras de drenagem profunda, invisíveis nas redes, mas essenciais para a população, simplesmente não acontecem. Quando as chuvas chegam e as cidades alagam, o diagnóstico se repete: priorizou-se o que é fotográfico sobre o que é estrutural, e realmente, necessário.

O desfecho também tende a se repetir. Operações policiais, afastamentos cautelares, investigações por desvios milionários, renúncias estratégicas para preservar a elegibilidade. E, mesmo assim, pesquisas eleitorais que mantêm esses gestores à frente das disputas seguintes com margens expressivas. É aqui que reside o dado mais perturbador sobre a nova lógica da imagem política. Collor caiu rapidamente porque a televisão que o construiu também podia destruí-lo: quando a Globo cobriu a CPI, o edifício midiático ruiu. O gestor digital controla diretamente sua narrativa para centenas de milhares de seguidores, sem passar por nenhum editor. A mesma ferramenta que fabricou o herói serve como bunker de contenção de danos. A acusação vira perseguição política. O afastamento vira martírio. O escândalo vira conteúdo.

As redes sociais introduziram, portanto, não apenas uma aceleração na construção de heróis políticos, mas uma nova resistência à destruição deles. O que antes exigia décadas de sedimentação, como no caso de Tiradentes, passou a ser produzido em dias, como Collor demonstrou. Mas o que antes desmoronava em meses, quando a mídia virava, agora pode resistir indefinidamente, porque o político tornou-se o próprio veículo de comunicação.

Tiradentes não escolheu ser herói. Foi escolhido postumamente, por necessidade do Estado, num processo lento e honesto em sua lentidão. Os heróis contemporâneos escolhem a si mesmos, constroem o roteiro, contratam a equipe de comunicação, definem o arquétipo e testam as narrativas em tempo real com base no engajamento do público. Tiradentes demorou um século. Vargas demorou anos. Collor demorou meses. E hoje precisam apenas de semanas.

A velocidade é só o sintoma. O problema real está na ausência de substância que ela permite disfarçar. Nunca foi tão barato parecer um herói, e nunca foi tão fácil cobrar o preço disso, e, na maioria das vezes, usam dinheiro público.

 

 

 


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