Bailique, lugar de fenômenos e problemas, mas também de resistência dos moradores
Erosão das margens dos rios, conhecida como terras caídas; salinização das águas, que dificulta acesso à água potável/; arquipélago é formado por ilhas estuarinas onde vivem cerca de 13 mil pessoas, integradas à dinâmica da floresta de várzea

Evandro Luiz
Da Redação
O Arquipélago do Bailique é um conjunto de oito ilhas localizado acerca de 160 quilômetros de Macapá, capital do Amapá. O acesso à região é feito exclusivamente por via fluvial, pelo rio Amazonas.
As ilhas que compõem o arquipélago são: Bailique, Brigue, Curuá, Faustino, Franco, Igarapé do Meio, Marinheiro e Parazinho. Aproximadamente 40 comunidades vivem no local, somando mais de sete mil habitantes.
A população do Bailique enfrenta dois fenômenos distintos. O primeiro é a erosão das margens dos rios, conhecida como terras caídas. O segundo é a salinização das águas, que dificulta o acesso à água potável na região.
Encravado na foz do rio Amazonas, no Amapá, à margem do oceano Atlântico, o arquipélago é formado por ilhas estuarinas onde vivem cerca de 13 mil pessoas, integradas à dinâmica da floresta de várzea.
No entanto, o equilíbrio estabelecido por essas comunidades com o meio ambiente — baseado na pesca artesanal e no manejo sustentável do açaí — vem sofrendo abalos profundos devido ao avanço da erosão e dos desbarrancamentos, que ocorrem de forma progressiva.
Conhecida localmente como fenômeno das Terras Caídas, a destruição já atinge casas, escolas, redes elétricas, estações de tratamento de água e ameaça a sobrevivência das populações ribeirinhas e do ecossistema ocupado desde o século XIX.
Em 2013, um marco agravou ainda mais a situação: a pororoca do rio Araguari, cuja foz fica ao norte do arquipélago, deixou de existir. O fenômeno, caracterizado pelo choque intenso entre as águas do rio e do mar, não ocorre mais desde então.
A desembocadura do rio Araguari entrou em processo avançado de fechamento devido ao assoreamento, e a perda de vazão fez com que a pororoca, considerada uma das maiores do mundo, chegasse ao fim.
Os impactos são visíveis no cotidiano da população. A Escola Bosque, única do Bailique a oferecer ensino médio, perdeu espaço e teve q’uase metade de sua área destruída.
A instituição é considerada um modelo inovador de educação na floresta, utilizando a natureza como base para o desenvolvimento dos conteúdos em sala de aula. Outras duas escolas do arquipélago também correm risco de desabamento.
A falta de energia elétrica é outro problema grave. “Se tivermos dez dias de energia por mês, é muito. Os postes caem com a erosão, e a empresa responsável tem poucos funcionários para reinstalar. Sem luz, os moradores não conseguem mais conservar o peixe e o açaí”, relata um morador.
A diminuição da vazão do rio Araguari começou com a construção da Usina Hidrelétrica Coaracy Nunes, em 1976, a primeira a produzir energia elétrica na Amazônia. Com a implantação da Usina de Ferreira Gomes, em 2014, a vazão foi ainda mais reduzida, comprometendo a retirada de sedimentos. Três anos depois, a construção da Usina Cachoeira Caldeirão, em 2017, intensificou o processo.
Inconformado com a situação de abandono, um morador afirma que o mar passou a entrar no arquipélago pelo rio Marinheiro, levando água salgada às comunidades do sul. “O sistema de tratamento não consegue abastecer toda a população, e o governo diz que não tem recursos para ampliar”, relata.
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