Cidades

Como falar em inclusão digital em comunidades rurais se lá nem energia elétrica chegou?

“Aqui aonde vivo não pega sinal de telefone. Internet então, tenho que sair, buscar um lugar onde o meu aparelho consiga captar um sinal, às vezes no final do trapiche”.

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Senhor Luiz Melo,

Escutava hoje (30 de julho) seu programa matinal e fiquei com vontade de participar da enquete por acreditar ser uma pauta importante. Isso mesmo, fiquei na vontade, mas não pude interagir, participar de tão importante discussão que tem a ver com a vida de todos os estudantes amapaenses.

 

Aqui aonde vivo, não pega sinal de telefone. Internet então, tenho que sair, buscar um lugar onde o meu aparelho consiga captar um sinal, às vezes no final do trapiche, às vezes no meio do mato, perto do igarapé. E olha que tenho um aparelho bom.

 

Situação semelhante [ou pior] vive os alunos da zona rural do nosso estado. Imagine que ainda existem centenas de comunidades que sequer tem energia elétrica, e, me assusto em ouvir que se discute educação online, como se estivéssemos na Finlândia ou em outro país que, de fato, sabe da importância da educação para qualidade na vida de uma nação.

 

Não escuto, nunca escutei nos debates nacionais que acompanho alguém pensar no aluno que está fora deste padrão tecnológico, sem poder aquisitivo suficiente para que não tenha prejuízo no ensino/aprendizado. Pasmem! a prova do ENEM vai acontecer e a maioria dos nossos alunos da zona rural sequer iniciou o ano letivo.

 

São jovens que sonham, se esforçam, sim, tem que desprender muito esforço para estudar em algumas regiões, por diversos motivos que quem convive conhece. É fácil mandar material para alunos acompanharem o conteúdo em casa quando as famílias são formadas por pais e mães que não sabem ler e escrever, e, as taxas de analfabetismo em adultos deixaram de ser preocupação no modelo de ensino no nosso país.

 

Conheço centenas de famílias onde os pais aguardam os filhos para ler uma receita de remédio, um informe do Bolsa Família. Como esses pais vão ser tutores? Lamento, pois sei que 2020 será o ano em que os alunos pobres, moradores de comunidade distantes [aonde sequer a energia elétrica chegou], serão os mártires da educação, pois um ano perdido pode ser o ‘maior estímulo’ para muitos pararem de estudar. Parece que a discussão é por cima, o urbano é a tela, a pauta, o elemento central da conversa.

 

Trabalho como voluntária há bastante tempo, em uma Escola Família, que utiliza a pedagogia da alternância (15 dias na escola /15 na família). Atendemos 164 alunos de dois estados e sete municípios. Nos 23 anos de funcionamento e muita superação, tem expertise para discutir educação nas comunidades rurais, por isso, posso dizer que a pandemia veio puxar o véu da desigualdade que existe em direito tão elementar (constitucional, inclusive),mas que infelizmente, mais uma vez , não estamos na vitrine.

 

Continuamos embaixo do balcão, invisíveis. Mas, as mãos que não podem ajudar os filhos a realizar um trabalho escolar em casa, são as mesmas mãos que garantem o açaí, o camarão, peixes, frutas, verduras, farinha e outros alimentos postos à mesa dos que não nos enxergam.

 

P.S: Respondendo à enquete do programa, sou contra o retorno das aulas presenciais até que a vacina seja de alcance universal. Porém, gostaria que as alternativas de continuidade ao ensino contemplasse, com dignidade e eficiência, nossas comunidades.

 

Eu escuto o rádio, mas não posso interagir. Ensino à distância pra cá? Só se for sinal de fumaça ou pombo correio. Rede social, para a maioria, é uma rede onde dormem mais de uma pessoa, visitantes, parentes e amigos que chegam para nos visitar e não trazem rede.

Dalva Miranda
Foz do Rio Mazagão Velho

 
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