Cidades

Conexão Margem Equatorial: segurança offshore vai além dos equipamentos e passa pela mente do trabalhador

Consultor Humberto Lobão explica como fatores psicológicos, disciplina e liderança influenciam diretamente na segurança e no desempenho em plataformas de petróleo


 

Diário do Amapá – Hoje a coluna Conexão Margem Equatorial recebe um nome de referência na segurança offshore quando se fala de comportamento humano. Conosco aqui no estúdio, Humberto Lobão, consultor comportamental com mais de 20 anos de experiência no mercado. Boa tarde, Humberto. Seja bem-vindo.

Humberto Lobão – Boa tarde, Márcia. Boa tarde à população do Amapá, boa tarde a todos os ouvintes. É um prazer e uma honra estar aqui com vocês.

 

Diário do Amapá – Humberto, você costuma defender que o erro humano não é uma causa, mas um sintoma de algo maior. Como isso se aplica para um trabalhador que vai estar ali numa plataforma de petróleo?

Humberto Lobão – Quando nós falamos em segurança no trabalho, geralmente pensamos logo nos equipamentos de proteção, como capacete, luva, botas, o EPI completo, porque a gente associa diretamente ao risco físico. Só que, com o tempo, ficou muito claro que o risco mental é muito grande, porque ele envolve o bem-estar emocional do trabalhador, especialmente em ambientes confinados como uma plataforma de petróleo, onde isso não é simples.

Sobre o erro, existem três condições principais para que ele aconteça. A primeira é o próprio trabalho: a complexidade das tarefas, a ergonomia, o ambiente físico. A segunda é o trabalhador: se ele está bem treinado, se aprendeu corretamente, como está o estado mental dele e até aspectos da personalidade. E a terceira condição é a organização, ou seja, a empresa: como ela cuida do ambiente de trabalho, qual é a cultura de segurança e como os líderes atuam.

Quando esses três condições estão bem estruturadas e alinhadas, elas proporcionam segurança psicológica ao trabalhador. O erro vai acontecer, porque é uma condição humana, mas ele pode ser reduzido. Você mitiga o erro quando tem um ambiente adequado, um trabalhador preparado e uma organização que promove o bem-estar.

 

Diário do Amapá – Você fala muito sobre a normalização do desvio. Como explicar para os ouvintes que o excesso de confiança pode ser perigoso em alto mar?Humberto Lobão – A normalização do desvio tem relação com a forma como a nossa mente funciona, com os chamados Sistema 1 e Sistema 2, conceito do Daniel Kahneman. O Sistema 1 é o rápido, automático, ligado à emoção e às respostas imediatas. Já o Sistema 2 é o da razão, aquele que faz a gente parar, pensar e analisar.

O Sistema 1 é importante porque agiliza decisões do dia a dia, principalmente em tarefas repetitivas, fazendo com que a gente opere no automático. Só que, em um ambiente offshore, onde podem surgir situações inesperadas, isso se torna perigoso. Ficar no automático o tempo todo pode levar a desvios.

Por isso, é importante interromper esse modo automático em alguns momentos, fazer pausas, clarear a mente e trazer o raciocínio para o campo da razão. As empresas, inclusive, desenvolvem técnicas e programas justamente para evitar que o trabalhador permaneça nesse estado automático o tempo inteiro.

 

Diário do Amapá – Quando a gente fala em segurança, muito passa pela liderança. Como essas lideranças devem se comportar nesses ambientes?

Humberto Lobão – A liderança, em qualquer setor, tem um papel fundamental e precisa oferecer segurança psicológica para o liderado. Isso significa criar um ambiente onde exista feedback de mão dupla: o líder precisa orientar, mas também estar aberto a ouvir.

Esse tipo de relação fortalece o colaborador e aumenta a confiança dentro da equipe. As empresas precisam investir em lideranças preparadas, porque o líder não deve ocupar essa posição apenas por ser mais experiente ou saber mais tecnicamente. Ele precisa fazer diferença na vida das pessoas que lidera e contribuir para o desenvolvimento delas.

 

Diário do Amapá – As empresas de petróleo estão preocupadas com a saúde mental do trabalhador? Como isso acontece hoje no Brasil?

Humberto Lobão – Hoje já existe uma certa preocupação, mas nem sempre foi assim. No passado, esse tema era pouco discutido. Por volta de 2017, uma grande empresa do setor de óleo e gás percebeu essa necessidade e nos contratou para desenvolver esse trabalho voltado ao comportamento e à saúde mental.

Eu sempre reconheço essa iniciativa, porque foi uma visão importante da direção da empresa, que passou a se preocupar com o emocional dos seus profissionais. Essa empresa evoluiu muito nesse aspecto e hoje está bem posicionada, inclusive atuando na Margem Equatorial. É um exemplo de como esse cuidado faz diferença no resultado e na qualificação da operação.

 

Diário do Amapá – O trabalho embarcado envolve isolamento, dias longe de casa. Como isso impacta a segurança?

Humberto Lobão – O trabalho offshore é bastante intenso. São escalas de 14, 21 ou até 28 dias embarcado, o que representa metade ou até um mês inteiro dentro da plataforma. Durante esse período, o trabalhador convive com barulho constante, movimento da estrutura, chamadas no alto-falante, simulações de emergência, sirenes — ou seja, ele é lembrado o tempo todo de que está em um ambiente de risco e trabalho.

Além disso, há a proximidade entre o local de trabalho e o descanso. Ele sai do trabalho, mas o trabalho não sai dele, porque está tudo ali no mesmo ambiente. Isso impacta diretamente o psicológico.

Por isso, é fundamental que quem deseja trabalhar offshore entenda essa realidade e vá preparado. É preciso adaptação e preparo mental e psicológico, porque é uma rotina exigente, embora muitos profissionais convivam com isso por anos.

 

Diário do Amapá – Para encerrar, que conselho você deixa para jovens do Amapá que querem trabalhar embarcados?

Humberto Lobão – A disciplina é fundamental. Ela leva a pessoa a lugares onde, muitas vezes, a motivação e até a própria inteligência não chegam. Quando a pessoa consegue unir disciplina e capacidade técnica, o resultado é ainda melhor.

O principal conselho é estudar. O setor de óleo e gás é altamente técnico, então é necessário buscar conhecimento, se desenvolver e estar preparado. Mesmo quem começa em funções menos técnicas pode crescer, porque é um setor que gera muitas oportunidades.

Além disso, o autoconhecimento é essencial. Quando a pessoa se conhece, ela consegue se autogerir melhor, desenvolve autoconfiança e isso impacta diretamente no desempenho profissional.

 

Diário do Amapá – Depois dessa conversa, fica claro que, além da tecnologia, a mente do trabalhador é uma ferramenta essencial dentro de uma plataforma. Disciplina e bem-estar mental fazem parte da segurança.

Humberto Lobão – Exatamente. Disciplina e resiliência são fundamentais nesse setor. Elas fazem parte da “bagagem” do trabalhador. Inclusive, havia um comandante que sempre dizia, ao receber a equipe: “Espero que vocês tenham trazido na bagagem um tablet de paciência”, porque isso é essencial para lidar com a rotina dentro de uma plataforma.

 

Diário do Amapá – Muito obrigada pela sua presença, Humberto.

Humberto Lobão – Eu que agradeço. Fiquei muito feliz em falar com o povo do Amapá e compartilhar esse conhecimento.

 

Humberto Lobão

Consultor comportamental, especialista em comportamento humano aplicado à segurança offshore, com mais de 20 anos de atuação no mercado.

Tem experiência em:

* Treinamento de equipes
* Ambientes confinados (plataformas de petróleo)
* Segurança psicológica no trabalho
* Cultura organizacional e liderança

 

Área de atuação

Trabalha com temas como:

* Segurança comportamental (Behavior Based Safety)
* Fatores humanos em ambientes de risco
* Saúde mental no trabalho offshore
* Treinamento de lideranças
* Psicologia aplicada à operação industrial

 

 


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