Economista aponta juros altos e mudanças no consumo como fatores de onda de recuperações judiciais
Teles Júnior avaliou os impactos da crise sobre empresas brasileiras e diz que Amapá tem setores “blindados” diante do cenário nacional

Douglas Lima
Editor
O Brasil atravessa um período de forte pressão sobre empresas de diferentes setores, com aumento no número de pedidos de recuperação judicial. Este cenário foi analisado pelo economista e vice-governador do Amapá, Teles Júnior, no programa ‘LuizMeloEntrevista’ (Diário FM 90,9), nesta quinta-feira, 27.
Segundo o economista, a recuperação judicial não significa que a empresa encerrou suas atividades. O mecanismo permite a renegociação de dívidas e a reestruturação do capital e do passivo para que o negócio possa continuar funcionando.
Teles Júnior apontou cinco fatores principais para a atual onda de recuperações judiciais: juros elevados, redução da oferta de crédito por meio de debêntures, mudanças no comportamento do consumidor, problemas de sucessão e governança em empresas familiares e a queda no preço de algumas commodities.
Para ele, a manutenção de juros altos por um período prolongado tem impacto direto sobre o custo financeiro das empresas. O cenário também afeta os consumidores, que reduzem o consumo para adequar seus orçamentos: “É urgente no Brasil uma reforma fiscal que possa reduzir o gasto público e, consequentemente, permitir que o país possa reduzir suas taxas de juros de longo prazo”, avaliou.
Mudança no varejo
Outro fator destacado foi a transformação do mercado consumidor, sobretudo no varejo. Grandes empresas brasileiras passaram a enfrentar concorrência direta com plataformas de comércio eletrônico e produtos importados, especialmente da China. Teles Júnior disse que parte da crise enfrentada pelo varejo possui caráter estrutural, diante das mudanças tecnológicas e do novo comportamento dos consumidores.
Ele também citou a redução da oferta de debêntures após o escândalo envolvendo as Americanas. Esses títulos são utilizados pelas empresas como fonte de financiamento. O episódio aumentou a desconfiança do mercado em relação à capacidade de pagamento de grandes companhias e reduziu a liquidez para determinados setores.
Amapá
Questionado sobre os possíveis efeitos da onda de recuperações judiciais sobre o Amapá, o economista afirmou que os principais setores econômicos do estado apresentam, neste momento, menor exposição aos problemas que atingem grandes empresas brasileiras. Entre os segmentos citados estão energia, mineração e setor florestal. A atividade mineral vive um momento favorável diante da valorização de commodities, especialmente o ouro.
Teles citou a retomada das atividades da Mina Tucano, em Pedra Branca do Amapari, atualmente sob a denominação de Mina Minerals, com investimentos superiores a R$ 400 milhões no estado: “O setor mineral está fora dessa onda, até porque hoje nós estamos tendo uma corrida por minérios e por commodities minerais e petróleo. Em relação ao setor florestal, ganhou valor agregado e apresenta oportunidades para empresas amapaenses”, disse.
Agronegócio
Apesar da avaliação positiva sobre alguns setores, o economista apontou o agronegócio como uma área que merece atenção. A redução dos preços de algumas commodities e as incertezas provocadas pelas tarifas aplicadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, podem aumentar a pressão sobre produtores e empresas. No Amapá, porém, considera que o setor ainda possui espaço para crescimento, por apresentar uma estrutura predominantemente familiar e estar em fase de expansão.
Para Teles Júnior, o cenário nacional combina problemas conjunturais, como os juros elevados e a restrição de crédito, com dificuldades estruturais de setores que não acompanharam as transformações tecnológicas e de consumo.
Ao comentar a chamada ‘taxa das blusinhas’ e a concorrência dos produtos chineses, Teles Júnior defendeu que as decisões econômicas considerem o comportamento do consumidor. Segundo ele, o avanço do comércio eletrônico ocorre porque os consumidores buscam preços mais competitivos e redução de custos.
“É muito difícil, em alguns setores do varejo, concorrer com a China, porque a China tem muita produtividade no setor”, afirmou.
Para o economista, elevar impostos para proteger empresas que não acompanharam as mudanças do mercado pode prejudicar o consumidor brasileiro: “Não se pode penalizar nunca o consumidor com mais impostos para proteger empresas que muitas vezes não conseguiram acompanhar as inovações do mercado”, concluiu.
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