Cidades

Educação online pode excluir comunidades rurais e provocar aumento do analfabetismo, diz educadora

Dalva Miranda revela que comunidades rurais vivem uma realidade totalmente diferente dos centros urbanos, e que política educacional está sendo discutida de cima pra baixo, sem ouvir essas comunidades que podem estar fadadas ao fracasso coletivo na educação.

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Medo é que pela falta de incentivo, e sem recursos tecnológicos, estudantes de escolas rurais abandonem os estudos

Elden Carlos
Editor

 

A beleza poética das terras distantes que cortam o rincão amapaense versa em cações como ‘Vida Boa’ [A vida daqui é assim devagar, precisa mais nada não pra atrapalhar…], de Zé Miguel, ou ‘Jeito Tucujú’ [Quem nunca viu o Amazonas, nunca irá entender a vida de um povo…], de Joãozinho Gomes e Val Milhomem.

 

A letra dessas músicas – como de tantas outras – retrata a realidade de uma gente que se movimenta conforme a subida ou descida da maré dos rios, furos e igarapés que cercam suas comunidades ribeirinhas.

Mas, não é sobre música que a líder comunitária Dalva Miranda, que habita a comunidade de foz do rio Mazagão Velho, no município de Mazagão, região Metropolitana de Macapá, se manifestou nesta quinta-feira (30), ao enviar um artigo ao Diário.

Dalva Miranda alerta para falta de inclusão das comunidades rurais no debate da política educacional

Pela manhã, durante o programa radiofônico LuizMeloEntrevista (Diário 90,9FM) Dalva, no seu radinho de pilha, ouviu uma enquete [divulgada na live do programa] onde se perguntou a opinião dos internautas sobre o retorno das aulas presenciais.

 

A maioria esmagadora [83%] se disse contrária ao retorno das aulas presenciais em razão da pandemia do novo coronavírus, que já matou mais de 560 pessoas no Amapá, segundo o último boletim epidemiológico divulgado pelo governo nesta quinta-feira.

Em algumas regiões, para chegar à escola, alunos remam até 2 horas em pequenas montarias

Um debate foi aberto durante a enquete em que os ouvintes puderam se manifestar, por meio de telefone. Muito se falou em aulas à distância, online, via TV e envio de material impresso para comunidades mais distantes como solução para impedir que os estudantes ficassem sem a grade curricular, perdendo o ano letivo.

 

E foi exatamente nesse momento que Dalva se disse angustiada em não poder participar, pela falta de comunicação na foz do rio Mazagão Velho. “Eu escuto o rádio, mas não posso interagir. Ensino à distância, pra cá? Só se for sinal de fumaça ou pombo correio. Rede social, para a maioria, é uma rede onde dormem mais de uma pessoa, visitantes, parentes e amigos que chegam para nos visitar e não trazem rede”, diz ela em um dos trechos do artigo.

Dalva Miranda atua há anos como voluntária em uma escola família, localizada na região onde vivem cerca de 200 famílias, ou algo em torno de 1,2 mil pessoas, que sobrevivem da pesca, extrativismo e da agricultura familiar.

 

O questionamento dela é sobre a falta de se oportunizar essas comunidades a se manifestarem durante a elaboração da política educacional, quer seja em nível estadual ou municipal. “Trabalho como voluntária, há bastante tempo, em uma Escola Família que utiliza a pedagogia da alternância (15 dias na escola, 15 na família). Atendemos 164 alunos de dois estados e sete municípios. Nos 23 anos de funcionamento e muita superação, tenho expertise para discutir educação nas comunidades rurais, por isso, posso dizer que a pandemia veio puxar o véu da desigualdade que existe em direito tão elementar (constitucional, inclusive), mas que infelizmente, mais uma vez , não estamos na vitrine”, desabafa.

 

Ela diz que discutir a política ou plano educacional, de cima para baixo, é condenar essas comunidades ao analfabetismo. “São jovens que sonham, se esforçam, sim, tem que desprender muito esforço para estudar em algumas regiões, por diversos motivos que quem convive conhece. É fácil mandar material para alunos acompanharem o conteúdo em casa quando as famílias são formadas por pais e mães que não sabem ler e escrever, e, as taxas de analfabetismo em adultos deixaram de ser preocupação no modelo de ensino no nosso país”, diz ela ressaltando que dessa forma estão fadados ao fracasso coletivo.

Ela ressalta que, por exemplo, dizer que os pais podem ser os tutores desse processo nessas comunidades é estarrecedor, pois, segundo Dalva, maior parte dos pais não sabe sequer escrever o próprio nome.

 

“Conheço centenas de famílias onde os pais aguardam os filhos para ler uma receita de remédio, um informe do Bolsa Família. Como esses pais vão ser tutores? Lamento, pois sei que 2020 será o ano em que os alunos pobres, moradores de comunidade distantes [aonde sequer a energia elétrica chegou], serão os mártires da educação, pois um ano perdido pode ser o ‘maior estímulo’ para muitos pararem de estudar. Parece que a discussão é por cima, o urbano é a tela, a pauta, o elemento central da conversa”.

 

A educadora voluntária desnuda uma triste realidade vivenciada todos os dias nas comunidades mais distantes do Amapá. Talvez muitos não saibam, mas em regiões – como no alto Jari, região sul do estado, crianças e adolescentes remam até 2 horas para chegar à escola.

Eles não têm acesso à energia elétrica, água potável e muito menos internet. Mesmo assim, não desanimam e seguem o curso do rio na esperança de um dia poderem, por meio da educação, mudar a realidade de suas comunidades.

 
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