Entrevista

O café entrou no Brasil pelo Amapá e agora será produzido

Especialistas garantem: antes de se transformar em símbolo da economia, estampar campanhas da Embratur e ganhar o mundo como principal commodity agrícola do país, o café fez sua primeira parada em solo brasileiro pelo Norte do país


 

Cléber Barbosa
Da Redação

 

Diário – Para entender esse percurso — do século XVIII aos dias atuais — conversamos com o historiador Daniel Chaves e com o presidente da cooperativa de produtores de café do Amapá, Orlando Vasconcelos. Professor Daniel, então o café realmente entrou no Brasil pelo Norte?
Daniel Chaves – Sim. O café chega à América do Sul pelas Guianas. Ele vem da África, é cultivado inicialmente na Guiana Holandesa, atual Suriname, depois passa para a Guiana Francesa. A introdução oficial no território português acontece quando Francisco de Melo Palheta traz mudas durante uma missão diplomática no século XVIII. Na época não existia divisão territorial como hoje, mas qualquer rota terrestre ou fluvial entre a Guiana Francesa e o Pará necessariamente passava pelo território que hoje é o Amapá. Isso significa que o café entrou no Brasil pelo Norte, atravessando essa região.

 

Diário – Ou seja, antes de Minas Gerais se tornar referência, o café já tinha pisado em solo amazônico?
Daniel – Exatamente. Depois, com o desenvolvimento técnico e a expansão agrícola, estados como Minas consolidaram a produção, mas a porta de entrada foi aqui no Norte. Séculos depois da chegada das primeiras mudas, o Amapá vive um novo momento com a organização de produtores e aposta no robusta amazônico.

 

Diário – Orlando, hoje existe uma cooperativa estruturada no estado. Quantos produtores fazem parte desse movimento?
Orlando Vasconcelos – Hoje estamos com 50 associados. Dezessete já vão iniciar o plantio ainda este ano. É um movimento recente, mas com grande potencial de crescimento. Temos produtores em Amapá, Tartarugalzinho, Calçoene, Pedra Branca do Amapari, Serra do Navio, Santana e Laranjal do Jari. Está bem distribuído. Estamos investindo no robusta amazônico, desenvolvido para as condições da região. Ele se adapta bem ao regime de chuvas e ao clima da Amazônia. Alguns clones já ultrapassam 100 sacas por hectare.

 

Diário – Existe mercado para essa produção?
Orlando – O café é commodity, tem mercado mundial. O robusta, por exemplo, tem maior teor de cafeína e é muito procurado para blends e produtos industrializados. Não dependemos apenas do mercado local.

 

Diário – O café pode ser alternativa para pequenos produtores?
Orlando – Com certeza. Hoje 77% dos produtores brasileiros têm menos de cinco hectares. O café permite colheita anual após o período inicial e pode gerar renda significativa. É uma alternativa especialmente para quem enfrenta dificuldades com outras culturas, como a mandioca.

 

Diário – Ao longo dos séculos, o café se transformou em um dos principais motores econômicos do Brasil. Tornou-se marca do país, inclusive utilizado em campanhas de promoção internacional pela Embratur.
Daniel – Agora, o Amapá — que esteve na origem dessa história — busca escrever um novo capítulo, combinando tradição histórica com inovação agrícola. Se no passado o estado foi rota de entrada do café no Brasil, hoje quer ser também rota de crescimento, geração de renda e desenvolvimento sustentável. A planta, originária da África e já cultivada nas Guianas, encontrou solo fértil no país. Com o tempo, migrou para outras regiões e se consolidou especialmente no Sudeste, onde estados como Minas Gerais se tornaram referência mundial em qualidade.Hoje, o Brasil é o maior produtor global de café. A cultura moldou ciclos econômicos, influenciou a formação social do país e atraiu fluxos migratórios — inclusive europeus — durante o período imperial.

 

Diário – Essa revelação, que ainda surpreende muita gente, acaba reforçada durante esse debate sobre a retomada da cafeicultura no estado.
Orlando – Sem dúvida. Muito antes de se transformar em símbolo da economia nacional, estampar campanhas da Embratur e ganhar o mundo como principal commodity agrícola do país, o café fez sua primeira parada em solo brasileiro pelo Norte. E essa rota histórica passa diretamente pelo Amapá. No início do século XVIII, Palheta realizou missão diplomática na então Guiana Francesa e trouxe, de forma estratégica, mudas de café para o Brasil. Como não havia aviões — nem rotas diretas —, a travessia obrigatoriamente passou pelo território que hoje corresponde ao Amapá, antes de seguir para o Pará.Na prática, isso significa que o café entrou no Brasil pelo Norte.

 

Perfil 

Daniel Chaves  –Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ).

 

EXPERIÊNCIAS ANTERIORES
-Docente permanente dos Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGMDR, 2015-2022), em Ensino de História (2018), em Estudos de Fronteira (2018).
– Pesquisador Visitante no LusoGlobe Lusófona Centre on Global Challenges, da Universidade Lusófona de Lisboa (2024).
– Pesquisador Visitante no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e no Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CES e CEGOT, 2016-2017),
– Professor convidado na Universidade Federal do Tocantins (2021). Recebeu a Láurea João Florentino Meira de Vasconcelos de Inovação, da Academia Nacional de Farmácia (2017) por atividades no desenvolvimento da instituição.
– Pesquisa, leciona, extensiona e atua em gestão de projetos em diversas áreas, como História Contemporânea, com ênfase em Estudos de Futuros e Prospecção Tecnológica para o Desenvolvimento Regional.

 

ORLANDO VASCONCELOS
– Mineiro, empresário dono da empresa Minas Tratores, presidente da COOCAP e do Viveiro de Café Robusta Esperança. Está em Macapá há 2 anos e com seu viveiro de café robusta traz uma nova opção de plantio para Macapá.

 


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