Nota 10

Francisco Lino, o Menestrel da Nação Negra!

O começo da noite de domingo foi o epílogo da trajetória de um ser humano que se fez Boêmio e se revelou e se consagrou Boemista para se consagrar como ícone maior de uma agremiação carnavalesca pioneira do Carnaval da Escolas de Samba no Amapá


 

Célio Alício

Da Redação

 

Às 19 horas do dia 18 de outubro de 2010, Francisco Lino da Silva, maior poeta e compositor do Samba e do Carnaval amapaense, um dos fundadores da Associação Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, em 2 de janeiro de 1954, transpôs a dimensão espiritual e ingressou no Olimpo dos heróis e heroínas da mitologia cultural do Amapá.

 

Nascido em 1935 no Centro de Macapá, no tradicional Largo do Formigueiro (localizado atrás da Igreja Matriz de São José), quando Macapá, Mazagão e Amapá eram munícipios do estado do Pará, Lino foi “aparado” por sua avó paterna Francisca Luzia da Silva, a “Mãe Luzia”, icônica parteira tradicional do Amapá, oito anos antes da criação do Território federal do Amapá.

 

 

Anos mais tarde, ele mudou do Centro para o Bairro do Laguinho e ali iniciou sua militância no universo do Carnaval, seara com a qual naturalmente se identificou e onde se consagrou como o maior poeta, compositor e intérprete da cena local nos primórdios do Carnaval de rua a contar das batalhas de confete que eram realizadas em diferentes pontos da pequena Macapá da era territorial.

 

A partir de uma célula embrionária constituída por trabalhadores da construção civil vindos do estado do Pará e alguns amapaenses aglutinados no bloco carnavalesco Bandoleiros da Orgia criado em meados dos anos 1940, Francisco Lino juntamente com outros bambas, participou da fundação da Academia de Samba Boêmios do Laguinho, que anos mais tarde tornou-se Universidade de Samba Boêmios do Laguinho.

 

 

Desde o início dessa agremiação, Lino já se destacava entre seus sambistas, mas foi como compositor que ele começou a impactar na folia local, especialmente a partir de 1962 quando os desfiles do Carnaval de rua de Macapá passaram a ser realizados pela Prefeitura local na avenida FAB. Nessa ribalta, suas composições se consagraram e ele reinou praticamente absoluto simultaneamente à conquista de títulos pela sua agremiação.

 

Ao mesmo tempo em que brilhava no circuito da folia momesca, como compositor e intérprete, Lino também interagia com os seres notívagos nas serestas e demais eventos da cena noturna da capital do antigo território federal.

 

 

Contudo, a vida desse bamba do Laguinho não se resumia aos desfiles carnavalescos. Além de jogador de futebol, ele também passou a lecionar na rede de ensino territorial e além de atuar destacadamente em outras frentes, ele foi solidificando sua imagem tanto como artista quanto como cidadão, angariando o respeito de diferentes setores da sociedade local, consagrando-se na década de 1980 como o maior nome do Carnaval local e expandindo seu impacto para além das fronteiras culturais amapaenses.

 

Depois de se consagrar como o maior sambista do Amapá, Francisco Lino começou a abrir espaço para novos compositores e isso permitiu que compositores como Carlos Piru, Ilan do Laguinho, Aureliano Neck, Nonato Soledade, Adelson Preto, Rosendo Souza, Heraldo Almeida, entre outros, passassem a ocupar novos espaços, inaugurando uma nova fase no Carnaval amapaense, que consolidou na “Era Sambódromo” nos anos 2000.

 

 

Em 2002, ele foi homenageado pela sua agremiação carnavalesca do coração através do enredo “Menestrel da Nação Negra: mestre de todas as gerações”, cujo samba composto por um de seus discípulos Carlos Piru, se tornou num dos sambas antológico da agremiação e do Carnaval do Amapá.

 

Em 2008, no contexto da chamada “Revolução Estética” que marcou as gestões de Boêmios do Laguinho entre 2007 e 2014, Lino foi condecorado com o título e a comenda de “Menestrel da Nação Negra” como Presidente de Honra da sua agremiação carnavalesca de coração e à qual se dedicou desde a sua fundação em 1954.

 

 

Dois anos depois, em 3 de março de 2019, em evento na frente da Escola Azevedo Costa, o samba enredo “Mar acima, mar abaixo, de ‘ladrão’ em ‘ladrão’ a saga de uma nação”, de 1997, composição de Francisco Lino, Rosendo Souza e Heraldo Almeida, sagrou-se campeão do “Festival de Sambas Enredos Inesquecíveis”, realizado pela num evento na frente da Escola Azevedo Costa. Nesse festival, Silmara Lobato foi a primeira mulher a defender um samba enredo como intérprete oficial.

 

Em 2026, a Estação Primeira de Mangueira (RJ), com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Floresta Negra” homenageou Raimundo dos Santos Souza, o “Mestre Sacaca”, amigo de Francisco Lino. O Menestrel participou e foi finalista do festival de Samba Enredo na quadra da Verde Rosa no Rio de Janeiro com o samba número 105, composto em parceria com Silmara Lobato, Hickaro Silva, Camila Lopes e Bruno Costa. O Menestrel da Nação Negra também desfilou no Sambódromo da Marquês de Sapucaí no Rio de Janeiro pela escola de Cartola juntamente com os familiares de Mestre Sacaca.

 

 

Francisco Lino partiu para a eternidade dos mitos da Cultura, do Samba e do Carnaval no terceiro domingo de outubro de 2026, já consagrado como a maior personalidade da cultura carnavalesca do Amapá e como o eterno Menestrel da Nação Negra. Sua partida encerra um ciclo iniciado há 72 anos quando ele e seus parceiros boêmios criaram a paixão Boemista que pautou desde então a sua vida.

 

São dezenas de composições, majoritariamente sambas de enredo, e muitíssimos títulos na Avenida, sendo que “Fortaleza, o Atalaia do Norte”, de 1975, além da conquista do título do Carnaval desse ano, 42 anos depois, em 2017, Boêmios do Laguinho venceu o festival “O Melhor Samba Enredo de Todos os Tempos”, realizado na quadra da Escola Estadual Azevedo Costa, consagrando definitivamente o samba e seu autor como o maior compositor da história do Carnaval amapaense.

 

A trajetória de Francisco Lino, O Menestrel da Nação Negra na Cultura e no Carnaval amapaense, fez dele a figura mais representativa de toda a história do Carnaval local. E, entre os compositores, ele criou um estilo único e produziu uma antologia poética e musical que fez dele um mito ainda em vida com uma séria de homenagens às quais indiscutivelmente fez jus. Seu impacto é incomparável e sua obra é, sob todos os aspectos, simplesmente inesquecível.

 

 


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