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Nota 10

“Refrão de samba-enredo se faz pra bêbado cantar”, diz Dominguinhos do Estácio

Sambista carioca veio a Macapá como convidado de honra do Festival “O Melhor Samba Enredo de Todos os Tempos”; sobre o estribilho ‘Bum, bum, é o canhão da Fortaleza’, da Boêmios do Laguinho, a composição vencedora do evento, o artista diz que ‘é um achado’.


O compositor e intérprete Dominguinhos do Estácio foi protagonista, na manhã desta segunda-feira, 9, de uma das conversas mais livres e gostosas do rádio amapaense, no programa Luiz Melo Entrevista (Diário FM 90,9). Ele veio a Macapá, mais uma vez, para participar como convidado de honra do Festival “O Melhor Samba Enredo de Todos os Tempos”, evento da agremiação Piratas Estilizados realizado sábado, 7.

Parece incrível, mas o sambista revelou que pela primeira vez ouviu a expressão ‘Lenda viva’. O bom, pra ele, é que a expressão foi pronunciada a seu respeito pelo ouvinte Ricardo Barbosa de Andrade, de Niterói, onde Dominguinhos também morou. Depois de rápido colóquio, lembrando endereços da cidade fluminense, e realizações carnavalescas, Ricardo chamou Dominguinhos de “Lenda viva do carnaval”. Ricardo, hoje residente em Macapá, participou do programa, pelo telefone.
“Nunca ouvi isso, não, mas muito me honra”, respondeu o artista sobre a tal lenda viva.
Dominguinhos tacou que “Bum, bum, é o canhão da Fortaleza” é um achado de Francisco Lino, o ‘Menestrel’, referindo-se ao samba-enredo ‘Fortaleza, o Atalaia do Norte’ da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, no carnaval de 1975, ainda na Avenida FAB. A antológica criação foi escolhida “O Melhor Samba Enredo de Todos os Tempos” no Amapá.

Sobre refrão carnavalesco, o compositor e intérprete carioca ensinou que é feito pra ensinar o bêbado cantar. “Veja esse que eu cantei na avenida: ‘Vou cair na gandaia com a minha bateria/No balanço da mulata, a explosão de alegria’; qual o bêbado que não canta isso? E este também: ‘Explode coração/Na maior felicidade/É lindo meu Salgueiro/Contagiando e sacudindo esta cidade’. Fazer o fácil é muito difícil, como disse Chico Buarque de Hollanda, numa entrevista a Leda Nagler, mas pega bem, principalmente pro bêbado cantar. Refrão de carnaval é isso”.

Falar em bêbado, o incrível também revelado por Dominguinhos do Estácio é que ele não ingere bebida alcoólica. “Não bebo; nunca bebi, graças a Deus”, testemunhou. Mesmo assim, sempre na avenida e nos palcos cantando de cara limpa, o intérprete teme que o carnaval do Rio deste ano e os três mais próximos percam muito do brilho com a ascensão do bispo Marcelo Crivela como prefeito da cidade.
“Agora, no Rio de Janeiro, o prefeito é evangélico. Estamos fritos”, gozou Dominguinhos, depois de antes dizer que é difícil comparar o bicheiro que banca o Carnaval do Rio de Janeiro com o ex governador Sérgio Cabral. “O bicheiro cumpre com a palavra; com o Cabral a gente vê o que aconteceu”, constatou.

Dominguinhos do Estácio é passarinheiro. Ele disse que hoje em dia não dá mais pra tratar muito bem com esse negócio, porque a fiscalização está forte. Mas lembrou que nas muitas vezes passadas em que veio ao Amapá sempre ia a Mazagão conseguir uns bicudos pra disputar com o canto do passarinho diante de figuras como Zico e Rivelino e outros passarinheiros famosos.

Para o compositor e intérprete até agora ainda não apareceu no Brasil um puxador de samba como Jamelão. “Ele foi o mestre”, ressaltou Dominguinhos, na entrevista, também apontando Haroldo Melodia (in memoriam) e o filho dele, Ito Melodia, como bons puxadores, sem tirar Neguinho da Beija Flor. Quanto a ele próprio, autodenominou-se um menino sem cultura que foi pra escola de samba tocar pandeiro, passou pela bateria e progredindo subiu no palco até desfilar na avenida.

O nome Dominguinhos do Estácio não tem nada a ver com o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estácio de Sá, mas com o fato de ele ter nascido no bairro do Estácio, do Rio de Janeiro. A escola de samba recebeu essa denominação depois de alguns anos ter sido criada como Unidos de São Carlos.

Dominguinhos lamenta que hoje em dia é difícil vender CD, que ele ainda chama de disco, alegando que a internet tomou o lugar da comercialização fonográfica, e para ganhar a vida ele tem que fazer shows pelo país, e produzir jingles para políticos, como fez certa vez para Zequinha Gemaque, já falecido, que se candidatou a prefeito de Chaves (PA). Em Macapá, fez jingle de campanha para o ex governador Annibal Barcellos (in memoriam), quando se candidatou a prefeito de Macapá, e Murilo Pinheiro, também postulante à prefeitura da capital.

Comentando o fato de no Carnaval de 2008 a Beija Flor de Nilópolis ter vencido o desfile com o enredo ‘Macapaba: equinócio solar, viagens fantásticas do meio do mundo’, Dominguinhos do Estácio observou que quando essa escola de samba resolve fazer homenagem, sempre ganha. “É o caso agora de 2017. Neste ano ninguém ganha da Beija Flor. Ela vai homenagear Iracema, aquela índia da literatura”, previu.

O carioca, junto com Dona Zica da Mangueira, hoje falecida, foi integrante da festa de inauguração do Sambódromo R.Peixe, de Macapá, em 1997. Ele puxou, em 2014, o desfile do Rancho Não Posso Me Amofiná, de Belém do Pará, em homenagem aos 100 anos do Paysandu. Dominguinhos é flamenguista, mas o seu time do coração, mesmo, é Papão paraense.

A afinidade do sambista com Belém vem de muito tempo. Ela gosta muito da cidade, tanto que casou com dona Heloisa Ferreira na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, e há 26 anos seguidos vai à capital paraense para o Círio.

Da redação
Douglas Lima


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