Unifap lança livro que transforma em memória escrita o legado dos carpinteiros navais do Elesbão
Intitulado “Mestres do Saber”, livro é resultado do projeto Educação Patrimonial: História e Memória das Comunidades Ribeirinhas de Santana, desenvolvido a partir do diálogo direto com moradores da comunidade

Às margens do rio Amazonas, mãos experientes transformam madeira em embarcações, sustentam famílias e mantêm viva uma tradição essencial à vida ribeirinha. Esse é um breve resumo do livro “Mestres do Saber”, que transforma em memória escrita o legado dos carpinteiros navais do Elesbão. O lançamento oficial ocorreu na Comunidade do Elesbão de Baixo, na sede do Projeto Tempo de Preparação em Missão, em Santana.
Em parceria com o Governo do Estado, a Universidade Federal do Amapá (Unifap) lançou a obra, escrita por três professoras e pesquisadoras do curso de História da instituição: Ana Cristina Rocha Silva, Elke Daniela Rocha Nunes e Alanna Aquemi Santiago Saito. Durante anos, as pesquisadoras conheceram, visitaram e estudaram a comunidade, acompanhando de perto os moradores e o trabalho de construção artesanal de embarcações.
“É um momento muito importante. Nós passamos anos vindo para a comunidade do Elesbão para conhecer os carpinteiros, escutar suas histórias, seus costumes, suas formas de trabalhar e de construir. O livro é fruto desse projeto, no qual fizemos parte desse cotidiano de criar, saber e fazer, a partir dos saberes tradicionais da Amazônia”, disse Elke Rocha, uma das autoras do livro.
Mais do que apresentar as técnicas utilizadas na construção artesanal de barcos, a obra reconhece os carpinteiros navais como mestres, educadores do território e guardiões de um patrimônio cultural vivo. Suas trajetórias revelam um complexo sistema de conhecimentos desenvolvido na convivência com os rios, as marés e as madeiras. Cada embarcação carrega mais do que sua função prática: transporta histórias, identidades, criatividade, ancestralidade e modos próprios de compreender e habitar a Amazônia.
Silas Monteiro, de 87 anos, é um dos grandes nomes da carpintaria naval e um dos pioneiros da atividade na Comunidade do Elesbão. Desde 1964, ele trabalha no ofício, mas atualmente, devido à idade, constrói apenas protótipos por hobby.
“Estou muito feliz de poder participar do livro. É importante contar nossas histórias para que a população amapaense possa conhecer e para que elas não se percam”, disse, emocionado.
Ele também destacou que uma de suas maiores alegrias foi ter a oportunidade de transmitir os conhecimentos da carpintaria naval aos filhos, para que eles possam repassar esses saberes às próximas gerações e manter viva uma tradição do Amapá.
Ao trazer os mestres para o centro da narrativa, a obra também lança luz sobre os desafios que ameaçam a continuidade do ofício, como a dificuldade de acesso à madeira, a precarização das condições de trabalho, a ausência de reconhecimento profissional, as pressões sobre os territórios ribeirinhos e o afastamento das novas gerações.
O livro assume uma dimensão cultural, educativa e política: registrar esses conhecimentos é contribuir para seu reconhecimento social, sua transmissão e sua salvaguarda.
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