Polícia

EXCLUSIVO: Escutas telefônicas revelam planos de roubos e execuções em Laranjal do Jari

Preso do Iapen e integrantes de uma facção criminosa, em Laranjal do Jari, discutem planos para assaltos a postos de combustível e até mesmo execuções.

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Reportagem: Rodrigo Silva

A Polícia Civil do Amapá divulgou nesta quarta-feira (17) trechos de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça que revelam o esquema organizacional de uma facção criminosa que atua no Vale do Jari em que um dos supostos líderes está preso no Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen), em Macapá.
As escutas são parte de uma série de mecanismos utilizados no curso das investigações que resultaram na Operação Derrocada, deflagrada em março deste ano em Laranjal do Jari, onde foram presos 34 homens investigados por terem ligação direta com a facção.

Segundo o delegado Estéfano Santos, titular da 1ª Delegacia de Polícia Civil de Laranjal do Jari, os assuntos abordados pela organização tratavam sobre temas diversos como planejamento de assaltos a postos de combustível até execuções de pessoas.

Em uma das gravações o suposto líder da facção [preso no Iapen] dialoga com um ‘subordinado’ em Laranjal do Jari. Eles tratam sobre a morte de uma mulher que seria traficante pertencente a um grupo rival e estaria comprometendo os ‘negócios’ da organização.

 

Diálogo

Detento: Pois é, deixa eu te falar, ta perto de alguém ai?

Faccionado no Jarí: Não, não, ta só eu…só eu mesmo.

Detento: Olha, eu vou falar só pra ti, só pra ti, ta ligado?

Faccionado: Boto maior fé, mano!

Detento: O Gato mandou ver quem é de confiança ai e eu falei, mano eu tenho o Pará [de confiança] que não fala nada lá. Mas escuta o que eu vou te falar, ta ligado na Patrícia ai?

Faccionado: Tô ligado, mano!

Detento: Vamos derrubar ela [Patrícia] hoje.

Faccionado: Cagueta…

Detento: Fica na tua, não fala nada… vamos derrubar ela hoje, ta ouvindo?

Faccionado: Tô esperto

Detento: Aí tu (…) basta só o olheiro, basta só olheiro, pra dá ela ai na ponte pra nós. O olheiro que eu falei que eu ia botar ai na ponte era tu; tu é o único de confiança que eu tenho!

Faccionado: Quem vai matar ela?

Detento: Quem vai matar ela é o seguinte – na hora que ela morrer ai, não foi nós da UPA (União Pelo Amapá), ninguém da UPA, tá ligado? Vai ficar tipo ‘ninguém sabe quem foi’……. ta entendendo?

Faccionado: Como é que faz mano?

Detento: Pois é, eu falei pro ‘chefe’ que eu ia colocar tu de olheiro e só eu, tu, ele e o ‘Rotanzinho’ que sabe, só nós quatro.

Faccionado: Quem vai matar mano?

Detento: Nem o moleque que vai matar é daí, ta ligado?

Faccionado: Maior lindeza então, não vai dá, não vai sujar, não vai fazer nada então…

Detento: Pois é, a gente vai botar outro moleque daqui. Ai escuta o que vou ti falar: ai quando ela tiver ai na ponte, ela trabalha até de madrugada, já troquei idéia com ela já, ta ligado?

Faccionado: Ela fica até de madrugada, isso daí fica voando até uma hora, duas horas da manhã mano.

Detento: Pois é, eu já troquei idéia com ela eu já, ta ligado? Já fiquei com ela conversando no telefone, ela já até pagou um ventilador pra mim ela. Só comendo o cérebro dela na humildade pra ver de onde que ela pegava a droga, ta ligado?

Faccionado: Isso é gaiata mano, isso daí e gaiata, isso dai é cagueta, esse pessoal ai, tu é doido é?

Em outra conversa o detento repassa ordens de como um dos faccionados deve arquitetar um assalto a um posto de combustível. O criminoso diz que o ‘olheiro’ tem papel fundamental para levantar as informações como número de funcionários do posto de combustível e valores que eles possam ter em mãos.

 

Diálogo

Faccionado: Alô…

Detento: Fala mano!

Faccionado: hã?

Detento: E ai?

Faccionado: Tranquilo, cadê o motor?

Detento: (inaudível)

Faccionado: Tu já tá trazendo?

Detento: Daqui a pouco. Ele já vai mandar deixar, o Rodrigo deixa ai já

Faccionado: Tá, ele vai deixar onde ela?

Detento: Ele vai mandar deixar contigo ai p…

Faccionado: Deixa lá no fundo do Gabriel Branco, Gabriel Preto, lá…

Detento: Tem que ter cuidado com esse motor ai. Escuta, umbora pegar aquele posto [de combustível] lá em cima lá. Aquele posto os caras pegam uns cinco conto [5 mil] nele lá mano.

Faccionado: (silencio)….cinco conto [5 mil], tu diz que pega lá na hora mano?

Detento: Pega sim p…!

Faccionado: É aquele antes de chegar na praça, não esse que eu já vi?

Detento: Não… eu tô falando… Ben 10, Ben 10. É aquele lá de canto do ‘BQ’, lá em cima lá p…, passando a casa rosa lá, onde era a casa rosa lá.

Faccionado: Indo pras Malvinas [bairro]? Indo pro Agreste [bairro]?

Detento: Isso…lá no final já lá onde desce aquela ‘ladeirona’ lá

Faccionado: Não dei uma ‘telada’ nele não, mas nós vamos lá na motinha [motocicleta] muito rápida, na motinha é rápido. Mas tu trocou o óleo do motor dela?

Detento: Já…já

Faccionado: Tá tranquila ela [moto] não? Quem vai dirigir ela vai ser eu…eu vou lá levar o menor lá, o Gabriel Preto. Se o Gabriel Preto não for comigo o Rafael vai, aquele Rafael lá do extra lá.

Detento: Já é já então p…!

Faccionado: Qualquer coisa…..nós vamos lá no posto lá

“Essas interceptações ocorreram em tempo real, o que nos permitiu evitar vários crimes como assaltos e homicídios. Essa mulher que teve a ordem de execução decretada pelos criminosos conseguiu escapar graças a esse trabalho. Estamos atuando com inteligência tecnológica e um trabalho de campo muito forte para nos anteciparmos aos crimes”, afirmou o delegado.

Estéfano Santos ainda lembrou que a organização alvo dessa operação tem – a exemplo de outras facções – uma ordem hierárquica e divisões de tarefas específicas de cada integrante.

“Eles [criminosos] tem uma espécie de ‘caixinha’ que serve para ‘socorrer’ um faccionado em caso de emergência. Eles também dividem os pontos de venda de drogas por zonas. O dono de cada ‘boca de fumo’ paga um aluguel à facção. A divisão por zonas é para evitar que um boqueiro atrapalhe o ‘negócio’ do outro. Existe um poder real de organização”, complementou.

O delegado também declarou que os traficantes estão utilizando cada vez mais pessoas de pouca idade (crianças e adolescentes) para fazer o trabalho de ‘mula’. “Esses bandidos estão usando crianças para fazer o transporte de drogas e até mesmo dinheiro da contabilidade do crime. É algo que muito nos preocupa. Esse aliciamento também vem sendo alvo dessa investigação para que possamos dar um combate efetivo”, concluiu.

 
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