Polícia

Nova rota do PCC e CV usa Amapá para mandar cocaína para a Europa

O Porto de Santana ganhou importância para a inserção clandestina da droga em navios que seguem para o exterior


 

A expansão do PCC e do Comando Vermelho, aliada à atuação de facções locais, ampliou o uso do Amapá como rota para exportar cocaína à Europa, aponta estudo do pesquisador Gabriel Funari, da Global Initiative Against Transnational Organized Crime. O Porto de Santana, em especial, ganhou importância para a inserção clandestina da droga em navios que seguem para o exterior. A reportagem é do UOL.

 

Entre 2023 e 2025, a Polícia Federal apreendeu 637 quilos de cocaína no estado, cargas que tinham o mercado europeu como destino. A maior apreensão ocorreu em junho de 2025, quando as polícias Federal e Civil localizaram 400 quilos da droga em uma área rural de Macapá. O levantamento atribui a carga ao Comando Vermelho e afirma que ela aguardava embarque para Portugal.

 

A nova conexão parte do norte da Colômbia e passa pelo Suriname e pela Guiana Francesa antes de chegar ao Amapá por via aérea ou fluvial. Traficantes também usam o método conhecido como rip-on, que esconde cocaína em embarcações antes da partida; em 2024, a PF encontrou 150 quilos da droga na caixa de mar de um navio atracado em Santana.

 

 

Segundo o documento, o movimento ocorre em meio a disputa pelas rotas amazônicas e de aumento da sofisticação das operações criminosas, dominado especialmente pela organização do Rio de Janeiro.

 

Facções regionais como a FTA (Família Terror do Amapá), APS (Amigos Para Sempre) e a UCA (União do Crime do Amapá) atuam na recepção e no armazenamento das drogas. Enquanto CV e PCC estão envolvidos na exportação de cocaína de alta pureza, e também fornecem a pasta-base da cocaína a esses grupos para abastecer o mercado local.

 

O estudo cita que traficantes passaram a explorar com maior intensidade, na última década, a região de Macapá, na foz do rio Amazonas, e o porto internacional de Santana, além de ilhas e áreas fluviais próximas à região.

 

Uma moradora do Bailique, arquipélago de Macapá, que preferiu não se identificar por medo das facções, contou que, em 2023, uma casa na Vila Progresso, uma das ilhas da região, era ocupada por um grupo de estrangeiros.

 

Segundo ela, o imóvel era utilizado como ponto de apoio para receber e despachar cocaína, aproveitando a localização estratégica da ilha para a movimentação da droga. “Passava um navio em frente à casa com drogas. Era esse o movimento. As pessoas viam e ficavam com medo”, diz.

 

Segundo Funari, o quilo de cocaína, comprado por cerca de R$ 5.200 nas regiões produtoras da Colômbia e do Peru, chega a valer entre R$ 13 mil e R$ 18.100 ao entrar na Amazônia brasileira e pode alcançar R$ 25.900 antes de seguir para a Europa. No varejo europeu, o valor varia entre R$ 293,5 mil e R$ 410,9 mil.

 

Além do tráfico de cocaína, o relatório aponta que, mais recentemente, integrantes do CV diversificaram suas atividades e passaram a atuar também na mineração ilegal de ouro na Guiana Francesa, como forma de reinvestir os lucros do tráfico.

 

 

Confirmação

De acordo com Aiala Colares, pesquisador das dinâmicas do narcotráfico na região amazônica, o Amapá sempre esteve inserido em uma rede de contrabando e tráfico de drogas. “Só que nos últimos anos uma articulação que envolve as Guianas e parte do Suriname passou a se direcionar também para o estado, tendo como ponto estratégico o Porto de Santana”, explica.

 

O relatório também corrobora a afirmação de Colares ao apontar que surgiu uma nova rota internacional que conecta Colômbia, Suriname, Guiana Francesa e Amapá.

 

A operação pode envolver mergulhadores especializados, que escondem a droga em compartimentos submersos dos navios. Em 2024, a Polícia Federal apreendeu 150 kg de cocaína escondidos na chamada caixa de mar de uma embarcação atracada no Porto de Santana.

 

 

Os navios que passam pelo porto têm como destino a Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Portugal, Rússia, Espanha e Reino Unido, além do Sudeste Asiático e do Japão. As embarcações com destino a Portugal são os alvos mais frequentes dos traficantes para o transbordo de cocaína no Porto de Santana.

 

O documento também registra o surgimento do uso de embarcações submersíveis. Em março de 2025, autoridades portuguesas apreenderam 6,6 toneladas de cocaína em uma operação relacionada a esse tipo de transporte.

 

Em resposta ao UOL, o Governo do Amapá disse ter realizado os maiores investimentos contra o crime organizado e no enfrentamento ao tráfico de drogas no estado. “O trabalho na fronteira, especialmente, no município de Oiapoque conta com entrega de drones, viaturas, notebooks, Glocks, fuzis e obras. Em todo o estado, o combate ao crime organizado possui investimento de mais de R$ 19 milhões”, enfatizou em nota.

 


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