Juíza Jô afirma que disputa vaga no Senado por missão, não como profissional da política
Candidata do partido Democracia Cristã, em entrevista no Sistema Diário de Comunicação, disse que necessidade de defender população mais necessitada foi sentida por ela própria ao se submeter ao tratamento de um câncer e também ao longo de sua carreira como magistrada da família

Douglas Lima
Editor
Com estilo moderado, prudente e cauteloso, a juíza de direito aposentada Joenilda Lenzi foi sabatinada na manhã desta terça-feira, 8, no programa LuizMeloEntrevista (Diário FM 90,9), como candidata ao Senado da República pelo Democracia Cristã (DC) com o propósito de cumprir o mandato, se eleita, como uma missão em defesa da população mais necessitada, cuja situação foi sentida por ela própria ao se submeter ao tratamento de um câncer e também ao longo de sua carreira como magistrada.
Pessoa simples, filha de ribeirinhos da Ilha de Santana, Joenilda Lenzi, que na campanha adota o nome Juíza Jô, foi escrivã de polícia e servidora do Tribunal de Justiça do Amapá (Tjap), de 2003 até março de 2026, como juíza de direito atuante na Vara de Família, na maior parte do tempo.
No decorrer da entrevista, Jô deixou transparecer, nitidamente, a sua preocupação com o lado social, principalmente referente à família. Ela prometeu que, se chegar ao Senado, apresentará projeto para que casais separados sob medida protetiva possam, cada um em seu tempo, acompanhar o filho ou filha em local neutro.
Para a juíza aposentada, os pais têm as suas pendências, porém os filhos não podem sofrer por isso, além do que já sentem com a separação dos pais. Ela mostrou que a família, muitas vezes, é um lugar de gente brigando por guarda de filho, partilha de bens, divórcios complicados, inventários e decisões que às vezes mudam para sempre o rumo da vida.
Joenilda revelou que ao longo de sua vida de magistrada realizou mais de dez mil casamentos comunitários, como coordenadora e juíza de paz do programa do Tjap chamado Casamento na Comunidade. Ela se apresentou como quem conhece os 16 municípios do estado, por causa de sua carreira profissional, inclusive pequenas comunidades como Ipixuna Miranda e Bailique.
Nessas empreitadas, disse a candidata Juíza Jô, ia de barco ou de carro, com a finalidade única de levar cidadania a amapaenses, através do casamento civil, pois se a Justiça não fosse até eles não teriam dinheiro para pagar cartório e outras despesas referentes ao matrimônio.
“Muitas pessoas ficaram extremamente surpresas quando eu me apresentei como candidata. Quando eu tive o câncer, foi algo forte, porque fui desenganada, aqui no Amapá e em São Paulo. A partir de então comecei a me perguntar se havia algum propósito a mais na minha vida”, descreveu Jô.
Em seguida, ela apontou outro motivo para entrar na política: “Quando veio o convite, confesso que nunca tinha pensado em entrar nessa esfera, mas esses anos de magistratura na Vara de Família, onde sempre gostei de trabalhar, trouxe-me essa necessidade, porque acompanhei de forma muito próxima o sofrimento do povo, em todas as áreas”.
Falta de emprego, falta de recursos, falta do básico, de alimentação, políticas públicas não executadas e a dor das famílias, principalmente as mães com crianças autistas, foram apontados como motivadores do ingresso de Joenilda Lenzi na política.
Para ela, a experiência que teve no Judiciário, de não poder resolver os problemas do povo, deu a possiblidade de poder gerar soluções como senadora da república, através de projetos bem pensados e de recursos bem empregados.
“Eu entrei nessa corrida pelo Senado não porque eu tenho pretensão política. Certo. É uma missão. Tenho o interesse de que o povo possa ter a oportunidade de escolher um representante que, de fato, possa se comprometer com ele e fazer aquilo que muitos tiveram oportunidade e não fizeram”, resumiu.
Jô revelou que ela é uma das únicas juízas mediadoras judiciais do Brasil, atividade que ela fez questão de praticar porque queria aplicar algo mais que trouxesse um resultado, de fato, nos conflitos. Assim teve a certeza de que muitas vezes os conflitos são resolvidos se as pessoas sentarem numa mesa de negociação, conversar, e chegar a um meio-termo para saber o que é possível fazer para que todos saiam dali satisfeitos.
A magistrada deu o exemplo para mostrar que tem capacidade de dialogar com outros parlamentares para chegar a uma solução. “É assim que acontece. De qualquer forma, eu já usava como esquina política o jogo de cintura, né? Eu já negociava, participava de negociação. Com a advogada, com o Ministério Público, com todos, e assim será no Senado”, pontuou.
Justificando o slogan de campanha ‘Juíza Jô não promete, ela resolve”, argumentou que o parlamentar não administra nem executa obras, e que concretamente resolverá os problemas com o poder de fiscalização que terá.
“Se estou enviando um recurso para a educação, eu posso fiscalizar para que ele chegue na educação. Se eu estou enviando para a saúde, eu posso fiscalizar. Então, muitas vezes, é por falta desse olhar, desse acompanhamento do recurso que você não vê o resultado daquilo que é enviado lá de Brasília, através das emendas para cá”, ilustrou a candidata.
Juíza Jô se comprometeu em conseguir recursos voltados para a assistência e ao atendimento às crianças em geral, mas especialmente às autistas, que precisam de amparo em virtude de o estado não ter ainda a estrutura necessária nas escolas, nos hospitais e até mesmo para a elaboração e laudos.
A candidata também se comprometeu discutir a melhoria das leis que tratam da produção e distribuição da energia elétrica. “Nós temos que parar para avaliar porque pagamos o consumo de energia com um valor tão alto nas nossas faturas. Então, poderemos rever a questão de impostos, dos valores descontados nas faturas através da conta de desenvolvimento energético”, comentou.
Perguntada se é de direita, centro ou esquerda, Juíza Jô disse ser indiferente, que a missão dela como senadora será trabalhar em defesa do povo. Garantiu não ser Clécio nem Furlan, Lula ou Bolsonaro e que na corrida ao mandato faz campanha independente do companheiro de partido, Professor Uzian, que luta pelo mesmo cargo.
Sobre segurança pública, a candidata observou que o Brasil concentra esforços em prevenção, inteligência e investigação, mas que isso parece ser uma quase retórica, porque os números da violência são absurdos, principalmente no Amapá que, segundo disse, detém um dos piores índices do país.
“Nós temos uma situação crítica de homicídios, de violência doméstica e em todas as áreas. Precisamos realmente de políticas mais severas, não necessariamente em relação ao endurecimento, porque se fosse assim já teríamos resolvido, né? Nós precisamos realmente de encontrar saídas, e buscar em outros estados que tenham resultados positivos, o que nós não podemos fazer de melhor”, ensinou.
Acerca do Judiciário brasileiro, a juíza aposentada disse: “Infelizmente, estamos vendo muitas coisas que não estão de acordo, principalmente com a Lei da Magistratura. Nós, aqui embaixo, como juízes de primeiro e segundo grau, seria impossível tomarmos determinadas atitudes sem que não fôssemos punidos, como muitos colegas já foram até demitidos”.
Jô acrescentou que os magistrados não têm liberdade porque a lei os restringe, sendo literalmente proibidos de envolvimento em questões políticas. “Então, infelizmente, a nível de Suprema Corte, temos algumas coisas que eu, como magistrada, entendo que não estão em consonância com a Lei da Magistratura”, interpretou.
Juíza Jô comentou na entrevista que o estado discute um novo ciclo econômico com o petróleo na Margem Equatorial e que é a favor da exploração. Para ela, caso a produção se confirme há de se fazer como garantir que os royalties e outras receitas sejam transformados em bens de saúde, educação, infraestrutura e empregos para os amapaenses.
A candidata ainda abordou questões de evasão escolar, em todos os níveis de estudo, do setor de transporte, emprego, renda, juventude, meio ambiente, BR 156 e da necessidade de transparência no uso do dinheiro público.
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