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Dois anos após tragédia, famílias cobram direitos de trabalhad

Famílias dizem não ter ingressado com ações judiciais por acreditar na palavra da empresa



 

Neste sábado, 28, completam dois anos do trágico acidente no porto da empresa Anglo American, em Santana. Seis trabalhadores que estavam no píer flutuante do porto de embarque de minério desapareceram nas águas turvas do rio Amazonas juntamente com caminhões, guindastes e outras máquinas, depois que a estrutura do porto desabou um pouco depois da meia noite. Somente quatro corpos foram localizados pelas equipes de resgate. Dois permanecem sepultados sob os escombros.

Passados dois anos, as seis famílias ainda não conseguiram superar a dor da perda. No entanto, buscando retomar a vida, essas pessoas [viúvas e órfãos] tentam fazer cumprir o acordo proposto pela empresa Anglo há época, mas que segundo elas não foi cumprido em sua totalidade.

Dois anos após a tragédia as chamadas, ‘viúvas do porto’, quebraram o silêncio na manhã desta quinta-feira, 26, no programa Luiz Melo Entrevista (Diário 90,9FM), relatando como essas famílias estão vivendo hoje. Elas foram unidas pela tragédia.

Roseane Quintela, esposa de Pedro Coelho Ribeiro, 35 anos, que foi o quarto e último trabalhador a ter o corpo resgatado do fundo do rio, afirmou que a empresa suspendeu os planos de saúde das famílias e o auxílio educação. Eles pagaram apenas parte das indenizações também, segundo ela.

“Cerca de sete meses após o acidente a empresa nos chamou para um acordo. Na verdade eles queriam que nós não movêssemos ações judiciais. Ficou acordado o pagamento das indenizações e a manutenção do plano de saúde por mais cinco anos, além da garantia do auxílio educação até a formatura de nossos filhos na faculdade. Só que isso não foi cumprido. Nosso maior erro foi ter confiado na palavra dos diretores, já que eles não quiseram assegurar isso em contrato formal. Porém, tudo foi registrado em vídeo”, diz Roseane.

Ao anunciar a saída do estado, a Anglo repassou a gerência de todos seus negócios para a empresa Zamin. “Assim que a Zamin assumiu os negócios os benefícios foram de imediato suspensos. Agora surge a informação de que a Zamin também vai deixar o estado. E, nós? Como ficaremos? Para se ter uma ideia as carteiras de trabalho de dois desses trabalhadores mortos sequer foram dadas baixa. As famílias não conseguiram receber nenhum benefício porque para o Ministério do Trabalho eles continuam vivos”, acrescentou.

“Resolvemos quebrar o silêncio porque não suportamos mais aguentar essa situação que se torna ainda mais humilhante. Espero que a direção da empresa possa resolver tudo isso para que sigamos nossas vidas dignamente. É o mínimo que se espera. Nossos esposos morreram em pleno exercício do dever, então é justo que isso seja reparado”, concluiu Roseane.

Assessoria da Anglo faz levantamento de informações
A reportagem do Diário do Amapá entrou em contato com a assessoria de imprensa da Anglo American em Belo Horizonte (MG), onde fica o escritório da empresa no Brasil. A jornalista Tatiana Gava, assessora de imprensa da Anglo, declarou ter recebido os questionamentos enviados pelo Diário sobre o assunto, e de que estava dando encaminhamento interno para que a empresa se pronuncie oficialmente sobre as declarações. Nesta sexta-feira, 27, a assessoria da empresa deverá encaminhar nota oficial.

Setembro de 2013
Em 19 de setembro de 2013, ao anunciar o resultado do estudo feito na área do acidente do porto de Santana por especialistas contratados pela Anglo American, o diretor do sistema Amapá da empresa, José Luiz Martins, afirmou que já havia sido feito um acordo indenizatório com as famílias, e que os pagamentos seriam executados. “Toda a assistência vai continuar até elas deixarem de necessitar do nosso suporte”, esclareceu o diretor há época.

Família diz que viúva morreu esperando benefícios

Em meio à tragédia que pôs fim a vida de seis trabalhadores no porto da empresa Anglo Ferrous, no município de Santana, uma das famílias sofre de forma redobrada. 28 anos de idade, mãe de uma menina de três anos, Ariane Brandão morreu há cinco meses, vítima de lúpus.

A doença autoimune rara é provocada por um desequilíbrio do sistema imunológico, exatamente aquele que deveria defender o organismo das agressões externas causadas por vírus, bactérias ou outros agentes patológicos.

Ariane era a esposa do inspetor jr Eglison Nazari. Os familiares afirmam que se o plano de saúde tivesse sido mantido a jovem poderia ter sido levada para um centro especializado para continuar o tratamento.

“Minha filha lutou até o último momento. Como o plano de saúde foi cortado nos tivemos que apelar para a rede pública, mas esse tratamento inexiste aqui. Não estamos acusando ninguém, mas essa desassistência pode, sim, ter contribuído para a morte da minha filha”, desabou a mãe de Ariane, Socorro Brandão.

A avó ficou com a guarda da filha do casal, de 3 anos, e enfrenta outro drama. A menina precisa fazer uma cirurgia corretiva na genitália por ter nascido com uma anomalia. Como pensão, dona Socorro recebe um pouco mais de R$ 260. “Como posso criar minha neta com esse valor que é menos que um salário mínimo?” questiona.

Quem eram os homens por trás dos trabalhadores

Pedro Coelho Ribeiro
Aos 35 anos de idade, trabalhava como tradutor no porto. Ele era o porta voz da empresa com os tripulantes dos navios estrangeiros. Casado e pai duas meninas e um menino, Pedro trabalhava há cinco anos na empresa. A vítima teve o corpo encontrado pelas equipes de resgate.

Benedito Cláudio Lopes dos Santos
Com 41 anos de idade, Claudio atuava como operador de máquinas pesadas. O corpo dele não foi encontrado até hoje. Também era casado, tinha uma filha do atual casamento e outras duas filhas da primeira relação. Ele estava nos quadros da empresa há 1 ano.

Eglison Nazari
Casado, pai de duas meninas e um menino, Nazari era inspetor jr na empresa. Ele atuava no controle de qualidade do minério antes do embarque nos navios. Aos 28 anos de idade, o inspetor estava há 1 ano na Anglo. A vítima teve o corpo encontrado pelas equipes de resgate.

Manoel Moraes de Azevedo e Souza
Operador de máquinas pesadas, casado, pai de dois filhos e muito conhecido no porto, Manoel ‘Cutaca’, como era chamado carinhosamente pelos amigos, morreu aos 48 anos de idade. Não foi confirmado o tempo de serviço. A vítima teve o corpo encontrado pelas equipes de resgate.

Josmar Oliveira Abreu
Era casado, pai de um filho e tinha 29 anos de idade. Josmar também trabalhava como inspetor jr na empresa. Ele atuava no controle de qualidade do minério antes do embarque nos navios. A vítima teve o corpo encontrado pelas equipes de resgate.

Maicon Clay Carvalho da Silva
Aos 30 anos de idade, casado, pai de um menino e duas meninas, exercia a função de inspetor jr na empresa. O corpo dele não foi encontrado. O inspetor estava há apenas um mês na mineradora. Clay não estaria de plantão naquela madrugada, mas resolveu trocar o turno com um amigo porque iria no dia seguinte a um encontro de casais.


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