As cinco amantes de Demétrio Vargas

O segundo é uma moça que encontrei em situação de extrema miséria e passei a ajudá-la, pois nunca vi tanta beleza na pobreza. Eu a amo.

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O jornalista e escritor Demétrio Vargas pegou seus alfarrábios e os queimou após se sentir cansado aos 63 anos; tomou um on the rocks, colocou o revólver na mesa e escreveu uma carta.
– Querida e escolhida mulher, minha gratidão pelo direito de ir e vir, pelo quente da cama, e pelo respeito dispensado, já que teu sexo me tem sido negado há algum tempo; são mágoas, saúde, filhos, casa, idade e trabalho que te fazem uma mulher indiferente às coisas do sexo, mas tens o amor e o companheirismo familiar, e assim nossa relação passou a um estágio mais elevado, Philia, o amor fraterno. Tive que manter cinco segredos do meu coração, intactos; segredos são moedas, têm sempre dois lados, e quando se trata de amantes é certo que dois corações guardam isso a sete chaves. O primeiro é uma linda mulher casada que necessita de ter sexo fora do casamento e se apegou a mim; não consegue apagar o vício do sadomasoquismo; há muito eu a amarro, chicoteio-a e a amo.

O segundo é uma moça que encontrei em situação de extrema miséria e passei a ajudá-la, pois nunca vi tanta beleza na pobreza. Eu a amo.

O terceiro é alguem que é capaz de cruzar um oceano duas vezes por ano pra reviver um namoro que nunca acabou; também a amo.

O quarto é uma ex prostituta de longas madeixas e um corpo de dar inveja a muitas mulheres, cuja faculdade eu ajudei a pagar; sua principal virtude é escrever nua meus pensamentos e subir em mim e cavalgar o dia todo.

Amo essas mulheres. Sei que fui amado por elas pois dedicaram boa parte de seus tempos a mim.

Então sinto muito lhe informar que meu alcoolismo é uma farsa, assim como eu, e paguei o preço dessa fama porque descobri que só um alcoólatra poderia ter o álibi para tanta aventura e desventura que veio ao meu encontro; sou viciado mesmo é em carinho, bom humor e beleza, pra cada caso uma verdade, pois todas sabem que sou casado contigo; essas mulheres se mantiveram em segredo por muitos anos, mas não sabem uma da outra. Assim foi minha vida. De alguma forma você contribuiu com sua compreensão e tolerância, então agora descobri que estou morrendo e não quero acreditar que vais me perdoar, e sei que nenhuma delas poderá cuidar de mim, nem quero causar-lhes aflições. Com isso, despeço-me de ti, que fostes mãe de meus filhos e esposa dedicada, e fostes também o grande amor da minha vida. Não posso ir sem dizer que sou apenas um dos homens que têm vida secreta; temos um clube, e lá podemos beber, jogar, e principalmente falar nossas verdades.

Porque a invenção do casamento tem a palavra fidelidade, mas neste momento milhares de casais se encontram secretamente pelos cafés em Paris, motéis nas estradas, pelos parques do mundo e automóveis de vidros escuros.

O que separa o amor da desgraça é uma parede de quarto, ou seja, a revelação de um segredo pode acabar bem mal. Bem aventurado aquele que amou uma mulher a vida toda e não conheceu os variados perfumes, sorrisos, os jeitos…, eu perdi o meu medo da chuva.

Saí por aí aceitando os amores que a vida me trouxe, uma tragédia que tinha como protagonista a infidelidade, que fez essa coisa da verdade ou mentira terminar com um corajoso suicídio, pontuando assim meu fim, e assinando minha morte antes do sofrimento da doença com uma bala; não foi por indignidade, e sim pra encurtar minha dor e não levá-la a nenhuma de vocês.
O quinto é uma tigresa de lábios negros e olhos penetrantes; seu sorriso causa arrepios, e seus olhos são como túneis sem fim… a morte.

Osmar Jr.


 
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