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Escolheram Barrabás

  Fábio Lobato Garcia Advogado, Especialista e Mestrando em Direito Eleitoral e Político   Já fizeram isso antes. Como um episódio de dois mil anos atrás revela, com precisão cirúrgica, as armadilhas que ameaçam a democracia brasileira em 2026. Há dois mil anos, numa manhã de sexta-feira em Jerusalém, uma multidão foi às ruas e […]


 

Fábio Lobato Garcia
Advogado, Especialista e Mestrando em Direito Eleitoral e Político

 

Já fizeram isso antes.

Como um episódio de dois mil anos atrás revela, com precisão cirúrgica, as armadilhas que ameaçam a democracia brasileira em 2026.

Há dois mil anos, numa manhã de sexta-feira em Jerusalém, uma multidão foi às ruas e fez uma escolha. Escolheu o criminoso. Condenou o inocente. E o fez convencida de que estava certa. O nome daquele episódio ficou gravado na história, mas o roteiro que o produziu segue em uso, atualizado, digitalizado, e mais eficiente do que nunca. Reconhecê-lo é o primeiro passo para não repeti-lo.

A cena é conhecida, mas raramente lida com atenção jurídica. Pôncio Pilatos, prefeito romano da Judeia, detinha o poder absoluto sobre a vida e a morte de qualquer réu em sua jurisdição. Ao examinar o caso de Jesus de Nazaré, chegou a uma conclusão que não deixava margem à dúvida:

“Não encontro nenhum motivo de condenação neste homem.”

Lucas 23,4

Ele o repetiu três vezes. E mesmo assim, ao final, perguntou à multidão: “Quem quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?” (Mateus 27,17). Uma pergunta que parecia democrática. Mas não era. E o que veio a seguir, a escolha de Barrabás, não foi um acidente. Foi o resultado de um roteiro executado com precisão. Um roteiro que você vai reconhecer.

A MULTIDÃO QUE NÃO ERA O POVO

A multidão diante de Pilatos não chegou ali por conta própria. Foi convocada, aquecida e dirigida pelos sumos sacerdotes, que tinham interesse direto no resultado. O texto de Mateus é preciso:

“Os chefes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram as multidões a pedir Barrabás e a mandar matar Jesus.”

Mateus 27,20

Aquela multidão não era o povo soberano. Era um claque organizado, um grupo mobilizado para simular uma vontade popular que não existia. Marcos ainda acrescenta que os sacerdotes “incitaram ainda mais a multidão” (Marcos 15,11), revelando um trabalho ativo, progressivo e calculado de manipulação emocional.

No Brasil de 2026, pergunte-se: Quando uma narrativa viraliza da noite para o dia, quando uma pesquisa aponta uma tendência inesperada, quando uma manifestação parece espontânea, quem organizou, quem financiou, quem impulsionou?

Comunidades digitais podem ser, e frequentemente são, redes de perfis falsos, bots (robôs digitais) e contas compradas que simulam uma opinião pública inexistente. A multidão digital pode ser tão fabricada, tanto, quanto a multidão de Jerusalém.

A INVERSÃO: CULPADO HERÓI, INOCENTE RÉU

Quem era Barrabás? João não deixa margem à dúvida: “Barrabás era um ladrão” (João 18,40). Marcos acrescenta que era um homicida que participara de uma revolta (Marcos 15,7). Um criminoso confesso. Mesmo assim, a narrativa construída pelos sacerdotes o transformou no candidato preferível.

Essa é a estrutura das fake news eleitorais: Não é necessário convencer todo mundo. Basta confundir o suficiente, gerar dúvida suficiente, provocar raiva suficiente, para que o eleitor vote com o estômago, não com a razão. Repita uma mentira com força e frequência, e ela adquire a textura da verdade.

Observe, no pleito de 2026, quem está sendo apresentado como Barrabás, apresentado como inocente injustiçado. Depois verifique os fatos. Sempre verifique os fatos.

O ELEITOR QUE LAVA AS MÃOS

Aqui está o paralelo mais desconfortável, e o mais importante. Pilatos não foi enganado. Tinha a informação, tinha a lei, tinha o poder. Mas, conivente com a multidão fabricada, cedeu:

“Pilatos, vendo que nada conseguia e que a agitação só aumentava, mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão e disse: ‘Sou inocente do sangue deste justo. É problema de vocês.'”

Mateus 27,24

O gesto é uma ficção moral. Ninguém se livra da responsabilidade com água. Pilatos tomou uma decisão, a decisão de não decidir, e essa omissão foi o que lhe deixou marcado, imperdoavelmente, para sempre na história, pois, Jesus … “padeceu sob Pôncio Pilatos”.

O eleitor que deixa de votar, que deixa se levar pelo chamado “voto útil, que vota por conivência, ou até mesmo por deixar de questionar as falsas narrativas, também está lavando as mãos. Está transferindo sua responsabilidade para a multidão. E, como Pilatos, não escapa das consequências dessa escolha: Pois, quem irá governar por quatro anos é eleito em um dia.

O exercício da democracia não é apenas comparecer às urnas. É a capacidade de votar com consciência, sem seguir o que pesquisas corrompidas, falsas narrativas, e lacração digital vem conduzindo a fazer. Em 2026, antes de escolher, pergunte-se:

Quem mobilizou a multidão que está fazendo as manifestações? Quem encomendou a pesquisa divulgada? A convicção do meu voto é minha, ou estou apenas seguindo uma tendência? Enfim, quem é o Barrabás que veste apenas uma capa de herói?

No contexto eleitoral contemporâneo, é corriqueiro, se deparar com gravações escandalosas, dossiês vazados estrategicamente, vídeos editados fora de contexto, e o velho truque de repetir uma mentira até que ela ganhe a textura da verdade. Duvide sempre, de quem estiver sendo apresentado como Barrabás.

Já escolheram ele antes. E vão tentar fazer de novo. A única diferença é que desta vez, você está sendo alertado para identificar essa manipulação. E lembre-se, o sigilo do voto é uma grande proteção para que se exerça efetivamente a sua cidadania.

 


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