Entrevista

Quem é o brasileiro premiado por bloquear o “Aedes”

O pesquisador brasileiro Luciano Moreira foi incluído na lista Nature’s 10, publicada pela revista Nature, que destaca figuras que marcaram a ciência em 2025. Ele é reconhecido por criar o mosquito Aedes aegypti: Wolbachia.


 

Cleber Barbosa
Da Redação

 

Diário do Amapá – Professor, como funciona exatamente o método desenvolvido pelo senhor, chamado Wolbachia, para combater a dengue?

Luciano Moreira – O método introduz a bactéria Wolbachia no Aedes aegypti, impedindo que ele transmita vírus como dengue, zika e chikungunya. Diferente de métodos tradicionais, não envolve modificação genética e permite que o mosquito continue existindo, mas sem transmitir doenças..

 

Diário – Quais foram os resultados práticos observados?

Luciano – Com a estratégia em 15 países, no Brasil, Niterói registrou uma redução de 89% nos casos de dengue, enquanto Campo Grande teve 63% menos ocorrências.

 

Diário -Como foi a trajetória do estudo?

Luciano – É Iniciado na Austrália (2008-2009), o projeto foi trazido para a Fiocruz no Brasil A Wolbito, em Curitiba, foi criada como a maior fábrica do mundo de mosquitos com Wolbachia, visando expandir o método para dezenas de cidades brasileiras.entre 2011 e 2012, seguindo com anos de pesquisa em campo. Representa a perseverança da ciência brasileira e a importância de valorizar a pesquisa local, apesar dos desafios.

 

Diário – Quais foram as maiores inovações em tecnologia/processos nos últimos anos?

Luciano – Lembro-me de quando comecei, nos primeiros dias da produção, tudo era realmente prático e feito à mão. Isso mudou um pouco com a introdução de mais processos agora. Foi um grande salto há alguns anos, quando adquirimos novos equipamentos que nos ajudaram a expandir as operações, e também nossas técnicas de campo se adaptaram e simplificaram.

Diário – O Brasil poderia ser usado como um estudo de caso global sobre como combater doenças transmitidas por mosquitos?

Luciano – Acho que o Brasil, com o apoio do Ministério da Saúde e, claro, a parceria com WMP, realmente apoia a ideia de incluir o programa na iniciativa nacional de saúde. O programa é confiável, cientificamente comprovado, e o governo está vendo resultados muito bons em muitas cidades, onde os casos de dengue foram significativamente reduzidos. Já somos referência para muitos países em todo o mundo. Muitos entram em contato conosco para nos visitar, ver como funciona e se o programa poderia funcionar em seu país, muitas vezes perguntando sobre o caminho regulatório e o impacto. Acho que, por ter a maior instalação do mundo, ela será vista ainda mais como um símbolo de investimento e algo em que as pessoas confiarão para crescer e beneficiar a todos.

 

Diário – Como o impacto da dengue no Brasil afeta o sistema de saúde e traz desafios socioeconômicos mais amplos?

Luciano – A dengue já existe no Brasil há quatro décadas e é tipicamente sazonal. Sabemos que existem quatro sorotipos diferentes e, dependendo da circulação de cada sorotipo, a situação pode ficar muito grave, pois as pessoas não têm imunidade ao vírus. Com o aquecimento global, estamos observando uma mudança na distribuição dos mosquitos no país, que estão se espalhando por todas as cidades, especialmente na região sul, onde estamos sediados, em Curitiba. Curitiba, por exemplo, nunca teve esse problema no passado, porque é uma cidade alta e mais fria. O ano passado foi o maior surto de dengue aqui. Com os mosquitos se estabelecendo em diferentes cidades e a doença circulando, isso é tudo o que é necessário para que todos os aspectos epidemiológicos da doença e a situação no Brasil continuem piorando. Eu vi no ano passado (o pior ano já registrado para a dengue no Brasil) na cidade de Belo Horizonte, eu ia ao supermercado e quase não havia funcionários porque todos estavam doentes em casa.

 

Diário – Muita gente.

Luciano – Alguns membros da minha família foram afetados, minha irmã, meu cunhado, e foi muito ruim. Minha filha também teve dengue e ficou muito doente, acamada por duas semanas. A dengue é uma doença que afeta a todos, ricos ou pobres, tem um grande impacto na vida das pessoas e elas precisam parar de trabalhar. Está se tornando um problema cada vez maior para o país, e é muito caro para o município internar as pessoas em hospitais, então a ideia de que podemos reduzir o impacto da doença com Wolbachia é uma boa solução, juntamente com outras ferramentas.

 

Perfil

Luciano Andrade Moreira – Engenheiro Agrônomo, formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), mestrado em Fitotecnia com ênfase em Controle Biológico de Insetos pela UFV. Concluiu o doutorado em Genética e Melhoramento de Plantas em 1998 pela UFV e Centre of Plant Breeding and Reproduction Research (CPRO-DLO), Holanda.

 

BREVE BIOGRAFIA
– Moreira entrou para a lista de uma das mais importantes revistas científicas do mundo. A Nature destacou o pesquisador entre as pessoas que influenciaram a ciência em 2025.
– A escolha reconhece sua atuação na implementação dos mosquitos com Wolbachia no Brasil.
– O pesquisador dirige uma fábrica em Curitiba que produz milhões de mosquitos com Wolbachia. A unidade tem uma sala climatizada com gaiolas onde os Aedes se reproduzem. Mais de 80 milhões de ovos são produzidos semanalmente.
– A Wolbachia reduz a transmissão de vírus como o da dengue. A bactéria diminui a probabilidade de o mosquito adquirir o vírus ao entrar em contato com sangue contaminado.
– O governo federal reconheceu o método como medida de saúde pública. Antes disso, os mosquitos com Wolbachia eram liberados apenas em pequenos projetos.

 

 

 


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